Odisséia de Homero Livro VII - Tifsa Brasil
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    12 de junho de 2018

    Odisséia de Homero Livro VII

    Do éter assoma a dedirrósea filha;
    Ergue-se o rei, presenta o egrégio Ulisses
    Ante as naus ao congresso convocado,
    E a par assentam-se em polidas pedras.
    5 Cuidadosa do urbífrago Laércio,
    Palas, de Alcino o arauto semelhando
    Na cidade apregoa: “Ao foro, ao foro;
    Um de vulto imortal ide ouvir, chefes,
    Que hóspede Alcino recolheu das vagas.”
    10 Incitados, a praça e os bancos enchem.
    Mirando aquele em cuja fronte e espáduas
    Graça divina despejou Minerva;
    Mais guapo o fez e esbelto e majestoso,
    Para que, a todos formidando e grato,
    15 Nos certames de si desse alta prova.
    Conciona grave na assembleia Alcino:
    “O que hei no peito, príncipes, declaro.
    Veio-me à casa este hóspede errabundo,
    Se do Oriente ignoro ou do Ocidente,
    20 Mas passagem me pede e que a fixemos.
    A ida se lhe apresse; um forasteiro
    Nunca em meu lar se lastimou retido:
    Novo negro baixel ao mar divino,
    Cinquenta e dous receba exímios nautas.
    25 Ligados presto os remos aos toletes,
    Eia, a lauto festejo compareçam.
    No me falheis, cetrados: convidai-me
    Demôdoco imortal, que em estro aceso
    Por Jove, entoa cânticos melífluos.”
    30 Ei-lo, avança; os cetrígeros o escoltam,
    O arauto corre ao músico sublime.
    Cinqüenta e dous se elegem, que submissos
    Vão-se à praia e o navio deitam n’água,
    Alçam mastro, içam velas, prendem remos
    35 Com atilhos de coiro, e tudo prestes,
    Abrindo o pano, o lenho põem de largo;
    Passam depois ao régio nobre alcáçar,
    Salões, átrios, vestíbulos se atulham
    De mancebos, de velhos, turba imensa.
    40 Alcino doze ovelhas e oito porcos
    De alvos dentes imola e dous refeitos
    E flexípedes bois, que os mais esfolam,
    Deleitoso banquete aparelhando.
    Conduz Pontono o vate aceito à Musa,
    45 Que o cegou, mas lhe deu canto suave
    E do bem e do mal o entendimento;
    Num trono o põe de prata cravejado,
    Numa coluna o encosta, e lhe pendura
    Sobre a cabeça em prego a doce lira
    50 E de a tomar indica-lhe a maneira;
    Pousa-lhe um canistrel em mesa ornada,
    Com cheia copa que à vontade empine.
    Atiram-se aos manjares os convivas.
         Expulsa a fome e a sede, a Musa instiga
    55 O poeta a cantar guerreiro canto,
    Cuja fama às estrelas se exaltava;
    A rixa era de Ulisses e de Aquiles,
    Com ditos agros num festim sagrado;
    E o rei dos reis folgava, porque entrando,
    60 No estrear Jove a lide Grega e Teucra,
    Do Pítio Apolo no marmóreo templo,
    O oráculo a vitória prometeu-lhe,
    Dês que os melhores Dânaos contendessem.
    Prossegue o vate, a Ulisses à cabeça
    65 Com força deita o purpurino manto,
    Para encobrir nas morenadas faces
    As lágrimas que a pares borbulavam.
    No intervalo da música, as enxuga
    E desce o manto, liba às divindades
    70 Na bicôncava taça; quando, a rogos
    Dos que a toada e a letra enamorava,
    O bom cego as repete, o herói suspira
    E, tornando a embuçar-se, esconde o choro.
         Junto, o percebe o rei: “Feaces, basta.
    75 Nós, de iguarias cheios e de acorde,
    Glória e adorno da mesa, ao foro andemos:
    Narre o estrangeiro aos seus quanto hábeis somos
    Em luta e pugilato, em salto e curso.”
         Marcha, e os grandes com ele; ao prego a lira
    80 Suspende o arauto, e à cola guia o cego
    Dos que iam divertir-se nos certames,
    De infinita caterva acompanhados.
    Jovens de pulso, Anquíalo, Acrônio,
    Nautes, Elatreu, Ocíalo, se ergueram,
    85 Pronteu, Proreu, Toon, Prines, Eretemes,
    Anabesinco, Anfíalo progênie
    De Polineu Tectômides; nem faltam
    O igual de Marte Euríalo, o formoso
    E esbelto Naubólides mais que todos,
    90 Fora o guapo Laodamas; este alçou-se
    Também com seus irmãos, de Alcino ramos,
    Hálio gentil e Clitoneu galhardo.
         Começam pelo curso, e da barreira
    Entre nuvens de pó rápidos voam:
    95 Quanto um pousio arando excedem mulas
    A bois tardonhos, Clitoneu bizarro
    Pretere os outros e regressa ao povo.
    Anfíalo em saltar, no disco Elatreu,
    Vence Euríalo os mais na acerba luta,
    100 Na punhada Laodamas, que no meio
    Do regozijo brada: “Amigos, vinde,
    Perguntemos se o hóspede é nos jogos
    Exercitado: o corpo tem fornido,
    Pernas, coxas, pescoço, espáduas, punhos;
    105 Inda é verde, sofresse embora há pouco
    O trabalho do mar, que tanto custa
    E do varão mais rijo as forças quebra.”
         Euríalo aprovou: “Pois bem, Laodamas,
    Vai tu mesmo incitá-lo.” Eis ante Ulisses
    110 Tem-se o filho de Alcino: “Hóspede padre,
    Entra, se os aprendeste, em nossos ludos;
    Quadram-te à maravilha: é do homem timbre
    De pés e mãos valer-se denodado.
    Bane a tristeza, partirás em breve;
    115 Em nado é teu baixel e os vogas prontos.”
         Mas o astuto: “Laodamas, tu provocas
    A que zombem de mim? Não penso em ludos,
    Penso na dores que passei tamanhas;
    A volta mendigando, ao rei depreco
    120 E ao popular congresso.” Em face o ataca
    Súbito Euríalo: “Hóspede, não cuido
    Que nos certames dos varões te exerças;
    Menos atleta válido pareces
    Que de marujos traficante mestre,
    125 A especular na carga e mercancia
    Da remeira galé, de roubos arca.”
         Torvo Ulisses o mede: “E tu pareces
    Doudo varrido a proferir dislates.
    Nem tudo Jove dá; beleza nega,
    130 Ou loqüela, ou juízo: um não formoso
    Com suave eloqüência orna o semblante,
    E olhado com prazer, modesto e firme,
    No parlamento se insinua e reina,
    E na rua e na praça um deus o aclamam;
    135 Outro, gentil como íncolas celestes,
    Insulso é no exprimir-se. Tu, mancebo,
    Nobre és de aspecto, mas no tino falhas;
    Com teu parlar minha alma exacerbaste.
    Não me creias ignaro dos certames;
    140 Da idade no vigor fui dos primeiros:
    Hoje o pesar me oprime, e o que hei passado
    Na guerra e em salsas vagas; mas embora,
    Meu coração mordeste, os jogos tento.”
         Aqui, de manto mesmo, um grosso aferra
    145 Disco muito maior que os dos Feaces
    O peso a revoltões zunindo expede:
    Bem que pujante a chusma a remo e vela,
    Se agacha ao tiro, e sobrevoa a pedra
    Salvando as marcas todas. — Palas uma
    150 Logo fixando, em vulto humano fala:
    “Pode, hóspede, apalpando qualquer cego
    Teu sinal discernir, que é nímio avante
    Sem confusão dos mais; nenhum Feace
    Tirar-te-á do lanço, eu to aseguro.”
    155 O herói folga de tal benignidade,
    E brando ajunta: “À liça agora, moços;
    De novo jogarei, talvez mais longe.
    Vós me irritastes, a ninguém recuso;
    Ao cesto, à luta, ao curso, desafio
    160 Todos, menos Laodamas, que hospedou-me:
    Pelejar com o amigo, é de um vil néscio;
    Quem quer que o tente num país estranho,
    O jus perde ao respeito e a benefícios.
    Nenhum temo ou desprezo; às claras venha
    165 O que me julgue imbele experimentar-me.
    No arco mormente primo; sei na turba
    De hostis frecheiros num dos seus a farpa
    À vontade empregar: nos campos Tróicos
    Só me vencia o archeiro Filoctetes;
    170 Entre os mortais que o pão da terra, comem,
    Gabo-me e prezo de lhe ser segundo.
    Com prístinos varões não me comparo,
    Com Hércules e Êurito Ecaliense,
    Que na sua arte aos numes se atreviam:
    175 O grande Êurito foi de curta vida,
    ímpio desafiando o iroso Apolo.
    Meu dardo alcança como de outro a seta.
    Só receio os Feaces na carreira,
    Das ondas nimiamente quebrantado:
    180 Nem sempre era o navio bem provido,
    E frouxos tenho os trabalhados membros.”
         Ao silêncio geral sucede Alcino:
    “Tens hóspede, razão de te agastares
    Contra esse audaz, e a peito o provar tomas
    185 De constante valor munido seres.
    Que homem sisudo nunca mais te argua.
    Ouve-me, outra impressão de nós conserves,
    Para, ao festim com tua esposa e filhos,
    Contares aos heróis quais prendas Jove
    190 Desde avós nos transmite: em luta e cesto
    Não somos extremados, sim ligeiros
    E na marinha exímios; o banquete
    Nos praz, coréia e música, a mudança
    De vestidos, bom leito e quentes banhos.
    195 Bailai vós, peritíssimos Feaces;
    O hóspede narre aos seus quanto excelemos
    Em navegar, em pés, em dança, em canto.
    Corra alguém, e a Demôdoco da régia
    Depressa traga a cítara sonora.”
    200 Pontono corre. Os públicios do circo
    Nove eleitos juizes, levantados,
    O lugar aplanando, o espaço alargam.
    O arauto volta; a cítara o poeta
    Recebe, a quem na arena adolescentes
    205 Cercam destros e airosos, em cadência
    Pulsando o chão divino: absorto Ulisses
    O enredo, o passo, a rapidez contempla.
         Demôdoco depois dedilha e canta
    Como furtiva a coroada Vênus
    210 Uniu-se a Marte, que o Vulcânio toro
    Maculou com mil dons peitando a esposa.
    Pelo Sol advertido, o grão ferreiro
    Parte, vingança a meditar profundo;
    No cepo encava a incude, laços forja
    215 Que desdar-se não podem nem romper-se.
    Mal os conclui, à câmara caminha
    Do seu leito amoroso; uns aos pés liga,
    Outros ao sobrecéu, com tanta insídia,
    Que de aranha sutil quais teias eram,
    220 Mas a qualquer celícola invisíveis.
    Armada a fraude, simulou viagem
    De Lemos à caríssima cidade.
    Marte, cujos frisões têm freios de ouro,
    Não obcecado, o fabro viu partindo;
    225 Veio-lhe presto à casa, cobiçoso
    De gozar Vênus bela: esta pousava
    De visitar o genitor Satúrnio;
    Pega-lhe o amante na mimosa destra:
    “Vazia a cama está; Vulcano é fora,
    230 Aos Síntios foi-se de linguagem bronca.”
         Ei-los ao leito jubilando ascendem,
    E nas malhas do artista se emaranham;
    Nem desatar-se nem mover-se podem,
    Sem ter efúgio algum. Torna Vulcano,
    235 Antes que a Lemos chegue; o Sol o avisa.
    Ao seu pórtico pára angustiado,
    Urro esforça raivoso, que no Olimpo
    Retumba horrendo: “Ó Padre, ó vós deidades,
    Vinde rir e indignar-vos desta infâmia.
    240 Por coxo a Dial Vênus me desonra,
    Amando ao sevo Marte, que é perfeito:
    Se esta iesão me afeia, é toda a culpa
    De meus pais, que gerar-me não deviam.
    Vêde-os, oh! triste aspecto como dormem
    245 No meu leito enleados; mas duvido
    Que em seu ardor jazer assim desejem.
    Meu laço os reterá, té que haja o dote
    E os dons feitos ao pai, que deu-me a filha
    De formosura exemplo e de inconstância.”
    250 No éreo paço Vulcânio já Netuno,
    Mais o frecheiro Febo e o deus do ganho,
    As deusas de pudor não comparecem;
    Do pórtico os demais, às gargalhadas,
    O dolo observam do prudente mestre,
    255 Olham-se e clamam: “Da virtude o vício,
    Do inferno o lesto e forte é suplantado;
    O manco aos mais veloz prendeu com arte,
    Pague o adúlterio a multa.” Apolo ao núncio
    De bens dador voltou-se: “Quererias,
    260 Filho de Jove, assim dormir nos braços
    Da áurea Ciprina?” Respondeu Mercúrio:
    “Oxalá, Febo Apolo, ao pé de Vênus
    Vós me vísseis dormir, e as próprias deusas,
    No tresdôbro dos fios envolvido.”
    265 Renovou-se a risada; mas Netuno
    Sério ao mestre pediu que solte a Marte:
    “Solta-o; prometo que a teu grado e à risca
    Hajas a multa aos imortais devida.”
    “Rei, contesta o aleijado, não mo ordenes;
    270 A caução para o fraco é fraca sempre:
    Como eu te obrigaria, se ele escapo
    Se recusasse?” Então Netuno: “Marte
    Se renuir, pagar-te-ei, Vulcano.”
         Rende-se o ínclito coxo: “Não me é dado
    275 Negar-to.” E os laços desliou de um toque.
    Os réus fugiram: para a Trácia, Marte;
    Para Pafos Ciprina, a mãe dos risos,
    Que ali tem bosque e recendentes aras.
    Banhada em óleo divinal ungida,
    280 As Graças do mais fino a paramentam.
         Ulisses da harmonia se recreia,
    E a gente em roda. Alcino bailar manda
    Laodamas e Hálios sós, que a palma levam:
    Um, curvo atrás, às nuvens roxa pela,
    285 Que fez Pólibo, alteia, e outro, a pulo,
    Antes que aos pés lhe caia, a encontra e joga;
    A alma terra ao depois, tripudiando,
    Alternos batem, com geral aplauso.
    O estrépito sossega, e Ulisses fala:
    290 “Bem gabaste na dança os teus Feaces;
    Estou, potente rei, maravilhado.”
         Alegre Alcino: “Príncipes, decerto
    É sábio e dons merece. Há cabos doze,
    E eu treze: cada qual brinde-lhe um manto
    295 Rico e túnica nova e áureo talento,
    E junto obtenha tudo e à ceia folgue;
    A injúria apague Euríalo e o congrace
    Com palavras e dádivas” — De grado
    Seu próprio arauto unânimes despacham,
    300 E Euríalo obedece: “De vontade
    Quero aplacá-lo, ó maioral dos povos;
    Haja esta brônzea espada com bainha
    De recente marfim e argênteos punhos,
    Digna dele.” E ao passá-la: “Ó venerável,
    305 Espalhe o vento irrefletidas vozes.
    Longo há fora dos teus, hóspede, os numes
    Restituam-te à pátria e à mulher cara.”
         “Salve, Ulisses responde, e sê ditoso.
    Nunca, jovem amigo, a falta sintas
    310 Do presente que afável me concedes.”
    Aceita e cinge a espada claviargêntea.
         O Sol transmonta, e as dádivas afluem
    Que ao real paço arautos conduziam;
    De Alcino os filhos as recebem logo
    315 E à mãe vão reverentes presentá-las;
    O pai à casa os principais convida,
    Senta-os em tronos, volve-se à rainha:
    “Traze, mulher, tua arca a mais luzente,
    Boa túnica e um manto; ao lume aqueçam
    320 Caldeira para banho. Ele gozoso
    Os dons remire dos heróis Feaces,
    Divirta-se ao banquete e os hinos logre.
    Dou-lhe em memória uma áurea fina taça,
    Por onde libe à Jove e à corte sua.”
    325 Ela ordena; uma trípode as escravas
    Põem ao fogo e por baixo lenha acendem;
    A água, lambendo a labareda o bojo,
    Ferve em caixões... N’arca louçã, que trouxe,
    Dos Feaces a roupa e o ouro mete,
    330 Mais a túnica e o manto: “A tampa, adverte,
    Hóspede, esguarda; em nó seguro a feches,
    Para ninguém lesar-te na viagem,
    Quando em ferrado sono a bordo pegues.”
         Na tampa o cauto herói passa um nó firme,
    335 Invenção da engenhosa augusta Circe.
    Da caseira a banhar-se convidado,
    Entra a prazer em tina de água morna;
    Pois tamanha delícia não gozava,
    Dês que a ilha deixara de Calipso,
    340 Onde ele como um nume era tratado.
    Lavam-no, ungido vestem-lhe as escravas
    Túnica e manto, e sai para entre os cabos
    Vinhos saborear. Então Nausica,
    Beleza divinal, chega à soleira
    345 Da magnífica sala; atenta Ulisses,
    Admira-o, diz veloz: “Hóspede, salve;
    Lá mesmo em teu país de mim te lembres,
    De mim primeira em te guardar a vida.”
         Respondeu-lhe: “De Alcino ínclita filha.
    350 Assim de Juno o altíssono consorte
    A luz ver da partida me conceda,
    Como hei de lá qual déia honrar-te sempre,
    A ti que me salvaste, ó nobre virgem.”
    E junto ao rei sentou-se, quando as peças
    355 Partiam já e o vinho misturavam.
         Com o amável cantor o arauto vindo,
    No meio o encosta à sólita coluna.
    A porção mais sucosa rasga Ulisses
    Do pingue dorso de albidente porco:
    360 “Toma, a Demôdoco isto leva, arauto;
    Quero na minha dor mostrar que o prezo.
    Os poetas venera e afaga a terra,
    Caros à Musa, que os doutrina e inflama.”
    Jubilando o cantor a oferta aceita,
    365 E começa o banquete aparatoso.
         E a Demôdoco Ulisses, finda a ceia:
    “Eu te respeito sobre os homens todos;
    A Dial Musa ou Febo é quem te inspira.
    Cantaste os casos e aflições dos Dânaos,
    370 Como se própria testemunha fosses,
    Ou de uma o ouvisses. Canta-me o cavalo
    Que da madeira Epeu fez com Minerva,
    Do Laércio ardiloso introduzido,
    Prenhe de heróis que Pérgamo assolaram:
    375 Exato sejas, e aos mortais proclamo
    Que um deus influi e te modula os hinos.”
         Ei-lo, em fúria sonora; entoa o como.
    As tendas abrasando, uns Gregos vogam,
    E outros, sujeitos ao facundo Ulisses,
    380 Ficam no amplo cavalo, que puxaram
    Da fortaleza a dentro os mesmos Teucros.
    Estes confusos em redor concebem
    Três projetos, brocar a bronze o lenho,
    Ou do castelo abaixo despenhá-lo,
    385 Ou santo voto oferecê-lo aos numes:
    O último infausto parecer adotam;
    Fado era que a ruína em lígneo bojo
    A escolha dos Aqueus levasse a Tróia.
    Canta o como, vazio o cavo engano,
    390 Ílio os esparsos Dânaos depredaram;
    Como, enquanto a cidade vai acesa,
    Outro Mavorte, o Ítaco, à Deifobéia
    Estância foi com Menelau divino,
    E ali, travada aspérrima contenda,
    395 Coroou-lhe a vitória a Protetora.
         Ao cântico do vate, as maçãs rega
    Debulhando-se em lágrimas Ulisses:
    Qual em braços o esposo a mulher chora
    Que o viu cair em vascas moribundo
    400 Ante a muralha, os cidadãos e os filhos
    Ao sevo dia subtrair tentando,
    E em ais e em gritos sobre o seu cadáver,
    Dos soldados, que o tergo lhe escalavram,
    Na amargura e na dor é constrangida
    405 A cruel cativeiro; tal carpia
    O Laércio infeliz. Somente Alcino,
    Sentado ao pé, seu suspirar percebe:
    “Cale o poeta, ó chefes, o instrumento,
    Pois nem todos se alegram do seu canto:
    410 Findo o repasto, à musica atendendo,
    Mesto sempre nosso hóspede soluça;
    Poupar seu luto cumpre e distrai-lo
    Por ele é que esta festa preparamos,
    Com generosos dons, segura escolta:
    415 É vero irmão para as sensíveis almas
    Um súplice estrangeiro. Agora, amigo,
    Toda a franqueza: como dos vizinhos
    Eras chamado? o bom e o mau têm nome
    Que seus pais à nascença lhe impuseram.
    420 Qual é tua terra e gente me declares.
    A fim que a nau medite na viagem:
    De mestre e leme as nossas não precisam,
    Pensam, calculam, como a raça humana,
    Quaisquer povoações e campos sabem,
    425 Por entre o nevoeiro as vagas tranam,
    Sem temor de soçôbro ou de avaria.
    Previu porém meu pai que, da passagem
    E do socorro aos náufragos Netuno
    Azedo, um nosso galeão de volta
    430 Sumiria no pélago, à cidade
    Um monte empinadíssimo afrontando.
    Se há de ou não preencher-se o vaticínio
    Pertence ao deus. Mas sem refôlho narra
    Que praias tens corrido, que paragens
    435 E regiões trilhado; quais das tribos
    Agrestes eram, bárbaras e injustas;
    Quais, tementes á Jove e hospitaleiras.
    Porque em segredo gemes, as desgraças
    Dos Gregos e dos Teucros escutando?
    440 O Céu quis sucumbissem tais guerreiros,
    Para matéria a pósteros poemas.
    Junto a Ílion morreu-te algum parente?
    Morreu-te um genro, um sogro, os mais diletos
    Após os consanguíneos? ou pranteias
    445 Um camarada? o sócio íntimo e sério
    Não é menos que irmão no amor e estima.

    NOTAS AO LIVRO VIII
    71-78 - Homero não diz, como alguns tradutores, que só a toada agradava aos ouvintes; a letra sobretudo é que entristecia a Ulisses. O verbo enamorar, Constâncio o dá por antiquado e Gonzaga, autor que nunca sai da linguagem do tempo de Garção e Denis, traz enamorar, no translato, em que é comumente empregado de preferência a namorar. E este último tem menos nobreza no sentido próprio; diz-se, por exemplo, a moça namora a todos, e não enamora a todos; além de que, a primeira oração mostra sempre que é a moça que procura agradar, quando a segunda pode mostrar que ela é a todos agradável sem buscar sê-lo. — Homero, parece-me, distingue o saltar do dançar: nos jogos públicos, houve exercício de luta, carreira, pugilato e salto; a dança propriamente dita foi ao depois que mandaram vir a lira de Demôdoco, e mereceu louvor especial de Ulisses.
    106-115 - O verso 106 é de Camões, canto VI, na fala de Veloso. O meu verso 115 diz que o navio estava em nado, ou que tinha sido lançado ao mar: não sei por que Pindemonte usa de varar, que é o contrário do texto.
    121-126 - A insolència de Euríalo tem dobrado merecimento: primeiro, serve para preparar a quase declaração de Ulisses e mover o desejo de lhe ouvirem as aventuras; segundo, faz aparecer a disposição da chusma não favorável aos estrangeiros. Ainda que Euríalo pertencia aos grandes, o que representa a preocupação popular contra os vindiços; porque esta preocupação, quando geral, até penetra nas classes elevadas; e em todos os tempos houve na aristocracia quem, ao menos na aparência, adotasse a opinião da maior parte.
    359 - Albidente é de óbvio sentido: Pindemonte, para o italiano, compôs o adjetivo dentibianco neste mesmo lugar.
    392-395 - Dá Homero a primazia a Ulisses, pondo Menelau como seu ajudante, para assim realçar a valentia do seu herói, e para que a este mais comovesse Demôdoco. M. Giguet, aliás fiel em quase tudo, verteu: la vitoire que leur assura Pallas. Mas Homero como que de propósito mete Menelau na sombra, deixando brilhar a figura de Ulisses, e usando sempre do singular; o plural leur diminui a delicadeza do poeta. Ir para o índice do livro.
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    Item Reviewed: Odisséia de Homero Livro VII Rating: 5 Reviewed By: Pbsena Sena

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