Odisséia de Homero - Livro XX - Tifsa Brasil
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    26 de junho de 2018

    Odisséia de Homero - Livro XX

    Ulisses ao vestíbulo descansa:
    Em cru taurino coiro estende peles
    De imoladas ovelhas, e por cima
    Eurínoma lhe deita espessa manta;
    5 Lá, na vingança meditando, vela.
    Eis risonhas de cara e delambidas
    As que davam-se aos procos vêm saindo:
    Vivamente comoto, em si ventila
    Se de súbito as mate, ou lhes consinta
    10 A extrema vez coabitar com eles;
    E o coração lateja-lhe apressado,
    Como a galga, a cercar seus cachorrinhos,
    Ladra investindo a estranho. A ira enfreia,
    Bate nos peitos e cogita: ”Cala,
    15 Meu coração! mais suportaste quando
    O atroz Ciclope devorou-me os sócios:
    Com prudência da cova te livraste,
    Onde supunhas trucidado seres.”
         Assim reprime o palpitar interno,
    20 Tem-se; mas anda pela cama às voltas.
    Qual de um brasido ao lume o esfomeado
    Vira um gordo ventrículo sangüento
    Com desejos de assá-lo; inquieto Ulisses
    Assim de toda parte se remexe,
    25 Traçando o meio de bastar a tantos
    Insolentes rivais. Em vulto humano,
    Palas se lhe oferece à cabeceira:
    “Por que velas, misérrimo dos homens?
    Tens casa, tens mulher, tens nobre filho,
    30 Filho que outro qualquer te invejaria.”
         “Sempre acertas, responde, onisciente;
    Mas posso haver-me, ó deusa, contra a chusma
    Que infesta o meu palácio? Inda rumino
    Outro cuidado: se os vencer, por graça
    35 De Jove e tua, escaparei com vida?
    Rogo-te me aconselhes.” — “Insensato!
    Grita Minerva, um homem noutro néscio
    Homem se fia, e tu de mim duvidas?
    Guardo-te sempre, e deusa te protejo.
    40 Eu to declaro: embora multilíngües
    Cinqüenta batalhões, a rodear-nos,
    O exício teu conspirem, bois e ovelhas
    Tu lhes depredarias. Dorme, é grave
    Passar a noite em claro, e o teu mal finda.”
    45 E espreme-lhe nas pálpebras o sono,
    E ao céu volve no instante em que o sossego
    Lhe absorve as penas e amolenta os membros.
         Cedo acorda, e sentada ao fofo leito,
    Lassa do pranto, ora a Diana a diva,
    50 Das mulheres modelo, honesta esposa:
    “De Jove augusta prole, ou tu me arranques
    Esta alma a tiros, ou tufão me jogue,
    Arrebatada pelos ares cegos,
    Às fauces do retrógrado Oceano;
    55 Sorte que outrora às Pandareidas coube.
    Órfãs, sozinhas, por querer supremo,
    De leite e mel suave e doce vinho
    Citeréia as nutria, deu-lhes Juno
    Formosura e juízo incomparáveis,
    60 O talhe Délia, os dotes seus Minerva;
    Mas, remontando Vênus ao Tonante,
    Que a fundo a sina dos mortais conhece,
    A pedir flóreas núpcias para as virgens,
    As Harpias, roubando-as, ao serviço
    65 Das medonhas Erínies as puseram.
    Levem-me assim do Olimpo os moradores,
    Freche-me Artêmide; eu no abismo horrendo,
    Ulisses, te contemple, nem se goze
    De mim outro varão que não te iguala.
    70 Geme o infeliz no dia, à noite ao menos
    Esquece adormecido os bens e os males;
    A mim sempre um demônio me persegue:
    Acaba de antolhar-se-me a figura
    De Ulisses tal qual era; cria eu leda
    75 Isto visão real, não mero sonho.”
         Atento o herói divino a tais queixumes,
    Ao reluzir da Aurora em trono de ouro,
    Cuida-se descoberto e que ela o busca;
    Veste o manto, em cadeira os tosões pousa,
    80 Remove o coiro, em preces alça as palmas:
    “Júpiter, se por seca e úmida via
    A Ítaca imortais me conduziram,
    Dentro ouça de um desperto o bom presságio,
    Fora algum teu prodígio mo confirme.”
    85 De Ulisses com prazer, fulgure e toa
    De resplendida nuvem; perto, o agouro
    Solta uma escrava do pastor dos povos.
    Das doze que ao moinho o trigo e azeite,
    Medula de homens, preparar soíam,
    90 Fraca ela só, deitadas as parceiras,
    Não findava a tarefa: “Ó sumo Jove,
    Clamou, do éter sereno assim trovejas?
    Anúncio é para alguém. De mim coitada
    Os votos cumpre: o dia extremo seja
    95 Que à mesa de meu amo se regalem
    Esses a quem, de afã desfalecida,
    Eu môo esta farinha; acabem todos.”
         Do agouro e do trovão contente Ulisses,
    Os réus conta punir. Vêm logo as servas
    100 Acender o fogão da pulcra sala;
    O deiforme Telêmaco vestido
    Vem da alcova, de nítidas sandálias,
    No bálteo a espada, aguda lança em punho,
    E ao limiar com Euricléia fala:
    105 “Ama, honrastes meu hóspede vós outras,
    Ou maltrado jaz? Embora sábia,
    Minha mãe de um parleiro às vezes cura
    E despede um melhor.” — Mas Euricléia:
    “Injusto a acusas, filho. A gosto o velho
    110 Bebeu sentado, abstendo-se da ceia,
    Que ela ofertou-lhe mesma. À hora própria
    Mandou cama estender; mas ele, afeito
    À pena e dor, não quis macias colchas,
    E ao vestíbulo em coiro e ovinas peles,
    115 Com manta que lhe demos, repousou-se.”
         Hasta na mão, Telêmaco atravessa
    A grande sala, com dous cães ligeiros,
    Aos grevados Aqueus indo juntar-se.
    De Opes de Pisenor zelosa a filha
    120 Esperta as mais cativas: “Borrifada,
    Já já, varrei-me a casa, e de tapetes
    Forrai purpúreos as louçãs poltronas;
    Lustre as mesas a esponja, a copa e a frasca
    Purifiquem-se, e lestes ide à fonte:
    125 Eles madrugam sempre, e o dia de hoje
    A todos é festivo.” — Obedeceram:
    Ao profundo olho d’água partem vinte;
    As mais dentro o serviço desempenham.
    A preceito, chegando, a lenha racham
    130 Os soberbões; da fonte as servas tornam;
    O porqueiro também com três cevados
    Entra, em vastas pocilgas escolhidos,
    E brandamente fala: “Hóspede, os Gregos
    Te menoscabam sempre, ou já te poupam?”
    135 “Eumeu, responde o herói, provera aos deuses
    Os insultos punir e os maus desígnios
    Desses que estão, sem pinga de vergonha,
    Maquinando um alheio domicílio.”
         Entrementes, Melântio se aproxima,
    140 Com dous ajudas, conduzindo cabras
    As melhores do fato aos pretendentes,
    E amarrando-as ao pórtico sonoro,
    Pica a Ulisses de novo: “Inda importunas
    A todos pedinchando, e não te safas?
    145 Sem estas mãos provares, vil mendigo,
    Cuido que insistirás. Há comezaina
    Entre os outros Aqueus.” Tácito a fronte
    Sacode o herói, vinganças ruminando.
         Presenta-se Filétio, o mor vaqueiro,
    150 Uma toura guiando e gordas cabras,
    Que as passaram barqueiros do costume,
    E ao ligá-las ao pórtico, pergunta:
    “Que estranho é este, Eumeu? que gente a sua?
    Donde veio? O mesquinho um rei parece:
    155 Em dor o Céu mergulha os vagabundos,
    Mesmo a reis enovela os infortúnios.”
    Vôlto ao mendigo então, lhe cerra a destra:
    “Hóspede padre, salve! hoje em miséria,
    Inda sejas ditoso! Ó tu Satúrnio,
    160 Ó deus o mais cruel, não te comovem
    As mágoas dos varões por ti criados.
    Choro e suor agora me rebentam,
    Lembrando-me de Ulisses, que afiguro
    Assim roto a vagar, se é que o Sol goza.
    165 Mas se ele no Orco jaz, ai de mim triste!
    A quem tão bom senhor, ainda eu menino,
    Aos armentos prepôs-me em Cefalênia.
    Inúmeros os bois de larga fronte
    Medram mais que a nenhum: cá trago deles
    170 A gulosos, que o filho desfalcando,
    A punição dos numes nem receiam;
    Do ausente os bens tragar é quanto anelam.
    Dupla aflição me rói: com meus bois todos,
    Vivo Telêmaco, emigrar é feio;
    175 Mas dói muito engordá-lo para intrusos.
    Longe outro herói buscado eu já teria,
    Nesta angústia insofrível, se esperança
    De vir não me alentasse o miserando
    A profligar infames insolentes.”
    180 Ulisses respondeu: “Nem mau nem lerdo
    Pareces-me, pastor; eu pois to juro,
    Por Jove, pela mesa hospitaleira,
    Por este lar e asilo: com teus olhos
    Teu bravo amo verás, se o tu quiseres,
    185 Usurpadores crus mandar a Dite.”
         O vaqueiro ajuntou: “Permita-o Jove!
    Meu braço e minha fé conhecerias.”
    E Eumeu também rogava aos deuses todos
    Que de seu rei a vinda apressurassem.
    190 A Telêmaco, entanto, os corpos tecem
    Morte e ruína. Altívola à sinistra
    Pávida pomba uma águia eis traz nas garras
    E branda Anfínomo: “Ao convívio, amigos;
    O plano de matá-lo está frustrado.”
    195 Eles dóceis na sala sobre escanos
    E camilhas os mantos depuseram.
    Cabras e ovelhas, porcos sacrificam,
    E a grã novilha: as vísceras assadas
    Repartem, mesclam nas crateras vinho;
    200 Eumeu taças ministra; o pão, Filétio;
    Escanceia Melântio: o bodo encetam.
         À soleira, mas dentro, baixa mesa
    E tosco assento o filho pôs a Ulisses,
    Que astúcias combinava, e das entranhas
    205 O serve e entorna o vinho em áureo copo:
    “A gosto, hóspede, bebe entre os guerreiros;
    Salvar-te-ei de golpes e convícios:
    A casa não é pública; é de Ulisses,
    E herdeiro eu sou. Vós procos, refreai-vos,
    210 Ou lide cá teremos infalível.”
         Todos pasmam da audácia e os beiços mordem;
    Mas o Eupitéio: “Amigos, suportemos
    De Telêmaco as fúteis ameaças.
    A querer o Satúrnio, ora açaimado
    215 Aqui seria o parlador canoro.”
    Cala Antino, e Telêmaco o desdenha.
         Pela cidade arautos hecatombe
    Guiam sacra, e no umbroso Febeu luco
    Reúnem-se os Grajúgenas crinitos;
    220 Ao tempo que, do fogo assadas carnes
    Os príncipes tirando, as distribuem,
    E o festim saboreiam: coube a Ulisses,
    Como ordenara seu dileto filho,
    Igual porção, que os servos lhe ministram.
    225 Não consente Minerva que arrogantes
    Abstenham-se de afrontas, para o anôjo
    Mais do Laércio profundar no seio.
    De Same habitador, iníquo e duro
    Ctesipo, que alistou-se entre os amantes
    230 No rico pai fiado, assim vozeia:
    “Rivais extremos, é decente, é justo,
    Aquinhoá-lo bem; nada faleça
    De Telêmaco aos hóspedes, quais forem:
    Meu dom receba amável, com que brinde
    235 A quem, nos paços do imortal ausente,
    O banha ou trata.” Aqui, toma de um cesto
    E arroja um pé de boi; mas a cabeça
    Ulisses, com sardônico sorriso,
    Desvia, e o osso na parede bate.
    240 Em cólera Telêmaco lho exprobra:
    “Melhor te foi, Ctesipo, que evitasse
    O hóspede o golpe teu; senão, tu foras
    Desta lança varado, e em vez de núpcias
    Teu pai te aprestaria a sepultura.
    245 Proíbo em minha casa iniquidades;
    Não mais criança, o bem do mal distingo:
    Só contra muitos, passo os desperdícios
    Do meu pão, do meu vinho, do meu gado;
    Mas cesse a hostilidade. E a bronze frio
    250 Se desejais matar-me, antes a morte
    Que ver-nos espancar meus protegidos,
    Na honrosa casa viciar as servas.”
         Lavra em roda o silêncio, até que o rompe
    Agelau Damastórides: “Amigos,
    255 Não braveje nenhum contra a justiça;
    Nem se maltrate o hóspede, nem outrem
    Que habite na mansão do nobre Ulisses.
    Grato seja a Telêmaco e à rainha
    O que tranqüilo exponho. Enquanto a vinda
    260 Esperáveis do grande e sábio Ulisses,
    Causa havia de aqui nos demorardes,
    E era justificável a constância;
    Mas que ele está perdido é manifesto.
    Pede pois a Penélope que eleja
    265 Quem lhe aprouver e a dote com largueza;
    Em paz a herança paternal desfrutes,
    E tua mãe do noivo orne o palácio.”
         Cauteloso Telêmaco: “Por Jove,
    Agelau, to assevero, pelas dores
    270 De meu pai, que está morto ou longe vaga:
    Minha mãe não coíbo, antes a empenho
    A esposar quem lhe agrade e muito oferte;
    Mas hei pejo e temor, tolham-me os deuses
    Desta casa bani-la ou violentá-la.”
    275 Aqui, Minerva os procos enlouquece,
    Um riso inestinguível excitando,
    Riso que erra nas bocas louquejantes:
    Comem cruentas carnes; de água os olhos
    Se lhes arrasa; n’alma o luto versa.
    280 Teoclímeno a vozes profetiza:
    “Misérrimos, que noite vos rodeia
    De alto a baixo! que lúgubre ululado!
    Estou já vendo lagrimosas faces,
    Em sangue estas paredes e estes postes,
    285 Cheio o vestíbulo e a brilhante sala
    De espectros, que ao profundo Érebo descem!
    Morre o Sol, e se esparge e adensa a treva!”
         Eles às gargalhadas o chasqueiam,
    E o de Pólibo grita: “O forasteiro,
    290 Cá vindo não sei donde, é mentecapto.
    Moços, ponde-o na rua; ande-se ao foro
    Quem por noite hoje toma o dia claro.”
         Mas o adivinho: “Eurímaco, retorque,
    Não hei mister escolta; olhos e orelhas,
    295 Bons pés tenho, e alma sã no peito alojo;
    Vou-me donde um mal grave está pendente:
    Nenhum se livrará dos que este asilo
    Manchais de insultos e de ações infames.”
    Disse, e foi-se a Pireu, que pronto o acolhe.
    300 Olhando-se e às risadas, mofam todos,
    E um moteja a Telêmaco: “És na escolha
    De hóspedes infeliz: tens um mendigo
    Sitibundo e famélico e vadio,
    Sem préstimo e valor, da terra peso;
    305 Outro a vaticinar pouco há surdiu-nos.
    Mais útil, eu proponho, é que à Sicília,
    Porque hajas pingue lucro, os embarquemos.”
         Desdenhoso o mancebo, taciturno
    Fita os olhos no pai, à espera sempre
    310 Do funesto sinal. De cima a Icária
    Prudente, em belo escano recostada,
    Os escutava. E rindo e zombeteiros,
    Tendo eles bastas reses abatido,
    Em festim novo e lauto iam cuidando;
    315 Mas, da injustiça em troca, lhes dispunham
    Uma deusa e um varão mais agra ceia.

    NOTAS AO LIVRO XX
    120-156 — Como é antiquíssimo o borrifar as casas para as varrer! Assim o fazem na Itália aos pavimentos de tijolos, gerais ainda nas maiores cidades; assim o fazem no Brasil, onde o uso desses pavimentos é muito menor. — Frasca é o que os afrancesados chamam bateria de cozinha. — Os mesmos senhores é que rachavam a lenha, por ser a festa solene de Apolo: é o que diz o original, apesar dos que traduzem que os servos dos procos é que o faziam. — Enovelar ou dobrar o fio dos infortúnios é o que propriamente exprime o verbo grego.
    313-315 — Os pretendentes acabavam de jantar, e iam já preparando outro repasto; o autor acrescenta que ceia menos agradável lhes tinham de preparar Minerva e Ulisses. Pindemonte seguia passo a passo a Homero; mas M. Giguet, omitindo a circunstância da ceia, diz: “Mais bientôt une déesse et un invencible héros vont dissiper leur joie par des exploits terribles”. Esta última versão está longe de ser fiel, nem tem a energia do original. Ir ao índice do livro
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    Item Reviewed: Odisséia de Homero - Livro XX Rating: 5 Reviewed By: Pbsena Sena

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