Odisséia de Homero Livro IX - Tifsa Brasil
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    12 de junho de 2018

    Odisséia de Homero Livro IX

    Toma Ulisses a mão: — Potente Alcino,
    De povos sumo rei, nada há mais grato
    Que do cantor a divinal poesia;
    Nada mais deleitável que esta gente
    5 Lhe estar ouvindo a voz melodiosa
    À tua mesa, de regalos plena,
    E o vinho haurir que da cratera vaza
    Nos copos o escanção: minha alma o escuta.
    Mandas-me renovar a dor e o pranto:
    10 Que princípio, que meio, que remate
    A narração terá de imensos males
    A mim fadados? Por meu nome enceto.
    Escapo aqui da morte, hóspede vosso
    Perpétuo seja, inda que longe moro:
    15 Sou Ulisses Laércio, encomiado
    Por meus ardis, com fama até nos astros.
    Ítaca habito ocídua, e lá tremula
    Nerito a verde coma; circunstantes
    Ilhas há povoadas, como Same
    20 E Dulíquio e Zacinto nemorosa,
    Orientais e ao sul; Ítaca humilde
    Última as trevas olha, áspera e tosca,
    Porém não posso ver nada mais doce.
    Na gruta sua a ótima Calipso,
    25 Em casa teve-me a dolosa Eéia,
    Sem nunca afagos seus me demoverem,
    Pois ledo homem não vive e satisfeito
    Fora da pátria amiga e dos parentes,
    Bem que noutro país nade em riquezas.
    30 Ora de Ílio a tornada lagrimosa
    Referirei, disposição de Jove.
         À Ísmara o vento impele-me e aos Cícones
    Saqueio e os mato; com partilha justa
    As mulheres e a presa dividimos.
    35 Presto os insto a largar; mas insensatos
    Na praia indóceis a beber se ficam,
    Ovelhas abatendo e negros touros.
    Os fugitivos por socorro bramam,
    E n’alva em cópia do interior concorrem
    40 Bons peões e adestrados cavaleiros,
    Como as folhas vernais e as flores brotam.
    Jove de mil desgraças nos oprime:
    Eles às nossas naus o ataque apertam,
    Fervem de parte a parte os êneos tiros;
    45 Toda a manhã enquanto a luz crescia,
    Do número apesar, os contivemos;
    Ao Sol cadente, quando os bois descangam,
    Em fuga nós, poupando a Parca os outros,
    Armando seis de cada nau perdemos.
    50  Salvos, contudo mestos velejamos,
    Vezes três a invocar primeiro os sócios
    Ai! nas Cicônias margens trucidados.
    O Nimbífero o Bóreas assolou-nos;
    Tolda bulcão tristonho o mar e a terra,
    55 A noite rui do céu; de esguelha o vento
    As velas farpa, e súbito arreadas,
    Varei com susto. Lá cansaço e mágoa
    Nos ralou; mas, à terça ruiva aurora,
    Mastros eretos, brancos linho içado,
    60 Navego ao tom da brisa e dos pilotos.
    O natal chão tocava, quando Bóreas
    E do Maléia as correntes me empuxaram
    Muito além de Cítera. Dias nove
    Pelo piscoso ponto flutuando,
    65 No dezeno aos Lotófagos arribo,
    Que apascenta uma planta e flor cheirosa.
    Jantamos, feita aguada; envio arauto
    Com mais dous a inquirir de pão que gente
    Lá se nutria. Aos três em nada ofendem,
    70 Mas lhes ofertam loto; o mel provando,
    Os nossos o recado e a pátria esquecem,
    Querem permanecer para o gostarem.
    Constrangidos e em lágrimas os trago
    E amarro aos bancos; apressado os outros
    75 Sócios recolho, a fim que do regresso
    A doçura falaz os não deslembre.
    Em fila, a salsa espuma a remos ferem,
    E dali pesarosos nos partimos.
         Abordo a infanda plaga do Ciclopes,
    80 Que, à fiúza dos deuses, nem semeiam,
    Lavram nem plantam; sem cultivo e relha,
    Cresce o trigo e a cevada, os bagos de uvas
    Lhes engrossa o imbrífero Satúrnio.
    De conselho e assembléia e lei privados,
    85 Cada varão, de montes em cavernas,
    Rege absoluto filhos e mulheres,
    Vizinhos olvidando. Ilha daquela
    Tanto ou quanto remota, umbrosa estende-se,
    Altriz de agrestes cabras: nunca a pisa
    90 Humano pé, campônio, zagalejo,
    Ou caçador ao serro e à fraga atreito;
    Berrantes fatos inarada pasce.
    Nem construtores de vermelhos beques
    Nem galés tem que os mares atravessem,
    95 Que em longínquas cidades mercadejem,
    Donde a ilha deserta haja colonos.
    Tudo em sua estação produziria:
    Junto à costa oferece regadios
    E moles prados; ao vinhedo é própria;
    100 É fofo o solo e para messes pingue.
    De âncoras e de amarras prescindindo,
    Permanecer no porto os nautas podem,
    Até que as auras prósperas aspirem;
    De uma gruta, no topo, fresca fonte
    105 Límpida mana, de álemos sombrosa.
    Lá jogou-nos a vaga, e um deus foi guia;
    Nada na cega noite se enxergava:
    Na terra as naus, em densa escuridade
    Esmorecida a Lua, a terra oculta,
    110 Nem rolar a mareta às praias vimos,
    Antes que as proas abicassem nelas.
    Colhido o pano salta-se, e na areia,
    Da madrugada à espera, adormecemos.
         Do ar mal fulge a dedirrósea prole,
    115 Toda a ilha admirados perlustramos.
    Ninfas do aluno de Amaltéia agitam
    Para nosso jantar monteses cabras.
    Das naus trouxemos arcos e azagaias;
    Tripartidos, de caça o deus fartou-nos;
    120 Cabeças nove cada nau das doze,
    Uma de mais somente obteve a minha.
    Ao sol posto a comer, nos regalamos
    De roxo vinho; em ânforas a bordo,
    Roubo, do sacro burgo dos Cícones,
    125 Inda restava. Nos Ciclópeos cumes
    Fumo avistou-se, ouviram-se balidos.
    Anoitece e dormimos; na alvorada
    Convoco a gente: “Cá vos deixo, amigos;
    Eu mesmo explorarei se aqueles homens
    130 São ferozes e injustos e intratáveis.
    Ou tementes aos deuses e hospedeiros.”
         Ocupo o meu navio; os da companha,
    Desatando os calabres, abancados
    A branca espuma a remos açoutavam.
    135 Na próxima paragem, numa extrema,
    Junto ao mar descobriu-se alta espelunca,
    De loureiros opaca, onde albergava
    Cabrum gado e ovelhum, do pátio em roda
    A pique rochas, com alvares pinhos
    140 E carvalhos de topes verdejantes.
    Seus rebanhos ali desconversável
    Gigante pastorava, em separado,
    Só consigo maldades ruminando;
    Monstro não comparável aos humanos
    145 De pão nutridos, mas do monte ao cume
    Que selvoso dos outros se destaca.
    À nau ponho de guarda os camaradas;
    Escolho doze, um odre lhes confio
    Do vinho de Máron de Evanteu nado,
    150 Em Ísmara Apolíneo sacerdote;
    O qual poupamos e mulher e filhos,
    Na sagrada floresta, com respeito;
    E áureas talentos sete, urnas de prata,
    Mais uma dúzia de ânforas doou-me
    155 De almo licor nectáreo incorruptível.
    Desse vinho melífluo, em casa ignoto,
    Menos à esposa e à despenseira, um vaso
    Com vinte se mesclava de água pura,
    E tal cheiro divino recendia,
    160 Que dele alguém abster-se era um tormento.
    Encho um odre, uns alforjes abasteço,
    Audaz me deito a visitar o iníquo
    De alma ferrenha e desmedida força.
         Então fora pastava o nédio gado,
    165 E no interno o antro seu nos foi pasmoso:
    Nos cinchos pesam queijos; de cabritos
    E anhos currais se atulham, segregados
    Os meãos e os tenrinhos e os maiores;
    Mungido fresco em tarros e alguidares,
    170 Nada no soro o coalho. Os meus imploram
    Que, tomados os queijos e atraídos
    Cabritos e ambos, de embarcar tratemos:
    Fora certo o melhor, mas eu quis vê-lo
    E dons ter hospitais; futura aos sócios
    175 Vista ingrata. Imolando, aceso o fogo,
    Do lacticínio come-se, e aguardamos.
         Ei-lo, de lenha para a ceia, à porta
    A grossa atira estrepitosa carga;
    Tremendo no interior nos ocultamos.
    180 À espelunca recolhe as gordas fêmeas
    Para, ordenhar, de fora tendo os machos
    No amplo recinto, bodes e carneiros;
    Depois a entrada fecha, levantando
    Rocha tal, que mover nem poderiam
    185 Vinte dous carroções de quatro rodas.
    Sentado, ovelhas e balantes cabras
    Em ordem munge, e às mães submete as crias:
    Porções do leite coalha e aperta em fôrmas;
    Guarda metade, que ceando beba.
    190 Tudo aviado e em cobro, atiça o lume,
    E dá conosco e diz: “Quem sois vós outros?
    Navegais por negócio, ou ruins piratas
    Os mares infestais, expondo as vidas
    Para infortúnio e dano de estrangeiros?”
    195 Frios, do rouco som, do monstro mesmo
    Trememos todos; mas falar me atrevo:
    “Dos Gregos somos que, da pátria em busca,
    Desde Ílios furacões nos remessaram
    A estranhas plagas, por querer de Jove;
    200 No exército servimos de Agamemnon,
    Cuja glória a qualquer mundana eclipsa,
    Pois destruiu tal povo e tal cidade.
    A teus pés agasalho deprecamos.
    Ou brindes hospitais. Receia os deuses,
    205 Senhor; Júpiter vinga os suplicantes,
    E a bons e honrados hóspedes protege.”
         Turvo me respondeu: “Louco! tão longe
    Vens o temor dos deuses ensinar-me?
    Os Ciclopes, que os deuses mais prestantes,
    210 Esse aluno da cabra desdenhamos.
    Se não por mim, de Júpiter por medo
    Pensas que te perdoe e os companheiros?
    Onde ancoraste a nau? distante ou perto?
    Declara-o já.” — Manhoso ao laço fujo:
    215 “Desfez-ma o Enosigeu, na ponta e escolhos
    Dos fins da vossa terra; aqui, dos ventos
    Rojado, a custo me salvei com estes.”
    Ei-lo, sevo e em silêncio, a dous agarra,
    No chão como uns cãezinhos os machuca,
    220 E o cérebro no chão corre espargido;
    Os membros rasga, e lhes devora tudo,
    Fibra, entranha, osso mole ou meduloso,
    Qual faminto leão: chorando as palmas,
    Em desespero e grita, a Jove alçamos.
    225 Pleno de humanas carnes o amplo ventre,
    Leite bebe o Ciclope a grandes sorvos,
    E entre as ovelhas na caverna estira-se:
    Animoso de espada ia feri-lo,
    Onde o fígado junta-se ao diafragma,
    230 Quando à idéia me vem que, nímio débeis
    Para o empacho movermos da saída,
    Morreríamos todos morte acerba:
    A aurora pois gementes esperamos.
         Ao raiar da manhã, suscita o fogo,
    235 Ordenha e a cada mãe submete as crias.
    O serviço afervora, e para o almoço
    Mais dous empolga e traga; a pedra erguendo
    Fácil, como na aljava a tampa ajusta,
    A repõe, já de fora com seu gado;
    240 E, indo-se ao monte, ouvíamos seus urros.
    Vingança cogitada, invoco a Palas;
    Trás longo meditar, melhor conselho
    Este me pareceu: de um tronco pego
    Oleagíneo e verde, grosso e longo,
    245 No antro a secar jazendo para clava,
    Que o mastro parecia de um mercante
    Flutívago baixel de vinte remos;
    Corto-lhe uma braçada, os sócios mando
    O pedaço alisar, depois o aguço
    250 E o tosto a fogo ardente, no monturo
    Pela caverna acumulado o escondo.
    Sorteiam-se os que atrevam-se comigo
    No olho o pau enterrar-lhe pontiagudo,
    Enquanto sopitado em sono esteja;
    255 A sorte elege quatro, e eu faço o quinto.
         Chega à tarde o pastor, e sem no pátio
    Conter os machos, encurrala o gado.
    Ou por divino influxo ou por suspeita;
    A boca do antro fecha, em ordem munge
    260 Sentado as fêmeas e submete as crias.
    Presto acaba o serviço, e para ceia
    Inda esquarteja dous; eu perto exclamo,
    Taça a lhe oferecer de roxo vinho:
    “De carne humana estás, Ciclope, farto;
    265 Ora da nossa nau prova a bebida.
    Mais terias, se à casa me enviasses
    Por compaixão: que fúria intolerável!
    Como, de tanta crueldade à vista,
    Pode qualquer humano visitar-te?”
    270 Recebe a taça, com delícia a empina,
    E pede mais: “Dá-me de novo, dá-me;
    O nome teu me digas, para haveres
    Dom que te aprazirá. Nossa alma terra
    Vinho de uvas produz que orvalha Jove;
    275 Mas este, ambrosia é doce e néctar puro.”
         Renovo a taça ardente, que três vezes
    Néscio esgotou. Sentindo-o já toldado,
    Brando ajunto: “Ciclope, não me faltes
    À promessa. Meu nome tu perguntas?
    280 Eu me chamo Ninguém, Ninguém me chamam
    Vizinhos e parentes.” O ímpio e fero
    Balbuciou: “Ninguém, depois dos outros
    Último hei de comer-te; eis meu presente.”
         E ressupino cai e, a cerviz grossa
    285 Dobrando, ao sono domador se rende;
    A impar na embriaguez, ressona e arrota,
    Vomita o vinho e carne humana em postas.
    Na cinza o lenho aqueço, animo os sócios
    A não me abandonarem no perigo;
    290 O oleagíneo troço, inda que verde,
    Em brasa tiro, e um deus nos acorçoa;
    No olho ficam-lhe os meus o pau candente,
    Eu de cima o revolvo: qual se broca
    Naval madeira, que sustém com loros
    295 Do mestre oficiais de uma e outra banda
    E o trado gira sempre; assim viramos
    No olho o tição. Cálido sangue espirra;
    O vapor da pupila afogueada
    As pálpebras queimava e a sobrancelha;
    300 Do imo as raízes crepitar sentimos.
    Quando enxó n’água fria ou grã secure
    Imergindo o forjeiro a temperá-lo
    Caldeia o ferro, estrídulo este chia:
    Da trave em roda o olho assim chiava.
    305 O urro tremendo ecoa nos penedos;
    Assustados fugimos; ele, o tronco
    Todo em sangue arrancado, o lança fora
    Na veemência da dor, bramando horrível
    Pelos Ciclopes, que em vizinhas grutas
    310 Sobre ventosos cumes habitavam.
         Aos gritos acudindo, eles à entrada
    O que o aflige indagam: “Polifemo,
    Porque a noite balsâmica perturbas
    E nos rompes o sono com tais vozes?
    315 Acaso ovelha ou cabra te roubaram,
    Ou por dolo ou por força alguém matou-te?”
         “Amigo, do antro Polifemo disse,
    O ousado que por dolo, não por força,
    Matou-me, foi Ninguém.” — Replicam logo:
    320 “Se ninguém te ofendeu, se estás sozinho,
    Morbos que vem de Jove não se evitam;
    Pede que te alivie ao pai Netuno.”
    Com isto vão-se andando, e eu rio n’alma
    De que meu nome e alvitre os enganasse.
    325 Gemebundo o Ciclope e dolorido,
    Trêmulo apalpa, e removendo a pedra,
    Senta-se à boca do antro, as mãos estende
    A apanhar quem saísse entre as ovelhas.
    Ele cria-me estulto; eu cogitava
    330 Com que ardil me livrasse e os meus da morte
    Horrorosa e iminente, e o plano formo:
    Três a três ligo tácito uns carneiros
    De lã violáceas, grandes e alentados,
    Com retorcido vime, em cujos feixes
    335 Dormia o monstro; no do meio ajeito
    Um sócio, que os dous outros conduzissem;
    Do maior da manada abraço o tergo,
    E ao ventre submetendo-me veloso,
    Firme ao tosão me implico e me penduro.
    340 Carpindo à espera da manhã velamos.
         No arrebol urge o dono ao pasto os machos,
    Dentro a balar as fêmeas de ubres tesos,
    E em dores, à passagem, do que pára
    O dorso afaga, néscio de que os sócios
    345 Iam ligados aos lanudos peitos.
    Último andava o meu, tardio ao peso
    De mim, que em baixo astuto maquinava;
    A anca lhe amima terno: “O derradeiro
    Hoje és tu, preguiçoso? A largo passo
    350 Ias dantes em frente, a pascer flores
    E a banhar-te no límpido riacho,
    E de tarde ao redil vinhas primeiro.
    Do olho do senhor partes saudoso,
    Que, de vinho domando-me a cabeça,
    355 Cru mortal e os maus sócios me vazaram?
    Escapo inda o não julgo: tu sentisses
    Comigo e articulasses, que dirias
    Onde se oculta; e, esparsos os miolos
    Por toda a cova, ao mal, que me há causado
    360 O vil Ninguém, teria um refrigério.”
    Solto o Martinho então, se pôs de fora.
         Distante um pouco da caverna e pátio,
    O meu largo e desprendo os mais carneiros;
    Salvos do monstro, à pressa o desviado
    365 Gordo rebanho para a nau guiamos,
    Onde em pranto ansiosos companheiros
    Nos receberam. Por acenos vedo
    Esse lamento, e mando que o lanoso
    Gado se embarque e o saldo mar cortemos.
    370 Dito e feito, e verberam já remeiros
    O encarnecido ponto, quando ao longe,
    Mas a alcance de gritos, o invectivo:
         “Não devoraste, Polifemo, os sócios
    De um homem sem valor; cruel e iníquo,
    375 De hóspedes em teus lares te sustentas;
    Júpiter castigou-te e os mais celestes.”
         Raivoso, ei-lo de um monte o cimo quebra,
    Joga a rocha, que ao pé da popa tomba:
    Ao choque a nau se inunda, e refluindo
    380 Sobre a terra a mareta nos empuxa.
    De um longuíssimo croque armado, o casco
    Da praia arredo, e por sinais ordeno
    Que, o trespasso esquivando, a voga piquem.
    Sulcado espaço igual, falo ao Ciclope;
    385 Em redor brandamente me retinham:
    “Incitar queres, mísero, o selvagem,
    Que a nau com novo tiro atraia à borda,
    Onde acabar cuidávamos? Se tuges,
    Ao perceber-te a voz, com força bruta
    390 Penedo vibrará, que nos esmague
    E este frágil madeiro desconjunte.”
         Preces vãs! generoso e inabalável
    Em cólera bradei: “Se o perguntarem,
    O olho dirás, vazou-te o arrasa-muros
    395 Ítaco Ulisses, de Laertes nado.”
         Trovejou Polifemo: “Encheu-se o agouro
    Ah! de Telemo Eurímides, profeta.
    Que envelheceu famoso entre os Ciclopes!
    Apagar-se-me a vista às mãos de Ulisses
    400  Vaticinou-me: um forte e ingente e belo
    Varão sempre cuidei que Ulisses fosse;
    Mas, falso embriagando-me, a pupila
    Furou-me um pífio imbele e pequenino!
    Hóspede, eis os presentes, vem tomá-los;
    405 Meu genitor confessa-se Netuno,
    Rogo-lhe que a viagem te encaminhe.
    Seja vontade sua, há de sarar-me;
    De outro deus nem mortal socorro espero.”
         “Pudesse eu, repliquei-lhe, de alma e vida
    410 Privar-te e remeter-te ao reino imano,
    Como nem mesmo o genitor Netuno
    O olho te sarará.” Súplices palmas
    Ele à sidérea abóbada levanta:
    “Ó rei Netuno de cerúlea coma,
    415 Se teu sou na verdade, ó pai, te imploro
    Que seu país não veja o arrasa-muros
    Ítaco Ulisses, de Laertes nado;
    Ou, se é fatal que à pátria amiga torne,
    Só de toda a campanha, em vaso alheio,
    420 Tardio aporte, e em casa encontre penas.”
         Seu rogo ouvido foi. Lasca outro pico
    Muito maior, que expede volteando
    Com sumo esforço: desta vez o leme
    Quase alcança, e nos molha a erguida brenha;
    425 Mas surde a proa azul, e a ilha toca
    Onde as naus de coberta e os sócios eram,
    Sempre a chorar por nós. Varado o casco,
    Saltamos, e conosco a ovelhum presa,
    Que divido irmãmente: a aqueles bravos
    430 Dão-me a parte o carneiro em que livrei-me,
    Eu na praia ao nimbífero Satúrnio
    Queimo-lhe as coxas; mas o deus supremo
    Enjeita o sacrífio, e delibera
    A frota consumir-me e os camaradas.
    435 Até Sol posto, à mesa nos fartamos
    De carne e doce vinho, e escura a noite,
    Na areia adormecemos. Vindo a rósea
    Aurora matutina, a gente embarco;
    Desamarrados, alva espuma torcem
    440 Dos remos ao compasso os marinheiros.
    Dali, da morte isentos; mas tristonhos
    Pelos míseros sócios navegamos.

    NOTAS AO LIVRO IX
    15-34 - O reconhecimento parece tardio, crê-se à primeira vista que devera ser muito antes; mas note-se que Homero no livro VII, como para escapar à objeção, faz Ulisses dizer a Areta que não pode já narrar todas as aventuras, e só responderia às últimas perguntas: assim, respeitou Alcino o seu silêncio, até vir a ocasião de saber-se aonde a nau devia conduzi-lo. Esta demora, adaptada à marcha dramática do poema, tenho-a por um belo artificio. — Same é o mais antigo nome de Samos; Ísmara é cidade, assim lhe chama Virgílio, sem confundi-la com o monte, que se diz Ísmaro. — Ulisses, depois de saquear os Cicones, que justamente o escarmentaram, gaba-se da boa repartição da presa: entre os mesmos salteadores há uma espécie de equidade, para se poderem manter.
    343-361 - Esta passagem tem sido censurada por inverossímil: a saída dos companheiros, cada um no animal do meio e conduzido pelos dous dos lados, compreende-se melhor; mas a de Ulisses num só carneiro, posto que o maior do rebanho, é difícil de conceber, sem embargo das diferentes explicações. Como porém o gigante estava cego e Minerva protegia a Ulisses, pode supor-se que, por influxo divino, afagou Polifemo o tal carneiro só em partes onde não se sentisse o engano. — O adjetivo cru do verso 355, onde o gigante se queixa de o terem cegado, quando acabava de comer seis homens, não admira na boca de um monstro brutal; nós outros somos propensos a ter por injusto o mal que nos fazem, e a achar pequeno o que aos outros fazemos: a modo que Homero quis representar um dos achaques da humanidade. Ir para o índice do livro.
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