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Sobre os Rolos do Mar Morto

Uma das descobertas mais importantes na esfera dos estudos bíblicos ocorreu na primavera do ano de 1947. Um pastor árabe, chamado Mohâmede ad-Dib, por acaso entrou numa caverna das margens do Mar Morto, e ali descobriu bom número de rolos de pergaminho, envoltos em panos de linho e escondidos nuns vasos cilíndricos colocados a uma altura de pouco mais de setenta centímetros do solo. Contudo, só em 1948 é que o mundo ficou sabendo dessa descoberta. Alguns daqueles rolos chegaram às mãos do falecido professor Sukenik, da Universidade Israelita de Jerusalém. Tratava-se de um manuscrito fragmentado do livro da Profecia de Isaías, um rolo de Hinos de Gratidão, e o Rolo da Guerra, assim chamado. Os restantes ro#los, adquiridos pelo Convento Sírio Orto#doxo de São Marcos, de Jerusalém (distrito do Jordão), foram eventualmente leva#dos para a Escola Americana de Pesquisas Orientais, de Jerusalém. Era um manuscrito quase completo de Isaías, chamado Manual de Disciplina, um comentário de Habacuque, é um Gênesis apócrifo, escrito em aramaico. Todo esse material já foi publicado, e mais um volume de uns seiscentos fragmentos encontrados nessa primeira caverna. Só em 1949 é que se deu licença a arqueólogos para entrar nessa região cidental que margeia o Mar Morto e assim investigar a caverna em que foram achados os ditos manuscritos. Tal região se si#tua nos paredões rochosos que se elevam de duzentos a duzentos e sessenta metros acima do Mar Morto e que guarnecem suas margens ocidentais. No altiplano, a uns setenta metros acima das margens atuais, e que se estende cerca de uma milha para além da base dos paredões rochosos, encontram-se as ruínas de uma antiga construção. Pêra de Vaux, diretor da Escola Bíblica de Jerusalém (distrito do Jordão), e G. Lankester Harding, então diretor do departamento governamental de Antiguidades do Jordão, resolveram escavar tais ruínas para verificar se tinham algo que ver com a caverna em que se acham os referidos manuscritos. Depois de cinco períodos de escavação 1951, 1953-1956 toda a comunidade central do povo que copiava tais manuscritos e centenas de outros, se revelou a seus olhos, patenteando a vida e os costumes daquela mais que interessante seita judaica.

O edifício principal, de 30 metros por 37, tinha numerosos cômodos e tanques de todos os tamanhos, e também um torreão de paredes muito grossas no canto noroeste, servindo de fortaleza para defender a comunidade. Aí se descobriu a sala de reunião da comunidade, a despensa com mais de mil rolos amontoados, em pilhas ao longo das paredes, o escritório do convento onde se acham ainda dois vasos de tinta, a mesa e o banco usados pelos copiadores de manuscritos, as cozinhas com seus fogões, e ainda um intrincado sistema de cerca de quarenta caixas d’água, todas ligadas por encanamentos e alimentadas por um aqueduto que trazia a água para dentro da construção desde o pé dos ditos paredões rochosos, numa extensão de 90 metros. Descobriu-se ainda um sistema de quartos, menos complexo, fora da construção principal. Aí se encontraram pedras de moer e fornos para a fabricação de cerâmica para a comunidade.

Do lado do altiplano que desce para o Mar encontra-se um cemitério com cerca de mil sepulturas. Algumas foram escavadas, e nelas se acharam vários esqueletos de mulheres, o que leva a pensar que elas constituíam boa parte da comunidade. No interior das sepulturas encontram cacos de vasos de barro, semelhantes aos achados no centro da comunidade e nalgumas das sepulturas vizinhas, o que nos leva a conclusão quase certa de que a gente que escondera os manuscritos nas cavernas, que vivera no edifício do altiplano, e que fora enterrada no dito cemitério pertencia ao mesmo grupo.

Por tudo quanto se encontrou ali moedas, artigos de cerâmica, peças de linho que envolviam os manuscritos e a paleografia dos próprios rolos podemos de modo definitivo dar ao certo o tempo em que existiu aquela comunidade. O prédio principal deve ter sido levantado mais ou menos no ano 110 antes de Cristo, quase no fim do reinado de João Hircano I. Seus moradores ali viveram até o ano 68 de nossa era, quando foram destruídos aqueles cômodos, presumivelmente pelos romanos governados por Vespasiano, o qual, como diz o historiador Flávio Josefo, conquistou Jericó na primavera daquele ano. Viram-se também, nas paredes e nos alicerces do edifício principal, sinais dum terremoto destruidor, que muitos peritos crescem ter sido do violento tremor de terra descrito por Josefo, e ocorrido no ano 31 antes de Cristo, no reinado de Herodes, o Grande. A falta de moedas desde esse período pode indicar o abandono do centro daquela comunidade pelos seus habitantes durante o reinado de Herodes.

A busca de cavernas vizinhas a Cunra levou os exploradores a achar mais onze delas, onde foram igualmente encontrados outros manuscritos. Já dissemos o que se achou na caverna número 1. Na prima#vera do ano de 1952, foram exploradas as cavernas e frielas dos paredões na reta#guarda do centro da comunidade. Após cerca de duzentos e setenta sondagens na área que se estende a umas seis milhas ao norte e ao sul de Cunrã, foram encontradas mais 39 cavernas que continham peças de cerâmica e outros objetos. Só duas, porém (as de número 2 e 3), continham manuscritos. Na de número 3 se acharam rolos de cobre, os quais foram recentemente separados e decifrados. Evidentemente são o testemunho de fabulosos tesouros escondidos em vários lugares da Palestina, No verão de 1952, os beduínos descobriram a caverna número 4, ao lado de Cunrã Uádi, justamente a um tiro de pedra do edifício principal. Esta contestação é a que nos deu maior número de manuscritos. Estimam-se em mais de 300 manuscritos os que foram escondidos nessa caverna, talvez pouco antes da destruição da comunidade pelos romanos. Todos eles se apresentavam bastante estragados de ratos, e pelos romanos e por pássaros, de modo que hoje só restam peque#nos fragmentos cerca de 20.000. São mais ou menos 90 manuscritos de livros bíblicos. Todos os livros do Antigo Testamento estão presentes nesses manuscritos, exceto o livro de Ester. Manuscritos de Deuteronômio, Salmos e Isaías são em nú#mero de doze a quinze cada um. Isso prova que tais livros eram tão populares na comunidade de Cunrã como na Igreja Primitiva, visto serem mui frequentemente citados em o Novo Testamento. Os textos não bíblicos incluem fragmentos de várias obras dos apócrifos e dos pseudo-epígrafos, de muitas obras desconhecidas, de comentários de vários livros do Antigo Testamento, tais como Isaías, Naum. Miquéias. Os textos enigmáticos, e de textos mcs panico que circulavam em grupo. Levará vários anos para se publicar e se oferecer ao estudo dos peritos todo o material encontrado na caverna n.° 4. As cavernas n.° 5 e 6, descobertas em 1952, ao lado de Cunrã Uádi, continham poucos fragmentos. As cavernas 7, S. 9 e 10, descobertas em 1955, também se mostraram pobres de manuscritos. Em 1950 descobriu-se a de número 1T, precisamente a uma milha ao norte da caverna n. 1; e, como esta, continha rolos e também fragmentos. Aí foram encontrados manuscritos completos de Levítico e do Saltério, juntamente com um Targum paráfrase de Jó, escrito em aramaico.

Antes de discutirmos a importância desses rolos nos estudos da Bíblia, será de bom aviso dizer algo sobre a gente que morou em Cunrã e que certamente copiou tais manuscritos. Conforme crê a maioria dos peritos, pertenciam seus habitantes à seita judaica conhecida pelo nome dos essênios, cujos ensinos e costumes são descritos pormenorizadamente por Josefo e por Filo. Segundo o manual de disciplina deles, esse grupo rompe com o judaísmo ortodoxo, então dominante, e buscará o deserto, i. é, viera para Cunrã,. cumprindo-se o que diz o profeta Isaías no versículo 3, capítulo 40, do seu livro, para assim preparar o caminho ao ungido do Senhor e à vinda do seu reino aqui na terra. Viviam em disciplina bastante rija distribuindo entre si sua riqueza e conhecimentos, e esperando que por eles se cumprissem as promessas que Deus fizera a seus profetas. ‘“A multidão”, como era chamada a comunidade de sacerdotes e leigos, tinha como presidente um béquer, ou superintendente, cujos deveres se assemelhavam aos do epíscopo da Igreja Primitiva. Dirigia as atividades financeiras da comunidade, presidiam aos ritos de iniciação dos novatos que en#travam para a comunidade, e aplicava as medidas disciplinares da comunidade, quando necessário. Na direção dos negócios, tinha como auxiliares uma junta menor de doze homens, dos quais três eram sacerdotes. Era inteiramente voluntária a entrada nessa comunidade, e os ritos de iniciação, que cobriam vários anos, eram bastante severos; e também a vida de seus membros era duma disciplina militar bastante rija. Cada um tinha o seu posto na hierarquia da comunidade, tinha o seu lugar próprio nas reuniões do grupo, e a sua posição certa nas fileiras, quando saíssem à batalha para combater contra os filhos das trevas, no grande e derradeiro conflito antes da vinda do reino de Deus.

Os dois ritos principais da comunidade de Cunrã eram o batismo e a refeição comunal. Ao que tudo indica, o batismo era rito de iniciação, administrado depois de o noviço haver feito certo adestramento pre#liminar de três anos. As muitas purificações observadas pelos membros da comunidade, notadamente antes de cada repasto, simbolizava a purificação interior do coração humano pelo Espírito. O repasto comunal era um dos ritos mais interessantes da comunidade de Cünrã. Temos breve descrição dele no Manual de Disciplina (Cap. VI. 2-5)’. Mas, achou-se uma descrição bem mais pormenorizada num fragmento recentemente publicado, e que foi encontrado em Cunrã. Damos, a seguir, a tradução das últimas palavras referentes a esse rito, para bem avaliar-se a importância dele:

Quando Deus gera o Messias sacerdotal, entra a fazer parte deles pois é ele a cabeça de toda a congregação de Israel; e todos os pais dos filhos de Arão, os sacerdotes convidados para o festim, homens de nomeada, se assentaram diante dele, cada qual segundo a sua ordem. Então, depois o Messias de Israel se assentará, e os chefes dos milhares de Israel se assentaram diante dele; cada qual segundo a sua ordem… Quando se reúnem à mesa, ou bebem vinho, e a mesa da comunhão está arrumada e o vinho é misturado para se beber, ninguém estenderá a mão para a primeira porção de pão ou de vinho antes que o tenha feito o sacerdote (Messias); porque ele abençoará a primeira porção do pão e do vinho, e estenderá a mão para o pão, primeiro que todos. Então, depois de o Messias de Israel ter estendido para a frente a mão sobre o pão, e após ter dado a bênção, cada qual participou. Assim deverão fazer em todas as refeições, sempre que se reunirem em número de dez. Vários pontos importantes aparecem nesta descrição da ceia dos essênios. A comunidade evidentemente esperava dois Messias: um, da linhagem sacerdotal, e outro da linhagem real, ou Davídica. A outra figura o Profeta também tem significado messiânico nos documentos Cunrãmitas. Mas aqui lemos que o Messias sacerdotal tem precedência sobre o Messias real, ou Davkliço, o que aliás é uma nova ideia para o cristão que tem a Cristo como mais importante dos filhos de Davi.

O aspecto sacerdotal do Messias naturalmente se fundamenta em Ezequiel e Zacarias, e em várias obras veterotestamentárias. Cada refeição dos essênios era claramente certa proclamação litúrgica do vindouro banquete messiânico, quando os Messias -de Deus repartiam o pão e vinho com o Seu povo, Esta nota messiânica é naturalmente parte muito importante da comunhão cristã (Marcos 14.23, etc.). Jesus, o verdadeiro Messias, mui naturalmente aplica este motivo à refeição sacramental que Ele tomou com seus seguidores. Vemos, pois, como Jesus, o Messias e o Cordeiro Pascoal reuniu na última Ceia as duas tradições judaicas do repasto essênio e da festa da Páscoa. Acrescentando as palavras “isto é o meu corpo” e “ isto é o meu sangue de Jesus por certo dia do sacramento cristão da Ceia do Senhor uma ordenança integralmente única e totalmente diferente de qualquer rito do judaísmo.

A comunidade Cunrãmita era de gente que amava a Bíblia. Eles estudaram tanto a Lei como os Profetas, para descobrir como Deus caminhava ao encontro deles, e para ver como a comunidade e a vida deles podiam cumprir as palavras de Deus reveladas aos santos do Antigo Testamento. Não se passava uma hora do dia ou da noite sem se copiar ou estudar a Palavra de Deus. 0 Manual de Disciplina deles nos informa que havia três turmas que se revezavam cada noite, quando diferentes grupos meditava nas Escrituras Sagradas, Ao Mestre de Retidão, uma das pessoas mais importantes daquela comunidade, supunham ser concedida uma visão toda especial do Antigo Testamento, e o interpretava com autoridade provinda de Deus. O Comentário de Habacuque é exemplo de como aqueles homens de Deus interpretavam o Antigo Testamento, bem como os fragmentos de outros comentários que têm aparecido nos manuscritos de Cunrã.

Perguntemos, agora: Quais os benefícios proporcionados por essas descobertas de Cunrã? Creio que o melhor modo de se esboçar o resumo das vantagens desses achados é dividir a resposta em três patologias do Novo Testamento. A fraseologia do evangelho segundo João, como, por exemplo, filhos da luz e filhos das trevas,e outras mais expressões percebe-se aqui que é de origem judaica. A organização da Igreja Primitiva, como a temos descrita nas Cartas Pastorais, tem muita coisa em comum com a organização da comunidade cunrãmita. A influência dos ensinos cunrãmitas sobre João Batista, Jesus e Paulo pode notar-se, mui clara, em muitos pontos. A natureza escatológica da dita comunidade, i . é, a sua fervorosa crença na vinda próxima e iminente do Messias (ou dos Messias), e a iminência da derradeira grande batalha contra os exércitos das trevas, em tudo se assemelha ao espírito que então reinava na Igreja Primitiva e nos ensinos de Jesus e do apóstolo Paulo, que são: a importância deles para o estudo do Antigo Testamento, do período veterotestamentário, e, do Novo Testamento.

A contribuição mais importante para o estudo do Antigo Testamento está na esfera do texto. Antes de 1947, os manuscritos hebraicos mais antigos que possuíamos datavam mais ou menos do século X da era cristã. Agora temos manuscritos hebraicos mil anos mais velhos. Mas, o que mais im#porta é notar que esses manuscritos, bem mais velhos, confirmam surpreendentemente os outros de onde obtivemos o nosso Antigo Testamento, comprovando, assim, a validez do texto hebraico tão cuidadosamente transmitido através dos séculos. Há, no entanto, outros pontos em que tais descobertas nos ajudam a compreender melhor certas passagens do Antigo Testamento. Mas, aqui não podemos descer a pormenores.

O período da história judaica que separa o Antigo Testamento do Novo é assaz fascinante. Bom é conhecer bem esse período, porque lança muita luz sobre o Novo Testamento e seus ensinos. Pelo material colhido em Curã, muitos outros livros, até então desconhecidos, vieram à luz; e agora nos facultam conhecer melhor a época e o desenvolvimento da teologia judaica desse período. Vários dos livros apócrifos e pseudo-epigráficos, já então conhecidos, estavam presentes na biblioteca da comunidade cunrãmita, revelando-nos quão im#portantes e populares eram tais obras naquele tempo.

Mas, uma coisa muito mais importante que todas é esta: tais documentos nos ajudam a compreender mais claramente os bastidores, ou a formação do Novo Testamento, os essênios da Igreja Primitiva, como também a sua organização. Nesses documentos encontramos, em vocábulos e for#mas hebraicas, grande parte da termino. A comunidade de Cunrã infelizmente nunca chegou a conhecer a Jesus como o Cristo, ou Messias, e sucumbiu nas cinzas ardentes da destruição provocada pelos legionários romanos. Mas a cristandade avançou na conquista do mundo, porque achara o Messias prometido aos antigos por Deus, mediante os seus profetas. Cunrã nunca ouviu o eletrizante som das Boas-Novas, nem conheceu o poder de vidas convertidas, nem a glória e a radiância que dimanam de cada uma das páginas do Novo Testamento, pelo fato de jamais haver conhecido ao Cristo. Todavia, não podemos deixar de admirar o devotamento e a dedicação desses soldados de Deus que buscaram uma região deserta para ali passar uma vida de disciplina e serviço a Deus, aguardando a Sua revelação final na gloriosa Pessoa do Messias.

Créditos de Carlos T. Fritsch
Professor de Antigo Testamento do Seminário Teológico de Princeton.

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