Guerra da Gália - Livro VI - Tifsa Brasil
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    4 de julho de 2018

    Guerra da Gália - Livro VI

    COMENTÁRIOS DE CARLOS JÚLIO CÉSAR À GUERRA DA GÁLIA

    Livro I - Livro II - Livro III - Livro IV - Livro V - Livro VI - Livro VII - Livro VIII

    ARGUMENTO
    Cesar, prevendo maior movimento na Galia, aumentou as tropas c. 1. Rendidos os Nervios, Senones e Carnutes, subjuga os Menapios c. 2-6. Labieno debela os Treviros c. 7-8. Cesar passa novamente o Rim c. 9, e oferecendo-se-lhe ocasião de comparar os costumes da Galia com os da Germania, descreve uma e outra nação c. 10-28. Provocados de balde os Suevos, volta aos Eburões c. 29-33, e enquanto lhes tala a campanha, os Sugambros atacam os arraiais de Cicero, e fogem com medo de Cesar que se aproxima c. 34-42. Assolados os campos dos Eburões, e encerrada a asesmbléia da Galia, parte para a Itália a reunir as juntas c. 43-44.

    I - Contando por muitos motivos com maior movimento na Galia, resolve Cesar encarregar de fazer levas de soldados aos lugar-tenentes M. Silano, C. Antistio Regino, T. Sextio; pede ao mesmo tempo a Cn. Pompeio, proconsul residente junto a Roma com autoridade militar, por assim o exigir o interesse público, ordene que se reunem as signas e marchem para o exército da Galia, os que alistara na Galia Cisalpina sob juramento de cônsul, julgando importar muito ao nosso crédito na Galia, atual e futuro, parecerem tão grandes os recursos da Itália, que, no caso de algum revés, fossem as perdas não só prontamente reparadas, mas o fossem ainda com maiores forças. Fazendo Pompeio a concessão ao bem público e à amizade, e concluindo os seus as levas com presteza, organizaram-se, e chegaram três legiões antes de terminar o inverno e duplicou-se assim o número das coortes perdidas com Titurio, mostrando Cesar, quer na celeridade, quer nas forças, quanto valiam a disciplina e os recursos dos Romanos.

    II - Morto Induciomaro, como mostramos, é o poder conferido a seus parentes pelos Treviros. Não desistem eles de solicitar os Germanos comarcãos, prometendo dinheiro. Encontrando algumas cidades dispostas a segui-los, confederam-se com elas por juramento recíproco, e dão-lhes reféns por fiança do dinheiro; compreendem também a Ambiorix na confederação. Sabido isto, e vendo preparar-se guerra por toda parte, acharem-se em armas os Nervios, Aduatucos e Menapios, com todos os Germanos daquém Rim, não acudirem os Senones ao chamado sobre entrarem na conjuração com os Carnutes e cidades comarcãs, e serem os Germanos solicitados com freqüentes embaixadas pelos Treviros, resolveu Cesar fazer a guerra mais cedo.

    III - Assim, sem estar ainda terminado o inverno, reunindo as quatro legiões mais próximas cai de improviso sobre as fronteiras dos Nervios, e tomando-lhes, antes que eles pudessem reunir-se ou fugir, grande quantidade de gado e homens, presa que distribui pelos soldados, e devastando-lhes as terras, os obriga a render-se e dar-hes reféns. Concluída esta expedição com preste za, reconduz de novo as legiões aos quartéis de inverno. Marcada a reunião da assembléia da Galia para o princípio da primavera, como costumava, e comparecendo todos, menos os Senones, Carnutes e Treviros, o que julga começo de guerra e rebelião, deixa de lado todo e qualquer negócio para acudir a este, e transfere a reunião da assembléia para Lutecia dos Parisios. Eram os Parisios vizinhos dos Senones, e tinham com estes constituído uma só cidade em outras eras, mas não entravam nesta conjuração. Exposta a sua resolução do alto do tribunal, parte com as legiões contra os Senones, e ali chega a marchas forçadas.

    IV - Sabida a sua vinda, Accão, o principal autor da conjuração, ordena à multidão se encerre nas praças fortes. Quando a isso se dispunham, e antes de o poderem fazer, anuncia-se que os romanos lhes batiam às portas. Desistem da resolução por necessidade, e enviam embaixadores a Cesar, desculpando-se e implorando perdão: fazem-no por intermédio dos Heduos, cuja cidade tinha outrora com eles amizade. Intercedendo os Heduos, de boamente lhes concede Cesar o perdão, e aceita a desculpa; pois entendia dever empregar o estio em ocorrer a guerra iminente, e não em fazer averiguações. Exigindo-lhes cem reféns, os dá a guardar aos Heduos. Mandam-lhe também os Carnutes embaixadores e reféns, servindo-se da mediação dos Remos, em cuja clientela estavam; obtém a mesma concessão. Encerra Cesar a assembléia, e ordena às cidades lhe forneçam cavalaria.

    V - Pacificada esta parte da Galia, põe todo empenho e ardor na guerra contra os Menapios e Ambiorix. Ordena a Cavarino que o acompanhe com a cavalaria dos Senones, para que, ou por seu rancor, ou pela má vontade, que lhe tinha a cidade, não fosse ocasião de alguma sublevação. Feito isto, tendo por averiguado que Ambiorix não havia de aceitar batalha, estuda projetos deste, para frustrá-los. Vizinhavam os Menapios com os Eburões, e, protegidos por perpétuos pântanos e bosques, eram os únicos da Galia que nunca tinham mandado embaixadores a Cesar a pedir-lhe paz. Sabia ter Ambiorix contraído com eles hospitalidade; e haver, pelos Treviros, feito amizade com os Germanos. Entendia dever, antes de lhe fazer a guerra, tirar-lhe aqueles auxílios, afim que, perdida a esperança de salvação, não se fosse ou esconder entre os Menapios, ou reunir com os Germanos dalém Rim. Tomado este acordo, manda as bagagens de todo o exército a Labieno nos Treviros, e ordena sigam com elas para lá duas legiões: marcha ele mesmo contra os Menapios com as cinco legiões restantes. Estes, fiados nas dificuldades do terreno, deixam de reunir tropas, e refugiam-se nos bosques e pântanos, levando o que era seu.

    VI - Divididas as tropas com o lugar-tenente C. Fabio e o questor M. Crasso, penetra Cesar no país com três corpos de exército por pontes feitas com rapidez, incendeia edifícios e aldeias, e apodera-se de grande quantidade de gado e homens. Reduzidos a tais apuros, mandam os Menapios embaixadores a Cesar pedir paz. Depois de lhes aceitar reféns, declara este que havia tê-los no número de inimigos, se recebessem em suas fronteiras, ou a Ambiorix ou a embaixadores seus. Assentando nisto,deixa-lhes de guarnição a Comio Atrebate com a cavalaria e marcha contra os Treviros.

    VII - Emquanto Cesar efetuava estas operações, dispunham-se os Treviros, reunidas grandes forças de infantaria e cavalaria, a atacar a Labieno e a legião, que invernava em suas fronteiras, e já distavam apenas dele uma marcha de dois dias, quando são informados de terem vindo duas legiões enviadas por Cesar. Colocados arraiais a quinze mil passos de distância, resolvem esperar pelas tropas auxiliares dos Germanos. Sabendo dos projetos do inimigo e contando ter pela temeridade deles ocasião de batê-los, deixa cinco coortes de guarda às bagagens, marcha a encontrá-los com as outras vinte e cinco e fortifica arraiais, metidos mil passos de permeio. Havia entre Labieno e o inimigo um rio de difícil passagem e ribanceiras escarpadas. Não tencionava o mesmo passá-lo e supunha o não passariam também os inimigos. Crescia diariamente a esperança de socorro a estes. Declara ele publicamente no concelho, que, pois corria de plano aproximarem-se os Germanos, não havia de arriscar os seus haveres e os do exército e levantaria campo no seguinte dia ao romper d'alva. É isto levado incontinenti aos inimigos, sendo que do grande número de cavaleiros Gauleses alguns havia a quem a natureza impelia a favorecer o partido gaulês. Convocados os tribunos dos soldados e os centuriões mais graduados, expõe-lhes Labieno o seu plano e para mais facilmente dar aos inimigos suspeitas de temor, manda levantar campo com mais estrepito e tumulto, do que é uso entre Romanos. Deu assim à partida visos de fuga. É isto também, em tanta proximidade de arraiais, logo antes do dia conhecido dos inimigos por exploradores.

    VIII - Mal saía a nossa retaguarda das fortificaçôes, quando os Gauleses, animando-se entre si a não largarem das mãos a esperada presa, como dizerem, que longo era, aterrados os Romanos, esperar pelo auxílio dos Germanos, e não condizia com seus brios deixarem de, com tantas tropas, atacar um tão pequeno corpo de exército, demais a mais quando ia fugindo, e embaraçado, não hesitam em passar o rio e travar combate em lugar desvantajoso. Suspeitando o que havia de ser, Labieno, para atrai-los a todos aquém do rio, adianta-se sossegadamente, usando da mesma simulação de retirada. Mandando depois levar um pouco para diante, e colocar as bagagens numa eminência, diz aos seus: "Soldados, eis a ocasião, que desejastes: tendes o inimigo embaraçado e em lugar desvantajoso; prestai-nos a nós lugar-tenente o apoio do mesmo valor, que muitas vezes prestastes ao general, e suponde que ele está presente e vê o que obrais." Ao mesmo tempo manda voltar as signas contra o inimigo, e ordenar em batalha; e, despedidos alguns esquadrões para guarda das bagagens, dispõe a cavalaria nos flancos. De repente os nossos, levantado clamor, arremessam os pilos contra os inimigos. Eles, tanto que, contra a esperança, viram virem contra com as signas infensas os que supunham irem fugindo, não lhes suportaram o choque sequer, e postos em fuga logo no primeiro recontro, demandaram as próximas selvas. Perseguindo-os com a cavalaria, depois de morto um grande número, e aprisionados muitos, submete Labieno a cidade dentro de poucos dias: porquanto os Germanos, que tinham vindo em auxílio, recolheram-se ao seu país, logo que presentiram a fuga dos Treviros. Seguindo-os, sairam também com eles da cidade os parentes de Induciomaro, promotores da rebelião. A Cingetorix, que fica dito haver-nos sido fiel desde princípio, é conferido o principado e supremo poder.

    IX - Depois que se transportou dos Menapios aos Treviros resolveu Cesar passar o Rim por dois motivos: era o primeiro haverem os Germanos mandado contra ele auxílio aos Treviros; o segundo, privar a Ambiorix de ter acolheita entre eles. Tomada esta resolução, determinou fazer uma ponte pouco acima do lugar, onde anteriormente passara o exército. Sendo conhecida a maneira de construi-la, em poucos dias conclui-se a obra por grande diligência dos soldados. Deixando uma forte guarnição à cabeça da ponte nos Treviros, para que não rebentasse da parte destes algum levantamento repentino, passa as restantes tropas e a cavalaria. Os Ubios, que haviam antes dado reféns, e feito a sua submissão, mandam-lhe embaixadores, para justificar-se alegando que a sua cidade não enviara auxílio aos Treviros, nem violara a fé pública, e pedindo suplicantemente, que os poupasse, para que no ódio contra todos os Germanos não pagassem os inocentes pelos culpados; pois, se queria mais reféns, estavam prontos a dá-los. Averiguado o negócio, vem Cesar no conhecimento de que o auxílio tinha sido prestado pelos Suevos; aceita a satisfação dos Ubios, e trata de examinar as entradas e caminhos para Suevos.

    X - Neste interim é, ao cabo de poucos dias, informado pelos Ubios de que os Suevos juntavam todas as tropas num lugar, e intimavam às nações, que estavam sob seu domínio, lhes enviassem forças auxiliares de infantaria e cavalaria. Sabido isto, provê ao fornecimento de víveres; escolhe lugar próprio para arraiais; ordena aos Ubios, tirem seus gados dos pastos, e conduzam tudo o que for seu, dos campos para as praças fortes, esperando que homens bárbaros e inexperientes podiam, obrigados da falta de provisões, ser levados a pelejar desvantajosamente; e recomenda-lhes enviem frequentes exploradores aos Suevos afim de saberem o que ali se passa. Cumprem os Ubios com o ordenado, e metidos de permeio poucos dias, referem: "Que todos os Suevos, depois de lhes haver chegado notícia certa da vinda do exército romano, se tinham embrenhado com todas as tropas suas, e as reunidas dos aliados, nos últimos confins de seu território: que havia aí uma selva de infinita grandeza, chamada Bacenis, a qual se estendia muitíssimo para o interior e oposta com muralha natural, protegia de ataques e incursões, aos Cheruscos contra os Suevos, aos Suevos contra os Cheruscos: que no principio desta selva resolveram os Suevos aguardar a vinda dos Romanos."

    XI - Já que somos chegados a este ponto, parece não ser alheio do assunto tratarmos dos costumes da Galia e da Germania e do que constitue a diferença entre estas duas nações. Há na Galia facções, não só em cada cidade, cada aldeia, e cada parte desta, mas até, para bem dizer, em cada casa; e são cabeças destas facções os que se reputam entre eles ter o maior crédito, para que a direção de todos os negócios e resoluções se faça a seu arbítrio e juizo. Isto parece ter sido antigamente instituído, para que todo o homem do povo encontrasse proteção contra os poderosos, sendo que ninguém tolera serem os seus oprimidos e enganados, pois, se procedesse de outra forma, não teria crédito algum para os de sua clientela. Esta forma de administração é uma e única na Galia toda; porque não há nela uma só cidade que não esteja dividida em dois partidos.

    XII - Quando Cesar veiu à Galia, eram os Heduos cabeceiras de uma facção, os Sequanos de outra. Estes, como menos poderosos, porque a maior autoridade residia antigamente nos Heduos, que tinham grandes clientelas, associaramse aos Germanos e Ariovisto, atraindo-os a si com grandes peitas e promessas. Havendo ganho muitas batalhas, e morto toda a nobreza dos Heduos, cresceram em poder, que traspassaram para si grande parte dos clientes dos mesmos Heduos, receberam destes em reféns os filhos dos principais, obrigaram-nos a jurar em nome da cidade, que nada tentariam contra eles Sequanos, apossaram-se por conquista do território comarcão, e exerceram a supremacia em toda a Galia. Levado a tal extremidade partiu Diviciaco para Roma a implorar auxílio ao senado, mas teve de voltar sem haver conseguido coisa alguma. Com a mudança de coisas operada pela vinda de Cesar, sendo entregues os reféns aos Heduos, restituídas as antigas clientelas, e adquiridas outras novas com o favor de Cesar, pois os que se lhes agregavam como amigos, viam que ficavam de melhor partido, e com direção mais equitativa, acrescentado em tudo mais o seu crédito e dignidade deles, decairam os Sequanos da supremacia. Sucederam-lhes os Remos no lugar; pois, sendo reputados iguais no favor de Cesar, os que por velhas inimizades se não podiam de maneira alguma unir com os Heduos, dedicavam-se aos Remos como clientes. Estes os protegiam com empenho, e mantinham assim uma autoridade nova e formada de repente. Tal era então o estado de coisas entre os Gauleses, que os Heduos eram reputados os mais principais, e os Remos, ocupar o segundo lugar em dignidade.

    XIII - Dois são em toda a Galia os gêneros de homens, que são tidos em alguma conta e estimação. Pois a plebe, que nada ousa por si, e a nenhum concelho é admitida, quase é tida no lugar de escravos. Os mais dela, quando se vêm oprimidos, ou por dívida, ou pela grandeza dos tributos, ou pela prepotência dos poderosos, escravizam-se aos nobres, que exercem sobre eles os mesmos direitos, que os senhores sobre os escravos. Mas destes dois gêneros um é o dos druidas, o outro, o dos cavaleiros. Aqueles entendem nas coisas sagradas, curam dos sacríficios públicos e particulares, e explicam as doutrinas e cerimônias da religião: a eles acode grande número de adolescentes com o fim de instruir-se, e esses são tidos em muita estimação. Pois os druidas decidem de quase todas as contendas públicas e particulares; e, se se comete crime, ou perpetra morte, se se disputa sobre herança, ou limites, julgam e estabelecem recompensas e castigos; se algum particular ou povo recusa sujeitar-se à decisão, lançam-lhe interdito na participação aos sacrifícios; o que é entre eles pena gravíssima. Os que assim incorrem no interdito, são tidos por ímpios e celerados, todos se apartam deles, fogem do seu acesso e conversação, para que não recebam dano com a comunicação, nem se lhes faz justiça, quando a solicitam, nem participam de honra alguma. A todos estes druidas porém preside um, que exerce a suprema autoridade, Morto este, ou lhe sucede o que sobresai em dignidade, ou se há muitos iguais na hierarquia, é eleito pelo sufrágio dos druidas: algumas vezes também disputam a preeminência pelas armas. Estes, em certo tempo do ano juntam-se em lugar consagrado nas fronteiras dos Carnutes, que se reputam o centro de toda a Galia. Para aqui se dirigem todos os que têm pleitos, e sujeitam-se às suas decisões e sentenças. Supõe-se haver sido esta doutrina deparada na Bretanha, e dali trans mitida à Galia; e ainda agora os que desejam estudá-la fundamentalmente, lá vão às mais das vezes aprendê-la.

    XIV - Costumam os druidas abster-se da guerra, e não pagam os tributos a que estão sujeitos os mais Gauleses; gozam da isenção da milícia e da imunidade de todos os encargos. Excitados por tais vantagens, muitos são os que os procuram para instruir-se na sua ciência, seja por livre vontade, seja mandados por seus pais e parentes. É fama que aprendem aí grande número de versos (e alguns há que gastam vinte anos neste estudo); mas não se permite escrevê-los, sendo que em tudo mais, ou se trate de negócio público, ou particular, usam de caracteres gregos. Parece-me que assim o instituiram por duas razões: primeira, evitarem que a sua doutrina se espalhe pelo vulgo; segunda, não deixarem os que aprendem, de cultivar a memória, fiados nos escritos; pois acontece ordinariamente, que com o socorro destes omitem muitos o cuidado de decorar, e o cultivo da memória. Fazem sôbretudo acreditar que as almas não perecem, mas passam, depois da morte, de uns para outros corpos, e com isso julgam incitar-se principalmetite ao valor, desprezando o medo da morte. Discorrem também muito sobre os astros e seu movimento, sobre a grandeza do mundo e a da terra, sobre a natureza das coisas, sobre a força e poder dos deuses imortais e transmitem os discursos à mocidade.

    XV - O outro gênero é o dos cavaleiros. Estes, quando é necessário, e ocorre alguma guerra (o que antes da chegada de Cesar quase todos os anos costumava a suceder, ou para empreenderem correrias, ou para repelirem as dos vizinhos), vão todos à guerra, e como cada um mais sobresai em nobreza e haveres, tanto mais guarda-costas e clientes têm em torno de si. Nisto fazem consistir todo seu crédito e poder.

    XVI - Toda a nação dos Gauleses é mui dada a superstições e por isso os que são acometidos de enfermidades graves, andam nas batalhas, e correm perigo, ou imolam vítimas humanas, ou prometem imolá-las; pois, a não se dar vida de homem por vida de homem, não julgam placável o poder dos deuses imortais; e estatuem sacrifícios públicos deste gênero. Alguns há que formam simulacros de descomunal grandeza, cujos membros tecidos com vime enchem de homens vivos, e aos quais lançado fogo, expiram homens abrasados pelas chamas. Reputam mais agradáveis à divindade os sacrifícios dos que são surpreendidos em furto, roubo, ou algum delito, mas, na falta destes, descem também aos sacrifícios dos inocentes.

    XVII - Adoram principalmente ao Deus Mercurio. Muitos são os simulacros, que dele possuem: consideram-no como o inventor de todas as artes, o guia dos caminhos e jornadas, o maior protetor no ganho de dinheiro e no comércio. Veneram depois dele a Apolo, Marte, Jupiter, Minerva. Destes tem quase a mesma opinião, que as mais nações: isto é, que Apolo expele as doenças, Minerva transmite os princípios dos artefactos, Júpiter tem o império dos céus, Marte preside à guerra. A este, quando se prepoem pelejar, votam as mais das vezes o que hão de tomar na guerra; imolam, depois de vencerem, os animais tomados, e depositam os mais objetos da presa num lugar. É de ver em muitas cidades montões destes objetos acumulados em lugares consagrados; e quase nunca acontece que, desprezando a religião, ouse alguém ou esconder em si o que tomou, ou tirar o que foi depositado, sendo que gravíssimo suplício com torturas está reservado a este crime.

    XVIII - Todos os Gauleses se apregoam descendentes de Dite, segundo lhes é transmitido pelos druidas. Por isso calculam a divisão do tempo, não pelo número dos dias, mas pelo das noites e contam-se os dias natalícios, e os princípios de meses e anos de modo que o dia vem sempre depois da noite. Nos mais usos da vida quase que só diferem dos outros povos em não consentir que seus filhos se aproximem deles em público, senão quando têm crescido a ponto de poder suportar o encargo da milícia, pois reputam indecoroso que o filho de idade pueril esteja em público na presença do pai.

    XIX - Ao dinheiro que, a título de dote, trazem as mulheres com que casam, juntam os maridos, feita a estimação, outro tanto de seus bens com os dotes. De todo este dinheiro faz-se um assento conjuntamente, e vai-se acumulando o rendimento. Àquele dos dois cônjuges que sobrevive, pertence a parte de um e outro com o rendimento de todo o tempo decorrido até então. Os homens têm, na qualidade de maridos, direito de vida e morte sobre suas mulheres, assim como na de pais, sobre seus filhos; quando morre algum pai de familia de ilustre linhagem, reunem-se os parentes do morto, e se há suspeita sobre a morte, põem as suas mulheres a tormento de escravos, e se se descobre que existe crime, fazem-nas perecer pelo fogo com todo gênero de torturas. Os funerais dos Gauleses são proporcionalmente a seu estado de cultura magníficos e suntuosos; todos os objetos, que amaram em vida, compreendidos os animais, são-lhes lançados na fogueira; e pouco antes deste tempo os escravos e clientes, que constava lhes haverem sido caros, eram igualmente queimados nos funerais.

    XX - As cidades que passam por melhor reger-se, têm estabelecido nas leis, que se alguém souber da parte dos povos vizinhos por boato ou fama alguma coisa que interesse a república, o participe ao magistrado, sem comunicá-lo a qualquer outro; pois tem-se reconhecido que homens imprudentes e sem experiência se deixam aterrar por falsos rumores, e impelir ao crime tomando resoluções precipitadas sobre negócios da maior importância. Os magistrados ocultam o que parece reservado, e comunicam à multidão o que reputam conveniente. Dos negócios de Estado não é permitido falar, senão em pública assembleia.

    XXI - Os Germanos diferem muito em costumes. Assim, nem têm druidas, que presidam as coisas divinas, nem sacrifícios. Contam unicamente no número dos deuses, os que vêm, e cujo socorro lhes é abertamente profícuo; isto é, ao Sol, a Vulcano, a Lua; os outros, nem ainda por fama conhecem. Toda a sua vida se passa em montearias e no mister das armas: afazem-se de pequeninos ao trabalho e à aspereza. Os que se conservam por mais tempo imberbes, são os mais estimados entre os seus, que acreditam que com isso se desenvolvem a estatura e as forças, e fortalecem os nervos. Conhecer mulher antes de fazerem os vinte anos, têm-no por vergonhosíssimo, sendo que o não podem esconder, pois não só se lavam promiscuamente nos rios, mas vestem-se de peles e com vestidos curtos feitos das de rangífero, ficando nua grande parte do corpo.

    XXII - Não se esmeram na agricultura, e a mor parte de seu sustento consiste em leite, queijo e carne. Nenhum tem campo demarcado ou de sua propriedade; mas os magistrados e os principais designam cada ano as gentes e parentelas, que vivem em comum, tanto espaço de campo para lavrar, quanto e onde parece conveniente, e os obrigam no seguinte ano a passar para outra parte. Muitas são as razões que dão desta usança, tais como: - para não trocarem, demovidos pelo hábito, o ardor guerreiro pela agricultura, não procurarem alargar cada um o seu campo, o mais poderoso a custo do mais fraco, não se ocuparem em construções próprias a guardá-los do frio e da calma, não fazerem nascer entre eles a ambição de dinheiro, donde procedem as facções e as discórdias, e conterem a plebe por um princípio de equidade, vendo cada um que iguala em riqueza ao mais poderoso.

    XXIII - Para as cidades o maior título de glória é terem solidões em torno de si, assolados quanto mais largamente os territórios comarcães. Consideram próprio de seu valor obrigar os vizinhos a retirarem-se expulsos de seus campos, sem ousarem fazer assento perto delas; reputam-se ao mesmo tempo em mais segura, porque não têm incursões repentinas a temer. Quando qualquer cidade, ou repele a guerra de invasão, ou a faz, elegem-se, para dirigi-la autoridades, que exercem o direito de vida e morte. Durante a paz não há autoridade alguma comum mas os maiorais dos cantões e aldeias distribuem justiça entre os seus e terminam as contendas. Os latrocínios, que se praticam fora das fronteiras, nenhuma deshonra trazem; tem-se como próprios para exercer a mocidade e diminuir-lhe a ociosidade. Quando algum dos principais declara no concelho, que há de ser chefe de uma expedição, e que, os que quiserem segui-lo, o dêm a conhecer, levantam-se aqueles que têm confiança na empresa e no homem, prometem-lhe o seu auxílio e são louvados pela multidão; os que dentre estes o não seguem, são tidos em conta de desertores e traidores, e a ninguém mais merecem crédito em coisa alguma. Não julgam permitido violar a hospitalidade; os que entre eles se acolhem por qualquer motivo, são protegidos e tidos por sagrados; todas as casas se lhes abrem, e facultam~se-lhes víveres.

    XXIV - Houve tempo em que os Gauleses excediam aos Germanos em valor, faziam-lhes guerra de invasão e por causa da multidão de homens, e da falta de terras, enviavam colônias além Rim. Assim os lugares os mais férteis da Germania em volta da selva Hercinia, (que vejo ter sido por fama conhecida de Eratostenes, e de certos gregos, com o nome de Orcinia), foram ocupados pelos Volcas Tectosages que neles se estabeleceram e permanecem até hoje, gozando de grande reputação de equidade e bravura, vivendo na mesma pobreza, necessidade e privações, que os Germanos e usando dos mesmos alimentos e vestuário. Aos Gauleses, porém, a vizinhança de nossa província e a importação de objetos transmarinos, ministram muitas coisas para viver em abundância e comodidade; acostumados pouco e pouco a ser vencidos e derrotados em muitas batalhas, hoje nem eles mesmos se comparam em valor àqueles.

    XXV - A largura desta selva Hercinia, de que acima falei, é de nove dias de jornada para o viandante expedito: nem de outra maneira se pode calcular, porque não conhecem as medidas itinerárias. Começa nas fronteiras dos Helvecios, Nemetes, e Rauracos, e seguindo o curso do Danúbio, estende-se até às fronteiras dos Daces e Anartes; daí torce à esquerda, e, com direção diversa da do rio, penetra por sua grandeza nas fronteiras de muitas nações; não há nesta parte da Germania quem diga haver com jornada de sessenta dias chegado ao princípio dela, ou tenha ouvido dizer de onde nasce: muitas são as espécies e alimárias, que consta nascerem nela, e não se vêm em outros países; eis as que dentre elas mais diferem das conhecidas e parecem dignas de ser mencionadas.

    XXVI - Há um boi com figura de cervo, do meio de cuja frente, entre as orelhas, se levanta um corno mais alto e direito, que os que vemos nos outros animais cornígeros. Da sumidade deste corno difundem-se largamente umas como palmas e ramos. A mesma é a natureza do macho e da fêmea; a mesma, a forma e grandeza dos corpos.

    XXVII - Há também dos animais, que se chamam alces. Assemelham-se às cabras na figura; são um pouco maiores em tamanho, de pele variegada, e mochos de cornos; têm as pernas sem nós, nem articulações; não se deitam para repousar; e, se por algum acidente caem, não se podem mais erguer, nem levantar do chão. As árvores lhes servem de leito; encostam-se a estas e assim tomam repouso um pouco reclinados. Quando pelo rasto dão os caçadores fé do lugar, a que costumam recolher-se estes animais, desarraigam nele todas as árvores, ou as cortam por modo que só apresentam a aparência de estarem em pé. No momento em que se vão segundo o costume reclinar, derribam com o peso as árvores cortadas e caem juntamente com elas.

    XXVIII - O terceiro gênero é dos que se chamam uros. São na grandeza pouco inferiores ao elefante; têm a aparência, cor e figura do touro. Grande é a sua força e velocidade. Nem a homem, nem a fera, vistos, poupam. Matam-nos, fazendo-os cair artificiosamente em fojos. Neste trabalho se endurecem os adolescentes; neste gênero de montearia se exercitam; e grande louvor alcançam os que maior número de uros matam, apresentando em prova os cornos destes animais. Nem ainda apanhados pequenos se podem afazer à presença do homem e domesticar. A amplidão, figura e beleza de seus cornos, difere muito da dos cornos de nossos bois. Procuram-nos com cuidado, guarnecem-lhes as bodas de prata e usam deles como copos nos grandes banquetes.

    XXIX - Depois que se soube pelos exploradores Ubios haverem-se os Suevos retirado para as selvas, receioso de carência de provisões, sendo que mui pouco se dão os Germanos à agricultura, como se disse, resolve Cesar não avançar mais; mas, para não tirar totalmente o medo de sua volta, e afim de retardar aos bárbaros a remessa de forças para a Galia, depois de retirada do exército, rompe, na extensão de duzentos pés, a última parte da ponte, que tocava nas ribanceiras dos Ubios, constroi na extremidade oposta uma torre de quatro andares, e deixa para a defesa da ponte uma guarnição de doze coortes, fortificando o lugar com grandes entrincheiramentos. A este lugar e sua guarnição prepõe o adolescente C. Volcacio Tulo. E, como começassem a amadurecer os pães, marcha ele próprio para a guerra de Ambiorix pela floresta das Ardenas, que é a maior de toda a Galia, e extende-se desde as margens do Rim e fronteiras dos Treviros até aos Nervios por um espaço de mais de quinhentas milhas, fazendo-se preceder, no intuito de adiantar com a celeridade da marcha e oportunidade do tempo, por L. Minucio Basilo com toda a cavalaria, ao qual recomenda proiba fazerem-se fogueiras nos arraiais, para que não seja denunciada de longe a sua vinda, e assegura que em breve seria com ele.

    XXX - Age Basilo, como lhe fora recomendado. Fazendo uma marcha rápida, e contra a opinião de todos, surpreende a muitos dos inimigos nos campos: por indicação destes se dirige para onde se dizia estar Ambiorix com poucos cavaleiros. Muito pode a fortuna na guerra, assim como em tudo mais. Pois assim como por grande acaso sucedeu que Basilo desse com Ambiorix incauto e desapercebido, e que a vinda do primeiro fosse vista de todos, antes de poder ser anunciada pela fama e pelos correios, assim foi de grande fortuna para o segundo escapar da morte, perdendo todo o trem bélico, que tinha em volta de si, e carros e cavalos. Mas assim aconteceu, porque sendo a sua casa circundada de um bosque (como de ordinário são as casas dos Gauleses, que, para evitar a calma, buscam quase sempre a vizinhança dos bosques e dos rios), os seus companheiros e amigos sustentaram por um pouco o ataque de nossa cavalaria em um desfiladeiro. Emquanto estes pelejavam, fé-lo um dos seus montar a cavalo: os bosques o protegeram na fuga. Assim muito pode a fortuna, quer no afrontar, quer no evitar o perigo.

    XXXI - Se Ambiorix deixou de reunir suas tropas de propósito, por entender não se dever combater, ou se por não caber no tempo reuni-las, e ver-se embaraçado de o fazer com a repentina chegada de nossa cavalaria, é coisa que se não pode bem determinar. O que é certo, é que, despedindo correios pelos campos, ordenou que cada um provesse na própria segurança. Deles se refugiaram na selva das Ardenas: deles em uma não interrompida continuidade de paúes os que vizinhavam com o Oceano, ocultaram-se naquelas ilhas, que os estos costumam formar; muitos, saindo de suas fronteiras, se confiaram a si, e o que era seu, a outras inteiramente estranhas. Catuvolco, rei de metade dos Eburões, que se tinha associado a Ambirorix, não podendo já, alquebrado pela idade, suportar o trabalho ou da guerra ou da fuga, cobrindo de todo o gênero de execrações a Ambiorix, envenenou-se com teixo, de que há grande cópia na Galia e Germania.

    XXXII - Os Segnes e Condrusos, povos de raça germânica, que demoram entre os Eburões e os Treviros, mandaram a Cesar embaixadores pedir-lhe que os não tivesse no número de inimigos, nem julgasse ser uma e a mesma a causa de todos os Germanos, que habitavam aquém Rim: que nenhuma parte haviam eles tomado na guerra, nem enviado socorros alguns a Ambiorix. Verificado o caso por inquirição dos prisioneiros, ordenou-lhes Cesar que reconduzissem à sua presença aqueles dos Eburões fugitivos, que pela ventura os procurassem, assegurando-lhes que, se assim praticassem, não lhes havia de violar as fronteiras. Depois, divididas as tropas em três partes, fez transportar para Aduatuca as bagagens de todas as legiões. É esse o nome de um castelo situado quase no centro das fronteiras dos Eburões, onde Titurio e Aurunculeio haviam acampado para invernar. Escolhera este lugar, assim por outros requisitos, como para poupar trabalho ao soldado, pois existiam ainda intactos os entrincheiramentos do ano precedente. De guarda ás bagagens deixou a décima quarta legião, uma daquelas três, que de próximo alistadas tinha feito vir da Itália. A esta legião e seus arraiais prepôs a Q. Tulio Cicero, e deu-lhe duzentos de cavalo.

    XXXIII - Dividido o exército, a T. Labieno com três legiões manda marchar para as partes contra o Oceano, as quais tocavam nos Menapios; a C. Trebonio com igual número de legiões despede a devastar a região adjacente aos Aduatucos; com as três restantes resolve dirigir-se em pessoa ao Escalda, que corre para o Mosa, e ao extremo das Ardenas, para onde ouvira dizer partido Ambiorix com poucos de cavalo. Ao retirar-se, declara que voltaria no sétimo dia, no qual sabia dever-se o pão à legião, que ficava de guarnição. Exorta a Labieno e Trebonio, que, se o puderem fazer sem prejuízo do serviço público, voltem naquele dia, afim de deliberar-se por novo acordo com conhecimento das disposições do inimigo, se conviria dar outra direção à guerra.

    XXXIV - Não havia, como acima ficou demonstrado, tropa alguma estável, nem praça, nem presídio, que se defendesse com armas, mas uma multidão por todas as partes dispersa. Quando, ou um vale abscôndito, ou um lugar arborizado, ou um paúl embaraçoso, proporcionava a cada um alguma esperança de socorro ou salvação, aí se acoutavam. Estes lugares eram conhecidos das vizinhanças, e o caso requeria muito tento, não no proteger o todo do exército (pois nenhum perigo lhe podia vir de inimigos aterrados e dispersos), mas no conservar cada soldado; o que todavia pela parte dizia respeito à conservação do todo. Não só a cobiça da presa levava a muitos um pouco longe, como também os bosques lhes vedavam penetrarem reunidos por caminhos incertos e ocultos. Para dar um golpe decisivo, e acabar com essa raça de celerados, era mister enviar muitos corpos de tropas, e dividir os soldados: para conté-los junto às signas, como pedia a ordem e o costume do exército romano, o mesmo lugar servia de defesa aos bárbaros, nem lhes faltava audácia para dos esconderijos insidiarem, e cercaram os dispersos. Em dificuldades de tal natureza, providenciava-se quanto era possível fazê-lo, de maneira que antes se omitisse alguma coisa no empecer ao inimigo, posto os ânimos ardessem por vingança, que se empecesse com prejuízo dos soldados. Expede Cesar correios às cidades vizinhas; a todas convida com a esperança da presa a espoliar os Eburões, afim que antes se arriscasse nos bosques a vida dos Gauleses, que a do soldado legionário; ao mesmo tempo para que, com a acometida de grande multidão, se extinguisse a raça e o nome da cidade, que cometera tal atentado.

    XXXV - Passavam-se estas coisas em toda a parte entre os Eburões, e aproximava-se o dia sétimo, no qual resolvera Cesar voltar para a legião, que guardava as bagagens. Viu-se, então, o que pode a fortuna na guerra, e que eventualidades acarreta. Dispersos e aterrados os inimigos, não havia, como dissemos, tropa alguma que inspirasse o menor receio sequer. Chega aos Germanos dalém Rim a fama de estarem sendo esbulhados os Eburões, e de serem todos convidados a tomar livremente parte na presa. Os Sibambos, vizinhos do Rim, que haviam, como mostramos, acolhido os Tencteres e Usipetes fugitivos, reunem dois mil cavaleiros. Passam o Rim em canoas e jangadas, trinta mil passos abaixo do lugar, onde fora feita a ponte, e deixado por Cesar o presídio; chegam às primeiras fronteiras dos Eburões; surpreendem muitos fugitivos; apoderam-se de grande porção de gado, de que são avidíssimos os bárbaros. Convidados pela presa vão mais longe. Nascidos no meio da guerra e dos latrocínios, não havia paúl, nem bosque, que os detivesse. Indagam dos cativos, onde se acha Cesar, sabem ter partido para longe, e haver-se retirado todo o exército. "Porque, diz um dos cativos, ides após essa miserável e mesquinha presa, quando podeis ficar riquíssimos? Em três horas chegareis a Aduatuca: para alí passou o exército romano todos os seus haveres: a guarnição é tão pequena, que não pode cingir o muro, nem alguém se anima a sair dos entrincheiramentos." Nesta esperança deixam os Germanos em lugar oculto a presa que tinham feito e partem para Aduatuca, servindo-se do mesmo guia, por cuja indicação souberam disto.

    XXXVI - Cicero, que todos os precedentes dias havia cuidadosamente contido os soldados nos arraiais segundo os preceitos de Cesar, e nem sequer criado algum tinha tolerado sair dos entrincheiramentos, no sétimo dia, supondo que Cesar não guardaria a promessa relativamente ao número de dias, pois ouvia dizer que tinha avançado para mais longe, nem chegava notícia alguma de sua volta, movido ao mesmo tempo pelas vozes dos que chamavam a sua paciência um quase cerco, porque lhes não era permitido sair dos arraiais, não contando com acidente algum de tal natureza, onde opostas nove legiões e muitíssima cavalaria, dispersos e destruídos os inimigos, não podia ser ofendido numa circunferência de três mil passos, envia cinco coortes a cortar trigo nas próximas searas, entre as quais e os arraiais somente se metia de permeio uma colina. Haviam ficado muitos doentes das legiões, dos quais os que tinham convalescido neste espaço de dias, cerca de uns trezentos, são juntamente mandados sob o mesmo vexilio; vai além disso, dada a permissão, grande multidão de criados com grande quantidade de bestas, que existiam nos arraiais.

    XXXVII - Nesta conjuntura sobrevêm os cavaleiros germanos, e logo na mesma arrancada em que vinham, tentam penetrar nos arraiais pela porta decumana, e não foram vistos, por causa de um bosque oposto por este lado, senão depois de se aproximarem dos arraiais a ponto de se não poderem acolher a eles os mercadores, que se abarracavam junto ao entrincheiramento. Os nossos, tomados de improviso, perturbam-se com a novidade do sucesso, e mal sustenta o primeiro assalto a coorte, que se achava de guarda. Espalham-se os inimigos em volta a todos os arraiais, para descobrir alguma entrada. Com dificuldade guardam os nossos as portas; o mesmo lugar, e a fortificação defende os mais pontos. Tudo é confusão nos arraiais; inquire este daquele a causa do tumulto; não se providencia para onde se hajam de levar as signas, nem qual seja o ponto em que cada um se tem de reunir. Um anuncia que os arraiais estavam tomados; outros que, destruido o exército e morto o general, chegavam os bárbaros vencedores; muitos forjam-se novos terrores supersticiosos pelo lugar, pondo diante dos olhos a calamidade de Cota e Titurio, que pereceram no mesmo castelo. Cortados todos de tal temor, confirma-se aos bárbaros a opinião, de que não havia dentro guarnição, segundo ouviram dizer ao cativo. Esforçam-se por penetrar a todo transe, e exortam-se entre si a não deixar escapar das mãos tamanha presa.

    XXXVIII - Tinha ficado enfermo no presídio P. Sextio Baculo, que fora feito primipilar sob o comando de Cesar, e de quem fizemos menção nos precedentes combates. Havia já cinco dias que não tomava alimento. Este, desconfiando da sua e da comum salvação, sai da tenda desarmado; vê os inimigos eminentes e as coisas no último extremo; arma-se com as armas dos que encontra, e posta-se na porta. Seguem-no os centuriões da coorte, que estava de guarda, e sustentam juntamente o combate por um pouco. Perde Sextio os sentidos com as graves feridas recebidas, e, levado em braços, é com dificuldade salvo. Metido de permeio este espaço, animam-se os demais a permanecer algum tempo nas trincheiras, e a apresentar a aparência de defensores.

    XXXIX - Feito, no entanto, o corte do trigo, ouvem nossos soldados o clamor; corre adiante a cavalaria; e conhece em que extremo se acham as coisas. Aqui, porém, não há entrincheiramento, que proteja os aterrados: alistados de pouco e sem experiência da milícia, voltam-se todos para o tribuno dos soldados e para os centuriões; esperam o que lhes seja por eles prescrito. Ninguém há tão forte que se não perturbe com a novidade do caso. Vendo ao longe as signas, desistem os bárbaros do assalto: julgam a princípio estarem de voltas as legiões, que sabiam dos cativos haverem avançado para mais longe: desprezando depois o pequeno número dos nossos, investem contra eles de todas as partes.

    XL - Correm os criados para a próxima colina. Lançados imediamente daí, refugiam-se nas signas e esquadras das coortes, aterrando ainda mais os soldados tímidos. Pensam uns que, estando tão vizinhos dos arraiais, deve-se, formado o cuneo, romper prontamente para ali, pois, ainda que pereça alguma parte cercada, confiam poder salvar-se o resto; outros, que devem ocupar a colina, ter todos o mesmo destino. Tal não aprovam os soldados velhos, que, como dissemos, tinham partido sob o mesmo vexilo. Assim, exortando-se reciprocamente, sob o seu chefe, C. Trebonio, cavaleiro romano, que lhes fora preposto, rompem pelo meio dos inimigos, e chegam sãos e salvos aos arraiais todos sem faltar um só. Mas os que tinham ocupado a colina, carecedores ainda de toda e qualquer experiência da guerra, nem puderam permanecer na resolução tomada de defender-se de um lugar superior, nem imitar o arrojo e a celeridade, que viram aproveitar aos outros, mas tentando acolher-se aos arraiais, lançaram-se, num lugar desvantajoso. Os centuriões, alguns dos quais tinham sido pelo seu valor promovidos das graduações inferiores das demais regiões às superiores destas, para não perderem a glória militar adquirida antes, morreram pelejando muito esforçadamente. Parte dos soldados, repelidos os inimigos pelo valor daqueles, chegou contra a esperança, sã e salva aos arraiais; parte pereceu, cercada pelos bárbaros.

    XLI - Perdida a esperança de expugnar os arraiais, (pois já viam os nossos postados nas trincheiras), retiram-se os Germanos para além Rim com a presa, que haviam depositado nos bosques. E tanto foi o terror ainda depois da retirada dos inimigos, que C. Voluseno, mandado com a cavalaria, chegando nessa noite aos arraiais, não poude fazer acreditar, que Cesar estava presente com o exército são e salvo. De tal sorte tinha o temor preocupado os ânimos, que diziam com mente quase alienada, que a cavalaria se retirara fugitiva, destruídas todas as mais tropas, porque os Germanos não haviam de assaltar os arraiais, se o exército estivesse intacto - A chegada de Cesar veiu acabar com este pânico.

    XLII - Não ignorando as eventualidades da guerra, de uma única coisa queixou-se Cesar, ao voltar, o terem sido as coortes tiradas da estação e do presídio, demonstrando - que nem ainda ao menor acidente se devia deixar lugar - que muita parte tinha tido a fortuna na repentina chegada dos inimigos, e muita mais ainda, em fazê-los retirar quase das trincheiras e portas dos arraiais. De tudo isto o que lhe parecia mais para admirar, era que os Germanos, que haviam passado o Rim com desígnio de talar as fronteiras de Ambiorix, levados aos arraiais dos Romanos, tinham ao mesmo Ambiorix prestado o maior serviço.

    XLIII - Partindo para perseguir novamente os inimigos, expede Cesar para toda parte grande número de homens reunidos das cidades vizinhas. Incendeiam-se todas as aldeias e edifícios, que se deparam; saqueiam-se todos os lugares; o trigo não só era consumido por tamanha multidão de bestas e homens, mas havia também sido estragado nos campos pelas chuvas e pelo mau tempo; de modo que, se alguns ainda se ocultavam no presente, teriam pravavelmente de perecer pela carência de tudo, depois de efetuada a retirada do exército. E, espalhada por toda parte tanta cavalaria chegou-se muitas vezes a tal lugar, que os cativos procuravam em volta com os olhos a Ambiorix pouco antes deles visto, e sustentavam não estar ainda inteiramente fora do alcance da vista, de sorte que na esperança de alcançá-lo, e com infinito trabalho, quase que venciam na diligência a natureza humana os que esperavam obter a graça especial de Cesar, e sempre pouco parecia ter faltado à suma felicidade de o conseguir, e ele salvava-se nos esconderijos e bosques, e, oculto, demandava de noite outras regiões e paragens com uma escolta apenas de quatro cavaleiros, únicos a quem ousava confiar a sua vida.

    XLIV - Assolado por tal forma o país, reconduz Cesar o exército com perda de duas coortes a Durocortorum dos Remos, e convocando para ali o concelho da Galia, devassa da conjuração dos Senones e Carnutes, pronunciada sentença de morte contra Accão, que fora autor desta conjuração, o mandou justiçar ao modo dos antigos Romanos. Alguns fugiram, receiando o julgamento. E tendo a estes posto o interdito da água e do fogo, colocou, para invernar, duas legiões nas fronteiras dos Treviros, duas entre os Lingones, as seis restantes nas dos Senones em Agedico, e, providenciado o provimento de víveres para o exército, partiu para a Itália, como assentara, a reunir as juntas provinciais da Galia Cisalpina.
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    Item Reviewed: Guerra da Gália - Livro VI Rating: 5 Reviewed By: Pbsena Sena

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