Odisséia de Homero - Livro XVI - Tifsa Brasil
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    22 de junho de 2018

    Odisséia de Homero - Livro XVI

    O herói de madrugada e Eumeu divino
    Fogo acendem na choça e almoço aprestam,
    Indo os serventes pastorar os porcos.
    Sem latir, a Telêmaco aventando,
    5 O festejavam cães; sentindo Ulisses
    As caudas a mover-se: “Eumeu, gritou-lhe,
    Ou sócio ou conhecido se aproxima;
    Tropel me soa, e os ledos cães não ladram.”
         Mal acabava, à porta o jovem pára;
    10 E, pulando o porqueiro atabalhoado,
    Caem-lhes os vasos e o licor transfuso;
    A encontro, as mãos lhe beija e a testa e os olhos.
    Qual pai, ao décimo ano, ameiga a prole
    De longes terras vinda, a só que em velho
    15 Teve e lhe suscitou mil pesadumes;
    Tal o pastor seu amo acaricia,
    Como um ressuscitado, e exclama e chora:
    “Eis-te, meu doce lume! dês que a Pilos
    Navegaste, rever-te não contava.
    20 Entra, meu coração deleita, ó filho,
    A nós restituído: raro o campo
    Visitas e os pastores; na cidade,
    Contino observas os funestos procos.”
         “Velho irmão, diz Telêmaco, obedeço;
    25 Ver-te e ouvir-te aqui venho; tu me informes
    Se inda está minha mãe no seu palácio,
    Ou se casou: talvez aranhas torpes
    Jazam de Ulisses no vazio leito.”
    “Ela, o informa o pastor, no teu palácio
    30 Constante sofre; a suspirar consome
    A noite aflita e o lagrimoso dia.”
         A lança então recebe, e o amo salva
    A lapídea soleira. O assento Ulisses
    Quer ceder, mas Telêmaco o proíbe:
    35 “Não te incomodes, hóspede; um assento
    Me ajeitarão.” Seu posto Ulisses toma;
    Ele abanca-se em ramos que de peles
    Eumeu forra. O pastor pães em cestinhos,
    De assados põe de véspera escudelas,
    40 Num canjirão mistura o doce vinho,
    Do grã Laércio em frente se coloca;
    Os comensais atiram-se às viandas.
         Fartos enfim, Telêmaco interroga:
    “Velho irmão, como este hóspede aqui veio?
    45 Que nautas o trouxeram? de que terra?
    A Ítaca não creio a pé viesse.”
    Assim falaste, Eumeu: “Digo a verdade.
    Ser de Creta blasona, e haver corrido
    Muitas cidades por divino influxo.
    50 De nau Tesprócia escapo, aqui chegou-se.
    Dispõe dele a prazer, eu to encomendo;
    Súplice teu se ufane.” — “Amigo, o jovem
    Lhe bradou precavido, que proferes?
    Comigo ter um hóspede! Não posso,
    55 Tão moço, defendê-lo de uma afronta:
    Minha mãe ora no ânimo cogita
    Se, dedicada ao filho, a seu marido
    E ao público respeite, ou se dos Gregos
    Se una ao melhor que à larga a presenteia.
    60 Já que nesta choupana o recolheste,
    Capa e túnica, ancípite uma espada
    E sandálias terá, terá passagem
    Para onde se lhe antoje. Hei de mandar-lhe,
    Se o cá deténs, a roupa e o mantimento,
    65 Para não te comer e aos sócios tudo.
    É perigo na régia apresentá-lo;
    Os soberbões cruéis o insultariam,
    Agra dor para mim: do herói mais forte
    Contra muitos e tais é baldo o empenho.”
    70 O pai se entremeteu: “Se opinar devo,
    O que, amigo, te ouvi rói-me as entranhas:
    Sendo quem és, tiranos tais protervos
    A teu olhos conspiram! Não resistes,
    Ou por celeste voz te odeia o povo?
    75 Acusas tu a irmãos, em cujo esforço
    Nas maiores discórdias confiamos?
    Por que a idade ao valor não corresponde!
    Por que não sou seu filho, ou mesmo Ulisses,
    Em quem inda se espera! Esta cabeça
    80 Me cerceassem, do Laércio aos paços
    Despejo tal se castigar não fosse.
    Antes morrer, da vil caterva opresso
    Nos lares meus, que vê-los sem decoro,
    Violadas servas, hóspedes vexados,
    85 Sem fruto as produções e o vinho exausto.”
         Respondeu-lhe Telêmaco: “Em verdade,
    Nem povo hostil, nem meus irmãos acuso,
    Em quem mais nas discórdias confiamos.
    Fez Jove solitária a nossa estirpe:
    90 De Arcésio foi gerado o só Laertes;
    Só foi deste meu pai; só fui de Ulisses,
    Que não fruiu das filiais carícias.
    Tem ora inçada a casa de inimigos:
    De Ítaca bronca, de Zacinto umbrosa,
    95 E de Same e Dulíquio, os optimates
    Requestam minha mãe, seus bens consomem
    Ela as núpcias odiosas nem rejeita,
    Nem as conclui; entanto, os pretendentes
    Hão de em breve de todo arruinar-me:
    100 Jaz porém minha sorte aos pés dos numes.
    Eumeu, sus, à rainha me anuncies
    Incólume de Pilos: cá não tardes;
    Nenhum te sinta que meu dano teça.”
         “Percebo, diz Eumeu; terei cautela.
    105 De uma via posso eu participá-lo
    A teu mesquinho avô? Com mágoa embora
    Do ausente filho, aos servos presidindo,
    Se nutria à vontade; mas, a Pilos
    Dês que te foste, o vinho enteja e o pasto,
    110 Esquece-lhe o trabalho, e geme e chora,
    Tábida a cútis se lhe apega aos ossos.”
         “Triste aflição! Telêmaco pondera;
    Mas deixá-lo na dor convém por ora:
    A nosso arbítrio se estivesse tudo,
    115 Era aqui já meu pai. Tu anda e volta,
    Para o avisar no campo não divagues;
    Minha mãe que despache a despenseira,
    E esta em segredo o comunique ao velho.”
    As sandálias Eumeu calçado, parte.
    120 A partida a Minerva não se esconde
    Que tem-se à entrada, na gentil figura
    De moça airosa e no lavor perita.
    A Telêmaco invisa (um nume a todos
    Não se apresenta), Ulisses a descobre,
    125 E os cães também, que sem ladrar fugiam
    Pelo pátio a ganir. Das sobrancelhas
    Ao sinal, entendido sai da choça
    E extramuros o herói; fronteira Palas:
    “Divo Laércio, diz, abre-te agora
    130 Com teu filho; à cidade encaminhai-vos
    O extermínio a tramar dos pretendentes:
    Sem mora a combater serei convosco.”
    Eis de áurea vara o toca; da alva capa
    E da túnica dantes o reveste,
    135 O engrandece e vigora o nédio rosto,
    Morena a cor de novo, azula a barba.
    Isto completo, retirou-se Palas.
         Volve Ulisses; pasmado o filho caro
    Vira os olhos, temendo que um deus fosse,
    140 Veloz fala: “Diverso me apareces,
    Tens, hóspede, outras vestes e outra cútis;
    Certo és um dos celícolas. Benigno
    Tu nos perdoa, e gratos sacrifícios
    E áureos dons haverás.” Súbito Ulisses:
    145 “Não sou deus, a imortais não me equipares;
    Sou teu pai, sou quem choras, quem suspiras,
    Por quem padeces vitupérios tantos.”
         Nisto a seu filho beija, e à terra a pares,
    Não mais contidas, lágrimas borbulham.
    150 Mas Telêmaco incerto: “Eu não te creio;
    Não és meu pai, és deus que assim me enganas
    E aumentas minha dor. Um simples homem
    Por si não se transforma em velho ou moço:
    Tu, decrépito há pouco e mal trajado,
    155 Um íncola do Olimpo ora semelhas.”
         Contesta o sábio herói: “Não te é decente
    Filho, surpresa tal, nem outro Ulisses
    Verás; sou eu, que, após tremendas provas,
    Chego ao vigéssimo ano à pátria amada.
    160 A predadora Palas me converte
    Num apôsto mancebo ou num pediente:
    A prazer, aos celícolas é fácil
    Tornar qualquer mortal formoso ou torpe.”
         Aqui, sentou-se; o príncipe entre os braços
    165 O estreita a soluçar: incita o amplexo
    O desejo de lágrimas em ambos:
    Seus gemidos estrugem, quanto os grasnos
    De abutres e águias de recurvas unhas,
    A quem pilhou pastor ninhada implume.
    170 E o Sol cadente em prantos o deixara,
    Se Telêmaco ao pai não perguntasse:
    “Que nautas cá, meu pai, te conduziram?
    A Ítaca a pé de certo não vieste.”
         O paciente Ulisses respondeu-lhe:
    175 Transportaram-me os ínclitos Feaces,
    Que usam fazê-lo aos mais que lá naufragam.
    No ligeiro baixel dormindo sempre,
    Fui deposto na praia, de ouro e cobre
    E belas teias rico; dons que em antro
    180 Por divino favor se arrecadaram.
    Palas mandou-me aqui tratar contigo
    Do estrago desses procos: quais e quantos
    Numera-os tu; pois no ânimo valente
    Pesarei se podemos debelá-los,
    185 Ou se nos é mister auxílio estranho.”
    Mas Telêmaco: “Eu sei, pregoa a fama,
    Quão prudente és, meu pai, guerreiro e forte;
    Nímio porém me assombra o teu discurso:
    Dous sós, tantos valentes combatermos!
    190 Nem dez são, nem o dobro: enviou Dulíquio
    Cinqüenta e dous galhardos, com seis pajens;
    Oitenta e quatro, Same; tem Zacinto
    Vinte Gregos de prol; Ítaca mesma,
    Ótimos doze, com Médon arauto
    195 E o cantor, mais dous hábeis cozinheiros.
    Temo, se a todos atacarmos dentro,
    Que proves ao regresso amargos transes:
    Olha se ativo auxiliar careias.”
         Ulisses retorquiu-lhe: “Ouve-me; atenta
    200 Se nos bastam Minerva e o pai Satúrnio,
    Ou se outro ajudador nos é preciso.”
    Logo o filho: “Esses podem lá das nuvens,
    Mais que homens e outros numes, socorrer-nos.”
         De novo Ulisses: “Longo tempo fora
    205 Não serão da peleja, ao decidi-la
    Em meu palácio o marcial denodo.
    Vai n’alva reunir-te aos arrogantes;
    Serei, na forma de um mendigo anoso,
    Guiado por Eumeu. Sofre no peito
    210 Que da nossa morada eles me enxotem,
    Rojem-me a pontapés e golpes vibrem;
    Com doçura os modera, a dor sopeia:
    Nenhum te escutará, que os cerra o fado.
    N’alma isto agora imprime: quando Palas
    215 Mo influir, ao meu nuto as armas leves,
    Que estão na sala, para o andar cimeiro;
    E caso alguém o estranhe, assim te escuses:
    — Quais as deixou meu pai, já não luziam,
    Do vapor do fogão fui preservá-las;
    220 E outro medo o Satúrnio suscitou-me:
    Entre os copos, ferir-vos poderíeis,
    Nosso convívio e os esponsais manchando;
    Pois a força do ferro atrai o homem.
    Reserva para nós só dous alfanjes,
    225 Dous maneiros broquéis e lanças duas,
    Para a divina empresa: hão de Minerva
    E o providente Jove conturbá-los.
    E se és meu sangue, filho, em ti sepultes
    Este arcano; de Ulisses ninguém saiba.
    230 Laertes, o pastor, qualquer dos servos,
    Nem Penélope mesma. Só tentemos
    O pensar das mulheres; qual dos nossos
    Nos respeita e aprecia; de seus amos
    Qual ingrato se esquece e te honra pouco.”
    235 E o filho: “Ó pai, conhecerás, espero,
    Que nem cobarde sou, nem leviano:
    Mas julgo, e tu reflitas, que a nós ambos
    É dúbio o lance. Ao passo que examines
    Os servos um por um, de prédio em prédio,
    240 Os tais sem dó nem pejo a casa esbanjam.
    Das mulheres, concordo, é bom que indagues,
    Das ruins que teus lares enxovalham:
    Quanto aos homens, difere até que acene,
    Se teu acenar, o egípero Satúrnio”
    245 Entretanto, abordava a nau remeira
    Que trouxera a Telêmaco de Pilos;
    Em seco e desarmada, os da equipagem
    De Clito em casa os ricos dons puseram.
    À prudente rainha arauto expedem
    250 A anunciar que o filho, já no campo,
    Os mandava vogar para a cidade;
    E a mãe suspenda os prantos e os temores:
    O arauto e Eumeu se encontram no caminho.
    Do rei divino ao pórtico chegados,
    255 O arauto grita em público: “Senhora
    Veio o caro Telêmaco.” Em voz baixa
    Expondo Eumeu do príncipe o recado,
    Sai do recinto e a seus currais se torna.
         Mestos os pretendentes, ante as portas
    260 Sentam-se externas. De Pólibo o nado
    Eurímaco encetou: “Cumpriu-se, amigos,
    Plano audaz que julgávamos falhasse,
    E regressou Telêmaco: esquipemos
    Outro lesto baixel que advirta os sócios.”
    265 E vôlto ao mar Anfínomo, um navio
    Entrando a remos no profundo porto
    Viu, já dobrado o pano, e a rir começa:
    “É supérfluo um aviso, ei-los que arribam.
    Ou lho disse algum deus, ou deram caça
    270 E lhes fugiu Telêmaco.” Eles presto
    Vão-se à praia; a maruja, a nau varada,
    A despia de enxárcias e aparelhos.
         Ali junto um conselho, sem que ou moço
    Ou velho se abancasse, Antino enceta:
    275 “Os Céus a ponto, amigos, o salvaram!
    De dia assíduas em ventosos cumes
    Sentinelas havia; ao Sol ocaso.
    Rumo do mar, à noite navegando,
    Nunca em terra dormíamos, à espera
    280 Que ao rosicler da aurora aparecesse
    E insidiado vítima nos fosse:
    Um nume o protegeu. Deliberemos:
    Se viver, malogrado é nosso intento.
    Ele é firme e discreto, e já não somos
    285 Como dantes benquistos: crede, ao povo
    Excitado arengando em parlamento,
    A nossa trama explicará baldia;
    E o povo em sanha, desta ação bramindo
    Pode exilar-nos para estranha terra.
    290 Ou no campo ou na estrada combinemos
    Dar cabo dele: haveres e tesouros
    Partilhando igualmente, à mãe cedemos,
    E ao marido que eleja, este palácio.
    Vivo se inda o quereis, e em plena posse
    295 Dos bens paternos, é melhor cessarmos
    De lhos comer; e cada qual, dotando-a,
    A resqueste de casa: ela que espose
    Quem mais a prende ou favoneie a sorte.”
         Emudeceram; mas ergueu-se Anfínomo,
    300 Do Axetíades Niso real prole,
    Chefe dos procos de Dulíquio herbosa
    E pingue em cereais, por bom e afável
    Mais à rainha grato, e orou sisudo:
    “Amigos, eu me oponho. A régio garfo
    305 Árduo é matar; os deuses consultemos:
    Se o reto Jove o aprova, eu mesmo os golpes
    Hei de vibrar afouto e compelir-vos;
    Do contrário, nos cumpre aquietarmos.”
    Prevalece este aviso, e levantados,
    310 Vão-se ao palácio em tronos se recostam.
         A sensata Penélope, instruída
    Pelo arauto Médon do atroz conluio,
    Presentar-se resolve aos afrontosos;
    Entre mulheres, véu luzido ao rosto,
    315 Majestosa ao limiar da ornada sala,
    Increpa Antino: “Em vão, cruel, te aclamam
    Dos coevos primeiro em siso e falas;
    Néscio, ante Jove aos súplices atento,
    Urdes ao meu Telêmaco a ruína!
    320 É ímpio de outrem cogitar a morte,
    Esqueces que teu pai teve este asilo,
    Fugindo à multidão, pós ele acesa
    Porque aos Táfios ladrões se unira em dano
    Dos aliados nossos os Tesprotes?
    325 Rasgar-lhe o peito e os bens queria o povo
    Destruir-lhe; o furor susteve Ulisses:
    Desonras deste a casa, a esposa tentas,
    Matas-lhe o filho, minha dor cumulas.
    Cessa, Antino, e teus cúmplices que cessem.”
    330 Eurímaco arengou: “De Icário, ó prole,
    Bane d’alma o temor; nem há, nem houve,
    Nem haverá quem mãos ponha em teu filho,
    Enquanto eu vir o Sol. Digo e executo:
    Nesse traidor ensoparia a lança.
    335 O turrífrago Ulisses amiúde
    Aos joelhos me serviu de vinho e carnes:
    A Telêmaco eu amo sobre todos.
    Não receies que a morte lhe inflijamos:
    A que vem do Supremo não se evita.”
    340 Ele a conforta, e o crime ruminava.
    Ela sobe, e na câmara estupenda
    Geme o querido esposo, até que os lumes
    A olhi-cerúlea em sono lhe abebera.
         Vindo o pastor à tarde, para a ceia
    345 Um bácoro feriu. Da vara ao toque,
    Logo, ao Laércio avelhantou Minerva,
    Em trapos o envolveu: se o conhecesse,
    Poderia a Penélope ir contá-lo,
    E um nem outro conter-se. — “Eumeu divino,
    350 Adiantou-se o mancebo, que há de novo?
    Estão já dentro os arrogantes procos,
    Ou de espera no estreito me insidiam?”
    Respondeste, ó pastor: “Vagar não tive
    De o saber; apressado as ruas corto,
    355 Noticio e regresso. Mas um núncio
    Topou-me, que teus sócios expediram;
    Ele é que a tua mãe falou primeiro.
    Ouve agora o que vi: já fora estava
    De Mercúrio no monte, quando o porto
    360 Navio entrou veloz, de gente cheio,
    De éreos broquéis e bipontudas lanças:
    Que eles eram suspeito, eu não to afirmo.”
         Olhos volvendo ao pai, sorri-se o moço
    E esquiva os do pastor. Já pronto o assado,
    365 Logram-se do convívio, sem queixume
    De porções desiguais. Depois, refeitos,
    Na cama em sono doce adormeceram.

    NOTAS AO LIVRO XVI
    33-65 — Diz Pindemonte ser de mármore a soleira da choupana de Eumeu; é sobeja riqueza para a casa de um porqueiro: Homero só diz que era de pedra. — A passagem vertida no meu verso 65 faz conjeturar que certos escravos em Ítaca tinham alguma cousa de seu, que nem tudo pertencia exclusivamente aos senhores; pois, a ser tudo dos senhores, Telêmaco não dissera que ia mandar a Eumeu com que sustentar o mendigo, para este não lhe ser pesado. Nas fazendas do Brasil, os senhores permitem aos escravos cultivar para si um pequeno terreno, ou também criar seus porcos e galinhas etc, e tais produtos são inteiramente dos escravos; para o que há um dia da semana em que eles trabalham no dito terreno, e se lhes dá o tempo necessário ao trato dos seus animais: os econômicos e ativos não raramente adquirem dinheiro e com ele conseguem a sua alforria. Parecia que havia quer que seja de semelhante, ao menos em alguns lugares da Grécia.
    85 — Anêmustõ epi ergõ, M. Giguet traduz assim: pour une entreprise qui ne s’accomplira pas. Este modo de falar indicaria em Ulisses uma confiança no futuro, não própria da sua habitual cautela. Sou com Pindemonte, que interpreta: indarno e senza fine o frutto.
    89-91 — Rochefort, louvando este lugar, afirma que a repetição de mounon, que significa só, ne saurait guère passer dans une traduction. E não se limita à sua língua, decide logo de todas, como se ele as tivesse examinado: é defeito de não poucos tradutores franceses, quando não acertam com frase que bem traslade o original afirmar que nenhuma outra língua o pode conseguir. Ora, se Homero não oferecesse outras dificuldades, a que nota Rochefort não embaraçara nem embaçaria a tradutor nenhum: Pindemonte verteu a repetição do mounon, eu também o fiz; e qualquer francês, querendo, o pode fazer, pois que a sua língua a isto se presta otimamente.
    136 — Desta passagem vê-se que Ulisses era trigueiro e de barba negra: o adjetivo melagchroiês refere-se à tez; kuaneai refere-se à barba, que, se é negra e feita, azul parece. Em um dos livros antecedentes, se diz que Ulisses tinha os cabelos da cabeça louros, o que não é contradição, pois há muitos homens de barba negra e de coma alourada ou mesmo loura. Combinado porém tudo que vem neste poema, antes se deve pensar que Ulisses tinha os cabelos da cabeça da cor dos que dizemos castanhos.
    167-169 — Belíssima comparação: os dous heróis a chorar, principalmente Ulisses, a quem o poeta chama tantas vezes o destruidor de cidades, eram como águias ou abutres a grasnar pelos filhos perdidos. Por esta ocasião, Rochefort lembra a imitação de Virgílio na Geórgica, principiada por aquele verso nunca excedido: “Qualis populea moerens Philomela sub umbra.” Acrescenta porém: “Je ne pense pas, comme Pope, que Virgile ait judicieusement substitué le rossignol à 1’aigle. Le rossignol, que chante toujours au commencement du printemps, ne forme pas de sons plus touchants lorqu’on 1ui a enlevé ses petits, que lorqu’on a respecté son nid; au lieu que 1’aigle, ou 1’autour, passait, réellement, chez les Anciens, pour déplorer amèrement la perte de ses petits lorsqu’on les lui enlevait; et c’etait peut-être pour cette raison que dans les hiéroglyphes Eypiens, l’autour representait la douleur. Ainsi, il y a ici dans Virgile une faute contre l’imitation exacte de la Nature, et en voulant embellir Homère, il s’est écarté de la verité”. Antes de combater essa opinião, direi que Rochefort sem dúvida era habilíssimo em distinguir os diferentes sons das aves, e que, a ter vivido na antiguidade, fora talvez um excelente adivinho. Donde tirou ele que o rouxinol, cujo canto é variadíssimo, não tenha sons mais ternos e maviosos para carpir os filhinhos perdidos? em que observações funda a sua sentença? Não há naturalista que tal assevere: ao contrário, não é de crer-se que o rouxinol seja uma exceção, quando os animais, ao menos os que têm sido observados, usam de sons diversos em diversas ocasiões. Já Lucrécio o havia notado a respeito dos cães; e é indubitável que o naturalista Virgílio com pleno conhecimento da matéria adotou a mudança. Homero com razão compara o prantear dos heróis aos gemidos da águia e do abutre; mas o Latino judiciosamente, como o notou o poeta inglês, serviu-se do rouxinol. E por quê? porque Orfeu, que era um suave cantor e não um guerreiro, com mais propriedade é comparável em seus queixumes à ave mais conhecida pela doçura da sua voz. Podia Virgílio, sem incorrer em censura servir-se de outra ave canora, mas escolheu o rouxinol para exaltar a música de Orfeu e a ternura dos seus gemidos. — Fora melhor que Rochefort se contentasse de ser um dos péssimos tradutores de Homero, e fugisse de criticar miúdas vezes, do que ele mesmo se gaba, as imitações em que o poeta do bom gosto, por consenso dos imparciais, não raramente excede a seu grande mestre.
    211 — Pensam, muitos que Ulisses diz que Telêmaco dissimule, ainda que seu pai seja arrastado pelos pés fora da sala; isto supõe que, para o enxotarem, o derribariam e o puxariam pelos pés; o natural porém, quando se quer fazer outrem sair de uma casa, é levá-lo a empurrões, ou a pontapés, se a violência é maior. Eu não me contentava com o sentido que se tem dado às palavras de Homero; e havendo em Pisa, na mesma casa que habitei, um estudante Grego instruído na sua língua tanto moderna como antiga, pedi-lhe que me traduzisse literalmente a passagem do poeta, sem declarar qual fosse a minha opinião: com prazer o ouvi traduzir que Telêmaco dissimulasse, ainda que Ulisses fosse levado a pontapés; e o moço acrescentou que parecia-lhe impossível outra interpretação. Ora, não obstante ser eu contrário aos que opinam que a pronúncia do grego moderno seja em tudo conforme à do antigo, estou convencido de que bem conhecer o moderno é grande vantagem para conhecer o antigo; sendo, como é certo, que as modificações e alterações são muito menos consideráveis que as dos idiomas de origem latina em confrontação com a língua mãe.
    224-225 — A meu ver, diz Ulisses ao filho que deixe dois escudos maneiros; porque uma sala, por maior que fosse, era estreita para um combate, e nela mais convinham escudos não muito grandes, para melhor se manejarem. As espadas eram também curtas, phasgana; sós as lanças eram das ordinárias, dourê.
    277 — Ocaso adjetivo, por cadente, se é latinismo, já o foi de Francisco Manuel nos Mártires, na descrição do Paraíso. Ir para o índice do livro
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    Item Reviewed: Odisséia de Homero - Livro XVI Rating: 5 Reviewed By: Pbsena Sena

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