Odisséia de Homero Livro XXIII - Tifsa Brasil
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    27 de junho de 2018

    Odisséia de Homero Livro XXIII

    Às risadas a velha os joelhos move,
    Celérrima a informar que é vindo Ulisses,
    E a Penélope fala à cabeceira:
    “Surge, anda, filha, a veres com teus olhos
    5 O que tanto almejaste: eis bem que tardo,
    Castigou teu marido os que, estragando
    Casa e fazenda, o filho te oprimiam.”
         E ela: “O Céu, que à vontade, ama Euricléia,
    Do louco um sábio faz, do sábio um louco,
    10 Transtorna-te a razão que te assistia.
    Como! zombas de mim, que hei tantas penas,
    E as pálpebras do sono me descerras,
    Sono o mais saboroso dês que Ulisses
    Foi-se à nefanda Tróia? Desce e vai-te.
    15 Se outra com tais anúncios me acordasse,
    Eu mais dura e severa a despedira;
    Mas vale-te essa idade.” — A escrava insiste:
    “Filha, de ti não zombo; em casa o temos;
    É o hóspede que todos insultavam.
    20 Já sabia Telêmaco o segredo;
    Ocultava-o prudente, a fim que Ulisses
    A soberba e violência refreasse.”
         Leda salta Penélope do leito,
    Em lágrimas a abraça: “Ama querida
    25 Se isso é verdade, se ele aqui se alverga,
    Os audazes, que sempre estavam juntos,
    Como só derribou?” — E a nutriz: “Nada
    Eu vi, nem mo contaram, mas ouvia
    O estrondo, o pranto, os ais dos moribundos,
    30 Lá nos retretes, a trancadas portas,
    Em susto éramos todas, e teu filho
    Por ordem paternal veio chamar-me.
    Achei teu bravo Ulisses entre os mortos
    Uns por cima dos outros: exultaras
    35 De o ver leão sangrento e encarniçado!
    Ele, fora os cadáveres em montes,
    Fumiga o paço, e ordena que me sigas,
    Anda, ambos de alegria abeberai-vos,
    Depois de tantas mágoas; a tão longa
    40 Saudade se mitigue. Ele nos torna
    Vivo e são; cá te encontra e o filho vosso;
    Puniu já desta casa os malfeitores.”
         Logo a rainha: “A rir não te glories.
    Sim, grata a vinda sua a todos fora,
    45 Mormente a mim e ao filho que geramos;
    Porém, ama, não creio o que me afirmas:
    Indignado algum nume de arrogâncias
    E injúrias tais, livrou-nos de insolentes
    Que a ninguém, por melhor, tinham respeito;
    50 Mas longe Ulisses acabou decerto.”
         “Filha, insiste Euricléia, que proferes?
    Duvidas inda, e ao lar já tens o esposo!
    É muito. Ora um sinal te manifesto:
    Ao lavá-lo, do cerdo conheci-lhe
    55 A cicatriz. Eu ia anunciar-to,
    Cauto a boca tapou-me. Vem; consinto,
    Mata-me, se te engano.” — “É-te impossível,
    Penélope argüiu, por mais ciente,
    O arcano, amiga, perceber divino.
    60 Contudo, ao filho corro; esses perversos,
    Aquele que os prostou, meus olhos vejam.”
         Desce, do caro esposo revolvendo
    Se as mãos e as faces beije, ou tão somente
    O interrogue distante. Já transposto
    65 O pétreo limiar, defronte, ao lume,
    Noutra parede fica: ele, encostado
    Numa coluna, arreda a vista, à espera
    Que o fite e que lhe fale a mulher forte;
    Ela, em silêncio estúpido, ora o encara,
    70 Ora pelo seu trajo o desconhece.
    Rompe e a censura o filho: “Que! tão dura
    Esquivas a meu pai, nem dele inquires!
    Que outra mulher assim desamorosa
    Recebera um marido, após vinte anos
    75 De ânsias cruéis? Tens coração de pedra.”
         Escusou-se a rainha: “De pasmada,
    Meu Telêmaco, olhar nem falar posso.
    A ser teu pai, a todo mundo ignotos,
    Sinais temos que o provem.” — Tolerante
    80 O herói sorriu-se: “A mãe consintas filho,
    Que me tente e afinal se desengane;
    Sujo e torpe, ela estranha-me e repugna.
    Consultemos agora. Se alguém mata
    Um popular de asseclas mal provido,
    85 Foge, terra e parentes abandona:
    De Ítaca a flor e esteios derribamos;
    Deliberemos nós.” Cordato o jovem:
    “Cabe-te isso, meu pai; fama é constante,
    Mortal nenhum te iguala no conselho;
    90 Seguir-te só me cumpre, e eu forças tenha,
    Que outrem não há de em ânimo vencer-me.”
         E o cauteloso: “Pois meu voto escuta.
    Primeiro vos lavais, mudai vestidos,
    E ordenai-me às cativas que se enfeitem.
    95 O músico na lira preludie
    Dança amorosa, a fim que núpcias dentro
    Haver pense ou vizinho ou viandante.
    Fora a carniçaria não persintam,
    Antes que os agros e vergéis busquemos:
    100 Lá do Olimpo o senhor deve inspirar-nos.”
         Lavam-se, dóceis, de vestidos mudam,
    Às mulheres prescrevem que se adornem.
    Fênio na ebúrnea lira já consona
    Dança ligeira e doce melodia:
    105 Ao tropel toda a casa reboava
    De esbeltos jovens e de airosas moças.
    Cruzam vozes da rua: “Algum de tantos
    A rainha esposou, que mais valera
    Se fiel ao marido os bens guardasse.”
    110 Assim, néscios do caso, discorriam.
         Lava a cuidosa Eurínoma e perfuma
    O brioso Laércio, e o paramenta.
    Aformoseia-lhe a cabeça Palas;
    Majestoso e maior, na espalda a coma
    115 Cor de jacinto em ondas se lhe esparge;
    Tamanha graça lhe vestiu Minerva,
    Quantia infunde em lavor de prata e ouro
    Dela e Vulcano artífice amestrado.
    Como um deus sai do banho, torna ao posto
    120 Fronteiro ao da consorte, e assim perora:
    “Tão duro coração, femíneo monstro,
    Nunca foi dos celícolas forjado!
    Que outra mulher tão fria se portara
    Ao chegar seu marido após vinte anos
    125 De pena e dor? Sus, ama, um leito apresta,
    Quero dormir. Sua alma é toda ferro.”
         “Monstro eu! retorque; nem te apouco altiva,
    Nem me assombro demais: qual te embarcaste
    No instruto galeão, me estás na mente.
    130 Eia, fora da alcova alça, Euricléia,
    O reforçado leito, obra de Ulisses,
    Com mantas e tosões, com moles colchas.”
    Tal foi para o marido a prova extrema.
         Ele à casta mulher gemendo exclama:
    135 “Quem removeu-me o leito? oh! triste nova!
    Isso nímio custara ao mais sabido,
    Salvo intervindo um nume; empresa enorme
    Fora a humano qualquer, por mais viçoso:
    Fi-lo eu sozinho; este sinal te baste.
    140 Grossa como coluna, vegetava
    No pátio umbrosa e flórida oliveira:
    Densas pedras em roda, em cima um teto,
    Câmara edifiquei de unidas portas;
    Já desgalhado, a bronze descasquei-lhe
    145 Desde a raiz o tronco, e de esquadria
    Artífice o puli, verrumei tudo,
    Formando um pé, começo do meu leito;
    Marfim neste embutindo e prata e ouro,
    Táureas correias lhe teci vermelhas.
    150 Esta a verdade. Ignoro se está firme
    Esse leito, ou, serrando-se-lhe o tronco,
    Por algum dos varões foi transplantado.”
         Aqui, tendo Penélope a certeza,
    Desfaleceu; depois, toda alvoroço,
    155 Em pranto o colo do marido abraça,
    E o beija e diz: “Uilsses, foste aos homens
    O exemplo da prudência, não te enfades.
    Irmos juntos logrando os flóreos dias
    O Céu nos invejou; perdão, se ao ver-te
    160 Não fui logo lançar-me no teu seio:
    De que outrem com discursos me iludisse
    Tremia sempre; os dolos não falecem.
    A Dial Grega Helena o toro nunca
    Do estranho compartira, a ter previsto
    165 Que à pátria e casa os belicosos Dânaos
    Tinham de a reduzir: a tanto opróbrio,
    Causa da nossa dor, cruel deidade
    A infeliz arrastou, que o não cuidava.
    Porém veros sinais manifestaste:
    170 Outro nenhum varão viu nossa alcova,
    Nós e a fiel Actóride somente,
    Por meu pai concedida, e que é porteira.
    Minha justa esquivança embrandeceste.”
         Ele com isto em lágrimas rebenta,
    175 Mais ao peito cingindo a casta esposa.
    Da praia quando à vista os naufragados,
    Por Netuno e por vagas sacudidos,
    Poucos no vasto pélago nadando,
    Sujos da maresia, à morte escapam,
    180 Não têm maior prazer do que a rainha
    Teve ali. Não despega os alvos braços
    Do colo do consorte; e a ruiva Aurora
    Os encontrara, se não fosse Palas:
    A olhicerúlea, prolongando as sombras,
    185 No Oceano a retinha em áureo trono,
    Sem que até ao coche alípides ginetes
    Lampo e Faeton, que a luz no mundo espalham.
         “Mulher, diz-lhe o marido, não findaram
    Nossas provas; uma árdua imensa empresa
    190 Me cumpre executar: assim Tirésias,
    De mim, dos sócios meus, soltando os fados,
    Profetizou-me na Plutônia estância.
    Mas vamos, doce amiga, ao leito nosso
    Deleitar-nos em brando e meigo sono.”
    195 Penélope acedeu: “Já que em meus braços
    Pôs-te o Céu, no meu leito a gosto sejas.
    Mas que perigo anunciou-te o vate?
    Se hei de saber depois, que o saiba agora.”
         “Se o queres, anjo meu, responde Ulisses,
    200 Não to escondo: ah! matéria é de tristeza
    Para ti, para mim! Que peregrine
    Remotas plagas me ordenou Tirésias,
    E ágil remo sustendo, a povos ande
    Que o mar ignoram, nem com sal temperam
    205 Que amuradas puníceas não conhecem,
    Nem remos, asas de baixéis velozes.
    Deu-me o sinal: assim que um viandante
    Pá creia o remo ser, eu do ombro o desça
    Finque-o no chão, carneiro e touro imole,
    210 Varrão que inça a pocilga, ao rei Netuno;
    Mas na pátria hecatombes sacrifique
    Aos imortais celícolas por ordem.
    Do mar cá me virá mui lenta a morte,
    Feliz velho entre gentes venturosas.
    215 Certos me asseverou seus vaticínios.”
         Ela acudiu: “Se os deuses te prometem
    Melhor velhice, espero que triunfes
    Inda uma vez.” — Enquanto praticavam,
    Eurínoma e a nutriz, de acesas tochas,
    220 A cama afôfa e mórbida estendiam.
    Isto acabado, a velha foi deitar-se,
    E a camareira ao quarto alumiou-os
    E retirou-se. Com delícias ambos
    Do antigo toro o pacto repetiram.
    225 Também Telêmaco e os leais pastores
    Suspensa a dança, despedindo as servas,
    Pelos sombrios paços repousaram.
         Ao desejado amor depois de entregues,
    Em colóquios os dous se regozijam:
    230 Conta a mulher divina os dissabores
    De olhar contínuo a turba dissoluta,
    Que, bois, cabras e ovelhas degolando,
    E os tonéis exaurindo, a requestava;
    Ele, as dores impostas ou sofridas.
    235 Leda a esposa de ouvir, só depois dorme.
         Primeiro expôs o estrago dos Cícones,
    E a terra dos Lotófagos ubérrima;
    Como vingou-se do feroz Ciclope,
    Que os sócios lhe comeu; como, inda à pátria
    240 Ir não sendo seu fado, com doçura
    De Eolo aceito, mais por fim repulso;
    Jogo ah! foi da procela em mar piscoso;
    Como, aportado à Lestrigônia, tantos
    Perdeu, salvando seu baixel apenas.
    245 Expôs os dolos e dobrez de Circe;
    Como, a Plutão vogando em nau compacta,
    Viu, do Tebano vate após consulta,
    Irmãos de armas e a mãe que amamentou-o;
    Como as Sereias lhe cantaram; como
    250 Chegou-se a instáveis rochas e a Caríbdis,
    E a Cila que sem perdas não se evita.
    Expôs que, a raio o Altíssono a matança
    Dos bois do Sol punindo, a nau ligeira
    E os demais soçobrou; que, à ilha Ogígia
    255 Arribando ele só, foi por Calipso
    Detido em cava gruta e acarinhado;
    Que a ninfa, de esposá-lo cobiçosa,
    Prometeu-lhe uma eterna juventude,
    Sem jamais demovê-lo da constância.
    260 Findou pelos Feaces, que de um nume
    A par o honrando, em nau de cobre e alfaias
    E de ouro onusta, a Ítaca o mandaram.
         Do sono aqui dulcíssimo assaltado,
    Solve os pesares; e, julgando-o Palas
    265 De repouso e de amores satisfeito,
    Chama a fulgente Aurora do Oceano,
    E na alvorada o sábio herói desperto
    Se endereça à mulher: “Sobejas penas
    Tivemos: tu, chorando a minha ausência;
    270 Eu, delongas e empeços que o Satúrnio
    E outros deuses à vinda me opuseram.
    Ora, que o nosso tálamo ansiado
    Já tocamos, dos bens restantes cura:
    Para suprir os meus currais e enchê-los,
    275 Hei de apresar, e parte haver do povo.
    Aos bosques vou-me e campos, as saudades
    Aliviar do genitor. Consorte,
    Bem que discreta, observa os meus preceitos:
    Alto o Sol, desses procos a matança
    280 Ressoará; com tuas servas monta,
    Sem comunicação lá permaneças.”
         Vestindo logo as suas, manda que armas
    Também Telêmaco e os pastores peguem.
    Arnesando-se os quatro, as portas abrem;
    285 Ulisses marcha à frente. Era já dia;
    Mas enublados os dirige Palas.

    NOTAS AO LIVRO XXIII
    152 — Os intérpretes e tradutores não viram nesta passagem um rápido movimento de ciúme, que nela parece-me existir: Ulisses, à nova de que o leito fora mudado, leito cujo segredo só ele e Penélope conheciam, pasmou de que tal houvesse acontecido; isto, sendo combinado com a tristeza que lhe causou a nova, segundo se colhe do verso 135, e com o toque da mulher no 170, torna provável a minha observação. Na dúvida, contudo, não quis aclarar a passagem mais do que o fez o autor, nem tampouco seguir interpretação contrária, como o fez M. Giguet, traduzindo Andrõn por quelque artisan: ao menos deve conservar-se o termo varões, que favorece a minha opinião. Este leve movimento de ciúme, em um homem tão suspeitoso, seria interessante nesta cena.
    184-187 — Aqui temos um milagre, operado por Minerva, igual ao de Josué: este fez parar o Sol acima do horizonte para aumentar o dia; Minerva também o faz parar, mas abaixo do horizonte, para aumentar a noite. Josué porém é mais antigo do que Homero. Ir ao índice do livro.
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    Item Reviewed: Odisséia de Homero Livro XXIII Rating: 5 Reviewed By: Pbsena Sena

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