Odisséia de Homero - Livro XXI - Tifsa Brasil
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    27 de junho de 2018

    Odisséia de Homero - Livro XXI

    Já da rainha à mente influi Minerva
    Propor na sala do arco e das secures
    A contenda, princípio da carnagem.
    A escada monta, pelo ebúrneo cabo
    5 Na mão toma carnuda a chave aênea
    Curva e artefata, e vai com boas servas
    À superior instância, onde o rei tinha
    Muito ouro e cobre e trabalhado ferro;
    Pleno acha o letal coldre e o fléxil arco,
    10 Dons hospitais do Eurítides Ífito,
    Lacedemônio herói. Com este Ulisses
    No palácio topou do bravo Ortíloco,
    Indo a Messena, embaixador imberbe,
    Do pai e outros antigos deputado,
    15 Longa viagem, reclamar trezentas
    Ovelhas e seus guardas, que Messênias
    Galés dos campos de Ítaca levaram.
    Para seu dano, Ífito ali buscava
    Éguas doze perdidas e a seus ubres
    20 Doze pacientes mus: foi quando Ulisses,
    Que doou-lhe uma espada e forte pique,
    Esse arco teve, que, morrendo Êurito
    Em seu palácio transmitira ao filho.
    Ah! que nunca um do outro à mesa esteve!
    25 Atalhou-se a amizade, porque Ífito,
    Hospedado por Hércules, de Jove
    O mais valente e façanhoso garfo,
    Este o matou sem pejo dos Supremos,
    Ímpia as éguas solípides retendo.
    30 Por memória do amigo, o arco aceito,
    Partindo Ulisses, o deixou na pátria.
         Vizinha à câmara a mulher egrégia,
    Tem-se ao portal de robre, esquadriado
    E polido, a que o fabro acomodara
    35 Esplêndidas ombreiras e batentes:
    Solto o loro do anel, para o ferrolho
    Da armela desprender, enfia a chave;
    Com jeito ao revolvê-la, as altas portas,
    Qual muge em várzea o touro, abertas rangem.
    40 De sobre estrado, em que pousavam grandes
    Caixas de roupa odora, as mãos alçando,
    O arco e a funda lustrosa despendura;
    Sentando-se, o coloca aos seus joelhos,
    E lamenta e pranteia, ao destojá-lo.
    45 Torna, enxutas as lágrimas, à sala,
    Setas fatais e o arco sustentando;
    Uma canastra escravas lhe carregam
    Do cobre e ferro do certame régio.
    Entre fâmulas duas, à soleira
    50 Pára, e abatendo o fino véu perora:
    “Vós que, à pretexto de esposar-me, ausente
    Meu marido, estragais toda esta casa,
    Ouvi-me. O arco eis aqui do nobre Ulisses,
    E eu proponho um certame: quem mais fácil
    55 O atese e freche atravessando os olhos
    Das machadinhas doze, hei de segui-lo
    Da conjugal estância, farta e bela,
    Da qual me lembrarei té nos meus sonhos.”
         O arco e acerado ferro então lhes manda
    60 Pelo fiel choroso Eumeu. Filétio,
    Ao ver o arco do rei, suspira e geme.
    Antino os apodou: “Rústicos parvos,
    Que só cuidais no de hoje, ah! miseráveis,
    Enterneceis com lágrimas aquela
    65 Que, perdido o consorte, em mágoas vive?
    Comei calados, ou carpi de fora;
    Deixai-nos o arco da custosa empresa:
    Há quem fácil o curve e se equipare
    A tão completo herói? Pequeno eu era,
    70 E de Ulisses divino estou lembrado.”
         Assim falou; mas no ânimo contava
    O arco tender e traspassar os ferros,
    Ele que provará primeiro a frecha
    Do rei sem tacha, a quem no mesmo alvergue
    75 Tinha afrontado, os sócios concitando.
         Forte exclama Telêmaco: “Hui! por certo
    Jove desjuizou-me: em que prudente,
    Minha dileta mãe diz que por outrem
    Larga esta casa, eu rio e insano folgo!
    80 Procos, eia, ao certame: em Graias terras
    Mulher, vós o sabeis, não há como ela,
    Em Pilos santa, em Argos, em Micenas,
    Nem mesmo em Ítaca ou no Epiro negro:
    Para que pois levá-la? Decidamos,
    85 Sem mais tergiversar, tente-se a prova.
    Também o ensaiarei: se o arco ateso
    E as secures enfio, a mim dolente
    Não me há de abandonar a augusta madre,
    Caso ao paterno jogo eu leve a palma.”
    90 Direito surge, e o manto purpurino
    Depõe dos ombros e a cortante espada.
    Abre a cada secure funda cova,
    Certo as alinha, em torno calca a terra:
    Que o faça admiram, sem que nunca o visse.
    95 Da soleira, o arco tenta, ávido e firme;
    Três vezes falha. Espera inda animoso
    Tender o nervo e atravessar o ferro;
    E ao quarto esforço o gosto conseguira,
    Se Ulisses não lhe acena, e então se teve.
    100 “Oh! céus, brada, ou serei débil guerreiro,
    Ou moço inda não posso braço a braço
    A ofensa repelir. Vós mais pujantes,
    Exp’rimentai; findemos a contenda.”
    E o arco pousa e encosta aos alizares,
    105 Do arco ao remate belo a seta apoia,
    E ao posto volve. — Logo Antino: “Em cerco
    Pela destra comece e donde o vinho
    Se distribui.” O dito aprovam todos.
         Ergueu-se o vate Enópides Liodes,
    110 Junto à cratera assídua sentinela
    Censor dos sócios, à injustiça avesso.
    Ao limiar, pegando o arco e as setas,
    Malogra o esforço; as tenras mãos doridas
    Pouco atreitas molesta: “Eu cesso, amigos;
    115 Outrem cometa a empresa. Este arco a muitos
    Estrenuos privará de alento e alma;
    E antes morte que vida, a quem frustou-se
    Longa esperança. Aquele que inda fia
    E pensa haver de Ulisses a consorte,
    120 Verá presto que deve outras Aquivas
    Requestar e dotar: com esta case
    Quem mais lhe oferte e a sorte lhe destine.”
    Também pousa arco e seta, e vai sentar-se.
         Brame Antino em furor: “Que dito acerbo
    125 Desses beiços, Liodes, proferiste?
    O arco anuncias, por que em vão lidaste,
    A muitos privará de alento e alma?
    Não gerou-te a mãe tua para archeiro;
    Mas outros pulsos poderão dobrá-lo.”
    130 E ao cabreiro virou-se: “Fogo acende,
    Grande escano lhe achega bem forrado;
    Lá dentro há unto e um disco dele traze:
    Aqueçamo-lo e o arco amaciemos,
    Para em breve o certame concluirmos.”
    135 Melântio o fogo acende, o escano achega;
    O unto, que não falece, ao lume aquentam:
    O arco a vergar seus braços não bastaram.
    Abstêm-se Antino e Eurímaco deiforme,
    Que facilmente aos outros superavam.
    140 O vaqueiro e o porqueiro ambos saíram
    E inda após eles, fora e já no pátio,
    Lhes falou com doçura o divo Ulisses:
    “Filétio e Eumeu, calar quiçá me cumpra,
    E descobrir-me o coração me pede.
    145 Se um deus súbito Ulisses vos mostrasse,
    Deles serieis vós ou desses procos?
    Da alma explicai-mo.” — Exclama-lhe o vaqueiro:
    “Jove, a meu voto anui! um deus o traga!
    Velho, meu brio e ardor conheceria.”
    150 E Eumeu também depreca ao sacro Olimpo
    Que volte o rei prudente aos seus penates.
         Deles seguro, brada: “Eis-me, entre angústias
    Chego ao vigésimo ano. Reconheço
    O vosso amor e fé: dos servos todos
    155 Sois quem me desejais com zelo e afinco.
    Agora me atendei: se me dá Jove
    Os intrusos domar, consortes, prédios,
    Casas tereis ao pé da minha própria;
    Sócios e irmãos sejais do meu Telêmaco.
    160 Não há dúvida alguma: eis dos colmilhos
    Do javardo o sinal, quando ao Parnaso
    Os de Autólico filhos me guiaram.”
    Da cicatriz então separa os trapos:
    Certificados, o senhor abraçam
    165 E beijam-lhe a chorar a testa e os olhos;
    O mesmo Ulisses faz. Durara o pranto
    Ao posto Sol, se o cauto o não vedasse:
    “Basta, alguém ver-nos pode. Vou primeiro,
    E entrai, com intervalo, um após outro.
    170 Se eles do arco pegar me proibirem,
    Traze-mo com a aljava, Eumeu divino,
    Através da ampla sala; as servas manda
    Aferrolhar as portas; nem que sintam
    Estrondo e ais, de seu lavor se bulam.
    175 Os cancelos do pátio, ó bom vaqueiro,
    A chaves tranca e fortemente amarra.”
    Disse, e dentro sentou-se no seu posto;
    Seguem-no a tempo os dous fiéis criados.
         O arco Eurímaco ao lume aquenta e vira,
    180 Mas nem sequer o verga; no orgulhoso
    Peito suspira, e suspirando fala:
    “Ai de mim e dos mais! Bem que as deseje,
    Não choro as núpcias, que Ítaca e outras ilhas
    Têm muitas belas; choro a clara prova
    185 De superar-nos tanto o grande Ulisses:
    Oh! futuro desdouro!” — A quem Antino:
    “Tal não será, Eurímaco; reflete:
    Hoje a festa celebra-se de Apolo,
    Quem arco dobrará? depô-lo cumpre,
    190 Inda que em pé deixemos as secures,
    Pois ninguém penso as tirará da sala.
    Eia, escanção, de novo os copos vaza;
    Larguemos nós libando, o arco e as setas
    Traga cedo Melântio nédias cabras;
    195 Ao Longe-vibrador queimando as coxas,
    A contenda amanhã terminaremos.”
         Aplaudem-no. Água às mãos arautos vertem;
    As crateras coroando, em roda os moços
    O vinho distribuem. Já perfeitas
    200 As libações, manhoso o herói discursa:
    “Franco, dignos rivais, serei convosco;
    A Eurímaco mormente me dirijo,
    E ao régio Antino, que opinou cordato:
    O arco repouse e confiai nos deuses;
    205 A quem quer amanhã dê Febo a glória.
    Mas emprestai-mo, a ver se as forças tenho
    Que outrora os membros fléxeis me animavam,
    Ou se o mar e a desgraça as confrangiram.”
         Indignaram-se os príncipes, temendo
    210 Que ele o arco dobrasse, e Antino estoura:
    “Mísero! endoudeceste. Pouco julgas
    Farto comer tranqüilo à nossa mesa,
    Ouvir-nos praticar, vantagens que outro
    Vagamundo ou mendigo nunca obteve?
    215 Vinho ardente e melífluo te perturba,
    Como a quem nele imódico se encharca.
    O vinho a Eurítion, Centauro insigne,
    De Pirítoo magnânimo nos paços.
    Inflamou contra os Lápitas; a injúrias
    220 Embriagado se moveu tamanhas,
    Que os heróis do vestíbulo o expulsaram,
    Cerceando-lhe as ventas e as orelhas.
    De alma chegada e leso, errando insano,
    Aos Lápitas urdiu cruenta guerra,
    225 E o vinho d’antemão lhe foi desastre.
    Mal do vinho haverás, se o arco vergas.
    Tu advogado algum não tens no povo;
    Irás a Équeto rei, flagelo de homens,
    Em negra nau, sem que dali te salves.
    230 Bebe em sossego, e a jovens não te afoutes.”
         A rainha o impugnou: “É torpe e injusto
    Que de meu filho o hóspede molestes,
    Ou quem se abrigue, Antino, em minha casa.
    Supões que ele, se em forças estribado,
    335 O rijo arco de Ulisses estendesse,
    Levar-me-ia consigo por esposa?
    Nem sonha o pobre em tal, nem vos contriste
    Nos festins semelhante pensamento.”
         Respondeu-lhe o de Pólibo: “Rainha,
    240 Crermos que ele te espose indigno fôra.
    Teme-se a língua de homens e mulheres;
    Talvez diga o mais vil: — O amor cobiçam
    Da mulher de um valente os que o seu arco
    Não puderam dobrar, quando erradio
    245 Pedinte o fez, atravessando os ferros.
    Tais motetes opróbrio nos seriam.”
         “Eurímaco, Penélope retorque:
    Respeita acaso o povo os que desonram
    E os bens estragam de um varão sublime?
    250 Sois vós que há muito vos manchais. Fornido
    E apessoado, o velho se gloria
    De um sangue ilustre: o arco lhe dai; vejamos.
    Se Febo o ajuda, manto lhe asseguro
    Belo e túnica rica, aos pés sandálias,
    255 Dardo e anticípite espada que o defendam,
    E o mandarei para onde for seu gosto.”
         Sábio Telêmaco. “A nenhum dos chefes
    De Ítaca branca, ou de ilhas que vizinham
    Com a Élide em cavalos abundante,
    260 Mais do que a mim, querida mãe, compete
    O arco negar ou dar; nem há quem obste,
    Se eu quiser a este hóspede ofertá-lo.
    Vai curar do lavor, da roca e teia,
    E assiste às servas: o arco aos homens toca,
    265 Mormente a mim, que neste paço mando.”
    Retira-se a rainha, e pasma e guarda
    O maduro discurso de seu filho.
    Sobe com suas fâmulas, chorosa
    Pelo marido caro, até que Palas
    270 Sono doce nas pálpebras lhe entorna.
         O arco o divo porqueiro ia levando;
    Mas rumor cresce imenso, e um deles brame
    “Onde, abjeto porqueiro, esse arco levas?
    A proteger-nos Febo e os outros numes,
    275 Breve hão de nas pocilgas devorar-te
    Cães nutridos por ti, sem que te acudam.”
         A arma depôs Eumeu todo assustado;
    Minaz também Telêmaco bradou-lhe:
    “Avante, avante, a chusma não te embargue
    280 Ou, posto que menor, eu te hei-de a pedras
    Ao campo repelir, que sou mais forte.
    Assim tanto excedesse aos pretendentes,
    Que destes paços os tivera expulso,
    Onde exercem flagícios e torpezas.”
    285 Ei-los a rir a cólera esqueceram.
         O arco o fiel pastor, por entre a sala,
    Entrega a Ulisses, e à nutriz adverte:
    “As servas manda, o príncipe te ordena,
    Aferrolhar as portas; nem que sintam
    290 Estrondo e ais, do seu lavor se bulam.”
    Executa Euricléia à risca e pronta.
    Mudo Filétio furta-se; os cancelos
    Do pátio fecha, e os liga de biblino
    Cabo naval, que ao pórtico jazia,
    295 E os olhos no senho, torna a seu posto.
         O arco o herói tenteia, e vira e indaga
    Se de vermes roído estava o corno.
    Um disse: “Admirador é certamente,
    Será de arcos ladrão; possui em casa
    300 Muitos iguais, ou fabricá-los busca:
    Destramente o meneia o vagabundo!”
    Outro ajunta: “Bem haja, como agora
    Tem de o vergar.” Zombando galrejavam.
         Solerte enfim Ulisses o examina:
    305 Qual estende perito citaredo
    Com nova chave do alaúde as cordas,
    As torsas adaptando ouvinas tripas,
    Fácil o atesa, a destra o nervo estira,
    Que soou como chilro de andorinha.
    310 De cor os procos doloridos mudam;
    Forte Jove troveja, e o divo Ulisses
    Folga ao sinal: da mesa pega a nua
    Leve seta, na aljava as outras sendo
    Que hão de os Aqueus experimentar; sentado,
    315 Embebe-a no arco, puxa o nervo e as barbas;
    Da mira não desvaira a brônzea frecha,
    Das secures zunindo os furos passa.
    Ao filho clama: “O hóspede que abrigas
    Não te desonra; o tiro foi certeiro
    320 O arco tendi sem lida: hei sãs as forças,
    Cessem do vitupério estes senhores.
    Hora é de preparar com dia e ceia;
    Orne a lira o banquete, o canto o alegre.”
         As sobrancelhas move: aguda espada
    325 Eis Telêmaco cinge, empunha a lança;
    Do pai senta-se ao pé, de bronze armado.

    NOTAS AO LIVRO XXI
    83 — O autor chama negro o Epiro; e eu conservo o adjetivo, sem poder contudo acertar com a razão. Uns dizem que negro se refere à cor do terreno, e equivale a fecundo; pensam outros que, passando os Epirotas por ásperos e rudes entre os antigos, toma-se aqui negro por tosco ou por quase bárbaro; alguns afirmam que o Epiro, visto de longe, por exemplo de Corfu, apresenta uma cor sobremodo escura. Não sei escolher.
    123 — Resumi esta passagem, por ser a repetição dos versos 104-106 deste mesmo livro; e o advérbio também declara suficientemente que Liodes fez o mesmo que fizera Telêmaco.
    293-307 — O cabo era biblino ou de biblos, certa espécie de papiros; assemelhava-se ao que hoje tem o nome de cairo, que é a corda ou calabre da casca externa do coco. — Daqui se vê quão antigas são as cordas de tripa de carneiro para os instrumentos músicos. Ir ao índice do livro
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    Item Reviewed: Odisséia de Homero - Livro XXI Rating: 5 Reviewed By: Pbsena Sena

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