Odisséia de Homero - Livro XI - Tifsa Brasil
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    13 de junho de 2018

    Odisséia de Homero - Livro XI

    Deitado ao mar divino o fresco lenho,
    Dentro as hóstias, o mastro e o pano armados,
    Em tristíssimas lágrimas partimos.
    Bom sócio, enfuna e sopra o vento em popa,
    5 Que invoca a deusa de anelado crino.
    Tudo a ponto, abancamo-nos entregues
    Às auras e ao piloto; sempre à vela,
    Sobre a tarde, os caminhos se obumbravam,
    E aos fins chegamos do profundo Oceano.
    10 Lá dos Cimérios de caligem feia
    Cidade jaz, do Sol ao olho oculta,
    Quer ao pólo estelífero se eleve,
    Quer descambe na terra: intensa noite
    Aos mesquinhos mortais perpétua reina.
    15 Da nau varada os animais tirando,
    O Oceano abeiramos até onde
    Nos indicara Circe. Perimedes,
    Mais Euríloco, as vítimas sustinha;
    De espada a cova cubital escavo;
    20 De mulso e leite libações vazamos
    Às mãos ambas, depois de mero vinho,
    Terceiras de água, e branco farro mesclo.
    Imploro aos oucos manes e prometo,
    Em Ítaca imolada a melhor toura,
    25 De dons a pira encher, e ao só Tirésias
    Preto carneiro consagrar sem mancha,
    Flor dos nossos rebanhos. Evocados
    Os defuntos, as vítimas degolo,
    Flui na cova o cruor: do Érebo as almas
    30 Congregavam-se em turmas, noivas, moços,
    Melancólicos velhos, virgenzinhas
    Do luto prematuro angustiadas,
    Muitos guerreiros em sangrentas armas
    De êneas lanças passados; ante a cova,
    35 Num confuso rumor, se atropelavam.
    Pálido e em susto, exorto a que esfoladas
    Queimem-se as reses pelo bronze troncas;
    Voto a Plutão pujante e à seva esposa.
    De espada arredo os mortos, que não bebam
    40 Sem que eu tenha o adivinho interrogado.
         Veio primeiro de Elpenor a sombra.
    Que nos paços de Circe, pela urgência,
    Não chorado e insepulto abandonamos.
    Lagrimo, ao vê-lo, comovido clamo:
    45 “Como, Elpenor, mais presto ao reino escuro,
    Que eu no alado navio, a pé chegaste?”
         Ele em suspiros: “Sábio e grã Laércio,
    Um nocivo demônio embebedou-me:
    Do terraço de Circe, entontecido,
    50 Pela escada não dei, caí do teto;
    Fraturou-se-me o colo, eis-me no inferno.
    Sei que do Orco irás inda à ilha Eéia:
    Por teus caros ausentes, pela esposa,
    Pelo pai que de ti cuidou na infância,
    55 Por Telêmaco exoro, único filho
    Que tens no doce lar, de mim te lembres:
    Teme os numes, enterra-me e pranteia;
    Comigo, tais quais são, me queima as armas,
    N’alva praia o sepulcro, por memória
    60 De um miserável, planta em cima o remo
    Que entre os meus camaradas me servia.”
         “Tudo, infeliz, bradei, será cumprido.”
    E alternamos quietos mil tristezas,
    De espada eu sobre a cova, e o simulacro
    65 A derramar queixumes. Ao da madre
    Minha, filha de Antolico, Anticléia,
    Que ao ir-me a Tróia a luz inda gozava,
    Vedo, a gemer com dor, que loque o sangue
    Primeiro que Tirésias. De áureo cetro,
    70 A alma aparece do Tebano cego,
    Reconheceu-me: “Ao claro Sol fugindo,
    Ai! vens a estância visitar funesta?
    Pois da cova te arreda e o gume esconde,
    Para que eu beba o sangue e profetize.”
    75 Dês que embainho a espada claviargêntea,
    Bebe o vate infalível e começa:
    “O mel da volta, nobre Ulisses, buscas?
    Netuno irado, a quem cegaste o filho
    To embarga. A seu pesar, tens de alcançá-lo,
    80 A seres comedido e os companheiros,
    Do atro pego arribados à Trinácria,
    Onde achareis pastando bois e ovelhas
    Do Sol, que tudo vê, que exouve tudo:
    Ileso o gado, a custo ireis à pátria;
    85 Ofendido, ao navio agouro a perda,
    E a te salvares, tornarás tardeiro,
    Só dos consócios teus, em vaso estranho.
    Depararás no interno uns prepotentes,
    Que estragam-te a fazenda, e requestando
    90 A diva esposa tua, a presenteiam;
    Mas, por tamanha audácia, a bronze agudo
    Às claras ou por dolo hás de puni-los.
    Depois toma ágil remo, a povos anda
    Que o mar ignoram, nem com sal temperam,
    95 Que amuradas puníceas não conhecem,
    Nem remos, asas de baixéis velozes.
    Guarda o sinal: assim que um viandante
    Pá creia o remo ser que ao ombro tenhas,
    Finca-o no chão; carneiro e touro imoles,
    100 Varrão que inça a pocilga, ao rei Netuno;
    Em Ítaca, aos celícolas por ordem
    Hecatombes completas sacrifiques
    Ali do mar vir-te-á mais lenta a morte,
    Feliz velho, entre gentes venturosas.
    105 Preenchidos serão meus vaticinios.”
         “Tirésias, prossegui, tal é meu fado.
    Lá, do sangue remota, olhar seu filho
    Nem ousa tácita a materna imagem:
    Como há de perceber-me, ó rei, me ensina.”
    110 E ele: “É simples: sincero, a quem permitas
    Provar do sangue, falará; contidos,
    Os mais recuarão”. Nisto, o profeta
    Pela estância Plutônia esvaeceu-se.
         Aguardei minha mãe, que o negro sangue
    115 Beber veio, e bradou-me lamentosa:
    “Que! filho meu, chegaste à escura treva!
    É difícil aos vivos, entre enormes
    E válidas correntes; nau compacta
    Há mister o Oceano invadeável.
    120 De Ílio, há muito errabundo, os sócios trazes?
    Ítaca inda não viste, a esposa tua?”
         “Ah! minha mãe, respondo, urgiu-me a sorte
    A vir ao Orco interrogar Tirésias.
    Não fui à nossa terra, ou mesmo à Grécia;
    125 Desde essa expedição, vagueio aflito.
    Conta-me, adormeceste em sono eterno
    Por doença aturada, ou pelas doces
    Farpas da sagitífera Diana?
    Conta-me de meu pai; se o caro herdeiro
    130 Dos meus haveres goza, ou tem-nos outrem,
    E cuidam que não volto. A esposa minha
    Mora com nosso filho, os bens zelando,
    Ou já foi por um grande conduzida?”
         E a veneranda mãe: “Constante em casa,
    135 Dia e noite suspira atribulada.
    Ninguém dos teus domínios apossou-se;
    Lavra-os Telêmaco, e a festins o atraem
    Próprios de quem justiça aos povos rende.
    Só teu pai, da cidade sempre fora,
    140 Sem macios colchões, tapetes, mantas,
    Como os escravos, deita-se de inverno
    Ao pé da cinza, veste humildes roupas;
    De outono e de verão, na fértil vinha,
    Em cama dorme de caídas folhas;
    145 Por ti chora, e é dos anos molestado,
    Em contínua tristeza. Tal finei-me,
    Não da frecheira deusa a tiros brandos,
    Não de mal que definha e roi a vida,
    Mas de dor, meu bom filho; a tua ausência
    150 E as lembranças de ti me sepultaram.”
         Três vezes ao materno simulacro
    Fui me abraçar, três vezes dissipou-se
    Igual ao vento leve ao sono alado.
    Mágoa pungiu-me acerba: “A meus desejos
    155 Te esquivas, minha mãe? ao colo os braços,
    Ambos nos deleitássemos de pranto
    Pela casa Plutônia! És vácuo espectro,
    Pela augusta Prosérpina enviado
    Para agravar meus ais? — “Não, contestou-me,
    160 Filho amado, oh! misérrimo dos homens,
    Não te engana a de Júpiter progênie;
    É nossa condição depois da morte:
    Os nervos carnes e ossos não mais ligam,
    A fogueira os consome irresistível;
    165 Tanto que a vida os órgãos desampara,
    A alma como visão remonta e voa.
    Quanto antes volve à luz, e tudo aprendas
    Para à casta Penélope o narrares.”
         Durante a nossa prática, incitadas
    170 Pela ínclita Prosérpina, se apinham
    De heróis muitas ou filhas ou mulheres:
    A fim de uma por uma interrogá-las,
    Sacar prefiro o gume dante o fêmur,
    Para juntas o sangue não beberem;
    175 Todas à espera, a cada qual pergunto,
    E ia-me de seus casos informando.
         Tiro primeira vi, que se aclamava
    Do temerário Salmoneu vergôntea,
    E de Creteu Eólides consorte.
    180 Amorosa do fresco Enipeu divo,
    Da pulcra veia à borda se entretinha:
    Disfarçado no rio verticoso,
    À foz se encosta o Enosigeu, cambiante
    Curvo aqueu monte empina, que em seu grêmio
    185 Sorve a mortal e o nume; o cinto à virgem
    Ele desata, em êxtase embebida.
    Cumulado o prazer, da mão lhe trava:
    “Alegra-te, mulher, no giro do ano
    Lindos gêmeos terás, que terna cries;
    190 Ósculo de imortais sempre é fecundo.
    Anda, cala contigo, eu sou Netuno.”
    E se afundou no flutuante pego.
    Tiro houve a Pélias e Neleu, de Jove
    Régios ministros, na arenosa pilos
    195 Neleu, Pélias na fértil em manadas
    Ampla Iaolcos. A Creteu marido
    Pariu também a guapa soberana
    O éqüite Amitáon e Éson e Feres.
         Antíope de Asopo eu vi: nos braços
    200 Concebeu do Satúrnio Anfion e Zeto,
    Que alcançaram Tebas a de sete portas
    E a muniram de torres, pois sem elas,
    Bem que heróis, habitá-la não podiam.
         Alcmena Anfitriônia eu vi, que, ilusa
    205 Unindo-se ao Tonante, Hércules teve
    De ânimo de leão; depois, Megara,
    Do semideus mulher, de Créon prole.
         Epicasta eu vi bela, em cujo toro,
    Fatal engano! entrou seu filho Édipo,
    210 Ignaro parricida. O fato horrível
    Tendo o Céu revelado, ele, por dura
    Sentença divinal curtindo penas,
    Os Cadmeus regeu na amena Tebas;
    Ela em agro pesar, suspenso um laço
    215 De Celsa trave, do Orco às portas baixa,
    Ao cúmplice legando quantas fúrias
    Sabe evocar do inferno a dor materna.
         A de Anfíon Iásides mais jovem,
    Clóris vi, que Neleu com pingue dote
    220 Esposou por formosa, herói que em Pilos
    E na Miniéia Orcômeno imperava;
    Do qual teve os gentis Nestor e Crômio,
    Periclímeno ilustre, e aquela Pero
    De todos maravilha ambicionada.
    225 Por Neleu prometida a quem furtasse
    De Íficlo as negras vacas largifrontes,
    Só tentou vate exímio essa árdua empresa;
    Mas, por destino austero, o agrilhoaram
    Em Fílace os boeiros. Já corridos
    230 Meses e dias e estações de um ano,
    Tendo agouros solvido ao rei potente,
    Libertou-se, de Jove por vontade.
         A Leda eu vi, que a Tíndaro excelentes
    Filhos pariu, Castor na picaria,
    235 No pugilato Pólux: vivos ambos.
    No térreo bojo, alternam vida e morte;
    Por turno o Padre sumo os diviniza.
    Vi de Aloeu a cônjuge Ifimedia,
    Fera de concebido haver dous filhos
    240 De Netuno, Efialtes e Otogemeos,
    Da alma terra pulquérrimos gigantes,
    Após Órion, se bem de alento breve:
    Aos nove anos, já tinham de cintura
    Cúbitos nove, com tresdôbro de alto.
    245 Movendo ao mesmo Céu guerra estrondosa,
    Para a escalada, sobre o Olimpo o Ossa
    Tentaram pôr e sobre o Ossa o Pélion:
    Talvez na puberdade o acabariam,
    Se o de Latona e Jove os não matasse
    250 Antes que o buço as faces lhes pungisse:
    Ou flórea barba sombreasse os mentos.
         Prócris e Fedra vi, de Mimos sábio
    Ariadna filha, que Teseu de Creta
    Para Atenas levava culta e fértil;
    255 Mas de caminho lha embargou Diana,
    De Baco a instâncias, na circúnflua Dia
         Mera e Climene, Erifile odiosa,
    Que traiu seu marido à força de ouro.
    Mas, se nomeio quantas vi mulheres
    260 Ou gênitas de heróis, ir-se-ia a noite,
    Que, entre os sócios a bordo ou neste paço,
    Já me empenha balsâmica ao repouso.
    A volta minha incumbe a vós e aos deuses.” —
         Na eloquência enlevados os convivas,
    265 Silêncio guardam pela sala umbrosa.
    A alva Areta o quebranta: “Em forma e talhe
    Que vos parece tal varão, Feaces,
    E em mente sã? Bem que hóspede meu seja,
    Da honra participais: daqui não parta,
    270 Sem dons lhe prodigardes na indigência,
    Pois tendes muito por mercê divina.”
         Equeneu ponderou, maior na idade:
    “Obedecei-lhe, amigos, não sem tento
    Exprimiu-se a rainha; o exemplo e as ordens
    275 Manem de Alcino.” E Alcino: “Enquanto reja
    A marítima gente, igual aviso
    O meu será. Comprime a impaciência,
    Té que, hóspede, amanheça e os dons colhamos
    Da tua volta os nossos curam todos,
    280 E eu mais, cujo poder no povo estriba.”
         Logo o astuto: “Em preparos da viagem
    Com magníficos dons, ó rei possante,
    Se um ano me entretens, um ano fico:
    De mãos cheias à pátria ir me aproveita,
    285 Para ser venerado e mais querido.”
         O rei continuou: “Prudente Ulisses,
    Quem atentar em ti, não pode crer-te
    Impostor, quais a terra esparsos nutre
    A decantar mentiras sem contraste:
    290 Sisudo e simples, como um vate narras
    A história dos Aqueus e os lances próprios.
    Viste algum bravo sócio em Tróia extinto?
    Cedo é para dormir, a noite é longa:
    Se a tua dor consente o prosseguires,
    295 A alvorada me encontre a ouvir teus casos.”
         Ulisses prosseguiu: “Preclaro amigo,
    Horas há de falar e horas de sono;
    Mas, se o levas em gosto, não recuso
    Dos meus contar-te os lutos e infortúnios,
    300 E dos que, livres da cruenta guerra,
    Na pátria sucumbiram pela infâmia
    De uma falsa mulher. — Disperso tendo
    Prosérpina os femíneos simulacros,
    O de Agamemnon surge, e os dos que Egisto
    305 Com ele assassinou. Bebido o sangue,
    Braços me estende, em lágrimas a pares;
    O alento lhe falece, que era dantes
    Em seus membros flexíveis, e eu carpindo
    Lhe brado condoído: “Ó glorioso
    310 Rei dos reis, como houveste o fatal golpe?
    Domou-te o azul tirano em tempestade?
    Ou mãos hostis em terra, ao dcpredares
    Armentio e rebanho? ou defendo
    O pátrio muro e a honra das famílias?”
    315  “Divo e sábio Laércio, respondeu-me,
    Não me domou Netuno em tempestade,
    Nem mãos hostis em terra: Egisto à casa,
    Com minha atroz consorte conluiado,
    Atraiu-me, e no meio de um banquete,
    320 Como a rês no presepe, derribou-me;
    E estes sócios comigo estrangularam,
    Quais porcos de um ricaço destinados
    A função por escote ou bródio ou núpcias.
    Estiveste em conflitos e carnagens,
    325 Mas por tão feio horror nunca choraste:
    Cratera e mesas e comer e sangue
    Mistos rolam; no chão pungentes gritos
    Soam-me de Cassandra Priaméia,
    Que ante mim trucidava Clitemnestra;
    330 Soergo-me, e inda busco moribundo
    Pegar do alfange; aparta-se a impudente,
    Nem quis, no instante que eu baixava a Dite
    Cerrar-me os olhos e compor-me os lábios.
    Nada há mais sevo que a mulher indigna
    335 Capaz de conceber tamanhos crimes.
    A que esposei donzela assim tratou-me:
    Crua morte me urdiu, quando eu pensava
    Prazer vir dar a fâmulos e a filhos.
    Torpemente manchou-se, e tanta infâmia
    340 Tem as mais virtuosas deslustrado.”
         “Hui! de Atreu contra a raça, exclamo, é fado
    Que a Jove irritem feminis conselhos:
    De tantos funerais foi causa Helena;
    Traições tramou-te ausente Clitemnestra.”
    341 E ele: “Austero à mulher nunca fraquejes;
    Reveles o preciso, o mais lhe encubras.
    Não virá de Penélope desastre,
    Sábia filha de Icário intemerata;
    Inda noiva a deixamos, ao partirmos,
    350 Com seu filho de mama, hoje homem feito;
    Ditoso hás de abraçá-lo, há de ele ver-te:
    No meu vedou-me saciar os olhos
    Clitemnestra cruel. Mas, n’alma o graves,
    Não fiar de mulheres; cauto e oculto
    355 Aborda à pátria, conta-me, entretanto,
    Se no seio de Orcômeno ou de Pilos,
    Ou junto a Menelau na vasta Esparta,
    De meu filho soubeste; pois da terra
    A Dite inda não veio o divo Orestes.”
    360 “Para que hei de enganar-te? respondi-lhe
    Se é vivo ignoro.” E enquanto lagrimamos,
    Aparecem-me Aquiles e Pátroclo,
    Mais Antíloco e Ajax, que ao só Pelides
    Entre os Gregos cedia em gentileza.
    365 O Eácida ligeiro, ao conhecer-me,
    Gritou: “Sábio Laércio generoso,
    Que te falta, infeliz, para empreenderes?
    Vires ao reino escuro, só de aéreos
    Incorpóreos fantasmas habitado!”
    370 “Valente dos valentes, vim, lhe torno,
    Perguntar a Tirésias como à pátria
    Fragosa aportarei. Mesquinho e errante,
    Nela não estive, nem sequer na Acaia.
    Tu, feliz no passado e no futuro,
    375 Eras em vida qual um deus aceito,
    E ora as almas dominas; do trespasso
    Não deves pois te lamentar, Aquiles.”
         “Ínclito Ulisses, retorquiu, da morte
    Não me consoles; pago anteporia
    380 Servir escassa rústica choupana
    A defuntos reger. Dize, meu filho
    Na frente sempre ou no tropel combate?
    Que é de Peleu brioso? inda o veneram,
    Ou na Hélade e Pítia hoje o desdenham,
    385 Por que a velhice pés e mãos lhe tolhe?
    Ao sol não mais respiro, como em Tróia,
    Batalhões derrotando em pró dos Gregos:
    Se eu tocasse um momento o pátrio alvergue,
    A intrepidez e audácia embotaria
    390 Dos que o privem das honras e homenagens.”
         “Nada, lhe digo, de Peleu me consta;
    Mas de Neotólemo aqui te informo:
    De Ciro transportei-o em nau bojuda
    Aos grevados Aqueus. Sempre em consultas
    395 Primeiro, sem desvio discursando,
    A mim próprio e a Nestor se equiparava;
    Sempre avante, na turba não se tinha,
    Na refega a ninguém rendia a palma,
    Sem conto propinando o acerbo trago.
    400 Uma façanha apontarei somente:
    A Euripilo Teléfides com muitos
    A bronze derribou, dos Ceteus cabo,
    Que, por dons feminis, passara a Tróia,
    E após Mênon divino era o mais belo.
    405 O cavalo de Epeu quando montamos,
    Abrir, fechar as cálidas insídias,
    Ficou tudo a meu cargo: os reis e os chefes
    Estremecendo o pranto sufocavam;
    Pálido nunca o vi nas gentis faces,
    410 Nunca uma lágrima enxugando. Oh! como
    Do cavalo sair me suplicava!
    Como apunhava a espada e a lança aênea,
    Aos contrários minaz! Depois de rasas
    As muralhas Priâmeas, embarcou-se
    415 Com rica presa, ileso de êneos golpes
    Ou de longe ou de perto, a comum fúria
    De Marte sem provar na atroz contenda.”
         A alma do Velocípede, orgulhosa
    Das notícias do filho, corta alegre
    420 Em marcha triunfante o verde prado.
         Outras males seus também me expunham;
    Mas a de Ajax, de parte, irosa estava
    Pelas armas de Aquiles, que a mãe Tétis
    Ante as naus presentara, e por sentença
    425 Me adjudicaram Teucros e Minerva.
    Ah! nunca me coubera essa vitória,
    Que o herói tumulou dos Gregos todos
    O mais formoso e bravo, exceto Aquiles!
    Meigo lhe imploro: “Exímio Telamônio,
    430 Nem morto esqueces a fatal porfia,
    Celeste punição da gente Argiva!
    Da pátria ó fortaleza, o luto nosso
    Não foi maior quando morreu Pelides.
    A culpa é só de Júpiter, que os Dânaos
    435 Abomina e te impôs tão dura sorte
    Chega-te, ouve-me, ó rei, teu ódio aplaca,
    No ânimo generoso me perdoa.”
         Não deu palavra, e tácito ia andando
    No Érebo a esconder-se. Inda que torvo,
    440 Me falara por fim; mas outras sombras
    Examinar o peito me pedia.
         Minos, gérmen Dial, tendo áureo cetro,
    Sentado o avisto a conhecer dos mortos,
    Que, esparsos no Orco, se erguem por seu turno,
    445 Dizem do seu direito. Órion avisto,
    Por várzeas de gamões a acossar feras
    Que vivente abatera em montes ermos,
    De érea clava na mão. — Eis Tício, aluno
    Da gloriosa Terra, que estendia-se
    450 Por jeiras nove, e abutres, sem podê-los
    Despregar, às entranhas aferrados,
    Lhe estão roendo o fígado, em castigo
    Da tentada violência à do Tonante
    Casta esposa Latona, indo ela a Pito
    455 Pelas do Panopeu ridentes margens.
         Vi Tântalo também, num lago imenso
    Que o mento lhe banhava, ardendo em sede.
    Pois, a apagá-la se perdia o velho,
    A água absorta escoando-se, um demônio
    460 Aos pés seco atro lodo lhe mostrava.
    Sobre a cabeça corpulentos galhos
    Suspendiam-se frutas sazonadas,
    Figos doces, romãs, pêras e olivas;
    Mas, se o velho faminto ia colhê-las,
    465 O vento as levantava às densas nuvens.
         Vi Sísifo, anelante e afadigado,
    Em pés e mãos firmar-se, pedra ingente
    Para um monte empurrando, e lá do cume
    Galgado por Crateis, rolar de novo
    470 O pertinaz penedo; ei-lo persiste,
    Suor escorre e a testa se empoeira.
         Hércules se me antolha, em simulacro,
    Pois no céu liba o néctar, caro esposo
    De Hebe de lindos pés, de Jove e Juno
    475 De áureas sandálias filha: em guinchos de aves,
    Cercam-no, espalham-se, a fugir os mortos;
    Cor da noite, ele ajusta a frecha ao nervo,
    Na ação de disparar, tétrico olhando.
    Ao peito áureo talim cinge estupendo,
    480 Onde leões, javardos e ursos, tinha
    Com primor esculpidos, e recontros
    E batalhas e estragos e homicídios:
    Mestre algum peça igual fabricou nunca,
    Nem há de fabricar. O herói sem custo
    485 Reconhece-me e fala comovido:
    “Nobre e sábio Laércio, ai! tens a sorte
    Misérrima que tive, quando aos raios
    Eu respirei do Sol. Nasci de Jove,
    Mas fui de angústias mil atormentado,
    490 Sujeito a homem de valor somenos,
    Que me impunha asperíssimos trabalhos!
    Cargo o pior, mandou-me o cão trifauce
    Cá prender; eu do inferno o tirei fora,
    Por Mercúrio ajudado e por Minerva.”
    495 Disse e foi-se ao profundo; eu quedo espero
    Por mais outros varões dos priscos tempos:
    Gostoso a muitos vira, e contemplara
    Pirítoo e Teseu, divina prole;
    Mas com harto ruído infinda chusma
    500 Ávida concorrendo, enfim de medo
    Que do imo a soberana me enviasse
    A Gorgônia horrendíssima cabeça.
    Rápido embarco a gente e safo os cabos;
    Nas tostes a maruja, a correnteza
    505 Pelo Oceano rio nos levava,
    Ao som da voga e favorável brisa.

    NOTAS AO LIVRO XI
    10-16 — Questionam os eruditos se os Cimérios ficavam na Quersoneso Táurica, ou junto a Nápoles, ou fora das colunas de Hércules. Fundam-se os da última opinião na palavra Oceano de que usa o poeta; mas, em grego e latim, Oceano tomava-se pelo mar todo e qualquer, e mesmo por um golfo, e só este argumento parece que não conclui. Rochefort trabalha por mostrar que os Cimérios de Homero são na Quersoneso Táurica, e cita os principais que até seu tempo trataram da questão. Sou mais da segunda opinião, confessando contudo que é matéria duvidosa, e o sou: 1.°) porque sempre foi este o parecer dos antigos de maior nota; 2.°) porque o adotou Virgílio, autoridade para mim de toda a exceção; e enfim, pelos argumentos que vêm na Lettre à M. Victor Langlois par Ch. Em. Ruelle, publicada em Paris em 1859, à qual pode recorrer o leitor curioso, pois citá-los todos faria não pequeno volume.
    298 — Levar em gosto, boa e usada locução, vem em Morais, mas falta em Constâncio: é de óbvio sentido, e da conversação ordinária.
    402-403 — Não é líquido quem fossem os Ceteus comandados por Eurípilo: pensam uns que eram simples mercenários; outros certos povos da Míria; outros, da Eléia, por causa do rio Ceteu, que é dessa parte da Grécia; outros enfim, de Pérgamo. Há também dúvida quanto às palavras gunaion eineka dõrõn: uns dizem que Príamo fez presentes à mulher e à mãe de Eurípilo a fim que este o ajudasse; outros, que lhe prometeu uma das filhas para atraí-lo. Pindemonte é do segundo parecer; eu sou do primeiro, porque o plural gunaion indica antes que Homero se refere às dádivas, que a só filha de Príamo. M. Giguet verteu à letra, à cause des presents des femmes; o que não levo a mal, posto que assim torne-se escura a passagem, pois a escuridade vem do próprio autor e não do seu tradutor.
    438-441 — Apesar de Mme. Dacier e dos mais tradutores, este encontro não é tão belo como o de Enéias com Dido. “A inflexibilidade de Ajax, diz Rochefort, é verdadeiramente sublime; a cena patética dos dous heróis perde muito com dous atores como Enéias e a sua amante, sobretudo ao voar Dido aos braços de um marido de quem se esquecera”. Deslembrou-se o crítico de que os fundadores de Roma e de Cartago, na hipótese de Virgílio, eram também dous heróis e dous heróis muito úteis; e a circunstância de amantes acrescenta o interesse dramático. Rochefort devera ser mais ciumento que um Turco, pois não admitia que uma viúva, depois de vingar o seu primeiro esposo, passados tantos anos, quisesse casar de novo para ter um defensor e aumentar a sua colônia. Siqueu não tinha sido atraiçoado, e justo era que perdoasse um erro onde a sua honra não fora comprometida; o perdão de Siqueu e o amor de Dido para com o marido que a não tinha manchado (assim opino eu em nota à Eneida) causam grande comoção. O meu bom camarada Garret, no seu “Fr. Luís de Sousa”, um dos primores do nosso teatro, melhor conheceu, conheceu como Virgílio, a delicadeza de um grande coração, quando fez que o primeiro marido de D. Madalena, sabendo-a casada com um cavaleiro generoso, em vez de mostrar ciúme estúpido se compadecesse dos novos consortes e desaparecesse. Já toquei, em nota ao sexto livro da Eneida, que o silêncio de Dido sobe ao cume do sublime pela sua irrevogabilidade, exprimida com a comparação Quam si dura silex aut siet Marpesia cautes; e a de Ajax diminui de força pela afirmação de que ele teria falado a Ulisses, a ter este insistido. — Para mim o inferno do poeta Latino é grandemente superior ao do poeta Grego; mas, quanto ao mérito dos autores, é cousa diferente: Homero, como criador, está sentado na principal cadeira, e com razão tem sido representado na figura de um rio caudaloso em cuja urna cada qual dos outros vem encher a sua.
    504 — As tostes, em latim transtra, que Larramendi cuida vir do vasconso tostae, são bancos de navios de remos, e não só bancos de forçados, segundo o querem dar a entender os nossos dicionaristas. Ir para o índice do livro.
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    Item Reviewed: Odisséia de Homero - Livro XI Rating: 5 Reviewed By: Pbsena Sena

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