Odisséia de Homero - Livro X - Tifsa Brasil
  • Recentes

    12 de junho de 2018

    Odisséia de Homero - Livro X

    Do Hipótades Eolo, aceito ao numes,
    A ilha abordamos, a nadante Eólia,
    De éreo muro infrangível circundada
    Sobre liso penedo. Ele os seis pares
    5 Consorciou de filhos, para todos
    Junto ao bom pai e à casta mãe comerem
    À mesma vária mesa: ao dia, a casa
    Harmônica recende; à noite, aos braços
    Das consortes pudicas se repousam,
    10 Em tapetes e leitos recortados
    Nessa bela vivenda um mês inteiro
    Amigável tratou-me, a indagar sempre
    De Ílion, da frota Argiva e da tornada;
    Eu recontava tudo. Enfim licença
    15 Rogo-lhe de sair, ao que ele acede
    E dispõe a partida: os rijos ventos
    Feche em pele de um touro de nove anos,
    Porque a seu grado, permissão de Jove,
    Os subleva ou contêm; por um calabre
    20 Argênteo os cerra no porão, temendo
    Um hálito qualquer; único solto,
    Nos vai soprando Zéfiro propício.
    Tais precauções frustou-nos a loucura.
         Navego assíduo; na dezena tarde,
    25 Ítaca e os lumes seus me apareciam:
    Rendo-me ao sono ali, cansado e lasso,
    Pois nunca o leme a outrem confiara,
    Para em terra o mais cedo nos acharmos.
    Do generoso Hipótades riquezas
    30 Crendo que eu recebera, os da equipagem
    Discorriam destarte: “Oh! quanto Ulisses
    Por onde quer que aborde é festejado!
    Onusto vem de Ilíacos tesouros,
    E nós, tendo corrido iguais tormentas,
    35 Vamos ao pátrio lar de mãos vazias.
    Brindes lhe fez agora o amigo Eolo;
    Veja-se que ouro e argento esse odre guarda.”
         Vencendo o mau conselho, o desataram:
    Os ventos a ruir, de Ítaca os deitam,
    40 A empegá-los em lágrimas desfeitos.
    Acordo; ao mar calculo se me atire,
    Ou sofra a nova dor: sofri, jazendo
    No fundo oculto; os outros, suspiravam.
    Procela atrás à Eólia nos remessa:
    45 Feita aguada na praia e um jantar breve,
    Como o arauto e um guerreiro me endereço
    De Eolo aos paços, que ao festim seus filhos
    E a mulher tinha; sento-me à soleira,
    E eles pasmados: “Foi-te um nume infenso?
    50 Tornaste, Ulisses? Tudo acautelamos,
    Para a salvo aos penates reverteres.”
         Triste respondo: “Sócios temerários
    E fatal sono, amigo, me perderam;
    Auxílio, que o podeis.” Com brandas vozes
    55 Quis demovê-los, mas seu pai retorque:
    “Fora, não devo proteger um homem
    Ingrato ao Céu; foge daqui, malvado,
    És ódio aos imortais.” E agro e severo,
    Da Eólia nos despede a soluçarmos.
    60 A vogar, fatigada já do remo,
    Do erro se argúi a gente esmorecida.
    Gastas seis, na setena singradura
    Arribou-se de Lamos à eminente
    Lestrigônia Telépila, onde o gado
    65 Recolhendo o pastor, pelo outro chama,
    Que obediente sai; onde o salário
    O insone dobraria, apascentando
    Já manadas, já greis de branco velo:
    Tanto ali se aproxima a noite e o dia.
    70 Do porto em roda a pique há celsas pedras,
    E a barra estreitam cabos dous bojantes:
    As naus dentro se amarram conchegadas,
    Que o mar dorme tranqüilo e não se altera.
    A minha só de fora atei por cabos
    75 A um rochedo apartado, e ao cimo trepo
    A especular se em torno divisava
    De homens ou bois trabalho; só rompia
    Do solo um fumo. Escolho dous, que saibam,
    Com o arauto, a quem lá sustente Ceres;
    80 Trilham por onde carreava lenha
    Dos montes à cidade, e perto a filha
    Do Lestrigão Antífates encontram,
    Guapa donzela, que de Artácia à fonte
    Clara descera, donde o povo bebe;
    85 Quem no país mandava lhe perguntam,
    E o paterno palácio indica a jovem.
         Entram; com susto a esposa, igual de um morro,
    De Antífates avistam; que, chamado,
    Presto chega da praça, atroz empolga
    90 Um para a crua ceia; os dous conseguem
    Refugiar-se à frota. Ao grito régio,
    Da cidade, homens não, gigantes fervem,
    E a penedos, que arrancam, nos lapidam,
    O estrépito a soar de moribundos
    95 E naus quebradas; para o triste pasto.
    Qual peixe os Lestrigões a gente enfiam.
    Enquanto esses no porto assim perecem,
    Do meu navio a gládio amarras talho;
    A esquivar a desgraça insto a companha,
    100 Que açodada e medrosa os remos força:
    O meu baixel evita os sáxeos tiros;
    Os mais daquela chuva ali soçobram.
    Da morte isentos, por amigos tantos
    O negro mar tristíssimos cortamos.
    105 Na ilha aporto Eéia, da terrível
    Música Circe de madeixas de ouro,
    Irmã de Etas prudente, nados ambos
    Do claro Sol e da Oceânia Persa.
    A largo surgidouro um deus nos guia;
    110 Lá, de cansaço e de ânsias corroídos,
    Longamente e em silêncio repousamos.
    Da aurora crinisparsa à luz terceira,
    A espada e lança tomo, um alto subo
    Donde ouça vozes ou culturas veja;
    115 Paro no áspero tope, enxergo um fumo
    Que dentre um carvalhal saía em cerco
    Do palácio de Circe. N’alma volvo
    Se após o fumo avance; mas prefiro
    Ir a bordo, e à maruja dado o almoço,
    120 Enviar adiante exploradores.
    Da nau já perto, condoído um nume
    Da minha soledade, ofereceu-me
    Galheiro cervo, que do pasto ao rio
    Vinha beber, da calma estimulado:
    125 A bronze o atravessei pelo espinhaço,
    E o bruto cai berrando e a vida exala;
    Pulo, saco-lhe o hastil, por terra o deixo,
    Vimes despego e silvas, e torcendo-os
    Corda formo de braça, os pés lhe amarro;
    130 Firme n’hasta, ao cachaço o levo preso,
    Porque de uma só mão, sobre uma espádua,
    Suster carga tamanha era impossível.
    Ante os sócios o arrojo, e em modo afável
    Os conforto um por um: “A Dite, amigos,
    135 Só baixaremos do fatal instante;
    Comei, bebei, de fome não morramos.”
         Dóceis levantam-se, e na praia admiram
    O enorme cervo, e os olhos tendo fartos,
    As mãos lavadas, o festim preparam.
    140 Veação gorda e vinho, até ser tarde,
    Nos regalaram; sobre a noite escura
    Na marítima areia adormecemos.
    No amanhecer, convoco e falo a todos:
    “Por mais graves que sejam nossas penas,
    145 Atendei-me, consócios. Ignoramos
    Se a terra é donde o Sol mergulha em trevas,
    Ou do fúlgido eôo em que ele nasce;
    Quero vos consultar, eu nada afirmo.
    Do cume de um penhasco, vi que a cinge
    150 Mar infinito, humilde ilha pequena,
    Que dentre basto carvalhal fumega.”
         Estala o coração, lágrimas chovem;
    Das cruezas de Antífates se lembram,
    E do fero antropófago Ciclope.
    155 Chorar que vale? Em corpos dous os nossos,
    Mando eu um, outro Euríloco deiforme:
    Sacudidas as sortes no elmo aêneo,
    Sai a do bravo Euríloco; este parte
    Com vinte dous gementes companheiros,
    160 Que apartam-se de nós também gementes.
         Num vale acham marmóreo insigne paço,
    Que cercam lobos e leões, de Circe
    Com peçonha amansados: contra a gente
    Não remeteram de unhas lacerantes,
    165 Sim alongando a cauda os afagaram,
    Como festejam cães o meigo dono
    Que lhes traz do banquete algum bocado;
    Mas, a tal vista, ao pórtico medrosos
    Retiveram-se os Gregos. Dentro ouviam
    170 Cantar suave a crinipulcra Circe,
    Teia a correr brilhante, que só deusas
    Lavram tão fina e bela. Eis diz Polites,
    Chefe que eu mais prezava: “No alto, amigos,
    Mulher ou deusa tece; o pavimento
    175 Ressoa todo ao cântico: falemos.”
         Gritam; Circe aparece, e abrindo as portas
    Resplendentes, convida esses incautos;
    Só, receoso, Euríloco repugna.
    Senta-os a deusa em tronos e camilhas;
    180 Escândea e queijo com Paneio vinho
    Mistura e fresco mel, poção lhe ajunta
    Que deslembra da pátria. Mal a engolem,
    Toca-os de vara, na pocilga os fecha,
    Porcos sendo no som, no vulto e cerdas,
    185 A inteligência embora conservassem.
    Tristes grunhindo, a maga lhes atira
    Glande, azinha e cornisolo, sustento
    Próprio desses rasteiros foçadores.
         Veio Euríloco à pressa anunciar-nos
    190 O caso infando, que articula apenas
    Pela força da dor, pois lhe excitava
    Luto no coração, água nos olhos;
    E, instado, o exício narra: “Ao teu preceito,
    Fomos, Laércio, num convale achamos
    195 Em vistoso lugar marmóreo paço.
    Mulher ou deusa que a tecer cantava,
    Abre, ao nosso gritar, fulgentes portas:
    Este convite, eu só de fora, temo;
    De esperar canso, os mais despareceram.”
    200 De tachonado bronze a tiracolo
    E o arco aos ombros, pela mesma senda
    Mando que me encaminhe; ele os joelhos
    Chorando me abraçou: “Divino aluno,
    A ir não me constranjas. Tu não voltas,
    205 Sei que os nossos perderam-se; os restantes
    Esquivemos, fugindo, o negro fado.”
    “Bebe e come, retruco, em ócio a bordo;
    Por mim clama o dever.” E a trilha enceto.
         Já, pelo sacro bosque, avisto o alcáçar
    210 Da venéfica Circe, quando o nume
    Do caduceu me encontra, afigurado
    Num gentil gracioso adolescente;
    Ele trava-me a destra: “Ignotos serros,
    Mísero, andas sozinho? os teus, quais porcos,
    215 Os tem Circe em fortíssimo escondrijo.
    Vens tu livrá-los? sorte igual te espera.
    Antídoto haverás, que te preserve
    Da encantadora. Seus ardis aprende:
    Num misto lançará sutil veneno,
    220 Em meu remédio fia-te; ao sentires
    De vara o toque, puxa dante o fêmur,
    Como para feri-la, a espada aguda;
    Quase a medo, ao seu toro há de invitar-te.
    Amores não recuses de uma deusa,
    225 Que te socorra e desencante os sócios;
    Mas dela exige o grande juramento,
    A fim que outras ofensas não te apreste,
    Nem do valor te dispa e te efemine.”
         Da terra aqui Mercúrio extraiu planta,
    230 E ma explicou: raiz escura tinha
    E láctea a flor; os deuses moli a chamam;
    É-lhes fácil cavá-la, aos homens custa.
    Foi-se da ilha espessa ao grande Olimpo;
    Nisto e pensoso dirigi-me a Circe.
    235 Eu da entrançada Eéia às portas grito,
    Que abre logo os resplêndidos batentes,
    E a seu convite, contristado, a sigo.
    Aos pés lindo escabelo, num dedáleo
    Trono me colocou de argênteos cravos.
    240 Misturada a bebida em áurea taça,
    Provei; não me fez mal; da vara ao toque,
    Disse: “Vai-te à pocilga, aos mais te agrega.”
    Como para matá-la, o gládio saco;
    Brada, furta-se ao bote, a meus pés freme:
    245 “Quem és? de que nação? de que família?
    Pasmo de que resistas; este encanto,
    Nunca o susteve alguém por cujos dentes
    Se infiltrasse o veneno: alma inconcussa
    Tens no peito. És por certo o sábio Ulisses,
    250 Que o de áureo caduceu me afirmou sempre
    De Ílio cá surgiria em nau veleira.
    Embainha essa espada; em nosso toro,
    Em mútua confiança, o amor gozemos.”
         Repliquei-lhe: “A contigo humanizar-me
    255 Tu, Circe, me alicias, tu que em porcos
    Meus sócios transformaste, e aqui dolosa
    Me instigas ao teu leito, a fim que, inerme
    E despido me enerves e efemines?
    Solene jura, ó deusa, que em meu dano
    260 Mais nada empreenderás.” — Jurou-me, eu subo
    Ao tálamo loução. Criadas quatro
    Fiéis com diligência ali serviam,
    Ninfas de bosque ou fonte ou santo rio:
    Uma forra de púrpura as cadeiras,
    265 Pondo alvo linho em baixo; outra bufetes
    Argênteos cobre de áureos açafates;
    Outra em cratera argêntea o vinho infunde,
    Que em áureos copos distribui melífluo;
    A quarta ferve em trípode ênea e grande
    270 Água sonora, que tempera e em ampla
    Tina me esparge por cabeça e ombros
    Tépido grato banho, até que os membros
    Me refaz do cansaço. Fresco e ungido,
    Em manto airoso e túnica, de prata
    275 Num trono cravejado e precioso,
    De artefato escabelo, a mesma entorna
    Linfa às mãos de elegante jarro de ouro
    Numa argêntea bacia, e me desdobra
    Limpa mesa; que amável despenseira
    280 De pães enche e abundantes iguarias,
    Instando-me a comer; eu com fastio
    Abanquei-me a cismar e a prever males.
         Próxima Circe, a minha dor percebe:
    “De ânsias ralado, Ulisses, emudeces?
    285 Nem tocas na bebida e nos manjares!
    Certo algum dolo temes, não refletes
    Que jurei pela Estige.” — Eu logo: “Circe,
    Que homem justo beber ou comer pode,
    Antes que valha aos míseros amigos?
    290 Se a teu festim me queres satisfeito,
    Soltos eu veja os prediletos sócios.”
         Ela, pegando a vara, sai de casa
    E abre o chiqueiro; tira-os parecidos
    A varrões de nove anos, em fileira
    295 Um por um vai com bálsamo esfregando,
    Cair fazendo o pêlo que o veneno
    Exicial criara, e mais os torna
    Jovens e esbeltos. A chorar de gosto,
    Beijam-me a destra, o pranto ressoava.
    300 Doeu-se a déia: “Ulisses engenhoso
    Em seco o vaso, nas vizinhas grutas
    Guarda o que tens, riquezas e aparelhos;
    Venham contigo os prediletos sócios.”
         Persuadiu-me; encontro os meus na pra
    305 A nutrir-se de choro e de suspiros:
    Quais agrários bezerros, quando as vacas
    Ao curral vêm de relva saciadas,
    Sem que os vedem redis, mugindo pulam
    Das mães em derredor; assim me cercam
    310 Lagrimando os consócios; cuidam quase
    Ítaca ver em mim rude, mas terra
    Onde foram gerados e nascidos,
    E dizem-me a gemer: “De Jove aluno,
    De rever-te folgamos, qual se aos campos
    315 Volvêssemos da pátria. Ora nos conta
    O infortúnio dos nossos.” — Eu me apresso
    A animá-los: “Varemos o navio,
    O que ele encerra em grutas recolhamos;
    Vinde comigo todos, que os amigos
    320 No palácio de Circe à farta vivem.”
         Prontos obedeciam, mas bradando
    Euríloco os deteve: “Ah! desgraçados,
    Onde imos? à mansão da maga Circe,
    Que em porcos, lobos ou leões, vos mude,
    325 E a rodar seu palácio vos constranja?
    Tereis outra caverna do Ciclope,
    Matadouro dos sócios por audácia
    Do insano Ulisses”. Cala, e eu saco a espada,
    Pretendendo a cabeça decepar-lhe,
    330 Bem que parente fosse; mas os nossos
    Com doçura o impediram: “Se o permites,
    Ele cá permaneça e a nau vigie,
    E da deusa à morada nos conduzas.”
    Saímos pois da praia, e da ameaça
    335 Medroso o mesmo Euríloco nos segue.
         Circe os outros cuidosa em casa banha
    Perfuma e paramenta: em lauto bodo
    Os achamos de túnicas e mantos.
    Mestos a prantear se comunicam,
    340 E o paço retumbava; a veneranda
    Circe atalhou: “Não mais, divino Ulisses,
    Vos exciteis ao luto. Eu sei dos transes
    Padecidos por vós no mar piscoso,
    De hostilidades mil que em terra houveste.
    345 Comei, bebei, refocilai; no peito
    Renasça o ardor que tínheis ao deixardes
    Ítaca alpestre: agora ah! desabridos
    Por tão penoso errar, por tantas mágoas,
    Ao júbilo e prazer sois insensíveis!”
    350 Comoveu-nos, e em mimos lá ficamos
    Um ano inteiro. As estações decorrem
    E longuíssimos dias, e em segredo
    Os meus advertem-me: “Infeliz, deslembras
    O chão natal? O fado reservou-te
    355 À pátria e aos lares teus.” Meu brio esperta.
         Enquanto o Sol não cai, bom vinho e carnes
    Desfrutamos; à noite, por obscuras
    Salas dormindo os mais, subo ao divino
    Tálamo refulgente e me ajoelho:
    360 “Cumpre, Circe, a promessa, a pátria anelo;
    Por mim to rogo, pelos ais de tantos
    Que em tua ausência o coração me partem.”
         A augustíssima ninfa respondeu-me:
    “Divo astuto Laércio, constranger-vos
    365 Não quero; mas convém baixeis primeiro
    De Prosérpina e Dite à feia estância,
    O vate a consultar cego Tirésias,
    Único morto a quem a inferna Juno
    O saber e o pensar tem conservado,
    370 Não sendo os outros mais que aéreas sombras.”
         De alma rasgada, a Circe a cama inundo,
    Enjeito a vida, o claro Sol odeio;
    Mas, de chorar e revolver-me lasso:
    “Quem há-de, perguntei, pilotear-me?
    375 No Orco nenhum desembarcou té hoje.”
         “Isso, replica, não te dê cuidado:
    Arma, Ulisses, o mastro, expande as velas;
    Senta-te, e a Bóreas encomenda o rumo.
    Quando, por entre o pego, à mole praia
    380 E ao luco de Prosérpina chegares,
    De salgueiros estéreis e altos choupos,
    Surjas lá no Oceano vorticoso,
    E à casa opaca de Plutão caminhes,
    Onde o Cocito, que do Estige mana,
    385 Com o ígneo Flegetonte, separando
    Celsa penha os ruidosos confluentes,
    Mete-se no Aqueronte. Ali, te aviso,
    Em cova cubital por toda parte,
    Libações vaza herói, de mulso e leite
    390 Às mãos ambas, depois de mero vinho,
    Terceira de água, e branco farro mescles.
    Implora os oucos manes e promete,
    Em Ítaca imolada a melhor toura,
    De dons a pira encher, e ao mesmo vate
    395 Sacrificar sem mancha atro carneiro,
    Flor dos rebanhos vossos. Dos finados
    Assim que às gentes ínclitas orares,
    Pretas reses degola, macho e fêmea,
    Do Érebo em face, e averso atenta o rio;
    400 Hão-de presto acudir enxames de almas.
    Queimar as hóstias esfoladas manda:
    Vota a Plutão pujante e à seva esposa.
    De espada em punho, junto à cova, impede
    Que, antes de questionares a Tirésias,
    405 Provem do sangue os manes: pronto o vate
    Virá mostrar, ó capitão de povos,
    Como sulques o ponto e à pátria voltes.”
         A Aurora em cróceo trono radiava:
    Circe de capa e túnica vestiu-me;
    410 Vestiu-se de alva estola fina e bela,
    Cinto áureo atou, pôs à cabeça coifa.
    Pelos salões desperto os camaradas,
    Brando os careio: “Ao sono, sus, furtai-vos;
    A partir me suade a mesma Circe.”
    415 Afervoram-se alegres; mas não pude
    Salvar a todos: Elpenor imbele,
    Estólido e o mais moço, da vinhaça
    Para se refrescar, dormiu sozinho
    De cima no terraço, e ao movimento
    420 E estrépito acordando, entontecido
    Não desce a escada longa, mas do teto
    Rui, fratura o pescoço, ao Orco afunda.
    Falo aos demais: “Talvez cuideis que à pátria
    Vamos, amigos; prescreveu-me a ninfa
    425 Que, a Prosérpina e Dite visitando,
    O Tebano Tirésias consultemos.”
    Consternam-se a tal nova e se arrepelam.
    A dor que importa? À praia aproximados,
    Chorando mestos, em pessoa Circe,
    430 Rápida e invisa, à nau já tinha presos
    Carneiro e preta ovelha: quem, se um nume
    Quer subtrair-se, rastejá-lo pode?

    NOTAS AO LIVRO X
    64 - A interpretação explica Telepylon por distantes portas. Rochefort, Pindemonte e outros, são deste parecer; mas eu, com M. Giguet, tomo Telépita por uma cidade do rei Lamos sita na Lestrigônia, viesse embora o nome da posição das suas portas.
    107 - O irmão de Circe é em latim Æetes ou Æeta, ou simplesmente Æta; mas o nosso Antônio José, na sua ópera “Encantos de Medéia”, chama-lhe Etas: estando já o nome consagrado em português por tão engenhoso poeta, não fiz mais que segui-lo.
    174-175 - Dapedon é o pavimento: alguns o tomaram por muros, alguns pela casa toda; eu creio que se deve conservar a palavra pavimento. Ainda hoje dizemos que o sobrado parece cair com o estrépito, e na verdade figura-se à imaginação que é o pavimento que vai desabar.
    232 - Usa Homero de oryssein, em latim effossa, porque a erva mole estava metida na terra, como a gengibre ou o mendobim (que os afetados e até Morais, contra o uso comum e que nos veio de África, chamam amendoim, para camparem de reinóis), e como outras muitas plantas: cavar melhor exprime a cousa do que arrancar, porque mostra que o fruto não se via de fora. Alguns fazem que Mercúrio ofereça a Ulisses a planta, que ele já tinha arrancado; mas diz o texto que foi cavada ali mesmo, depois do oferecimento.
    264-265 - Diz Homero que aos pés das cadeiras ou poltronas, cobertas de belos tapetes, havia tecidos de alvo linho: M. Giguet, à francesa e à moderna, põe os tecidos por cima da púrpura dos assentos, como para servirem de capas; não advertiu que em dia de festa e ostentação (tal era o em que Circe recebeu a Ulisses) tiram-se as capas e descobre-se a riqueza da tapeçaria. Ao presente, v. g. no Peru, consta-me que nos bailes estendem-se por cima das alcatifas ricos e alvíssimos tecidos.
    410 - Phãgros, em latim stola, era das deusas e das matronas; ao depois a adotaram os sacerdotes; mas entre os cristãos restringiu-se a palavra estola a significar uma tira de seda, larga para as pontas, que se veste por cima da alva e por baixo da casula. Uso de estola no sentido primitivo, porque não temos um termo especial, e desagradam-me tais generalidades. Pindemonte empregou o termo gonna: mas ignoro se ele compreende a estola inteira, saia e corpo, ou somente a saia — neste último caso, falta-lhe a força do grego e do latim. Ir para o índice do livro.
    • Blogger Comments
    • Facebook Comments

    0 » Comentários:

    Postar um comentário

    Olá tudo bem? Encontrou o que procurava? Achou o Tifsa útil? Então compartilhe, curta, envie ou recomende aos amigos nossos artigos. O Tifsa não tem uma campanha de marketing multimilionária ou o patrocínio de celebridades, mas temos algo muito melhor: você.

    Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole as leis, ou que configure em crime cibernético e que vão de e termos de uso, por favor denuncie.

    Item Reviewed: Odisséia de Homero - Livro X Rating: 5 Reviewed By: Pbsena Sena

    Contato

    Scroll to Top