Odisséia de Homero - Livro VI - Tifsa Brasil
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    11 de junho de 2018

    Odisséia de Homero - Livro VI

    Enquanto lasso e grave Ulisses dorme,
    Corre Minerva ao povo dos Feaces,
    Que antes moravam na espaçosa Hipéria.
    De arrogantes Ciclopes infestada.
    5 À Esquéria os trouxe o divo Nausítoo,
    De homens cultos remota; ali fez muros,
    Casas e templos, dividiu seus campos.
    Desce a Dite, e por numes instruído
    O substitui Alcino: aos paços deste
    10 Palas de Ulisses foi dispor a entrada.
         Na câmara dedálea de Nausica,
    Na beleza e no porte sobre-humana,
    Régia virgem, como aura introduziu-se,
    Bem que, êmulas das Graças, duas servas
    15 Lá de uma e outra banda repousassem
    Às reluzentes e cerradas portas.
    A eqüeva amiga da princesa, filha
    Do marítimo Dimas afamado,
    Ela imitando, à cabeceira clama:
    20 “Lenta a mãe tua te pariu, Nausica?
    Descuidas-te da roupa, e as núpcias instam;
    Para ti mesma e a comitiva toda,
    Hás mister os vestidos mais formosos:
    Ganhas assim renome, dás contento
    25 Aos genitores teus. N’alva, a caminho,
    O mais depressa lavaremos juntas;
    Pois longo tempo não serás donzela:
    Pretendem-te os melhores dos Feaces,
    Da mesma estirpe tua. Ao rei mus pede,
    30 Carroça que amanhã transporte os cintos,
    Peplos e mantos: ir a pé mau fora;
    Distam muito os lavacros da cidade.”
         Advertida a princesa, a déia ascende
    À beata mansão, que deleitosa
    35 Nunca ventos açoutam, regam chuvas,
    Ou neve asperge; onde ar sereno e limpo,
    Onde vivo esplendor eterno brilha.
         A Aurora apoltronada esperta a jovem,
    Que, atravessando as casas, vai comota
    40 Ao pai contar o sonho e à mãe augusta:
    Ela, ao fogão, fiava lã purpúrea
    Entre as servas; tardio, ele à soleira,
    Para o grande conselho ia saindo.
    A filha o atalha: “Genitor amado,
    45 Mandas-me aparelhar carroça leve,
    Onde carregue à fonte as pulcras vestes
    Que cujas guardo? Em conferências cumpre
    Estares com asseio ante os senhores;
    De cinco filhos teus, são dous casados,
    50 Mas lépidos os três querem solteiros
    De lavado ir à dança: eu tudo avio”.
         Cala as núpcias ao pai, que assaz percebe:
    “Nada, filha, te nego; ágil carroça
    Terás de taipas cinta”. Ao mando, os pajens
    55 Tiram-na fora e os mus, que ao jugo prendem.
         Ela do plaustro ao leito a roupa desce;
    Vários manjares traz a mãe num cesto,
    Com sobremessa e um odre bom de vinho;
    À filha, já montada, uma áurea entrega
    60 Redoma de óleo, que as perfume. A jovem
    Brida flagela os mus, que estrepitosos
    A carga e o flóreo bando arrebatavam.
         Junto ao rio, onde há poças de água pura
    Que a sordidez expurga, os brutos soltam
    65 Nas margens a pascer melosa grama
    Tiram a roupa, acalcam-na à porfia
    Dentro das covas, torcem-na, enxaguada
    A estendem pela praia, onde os seixinhos
    Tinha alvejado o mar. Enquanto a enxugam
    70 Ao Sol fulgente, banham-se elas mesmas,
    E de óleo ungidas à ribeira jantam.
    Fartas já de comer, as toucas despem
    E à pela jogam; doce cantilena
    Entoa a bracicândida Nausica.
    75 Se, no excelso Taígete cu no Erímanto,
    Javalis a caçar e gamos leves,
    Das de Jove escoltada agrestes ninfas,
    Se diverte a frecheira irmã de Febo;
    Com prazer de Latona, alta cabeça,
    80 Entre as belas belíssima se estrema:
    Tal as outras supera a intacta virgem.
         Mas, jungida a parelha para a volta,
    A roupa elas dobravam, quando Palas
    Traça a maneira por que veja Ulisses
    85 A que aos Feaces conduzi-lo deve.
    Eis a princesa a uma atira a pela,
    Que errada cai no pego; as moças gritam,
    E Ulisses, despertando, em si discursa:
    “Ai de mim! que mortais aqui se alvergam?
    90 Bárbaros são, injustos e ferozes,
    Ou tementes aos deuses e hospedeiros?
    Senti femínea voz, talvez de ninfas
    Que habitem nestes coles, nestas fontes,
    Nestes ervosos lagos. Inquiramos
    95 Se homens são porventura e conversáveis”.
         Com mãos inchadas quebra um denso ramo
    Que os genitais encubra, e da espessura
    Sai qual montês leão, que, em si fiado,
    Arrosta o vento e a chuva, e de olho em brasa
    100 Cães e ovelhas comete e agrestes corças;
    Mesmo a curral seguro o ventre o impele:
    Tal, em nudez forçada, à companhia
    Pulcrícoma o varão se apresentava
    Horrível da salsugem, dele fogem
    105 Por entre as ribas: só de Alcino a jovem,
    Por Minerva animada, o encara afouta.
         Reflete o sábio se lhe abrace as plantas,
    Ou rogue-lhe de longe que um vestido
    Preste e a cidade ensine: e, receoso
    110 De lhe ofender o pejo, este segundo
    Meio prefere e brandamente implora:
    “Deusa ou mulher, suplico-te, ó rainha.
    Se és íncola do Olimpo, representas
    Em talhe e porte esbeíto a grã Diana,
    115 Prole de Jove sumo; se és terrestre,
    Oh! três vezes teus pais e irmãos felizes,
    Que alegras nas coréias graciosas!
    De todos felicíssimo o que à cheia
    Casa te guie bem dotada e rica!
    120 Nunca de sexo algum meus olhos viram
    Tão formoso mortal: admiro e pasmo.
    Nesta rota sinistra, eu fui-me a Delos
    Com boa gente, e ao pé crescia da ara
    Apolínea um renovo de plameria,
    125 Cujo aspecto assombrou-me; eu não pensava
    Que maravilha tal brotasse a terra:
    Assim, mulher, me espantas, nem me atrevo
    Nesta grave miséria, os pés tocar-te.
    Pós dias vinte que da ilha Ogígia
    130 Flutuava em borrascas, enfim ontem
    Um deus cá me aportou, para outros males;
    Inda os Céus não cansaram de afligir-me.
    De mim tem dó, rainha, a ti primeira
    Na desgraça recorro; uma alma viva
    135 Eu não conheço: aponta-me a cidade;
    Se o tens acaso, um roto ou velho pano
    Dá que me esconda as carnes. Justos numes
    Te concedam, senhora, o que desejas,
    Marido e paz doméstica e família:
    140 Do acordo conjugal nasce a ventura;
    Tudo medra, os consortes são ditosos;
    Causa prazer aos bons e aos maus inveja”.
         E a cândida Nausica: “Hóspede, ignóbil
    Nem insano te julgo. A seu falante
    145 Aquinhoa os mortais o Olímpio Jove:
    Se te coube o infortúnio, a fronte acurva.
    Já que abordaste aqui, terás vestidos
    E o que pede um mesquinho suplicante.
    Vou guiar-te à cidade; habito nela
    150 E em seu distrito o povo dos Feaces.
    Filha me honro de Alcino generoso,
    Que tem do império o cetro soberano”.
    Vira-se à comitiva: “Olá! criadas,
    Fugis deste varão, como inimigo?
    155 Ninguém nos hostiliza; aqui num cabo
    Do undoso campo, sem comércio externo,
    São dos deuses validos os Feaces.
    Um triste peregrino, o envia o Padre,
    Aos pobres compassivo; a contentá-lo
    160 Tênue dom basta. Ao nosso, ó companheiras,
    Dai bebida e comer; do rio em parte
    Ide-o banhar dos ventos abrigada.”
         Param; mútuo exortando-se, o conduzem
    Ao prescrito lugar, e apõem-lhe e entregam
    165 Manto, as mais vestes, a redoma de ouro,
    E a meter-se o convidam na corrente.
    Mas o divino Ulisses: “Apartai-vos,
    Quero mesmo limpar-me da salsugem,
    E o que há muito não faço, ungir-me de óleo:
    170 Temo lavar-me todo nu, de moças
    Ofendendo o pudor.” - Elas se afastam
    E o contam à contam à senhora. Imundas costas,
    Cabeça e largos ombros, ele esfrega;
    Veste o que a virgem dera, enxuto e ungido.
    175 Maior o torna e mais robusto Palas,
    Solta-lhe a coma ondada e semelhante
    À jacintina flor; qual fabro exímio,
    Que ela mesma adestrara e o coxo mestre,
    Graça lhe imprime na pessoa a déia.
    180 Marcha, e à praia sentado, em gentileza
    Resplandecia; às aneladas servas
    Diz absorta a senhora: “Albinitentes
    Companheiras, ouvi-me: sem mistério
    Não veio o herói; vulgar primeiro o cria;
    185 E aos numes o comparo. Oh! se eu tivesse
    Tal marido, e na Esquéria nos ficasse!
    Vós do que houver servi-o.” Assim fizeram.
    Por tão longo jejum, sôfrego Ulisses
    Come e bebe; e Nausica bracinívea
    190 Na carroça depõe dobrada a roupa,
    Os ungüíssonos ata, monta, amoesta
    O alto varão: “Sus, hóspedes, à cidade;
    Ao paterno palácio te encaminho,
    Onde os magnatas acharás Feaces.
    195 Razoável te suponho, isto executes:
    Por agros e plantios, eu diante,
    Com minhas servas anda após o carro;
    Mas retém-te às muralhas da cidade,
    Que dous portos possui de estreita boca
    200 Lá vara cada um na sua estância
    O açoutado baixel. Medeia aos portos
    Largo foro, com lajes das pedreiras
    Dos contornos calçado, e nele o templo
    Alteia de Netuno. Ali conservam
    205 Mastros, cabos, maçame, e remos talham;
    Que os Feaces não curam de arco e aljava,
    Sim de antenas e velas, que bizarros
    Pelo espumoso pélago os naveguem.
    O pé digo reprimas; que, insolente
    210 Como é do bairro a plebe, a desluzir-me
    Algum pode morder-me: — “Olhai Nausica;
    Segue-a gentil estranho apessoado;
    Será marido? Perto nenhum mora;
    De um navio errabundo o ajuntaria?
    215 Ou deus será do Olimpo que, a seus rogos
    Baixe e lhe assista sempre? É bom que fora
    Fosse-o tomar; que os muitos que a desejam
    Da Feácia nobreza, ela os despreza.”
    Desta afronta e censura hei de correr-me;
    220 E em caso igual censurarei aquela
    Que, a despeito dos pais, antes das núpcias,
    Com homens se mostrasse. Hóspede, à risca
    Preenche o meu conselho, a fim que obtenhas
    Do rei gente e socorro e pronta volta.
    225 No caminho, alameda encontraremos,
    Luco Paládio, e fonte e em roda prados,
    Onde meu pai tem quinta e flóreos hortos,
    E dali à cidade em grito alcança:
    Neste lugar espera, e quando penses
    230 Que é tempo já de estarmos recolhidas,
    Entra no muro, indaga onde o palácio
    Do magnânimo Alcino; outra morada
    Os Feaces não têm que a rivalize,
    E um menino qualquer pode ensinar-ta.
    235 Do átrio penetres velozmente à sala,
    E busques minha mãe: sentada ao lume
    Do aceso lar, é maravilha vê-la
    E detrás dela escravas; encostada
    Ao pilar, volve um fuso purpurino.
    240 Próximo está meu pai qual deus, no sólio
    Almo vinho gostando: o rei pretiras,
    E os joelhos abraces da consorte,
    Para que da partida a luz te raie;
    Por distante que habites, se a comoves,
    245 Ver conta a celsa casa e a doce pátria.”
         Ei-la verbera os mus, que o rio deixam
    À desfilada, airoso o passo alternam;
    Mas de jeito regia o açoute e as rédeas,
    Para os a pé de vista a não perderem.
    250 Cai o sol; ao delubro de Minerva
    Demorando-se Ulisses, a depreca:
    “Do aluno de Amaltéia, ouve-me, ó filha!
    Se tu não me atendeste quando jogo
    Fui do ínclito Netuno, atende-me ora,
    255 Dá que os Feaces mísero me amparem.”
         Palas o escuta, sem que lhe apareça,
    Com temor de seu tio, que iracundo
    Até Ítaca mesma há de vexá-lo.

    NOTAS AO LIVRO VI
    42-66 - Alguns vertem que Nausica achou o pai ao limiar, a partir, com os outros chefes para o conselho, onde os Feaces o esperavam: eu com Pindemonte, verto que ela o achou ao limiar a partir para o conselho, onde o esperavam; porque, sendo madrugada, é inverossímil que os magnatas fossem tão cedo incomodar a Alcino. - Note-se que este costume de bater com os pés a roupa dentro d’água, dura ainda na mourama, v. g. em Túnis: muitos costumes dos tempos homéricos, uns conservam-se no Oriente, e não poucos no Ocidente.
    96-102 - Tomam pacheiè por forte: creio que o adjetivo grego, significando propriamente grosso ou gordo, aqui não quer dizer forte mas inchado; porque Ulisses deixou a pele das mãos ao rochedo a que esteve agarrado, e elas deviam estar inflamadas ou inchadas, sentindo que mais se aproxima ao próprio: certo é que isto mesmo demonstra a sua fortaleza, todavia por uma indução e não diretamente. M. Giguet, com escrúpulo talvez de servir-se do correspondente ao nosso termo genitais, verte que Ulisses cobriu com o ramo a sua nudez, e logo adiante que, malgré sa nudité, veio ter com as moças: ora ou ele não cobriu a sua nudez, ou não veio ter com as moças nu. Quem seguir o texto, solve esta contradição: Ulisses com o ramo cobriu os genitais, e apesar da nudez dos outros membros, apareceu forçado a Nausica e às servas. Não tenho escrúpulo de usar do termo próprio, que não encerra obscenidade alguma: obscenas são as palavras que, ao declararem a cousa, indicam em quem as profere uma torpe e maligna intenção. O nosso épico, na estância XVIII do canto sexto, acerca de Tritão nos diz: “O corpo nu e os membros genitais”.
    128 - No hemistíquio do verso 169, a que este meu corresponde, alguns põem um ponto final, e tomam o segundo hemistíquio, principiando pela palavra chalepon, como cousa inteiramente separada: cuido, ao contrário, que um se refere ao outro, e que a palavra penthos não comemora todas as misérias de Ulisses, mas unicamente a de ver-se obrigado a falar a uma senhora no vergonhoso estado em que se achava. Isto é mais da situação, e mostra o grande respeito do herói para com mulheres jovens e pudicas.
    236-239 - Estes versos, com leve mudança, os traz Filinto em uma nota ao livro I dos Mártires. Sempre que tamanho mestre houver traduzido uma passagem de Homero, de seus versos me aproveitarei, e das suas frases principalmente.
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    Item Reviewed: Odisséia de Homero - Livro VI Rating: 5 Reviewed By: Pbsena Sena

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