Odisséia de Homero - Livro XXIV - Tifsa Brasil
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    27 de junho de 2018

    Odisséia de Homero - Livro XXIV

    Dos procos o Cilênio evoca as almas,
    De ouro empunhado o caduceu que os olhos
    Mortais a gosto esperta e os adormece;
    Elas ao toque ciciando o seguem.
    5 Em divo antro profundo a revoarem,
    Guincham morcegos, se um dos cachos tomba
    Da rocha a que aderiram: tal se move
    Trás Mercúrio benóvolo, em murmúrios
    Pelo hediondo espaço, o tropel todo;
    10 Vão-se ao fluido Oceano e à Pedra-Branca,
    Do Sol às portas e ao dos Sonos povo.
    Em prado verde, habitação dos manes,
    Os do Pelides acham, de Pátraclo,
    De Antíloco, de Ajax galhardo e forte,
    15 Que os Dânaos superava, exceto Aquiles.
    Eram deste em redor, quando Agamemnon
    Surge dolente, e as sombras dos que Egisto
    Em seu paço com ele assassinara.
         “Atrida, enceta Aquiles, ao Tonante
    20 Nós julgávamos seres o mais caro,
    Por dominares nos heróis que em Tróia
    Padecemos sem conto. Ah! que o tributo
    Não rendeste primeiro à Parca dura!
    Naqueles campos com supremas honras
    25 Tu falecesses! dos Aqueus ereto,
    Glória a teu filho o monumento fora;
    Era fatal misérrimo acabares!”
         E Agamemnon: “Beato herói divino,
    Em torno a quem, longe da Grécia extinto,
    30 Bravos Teucros e Argeus caíram tantos!
    Em túrbida poeira amplo jazias,
    Dos corcéis esquecido; e a combatermos
    Ante o cadáver teu, só conturbados
    Por um tufão de Júpiter, cessamos.
    35 Posto em féretro a bordo o corpo egrégio,
    Em quente água expurgado e ungido, os Gregos
    Choravam, tonsa a coma. Eis, das Nereidas
    Ouvida a grande voz, tremeram todos,
    E nos porões iam meter-se, quando
    40 Experiente Nestor, com douto aviso,
    De grado concionou: — Tá! vem do pego
    Tétis madre e as irmãs carpir seu filho. —
    Coibida aos Grajúgenas a fuga,
    Cercam-te as filhas do marinho velho,
    45 Cobrem-te em ais de incorruptível manto.
    As Musas nove alternam-se em lamentos:
    Ninguém podia, à lugubre toada,
    As lágrimas conter. Por dezassete
    Noites e dias, de mortais e deuses
    50 Regou-te o pranto e na seguinte aurora
    Demos-te ao fogo, e ovelhas te imolamos
    Gordas e negros bois; nas divas roupas,
    Em óleo e doce mel, queimado foste;
    Muitos peões e armados cavaleiros
    55 Circundaram-te a pira estrepitosos.
    De manhã, gasta a carne, os brancos ossos,
    Em perfumes e vinho e ambalsamados,
    Recolheu-te a mãe terna em urna de ouro,
    Dom de Baco e trabalho de Vulcano.
    60 Estão mistos aos teus os de Pátroclo,
    Dos de Antíloco perto, a quem dos sócios,
    Morto o Menécio, maiormente honravas.
    E os do exército sacro te exalçamos,
    Do amplo Helesponto em prominente riba
    65 Um magnífico túmulo, que ao longe
    Aos vivos manifeste-se e aos vindouros.
    Prêmios obteve dos mais numes Tétis,
    Que os pôs no circo aos príncipes Aquivos.
    A régios funerais tenho assistido,
    70 Onde o páreo mancebos disputavam;
    Tu se os visses, Pelides, admiraras
    Da mãe déia argentípede as ofertas.
    Grato aos Céus, teu renome não perdeste,
    Que de evo em evo troará no mundo.
    75 Mas que valeu-me a guerra? Na tornada,
    Júpiter propinou-me o copo amaro,
    Por mãos de Egisto fero e da traidora.”
         Entretanto, o Argicida arrebanhava
    As almas dos que Ulisses abatera,
    80 A cujo encontro as mais com pasmo correm.
    Agamemnon conhece incontinênti
    O Melanteides ínclito Anfimédon,
    Que em Ítaca o hospedara: “Que desastre,
    Escolhidos e eqüevos, cá vos trouxe
    85 Ao reino tenebroso? Não podia
    Alguém numa cidade achar melhores.
    Com soltos ventos e escarcéus furentes
    Vos afundou Netuno? ou de inimigos
    Preia fostes em terra, aos saqueardes
    90 Armentos e rebanhos? ou pugnando
    Pela pátria e família? Nada encubras;
    Hóspede teu me chamo. Não te lembra
    Que me acolheste e a Menelau divino,
    Quando a embarcar-se para Tróia Ulisses
    95 Fomos nós suadir? Um mês inteiro
    O largo ponto aramos, e a bem custo
    O eversor de muralhas demovemos.”
    “Rei dos reis, Anfimédon respondeu-lhe,
    Tudo me lembra, e franco vou narrar-te
    100 Nosso funesto fim. Do ausente Ulisses
    A esposa ambicionávamos; que, avessa
    A morte a nos tramar, nos entrctinha
    E, com sutil pretexto, imensa enrola
    Teia fina ao tear, e assim discursa:
    105 Amantes meus, depois de morto Ulisses,
    Vós não me insteis, o meu lavor perdendo,
    Sem que do herói Laertes a mortalha
    Toda seja tecida, para quando
    No sono longo o sopitar o fado:
    110 Nenhuma Argiva exprobre-me um funéreo
    Manto rico não ter quem teve tanto. —
    Esta desculpa ingênuos aceitamos.
    Ela, um triênio, desmanchava à noite
    À luz da lâmpada o lavor diurno;
    115 Ao depois, avisou-nos uma escrava,
    E a destecer a teia a surpreendemos:
    Então viu-se obrigada a concluí-la,
    E aos olhos despregou-nos a luzente
    Obra insigne, imitante ao Sol e à Lua.
    120 Não sei donde um mau gênio trouxe Ulisses
    Ao campo que habitava o guarda-porcos:
    Nesses confins se reuniu seu filho,
    Já da arenosa Pilos aportado;
    E ambos, disposto o plano da matança,
    125 Para a nobre cidade caminharam,
    O herói depois, Telêmaco primeiro.
    Eumeu guiava o pai, que abordoou-se
    Em trajo de um decrépito mendigo,
    E era tão roto e sujo e mal vestido,
    130 Que aos mais idosos conservou-se ignoto.
    A golpes e baldões o acometemos;
    Tudo curtiu paciente em seu palácio.
    Mas, do Egíaco Jove espiritado,
    As armas com Telêmaco afastando,
    135 Em cima as tranca, e pela astuta esposa
    O arco nos apresenta e o claro ferro,
    Donde se derivou nosso infortúnio.
    Nenhum de nós dobrou-lhe o forte nervo,
    Baldo o esforço; e, ao momento que o Laércio
    140 Dessa arma ia apossar-se, blasfemamos
    Que, apesar das instâncias, não lha dessem;
    Mas Telêmaco insiste, e o pai, seu arco
    Fácil dobrando, enfia as machadinhas.
    Ao limiar, derrama a pronta aljava,
    145 E gira a vista horrendo e frecha Antino;
    A lutíferas setas rechinantes
    (Um deus o protegia) uns após outros
    Seu furor em cardumes nos prostrava:
    Aos gemidos, aos botes, muge a casa
    150 E se inunda em cruor. Tal fim tivemos!
    No pátio os corpos nossos, ora, Atrida,
    Isso amigos não sabem, que chorando,
    Enxuto o negro sangue, nos sepultem;
    Honra devida aos míseros finados.”
    155     Grita Agamemnon: “Venturoso Ulisses,
    Possuis mulher de uma virtude rara!
    Do varão que pudica amou primeiro
    Nunca olvidou-se; obtém perene glória,
    Que hão de inspirados celebrar cantores.
    160 Quão diversa a Tindárida ao marido,
    Que houve-a donzela! odiosa nas balatas
    Será do povo, e nódoa às mais sisudas.”
         Enquanto as almas de Plutão conversam
    No vácuo reino, Ulisses e companha
    165 De Laertes entravam pelo enxido,
    Que a muito preço e lidas o comprara:
    Tinha ali casa, e da varanda em roda
    Os servos, com prazer cultivadores,
    Comiam, repousavam; diligente
    170 Do amo tratava, em rústico retiro,
    Sícula velha. Aos três voltou-se Ulisses:
    “Preparai para o almoço um bom cevado.
    Verei se o pai me reconhece ainda,
    Ou se ignoto me faz tamanha ausência.”
    175 E as armas dando aos sócios, que partiram,
    Ao pomar foi-se logo para o intento:
    Não topa a Dólio e filhos e os mais servos
    No grã vergel, do velho conduzidos
    A colher espinheiros para sebes;
    180 Só acha o pai no amanho de uma planta:
    Sórdida a capa e remendada a roupa,
    Luvas grosseiras, borzeguins de coiro,
    Para evitar esfoladuras, tinha;
    Gorra caprina o luto lhe aumentava.
    185 Desde que o divo sofredor o enxerga
    Dos anos e desgostos combalido,
    Quedo pranteia à sombra de um pereiro;
    Hesita se o abrace e o beije e informe,
    Ou se antes com perguntas o exprimente.
    190 Mordaz sondá-lo preferindo, avança
    Quando, baixa a cabeça, ele de roda
    Cavava um tronco, e lhe bradou: “Meu velho,
    Não és inábil; a pereira, a vide,
    A oliveira, a figueira, o estão mostrando,
    195 Nem há palmo de terra sem cultura;
    Mas não te agastes, se o desleixo noto
    Com que trapento afeias essa idade.
    O amo não te maltrata pela incúria,
    Nem tens servil presença; um rei no vulto
    200 Semelhas ao que, já banhado, come
    Para em mole dormir, jus da velhice.
    Mas de quem és? o prédio a quem pertence?
    Em Ítaca em verdade agora estamos,
    Como um certo em caminho asseverou-me?
    205 Brusco foi-se e imprudente, sem dizer-me
    Se o meu hóspede é vivo, ou se entre os manes.
    Na pátria, escuta, recebi festivo
    O herói primeiro que a meu lar sentou-se:
    De Ítaca era nativo, e se aclamava
    210 Por filho do Arcebíades Laertes.
    Com bondade acolhi-o, e generoso
    Dons hospitais lhe presentei condignos:
    De ouro talentos sete bem cunhados,
    Copa argêntea florida, capas doze,
    215 Doze mantos louçãos, e iguais tapetes
    E túnicas iguais; por cima, à escolha,
    Quatro prendadas e gentis mulheres.”
         Em choro o pai: “Chegaste, forasteiro,
    À terra que me indicas, velhacouto
    220 De malvados cruéis. Teus dons frustraste:
    Se ele aqui fosse, em câmbio encontrarias
    Também dons e benévolo agasalho.
    Sê franco, esse infeliz, que era meu filho,
    Em que ano o recebeste?. .. Oh! fútil sonho!
    225 Dos seus longe e da pátria, no profundo
    Foi mantimento a peixes, a terrestres
    Aves ou feras! Na mortalha envolto,
    Da mãe, do genitor, não foi carpido,
    Nem a casta mulher fechou-lhe os olhos,
    230 A lamentar no féretro o consorte;
    Sacro dever, dos mortos recompensa.
    Mas quem és, me declares, de que povo,
    De que família? A nau veloz e os nautas
    Onde os tens? ou vieste em vaso alheio,
    235 Que te largou, na rota prosseguindo.”
         Pronto Ulisses: “Eu tudo vou narrar-te.
    Prole de Afidas rei Polipemônio,
    Sou de Alibas, em nobre alcáçar moro,
    Eperito é meu nome; da Sicânia
    240 Fez-me arribar um nume, e tenho surto
    Na costa o meu navio. Quanto a Ulisses,
    Anda em cinco anos que saiu de Alibas:
    Voláteis à direita lhe adejavam;
    Ao despedir-nos, ambos nós contentes
    245 Rever-nos esperávamos, e um dia
    Riquezas mutuar, doce amizade.”
         Um negrume de mágoas tolda o velho;
    Pega da ardente cinza, a encanecida
    Cabeça asperge, do íntimo soluça.
    250 Comoto o herói, das ventas resfolgando,
    Olha o dileto pai, salta-lhe ao colo,
    E o beija e abraça: “Ó pai, sou quem suspiras,
    Vindo ao vigésimo ano à pátria amada;
    Essas penas e lágrimas reprime.
    255 Atende-me, urge o tempo; em nossos paços
    Vinguei-me já de injúrias e insolência.”
         A quem Laertes: “Se és meu próprio Ulisses,
    Dá-me um claro sinal que mo comprove.”
    “Na cicatriz repara (ao pai mostrou-a)
    260 Do alvo dente suíno, indo eu, por ordem
    Materna e tua, às abas do Parnaso,
    Pelas promessas que anuiu teu sogro.
    As árvores direi que tu, rogado
    Por mim que infante os passos te seguia
    265 Pelo vergel, me deste, a nomeá-las
    Uma a uma: pereiras foram treze,
    Macieiras dez, em quádruplo as figueiras;
    Marcaste-me também cinqüenta renques
    De uvas de toda casta, que maduram
    270 Quando nelas de Jove as horas pesam.”
         Do velho, a provas tais, frouxas as pernas,
    Desmaia o coração; mas lança os braços
    Ao filho, que nos seus o estreita e cinge.
    O pai já cobra alento: “Ó sumo Jove,
    275 Desses procos o crime a estar punido,
    Certo no Olimpo há deuses. Mas hei medo
    Que a turba assalte e invoque os Cefalenes.”
    Ulisses o acalmou: “Receios bane.
    À casa andemos do jardim vizinha:
    280 Telêmaco, Filétio e Eumeu, diante
    Mandei que à pressa o almoço nos preparem.”
         Já na mansão formosa aos três encontram,
    Partindo as carnes, misturando os vinhos.
    Lava primeiro e unge, orna e reveste
    285 Ao bom Laertes a Sicana serva;
    Porém Minerva os membros lhe engrandece,
    Majestoso e divino sai do banho.
    O filho o admira: “Gentileza e talhe,
    Ó pai, te aumenta um nume!” E o velho: “Ó Jove,
    290 Palas e Apolo, eu fosse o mesmo que era
    Quando rendi, com Cefalênias hostes,
    No continente a Nérico soberba!
    Arnesado e brioso os vis intrusos
    Também contigo repelira; a muitos
    295 Os joelhos solvera, e tu folgaras.”
         Entanto, prestes o festim, por ordem
    Em camilhas e tronos se abancavam;
    Eis chega Dólio do labor e os filhos.
    A eles corre a Sícula, que anosa
    300 Todos nutria e do ancião tratava;
    Mudos pasmaram de rever seu amo,
    Que afável os convida: “À mesa, ó velho,
    À mesa, o espanto cesse; à vossa espera,
    Ávidas mãos retínhamos dos pratos.”
    305 Braços abertos, se lhe atira Dólio,
    Do amo os pulsos oscula: “Amigo, os votos
    Nos enches de improviso, e pois os deuses
    Te restituem, salve! alegre exultes
    No grêmio da ventura! À esposa a nova
    310 É já notória, ou cumpre anunciarmos?”
    “Ela o sabe, responde o astuto e cauto;
    Mas nisso que te vai?” Tornado ao posto,
    Beijam-lhe a destra os moços e o saúdam,
    E junto ao pai em ordem se colocam.
    315 O trabalho do almoço ocupa a todos.
         Na cidade se espalha a triste fama
    Da vingança: ante o paço estrepitosa
    Carpe a gente, os cadáveres enterra;
    Embarca em leves bojos os que à pátria
    320 Ir deviam por mar; com dor se ajunta
    O parlamento. Em luto inexprimível
    Eupiteu se levanta, a cujo filho
    Antimo o divo herói matou primeiro,
    E em soluços e lágrimas acusa:
    325 “Amigos, oh! que horror, que atroz maldade!
    Esse homem naus levou, levou guerreiros;
    Frota e nautas perdeu: na volta, agora,
    Deu cabo dos melhores Cefalenes.
    Eia, antes que ele a Pilos se recolha,
    330 Ou busque a dos Epeus Élide santa,
    Vamos; ou torpe vida e eterno opróbrio
    Tem de caber-nos: se de irmãos e filhos
    Não punimos os brutos matadores,
    Sombra unir-me anteponho a sombras caras.
    335 Vamos, vamos, os bárbaros não fujam.”
         Seu lastimar os corações comove;
    Mas do palácio, em que os deteve o sono,
    Chegam Médon e o músico divino;
    Médon pondera: “Aquivos, nunca Ulisses
    340 Tanto obrara sem nume: um vi que avante,
    Na forma de Mentor, na sala o instava,
    E o tropel todo em ruma ia caindo.”
    Palor súbito invade os circunstantes.
         Ergueu-se o herói Mastórida Haliterse,
    345 No passado o mais douto e no futuro,
    E orou sisudo: “Cidadãos e amigos,
    Do feito a culpa tendes; não quisestes,
    Surdos aos de Mentor e aos meus conselhos,
    Flagício enorme sopear dos filhos,
    350 Que, os bens roendo, injuriando a esposa,
    Com tão potente rei já não contavam.
    É sem remédio. Ouvi-me agora ao menos:
    Mores desastres atalhai, não vamos.”
         A assembléia divide-se em tumulto:
    355 Uns de Haliterse à voz se aquietaram;
    Mas outros, ao combate persuadidos,
    Em corpo avançam, reluzindo em bronze,
    Por vastas ruas, de Eupiteu sequazes,
    Que cego ou desagravo ou morte anela.
    360 Consulta ao pai Minerva: “Ó soberano,
    Que tens na mente? Guerra ou congraçá-los?”
    E o Nubícogo: “Filha, que perguntas?
    Não traçaste que à volta se vingasse?
    Pois bem. Direi contudo o que é decente:
    365 Vingado o herói divino, assente as pazes;
    Reine em povos leais; de irmãos e filhos
    O castigo apaguemos sanguinoso;
    Renove-se a amizade, haja abundância.”
    Disse, o ardor a Minerva acrescentando,
    370 Que do jugoso Olimpo se arremessa.
         Apaziguada a fome, aos companheiros
    Adverte Ulisses: “Veja alguém se perto
    Já nos atacam.” Sai de Dólio um filho,
    E enxerga logo da soleira a turba:
    375 “Arma, arma, grita, a gente se aproxima.”
    Armam-se os quatro, e os seis irmãos com eles;
    E Laertes e Dólio, encanecidos,
    No perigo urgentíssimo se arnesam.
    De ponto em branco, as portas escancaram,
    380 Precipitam-se fora, e os manda Ulisses;
    Disfarçada em Mentor, veio ampará-los
    A Tritônia, de Jove augusta prole.
         Ledo o chefe do auxílio: “Hoje, meu caro
    Telêmaco, aos mais fortes investindo,
    385 Mostres brio e vigor; nem me envergonhes,
    Nem dos caros maiores degeneres.”
    E Telêmaco: “À frente, ó pai dileto,
    Ver-mes-ás honrando sempre a estirpe tua.”
         Regozijou-se o avô: “Propícios deuses,
    390 Rivais são na virtude o filho e o neto!
    Que dia! que prazer!” — E a gázea Palas:
    “Arcesíades, sócio o mais querido,
    Roga a Minerva e ao Padre, afouto vibres.”
    Ela ânimo e denodo aqui lhe infunde;
    395 O herói, finda a oração, de Eupiteu rompe
    De lança o elmo, à queda o arnês ressoa.
    Ulisses e Telêmaco os mais bravos
    Talham de espada e pique, e total fora
    O estrago e perda, se a gritar Minerva
    400 Não contivesse o povo: “Ítacos, basta,
    Já já da da crua guerra separai-vos.”
         Pálido susto, à voz divina, os toma;
    Das mãos voando as armas, ansiosos
    De resguardar as vidas, se retiram:
    405 Furente Ulisses a bramir os segue,
    Tal como águia altaneira as nuvens rasga.
    Então fulmina Júpiter, e o raio
    Cai ante Palas, que ao Laércio intima:
    “Dial cordato aluno, abster-te cumpre
    410 Da discórdia civil, para que infesto
    Não te seja o Tonante onipotente.”
         Gostoso à deusa Ulisses obedece.
    A Mentor semelhando em som e em vulto,
    Sela a paz a do Egífero progênie.

    NOTAS AO LIVRO XXIV
    6-17 — Cacho, correspondente ao latim uva neste sentido, é o grupo em que se englobam certos animais, como as abelhas e os morcegos. — Homero chama eurõenta; isto é, podres ou hediondos, os caminhos por onde se conduzem os mortos. — Pedra-Branca é o nome de certo lugar por onde passavam as almas. — Dolente, posto que não venha em dicionário, é usado por Francisco Manuel.
    247-270 — Depois de tantos reconhecimentos que há na Odisséia, é para louvar que Homero guardasse os toques mais belos e maviosos para este reconhecimento de Laertes, que era o último, comprovando sempre a sua pasmosa fecundidade.
    315 — Este repasto é um almoço, não obstante prandium e cœna de que usa neste livro a interpretação latina.
    342 — Dizemos rima ou ruma: preferi neste verso ruma, para não repetir a vogal i que vem nele muitas vezes.
    370 — Jugoso, tirado do latim, significa cheio de cumes ou picos.

    ADVERTÊNCIA
    Nas notas aos dous poemas de Homero, sou mais parco de reflexões gerais, do que o fui nas feitas a Virgílio; e a razão é que, aparecendo em verso português a primeira tradução completa da Ilíada e da Odisséia, julguei útil que as notas versassem principalmente sobre o sentido que dei a várias passagens dificultosas, contra o parecer de eruditos e de tradutores. — Quando falo, em toda esta obra, de interpretação latina, entenda-se da que é mais espalhada nas nossas escolas, reimpressa em Paris em 1747. Ir ao índice do livro
    FIM
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