Odisséia de Homero - Livro XIX - Tifsa Brasil
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    23 de junho de 2018

    Odisséia de Homero - Livro XIX

    A meditar com Palas na matança
    Fica o divo Laércio, e diz: “Meu filho,
    Agora as armas recolher te cumpre;
    E caso algum o estranhe, assim te escuses:
    5 Quais as deixou meu pai, já não luziam;
    Do vapor do fogão fui preservá-las.
    E outro medo o Satúrnio suscitou-me:
    Entre os copos ferir-vos poderíeis,
    Nosso convívio e os esponsais manchando;
    10 Pois a força do ferro atrai o homem.”
         Telêmaco obedece ao pai querido,
    Chama Euricléia à parte: “Eia, as mulheres
    Retém, ama, lá dentro, enquanto acima
    Reponho as pulcras armas, desprezadas
    15 E do vapor do fogo denegridas
    Na ausência de meu pai. Menino eu dantes,
    Ora quero do fumo preservá-las.”
         A ama logo: “Oxalá com tal prudência
    A casa rejas! Mas diante, filho,
    20 Quem te há de alumiar, senão as servas?”
    “Este hóspede, responde acautelado;
    Que do meu coma ocioso, não tolero.”
         Ordem fútil não foi, porque os batentes
    Fecha Euricléia. À pressa ambos carregam
    25 Elmos, cavos broquéis e agudas lanças;
    Precede-os Palas de lanterna de ouro.
    “Meu pai, observa o moço, que milagre!
    As paredes, as traves abietinas,
    As grossas vigas, as colunas altas,
    30 Em lume vivo aos olhos me lampejam:
    Um deus parece dentro esclarecê-las.”
         “Tá! não tujas, o atalha o sábio Ulisses:
    Os íncolas do Olimpo assim costumam.
    Deita-te: à espreita eu fico das criadas;
    35 Esperarei que em pranto me interrogue
    Tua mãe.” — Ei-lo busca a própria alcova
    No meio do esplendor, e em brando sono
    Pega até que desponte a diva aurora;
    Mas o herói permanece com Minerva,
    40 A pensar no horroroso morticínio.
         Sai, qual Diana casta ou loura Vênus,
    Penélope do tálamo, e lhe achegam
    Ao lar o usado assento, obra de argênteas
    E ebúrneas orlas, do famoso Icmálio,
    45 De apto escabelo e forro de pelame.
    As cativas gentis ali vieram
    Erguer das mesas muito pão restante,
    E a copa que servira aos convidados;
    Em terra as brasas dos fogões depondo,
    50 Lenha renovam, que ilumine e aqueça.
    Doesta a Ulisses outra vez Melântia:
    “À noite, malandrino, inda importunas?
    Espias as mulheres? Farto e impando,
    Fora, fora; ao contrário, atiçoadas
    55 Eu te farei mais presto escafeder-te.”
         Averso a encara: “Insultas-me, demônio,
    Por que, em vez de luzir, mesquinho e roto
    A mendigar meu pão sou constrangido?
    É de errabundos sina. Eu já palácio
    60 Tive e escravos, e o mais que adita os homens,
    E a quaisquer indigentes socorria:
    Ora o querer de Jove arruninou-me!
    Também murchar-te a formosura pode,
    Que entre as servas te exorna; pode irada
    65 Reprimir-te a rainha, e mesmo aquele
    Que inda esperar se deve. Mas, se Ulisses
    Perdeu-se enfim, outro ele e não criança,
    De Apolo por favor, conhece o filho
    Quantas mulheres esta casa infetam.”
    70 Ouve-a e grita a rainha: “Descarada,
    Em ti recairá tanta ousadia.
    De mim triste soubeste que informar-me
    Do esposo vem.” A Eurínoma virou-se;
    “Traze-me, ecônoma, um forrado escano;
    75 Em repouso, comigo ele converse.”
         À pressa o escano de tosões coberto,
    Lhe trouxe a velha; ao divo herói sentado
    Penélope interroga: “Hóspede, vamos
    Quem és; de que família? de que pátria?”
    80 E o circunspecto: “No orbe, alta senhora,
    Ninguém te vitupera, e a glória tua
    Penetra o céu; qual a de um rei sem pecha,
    Que é pio e seus magnatas justo enfreia,
    A quem do fruto as árvores se vergam,
    85 O agro viça e engradece, a quem produzem
    Greis e armentios, ferve o mar com peixes,
    E cujos povos a bondade exercem.
    De outra cousa me inquiras, não da pátria,
    Não da família; ao recordá-las, custa
    90 Gemer em casa alheia. Enfada o choro:
    De alguma serva o escárneo atrairia,
    Se o teu não fosse, e pode ser que ao vinho
    Meu luto lagrimoso atribuíssem.”
         E ela: “O Céu me tirou beleza e forças,
    95 Desde que a Tróia Ulisses me levaram.
    Venha, mande-me e reja, e a minha glória
    Mais resplendeceria: hoje um demônio
    Me entristece e comprime. A flor dos Gregos
    De Dulíquio, Zacinto, Ítaca e Same,
    100 Requestando-me invita, os bens me estragam.
    Já nos pobres nem hóspedes provejo,
    Ou nos arautos, público ministros:
    Saudosa a prantear consumo a vida;
    Urgem-me os procos, e eu maquino enganos.
    105 Um gênio me inspirou tramar imensa
    Larga teia delgada, e assim lhes disse:
    — Amantes meus depois de morto Ulisses,
    Vós não me insteis, o meu lavor perdendo,
    Sem que do herói Laertes a mortalha
    110 Toda seja tecida, para quando
    No sono longo o sopitar o fado:
    Nenhuma Argiva exprobre-me um funéreo
    Manto rico não ter quem teve tanto. —
    A diurna obra desfazia à noite,
    115 E os entretive ilusos por três anos;
    Mas, gastas luas e horas, veio o quarto,
    E então, por traça de impudentes servas
    Apanhando-me, encheram-me de afrontas,
    E a concluir a teia me forçaram.
    120 Nem mais efúgio nem recurso tenho:
    Muito a casar instigam-me os parentes;
    Leva meu filho o mal que os bens lhe comam,
    Pois, homem já, da casa tratar pode,
    Como os que de honras Júpiter cumula.
    125 Dize-me assim quem és; tu não das penhas,
    Não do robre nascestes fabuloso.”
         E ele cortês: “Mulher de Ulisses digna,
    Já que insistes, conhece-me a linhagem;
    E, bem que obedecendo agrave as penas,
    130 Inerentes aos tristes que erradios
    Têm andado, como eu, de povo em povo,
    Satisfazer-te vou. — De escuras vagas
    Circúnflua jaz recunda e linda Creta,
    Com cidades noventa e infindos homens
    135 De língua mista: Aqueus, Cídones, Cressos
    Indígenas de prol, divos Pelasgos,
    Dórios cristados. Na ampla Gnosso Minos,
    Cada nove anos comensal de Jove,
    Pai de meu pai Deucalião brioso,
    140 Os governava. Éton me chamam todos.
    Meu régio irmão Idomeneu de Tróia
    Foi-se à guerra, mais velho e mais valente.
    Na mesma empresa, à força de procelas
    Do Maleia a Creta Ulisses impelido,
    145 Surgiu do Aniso num difícil porto,
    Onde é das Ilitias, a espelunca.
    Apenas salvo, a Idomeneu procura,
    Que hóspedes seu dizia venerando;
    Mas este era partido em naus rostadas,
    150 Uns onze sóis talvez. Do porto a Ulisses
    Escoltei mesmo, e na abundante casa
    Amigo o recebi. Do povo obtidos,
    Bois, pães e vinhos dei, por doze dias
    Os seus provi de tudo, porque o Bóreas,
    155 De um sevo deus movido, não deixava
    Em pé ter-se ninguém; mas no trezeno,
    Calmado o vento, o pano desferiram.”
         Assim fingia verossímeis contos,
    E ela a chorar de ouví-lo definhava:
    160 Qual, por Zéfiro a neve amolecida,
    Liquesce do Euro ao sopro em celsos cumes,
    Desata-se em arroios e incha os rios;
    Tal inundava as rubicundas faces,
    Anelando o marido ali sentado.
    165 Compunge a Ulisses da consorte o pranto;
    Mas, como ou ferro ou corno, firme e seco,
    Por não trair-se, as pálpebras continha.
         De lágrimas saciada, continua:
    “Quero, hóspede, sondar se na verdade
    170 A Ulisses recolheste: qual seu trajo,
    Qual seu porte, quais eram seus guerreiros?”
         O marido prossegue: “Árduo é, senhora,
    Indo em vinte anos que saiu de Creta,
    Exato ser; mas ouve o que me lembra.
    175 De áureo firmal e duplo anel, seu manto
    Era encorpado e mórbido e púrpureo,
    De alto lavor: nas anteriores patas
    Um cão tinha tremente corçozinho,
    E ávido o sufocava; ele a escapar-se
    180 Com palpitantes pés se debatia:
    Foi pasmo a todos o recamo e a tela.
    Notei-lhe ao corpo a túnica lustrosa,
    Fina qual seca tona de cebola,
    Alva imitante ao Sol, macia e leve,
    185 Que espantava as melhores tecedeiras.
    Toma sentido, ignoro se tais vestes
    Houve-as de casa, ou deu-lhas em viagem
    Hóspede ou matalote; pois de muitos
    Era benquisto, e poucos o igualavam.
    190 Eu doei-lhe ênea espada, roxo e duplo
    Manto e roupa talar, e à despedida
    À tabulada nau fui respeitoso.
    Do arauto seu, mais velho alguma cousa,
    Eu me recordo: Euríbato giboso
    195 Era e trigueiro e de cabelo crespo;
    Ulisses entre os sócios o estimava,
    Por atinado concordar com ele.”
         A tão veros sinais, dobrou de pranto;
    Mas acalmada: “Se eras um pedinte,
    200 Ês, hóspede, hoje o amigo desta casa.
    Trouxe eu mesma da câmara essas vestes,
    Eu mesma do firmal ornei luzente.
    Ah! não mais torna à pátria o caro esposo!
    Fatal partida para a infame Tróia!”
    205     “Bem que a dor justa seja, o herói contesta,
    Real consorte, o corpo não maceres:
    Nunca chorou mulher perdido um jovem
    Pai amoroso de seus doces filhos
    Melhor que Ulisses, comparado aos numes;
    210 Porém sossega e atende, eu serei franco.
    Tesprotes opulentos me contaram
    Que, de riquezas o Laércio onusto,
    Na praia ali sozinho aparecera;
    Pois, ao vir da Trinácria, irado Jove
    215 E o Sol, do armento seu pela matança,
    No undoso ponto os sócios afundaram;
    E ele, agarrado à quilha, enfim surgindo
    Na Esquéria, aceito foi dos bons Feaces
    Como um deus, e de ofertas carregado
    220 Quiseram transportá-lo. Há muito Ulisses
    Ileso fora aqui, se em outros climas
    Não preferisse cumular tesouros;
    Para o que ninguém há de astúcia tanta.
    Fídon rei dos Tesprotes me jurava,
    225 Com libações, que a nau já tinha prestes
    Para o trazer, e num baixel mercante
    Remeteu-me a Dulíquio frumentária;
    Mas primeiro mostrou-me hospitais brindes,
    A uma dez gerações talvez sobejos,
    230 Postos no erário, enquanto ia o Laércio
    Ao de Dodona falador carvalho,
    A indagar dos oráculos de Jove
    Se, após tão largo tempo, cá regresse
    Oculta ou claramente. Ele é pois salvo,
    235 Nem da casa está longe; eu vou jurar-to:
    Atesto o Padre sumo e o lar de Ulisses.
    Onde me asilo, aqui virás sem falta,
    Mesmo este ano, esta lua ou na seguinte.”
         “Oxalá, diz Penólope! Eu faria
    240 Liberal que ditoso te aclamassem.
    Mas temo, hóspede meu; nem ele volta,
    Nem tu conseguirás daqui passagem.
    Outro Ulisses não tenho (oh! se o tivesse!)
    Que afague e expeça honrados forasteiros.
    245 Depois de um pedilúvio, em cama, ó servas,
    De mantas bem se aqueça e belas colchas;
    E, assim que a manhã brilhe em trono de ouro,
    Banhado e ungido com meu filho coma.
    Ai do que ouse ofendê-lo petulante!
    250 Sem trabalhar descanse, inda que raivem.
    De sisuda mulher me louvarias,
    A estares mal vestido à nossa mesa?
    Duram breve os mortais: o iníquo e fero,
    Sempre de imprecações coberto em vivo,
    255 Maldizem-no defunto; o afetuoso
    E de alma nobre, os hóspedes lhe estendem
    A glória e fama, e todos o abençoam.”
         Opõe-se o herói: “De Ulisses digna esposa,
    Mantas e moles colchas aborreço,
    260 Dês que em remada nau de Creta os cimos
    Deixei nevosos: deito-me, como antes
    Noites passava insones, e outras muitas,
    À espera da alva aurora, adormecia
    No duro chão. De banhos eu prescindo,
    265 Nem me toque nos pés, senão prudente
    Anciã no mal provada e oficiosa.”
         E ela: “Nunca de amáveis peregrinos
    Tive outrem como tu: quanto proferes
    Siso respira. No infeliz conservo
    270 A ama discreta, que, nascido apenas,
    Da mãe o recebera e amamentara:
    Inda que fraca, os pés lavar-te pode.
    Anda, Euricléia, este coevo banha
    De teu senhor: talvez que ele tal seja
    275 E dos pés e das mãos; pois no infortúnio
    Rapidamente os homens envelhecem.”
         Tapa a nutriz o lagrimoso rosto
    A soluçar: “Ai filho, em vão te anseio!
    Pio embora, és de Jove o detestado!
    280 Ninguém tantas queimou sucosas coxas,
    Nem lhe deu mais solenes hecatombes,
    Viver quando rogava longa vida
    E teu filho educar; mas o Tonante
    Sumiu-te a luz da volta! Alhures, zombam
    285 Ah! dele, amigo, em pórticos soberbos,
    Outras como as que foges despejadas.
    Lavo-te os pés, não só porque mo ordena
    De Icário a boa filha, mas de grado,
    Por mera compaixão. Têm vindo muitos
    290 Peregrinantes cá; nenhum, te afirmo,
    A Ulisses como tu se assemelhava,
    No meneio e no andar, em voz e em gesto.”
         Cauteloso a atalhou: “Sim, todos eram
    Desse teu mesmo aviso.” Reluzente
    295 Bacia a velha toma, onde água fresca
    Vaza e a fervente em cima. Ao lar no escuro
    Senta-se vôlto Ulisses, receoso
    Que a cicatriz o arcano revelasse.
    Ela, o senhor banhando, essa conhece
    300 Marca do alvo colmilho de um javardo,
    Quando ao Parnaso visitou seus tios
    E avô materno Autólico, entre os homens
    No pilhar e jurar manhoso e mestre;
    Por Mercúrio assistido, a quem de chibos
    305 E anhos queimava as agradáveis coxas.
         Veio Autólico a Ítaca ubertosa
    De seu neto ao nascer; e, mal cearam,
    Põe-lhe o infante aos joelhos Euricléia:
    “Tu o almejavas tanto, agora inventa
    310 Um nome ao filho da querida filha.”
         Disse o avô: “Genro meu, minha Anticléia,
    Eu ressentido contra muitos venho
    De um e outro sexo na selvosa terra;
    Um nome lhe imporei, chame-se Ulisses.
    315 Crescido, a casa a visitar materna,
    Vindo ao Parnaso, onde as riquezas tenho,
    Hei de brindá-lo e despedir contente.”
         Foi-se do prometido em busca Ulisses:
    Antólico e família o abraçam ternos;
    320 Carinhosa Anfitéia avó beijou-lhe
    A testa e olhos gentis. Ao pátrio mando,
    Para o banquete opíparo, a preceito,
    Qüinquene touro os príncipes esfolam,
    Picam-no, assam de espeto, e em roda servem;
    325 E, o dia inteiro à grande regalados,
    Liga-os a noite opaca em brando sono.
         Ulisses, no arrebol, em montearia
    Trilhando as selvas do íngreme Parnaso,
    A ventosas fraguras segue os tios;
    330 E, no arraiar o Sol do mudo Oceano,
    Precedendo a matilha farejante,
    Vibra o dardo num vale o divo moço.
    Em brenha oculto um javali jazia,
    Brenha à diurna torreira impenetrável,
    335 Ao sopro aquoso, à desatada chuva,
    Pleno o covil de bastas secas folhas:
    Ao latir e ao tropel, sanhuda a fera
    Sai, de eriçado pêlo e a vista em brasa,
    Tem-se de perto; Ulisses o primeiro
    340 Com forte ávida mão levanta o pinque;
    Prevenindo-lhe o golpe, o dente o cerdo
    Lhe aferra no joelho, mas oblíquo,
    Sem osso lhe ofender, na carne o embebe:
    De ênea cúspide o herói na destra espádua
    345 O atravessa; ei-lo grunhe e tomba e morre.
    Expertos a ferida ao bravo pensam,
    Vedam-lhe por encantos o atro sangue;
    Curam-no em casa, e dele satisfeitos,
    Ledo com riscos dons à pátria o mandam.
    350 Laertes e Antícléia, jubilosos,
    Da cicatriz a causa e tudo inquirem;
    No Parnaso ele conta que o mordera,
    Junto a seus tios, javali terrível.
         Palpando, a cicatriz conhece a velha,
    355 Nem pode o pé suster; cai dentro a perna,
    E a bacia retine e se derrama.
    Dor a assalta e prazer; nos olhos água,
    Presa às fauces a voz, lhe afaga o mento,
    E balbucia enfim: “Tu és, meu filho,
    360 És Ulisses; depois que te hei palpado,
    Ora por meu senhor te reconheço.”
         E olhou para Penélope, o dileto
    Marido a lhe indicar; mas, por Minerva
    Distraída, a senhora o não percebe.
    365 Da destra ele sustendo-lhe a garganta,
    A si da esquerda a puxa: “Ama, a teus peitos
    Amamentado, queres tu perder-me?
    Volto ao vigésimo ano, após mil transes;
    Mas, já que um nume to mostrou, silêncio,
    370 A ninguém me delates. No imo o estampes:
    Se me der Jove debelar soberbos,
    Não pouparei culpada a nutriz mesma,
    Furioso a todas que o palácio infamem.”
         “Filho, acode Euricléia, que proferes
    375 Do encerro desses dentes? Inflexível
    Tu bem sabes que sou, qual pedra ou ferro.
    Toma sentido: a permitir-te Jove
    Soberbos debelar, as que te mancham
    A casa apontarei.” — De pronto Ulisses:
    380 “Ama, nem é mister, nem te isso cabe;
    Toca-me descobri-las e julgá-las.
    Guarda o segredo, e o mais aos deuses fique.”
         Sendo o primeiro banho extravasado,
    Sai pela sala a velha em busca de outro,
    385 E o lava e unge; o herói senta-se ao fogo
    Se aquece e cobre a cicatriz com panos.
         Ata a rainha a prática: “Inda um pouco,
    Hóspede meu, que a hora se apropinqua
    Do meigo sono, alívio dos cuidados,
    390 Menos dos que um demônio me pródiga.
    Sequer de dia em choro desabafo,
    Inspecionando as servas; mas de noite,
    Ao reinar o sossego, eu só no leito
    Sou de pungentes mágoas salteada.
    395 A Pandareida verde Filomela,
    Na doce quadra amena, entre a folhagem
    Flébeis queixumes sonorosa trina
    Pelo dela e de Zeto amado filho
    Itilo, a quem matou por erro infando:
    400 Assim lamento, a revolver incerta
    Se ao pé do meu conserve, respeitosa
    Ao toro conjugal e à voz do povo,
    Servas, paço e riqueza; ou, bem dotada,
    Siga o melhor de assíduos pretendentes.
    405 Enquanto o meu Telêmaco era débil,
    Não quis largar a marital vivenda;
    Mas, púbere hoje, me insta que lha deixe,
    Contra os vorazes procos irritado.
         “Explica-me ora um sonho. Gansos vinte
    410 Folgo de ver comendo os grãos no pátio;
    Porém de bico adunco montês águia
    Sonhei que, tendo lhes quebrado os colos,
    Amontoado no terreiro os mortos,
    Pelo ar divino alou-se; e eu grito e choro,
    415 E emadeixadas Gregas me circundam
    Na minha dor, ao tempo que, voltando,
    A águia fala da grimpa em voz humana:
    — Ânimo, ó filha do pujante Icário!
    Não é sonho, é visão realizável:
    420 Gansos os procos são; eu, antes águia,
    Sou teu marido, e castigá-los venho.
    Nisto, acordo, olho em torno, e como é de uso,
    Vejo os gansos na praia a comer trigo.”
         Pausado o herói: “Interpretar o sonho
    425 De outro modo que Ulisses me é defeso:
    Iminente é dos príncipes a perda;
    Nenhum tem de esquivar-se à morte escura.”
         Ela acrescenta: “Os sonhos são difíceis;
    Muitos, hóspede, nunca se efetuam.
    430 Têm eles dous portões, ebúrneo e córneo:
    Os do ebúrneo, falazes, mentem sempre;
    Nunca os do córneo falham. Que o meu, deste
    Vindo, a mim e a Telêmaco aproveite,
    Não me lisonjo. Agora sê-me atento.
    435 O albor nefasto aponta em que dos paços
    Me apartarei de Ulisses, e um certame
    Vou propor. Inda em casa há meu marido
    Secures doze, que erigia em hastes,
    E por seus olhos doze em direitura
    440 De longe a frecha rápida enfiava:
    Seguirei quem mais fácil o arco estenda
    E as secures traspasse, abandonando
    Ah! tão saudosa e farta e bela estância,
    Da qual me lembrarei té nos meus sonhos.”
    445     E Ulisses: “Do Laércio augusta esposa,
    Não retardes a prova. Hás de o consorte
    Aqui ter, antes que eles o arco verguem
    E, tesa a corda, os ferros atravessem.”
         Inda Penélope: “Hóspede, a quereres
    450 Junto a mim conversar, de ouvir-te o gosto
    Me estancaria o sono; mas não devem
    Os mortais velar sempre, e na alma terra
    Lei sobre tudo os numes impuseram.
    Subo a deitar-me enfim no amargo leito
    455 Que de contínuas lágrimas ensopo,
    Dês que Ulisses partiu para essa Tróia
    De execranda memória. Tu repousa
    A teu prazer, no solho ou numa cama
    Que se te aprestará”: Disse, e montando
    460 Não só, com duas fâmulas, na excelsa
    Maravilhosa câmara pranteia
    Seu caro esposo, até que amigo sono
    Lhe infunde pelas pálpebras Minerva.

    NOTAS AO LIVRO XIX
    94-98 — Não me atrevo a suprimir esta passagem, que vem nas diferentes edições, não obstante pensar com Rochefort, que há interpolação. Com efeito, falando o falso mendigo só da glória da rainha, parece-me inconveniente que ela de mão fale da sua própria formosura. Estes versos vêm mais a propósito no livro antecedente, como diz o mesmo Rochefort.
    134 — Homero dá sempre a Creta cem cidades, menos aqui, onde só lhe dá noventa. Os Críticos dizem que o redondo número de cem é para encarecer; outros cuidam que, tendo sido cem, Idomeneu destruiu dez numa sedição.
    166 — A Clavis Homerica de muitos seguida, acha ótima a comparação com o ferro ou com o corno por causa da sua natural secura; mas Rochefort, sempre fiel ao seu sistema, achando corno matéria indigna de uma epopéia, o substituiu por marfim.
    309-312 — O nome Ulisses ou Odusseus vem do verbo odussó, irar-se. Querem muitos que a história da ferida, a qual vai seguindo, seja uma interpolação. Pode ser que haja acrescentamentos; porém Homero, em ambos os seus poemas, não perde ocasião de contar-nos sucessos ainda mais longos, e estes, interessantes como pertencentes ao seu herói, é provável que os não quisesse omitir.
    439 — Olho chama-se o buraco por onde se introduz o cabo do machado e de outros instrumentos. Ir ao índice do livro
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    Item Reviewed: Odisséia de Homero - Livro XIX Rating: 5 Reviewed By: Pbsena Sena

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