Odisséia de Homero - Livro IV - Tifsa Brasil
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    11 de junho de 2018

    Odisséia de Homero - Livro IV

    Já no vale da grão Lacedemônia,
    Em casa o Atrida glorioso encontram
    Com pompa a celebrar do filho as núpcias
    E as da filha sem pecha. Em leves carros
    5 Ia enviá-la à Mirmidônia corte,
    Ao do Rompe-esquadrões herdeiro Pirro,
    De Ílio cumprindo o juramento sacro.
    Do Espartano Aléctor une uma virgem
    Ao forte Megapentes, que uma escrava
    10 N’ausência lhe pariu: de Helena prole
    O Céu não lhe outorgou, depois da amável
    Hermíone, rival da loura Vênus.
         No amplo alcáçar opíparo convívio
    Deleita a cidadãos e a forasteiros,
    15 À lira canta um músico divino,
    Dous bailadores a compasso pulam;
    Mas o coche ao vestíbulo e o Nestório
    E Telêmaco estão. Pajem do Atrida,
    O bravo Eteoneu, que os observava,
    20 De povos ao pastor a informar veio:
    “Dous hóspedes, quiçá de Jove garfos,
    Temos: desatar cumpre a veloz biga,
    Ou mandá-los, senhor, para outro asilo?”
         “Dantes eras, Boétidas, sisudo,
    25 O flavo rei troou; mas louquejaste,
    Compassível discurso. Ah! quantas vezes
    O pão comi da mesa do estrangeiro!
    De novas aflições me afaste Jove!
    Solta a parelha, os hóspedes convida.”
    30 Eteoneu chama os fâmulos, que o seguem:
    Aos suados corcéis, do jugo livres,
    Meiam cevada e espelta a manjedoura;
    À parede luzente o carro apoiam;
    Introduzem na régia os peregrinos,
    35 Régia brilhante como o Sol e a Lua.
         Já farta a vista, em limpa cuba os lavam
    E ungem de óleo as escravas, que, em felpudos
    Albornozes, e túnicas macias,
    Do soberano a par os apoltronam.
    40 De gomil de ouro às mãos verte uma delas
    Água em bacia argêntea, a mesa lustra,
    Que enche a modesta afável despenseira
    De pães e das presentes iguarias;
    Escudelas de várias novas carnes
    45 O trinchante apresenta e copos de ouro.
    Dá-lhes a destra e fala Menelau:
    “Comei, saboreais; depois da ceia,
    Saberemos quem sois. De escura estirpe
    Certo não vindes, mas de heróis cetrados:
    50 Gérmen vil não rebenta em plantas nobres”
         Aqui, tergo bovino assado e gordo.
    Seu quinhão de honra, aos hóspedes oferta,
    Que ao regalado prato as mãos estendem.
    Refeitos já, Telêmaco ao Nestório
    55 Inclinou-se em voz baixa: “Considera,
    Amigo da minha alma, como ecoa
    E esplende a sala, em bronze, em prata, em ouro,
    Em electro e marfim! Do interno Olimpo
    É tal o adorno imenso: espanta olhá-lo.”
    60  Menelau, que o percebe, acode: “Filhos,
    Ninguém se iguala a Jove na opulência;
    Eterno é seu palácio. Uns nos haveres
    Superam-me, outros eu: mas que infortúnios
    Oito anos carreguei, vagando os mares!
    65 Vi Chipre, vi Fenícia, vi o Egito,
    A Etiópia, a Sidônia, Erembos, Líbios;
    Onde aos cordeiros nascem presto os cornos,
    E há três partez a ovelha anualmente:
    Lá senhor nem zagal tem míngua nunca
    70 De queijo e carnes e mungido leite.
    Enquanto eu cumulava tais riquezas,
    Por dolo da consorte o irmão foi morto,
    E elas na amarga dor não me consolam.
    Ter-vos-ão vossos pais, quem quer que sejam,
    75 Contado os meus pesares: de Ílio em cinzas
    O precioso espólio os não compensa.
    Com pouco no meu lar me contentava,
    Se incólumes vivesse os que remotos
    Da Argólida ubertosa lá caíram.
    80 Amiúde, sentado a lamentá-los
    Saudoso verto lágrimas que enxugo,
    Pois viver não podemos de tristezas;
    Porém choro um mormente, e o recordá-lo
    O sono tira-me e o sabor, dos Gregos
    85 O mais acérrimo e constante, Ulisses.
    Quantas penas o fado reservou-lhe,
    Quantas a mim também na ausência longa
    Se respira ignoramos; e o pranteiam
    O decrépito pai, a honesta esposa,
    90 Tenro o filho Telêmaco deixado.”
         À lembrança de Ulisses, água chove
    Dos olhos do mancebo, que às mãos ambas
    Esconde-os n’aba do purpúreo manto:
    Menelau o descobre; em si reflete
    95 Se o deixa declarar-se, ou prosseguindo
    Lho pergunte e se explique. Entanto, Helena
    Do alto assoma camarim fragrante,
    Qual Febe de arco de ouro: Adestra logo
    Chega-lhe uma poltrona, traz-lhe Alcipe
    100 De lã mole tapete, e Filo o argênteo
    Rico açafate dádiva de Alcandra,
    Mulher de Pólibo, o da Egípcia Tebas,
    Em maravilhas célebre. Houve dele
    O flavo rei de prata duas tinas,
    105 Duas trípodes e áureos dez talentos;
    Houve de Alcandra Helena roca de ouro,
    De ouro com orlas e redondo embaixo
    O açafate que Filo apresentou-lhe
    De preparado fio, a roca em cima
    110 E roxa lã. No assento e de escabelo
    Aos pés Helena, a Menelau inquire:
    “De Jove aluno, que hóspedes nos honram?
    Quer acerte, quer não, falar desejo:
    Tanto não vi, de vê-lo estou pasmada,
    115 Mulher nem homem semelhar-se a outrem!
    Aposto haver Telêmaco ante os olhos,
    De Ulisses ramo, que o deixou de berço,
    Quando magnânimo entre os nobres Graios
    Foi debelar, por minha culpa, Tróia.”
    120 E o marido: “Consorte, o mesmo cuido.
    As mãos tem dele e pés, cabelo e testa,
    O penetrante olhar; do herói me lembra,
    Do que por mim sofreu, do que inda sofre:
    Há pouco o moço, em lágrimas desfeito,
    125 No purpurino manto as escondia.”
    Pisístrato ajuntou: “Pastor de povos,
    Ele é sim, que modesto aqui primeiro
    De interpelar se peja a um rei tamanho,
    Cuja encantada voz nos regozija.
    130 O ancião Nestor mandou-me acompanhá-lo;
    Vem pedir-te ou socorros ou conselho;
    Sendo ausente seu pai, na própria casa
    Ah! padece, e lhe faltam protetores,
    Falta-lhe povo que remova o dano.”
    135 E o rei: “Que! no meu teto o filho tenho
    De quem por mim correu perigos tantos!
    Sobre os outros heróis o amava eu sempre,
    Se feliz travessia às naus veleiras
    Nos concedesse o próvido Satúrnio.
    140 Cidade evacuando a mim sujeita,
    Paços lhe erguera, e de Ítaca ele a gente,
    Família e bens à Argólida passava.
    Em contínua aprazível convivência,
    Nada nos separava, antes que a morte
    145 Nos cobrisse de trevas. Mas o Olímpio
    Tal dita inveja, nega-lhe a tornada.”
    Gera-se um vivo pranto: Helena chora,
    Chora o esposo e Telêmaco; o Nestório,
    Não enxuto, recorda-se de Antíloco,
    150 Morto às mãos de Mênon da Aurora filho,
    E bradou: “Prudentíssimo aclamar-te
    Nestor em nossas práticas saía;
    Digna-te ouvir meu parecer, Atrida:
    À mesa nunca choros me recreiam,
    155 Mas na alvorada removê-los cabe;
    Só consagram-se aos míseros defuntos
    Cortada a coma e lágrimas sentidas.
    O irmão perdi também, que reconheces
    Não era o mais imbele: ouvi que a muitos,
    160 Pois lá não fui, se avantajou garboso
    Velocíssimo Antíloco e bizarro.”
         Atalha o Atrida: “Em obras e palavras
    Prudência inculcas de maduros anos;
    Saíste ao celso pai, querido jovem.
    165 Fácil o sangue de um mortal se estrema
    A quem ditoso berço e casto leito
    O Satúrnio fadou; como o Nelide,
    Que em velhice pacífica desliza
    Entre guapos herdeiros valorosos.
    170 Mas suspenda-se o luto; as mãos se lavem,
    Toca a cear. Telêmaco à vontade,
    Raie a manhã, conversará comigo.”
         Água ministra Asfálio, atento servo;
    Deitam-se os convidados às viandas.
    175 Helena al excogita: anexa ao vinho
    De nepentes porção, que aplaque as iras
    E as tristezas desterre; o que a bebesse
    Não brotava uma lágrima no dia,
    Por mãe nem genitor, irmão nem filho,
    180 Que visse degolar. De Jove à prole
    Dera bálsamos e ervas Polidana,
    De Fono Egípcia esposa, cuja terra
    Os reproduz saudáveis ou nocivos,
    E onde o médico excede os homens todos
    185 E de Péon descende. Helena exclama,
    Preparada a poção: “De heróis procedem,
    Sim, divo Menelau; mas poderoso
    Dispensa o Eterno as mágoas e os prazeres.
    Discursando o festim saboreemos;
    190 De gratas narrações vou deleitar-vos.
    Todas não posso referir proezas
    Do sofrido varão durante o assédio;
    Onde os Aqueus mil transes aturastes;
    Mas uma contarei. De chagas torpes
    195 E andrajos desfeado, qual mendigo,
    Em Ílio introduziu-se, e em pobre escravo
    Da mesma frota Argiva disfarçou-se.
    Por mim só conhecido, ele às perguntas
    Me quis tergiversar; mas, quando ao banho
    200 O ungi, vesti-o. e lhe jurei segredo
    Até que aos pavilhões e às naus voltasse,
    Me revelou dos Gregos os projetos.
    Alguns matando à espada, cheio foi-se
    De informações. As Teucras ululavam;
    205 Eu me alegrei, pois já de novo o peito
    Patrizar me pedia, arrependida
    Sentindo o haver, a impulsos da Cipônia,
    Largado a casa, a filha, o toro, o esposo,
    Que em talento e beleza a ninguém cede.”
    210 O marido aplaudiu-a: “Sim, consorte,
    Muito hei peregrinado, heróis vi muitos;
    O coração de Ulisses nenhum tinha:
    Paciente, engenhoso, e forte e sábio,
    Quanto ideou, quanta mostrou constância,
    215 No cavalo artefato, em que os melhores
    Clade e exício aos Trojúgenas levamos!
    Com Deífobo divino ali vieste,
    E em seu favor um nume te inspirava;
    Em três giros, palpaste a cava insídia,
    220 E com voz da mulher de cada chefe
    Os nomeavas todos. Eu no centro
    E Tidides e Ulisses te escutamos:
    Surdir os dous ou responder quisemos;
    No ímpeto e fogo Ulisses nos conteve.
    225 Calam-se os mais, ia falar Anticlo;
    Com mãos robustas pertinaz Ulisses
    Lhe aperta a boca, o exército preserva,
    Até que enfim reconduziu-te Palas.”
         Eis Telêmaco: “É duro que as virtudes,
    230 Sublime rei, da Parca o não livrassem,
    Qual se tivesse um coração de ferro.
    Mandai-nos ora aonde ambos logremos
    As delícias do sono.” — Presto Helena
    Desdobrar faz ao pórtico umas camas
    235 De almofadas e espessos cobertores
    E purpúreos tapetes: logo as servas
    Aparecem de facho, e tudo aviam;
    Conduz arauto os hóspedes; lá dormem
    O herói Telêmaco e o Nestório egrégio.
    240 Pernoita Menelau na interna alcova,
    E a mais gentil mulher nos braços dele.
         Do éter gênita, surde a roxa aurora:
    Desperta, veste-se o belaz Atrida;
    Cingindo a espada, as nítidas sandálias
    245 Calça, e ao pé do Ulisseida vem sentar-se:
    “Que precisão, Telêmaco, rasgado
    O equóreo dorso, te conduz a Esparta?
    É pública ou privada? eia, franqueza.”
         Prudente o moço: “A ti, senhor, pujante,
    250 Vim para de meu pai colher notícias.
    Enchem-me a casa, arruínam-me a fazenda,
    Matam-me negros bois, e ovelhas pingues
    Os procos de Penélope, vorazes,
    Arrogantes, violentos e importunos.
    255 Conta-me, eu te suplico, a morte sua,
    Se a viste ou referiu-te um forasteiro.
    Foi no ventre materno à dor votado!
    A minha tu não poupes, nada ocultes;
    E, o caro genitor se em tudo e sempre
    260 Te era fiel na desastrosa guerra,
    Isso lembre-te agora e não me iludas.”
         O Espartano suspira: “Oh Céus! cobardes
    Ao tálamo aspirar de herói tamanho!
    Se, em covil de leão depondo acaso
    265 Os filhinhos de mama, o vale e monte
    Lustra a corça a pastar, entrando a fera
    Os esgana cruel: destarte Ulisses
    Lhes dará morte certa. Ele se ostente,
    Ó Jove, Palas, Febo, como em Lestos
    270 Quando com Filomelides em luta,
    O prostrou com prazer dos bravos Gregos:
    A boda em breve acerba lhe seria.
    Satisfazer-te vou no que me imploras;
    Dir-te-ei sem rebuço quanto arcano
    275 Aclarou-me o veraz marinho velho.”
         “Os deuses, que nos punem, de olvidá-los,
    Impaciente no Egito me retinham,
    Porque faltei com justas hecatombes.
    Lá Faro surge à flor da azul campina,
    280 De foz em fora, quanto em singradura
    Marcha popa a que vente aura sonora;
    Tem um porto seguro e boa aguarda,
    E ao pélago os baixéis dali descendem.
    Uns vinte dias, não soprando Eolo,
    285 Que pelo undoso ponto os nautas leva
    E a planície lhe encrespa, eu demorado,
    Com poucas provisões, lassa a companha,
    Desesperava já, quando Idotéia,
    Do potente Proteu marinha prole,
    290 Ocorreu compassiva a mim sozinho;
    Que os mais de curvo anzol, do ventre urgidos,
    De toda a ilha em derredor pescavam.
    Acometeu-me a deusa: — “Estulto ou fátuo,
    Ficas-te, hóspede, em mágoas te apascentas,
    295 E enquanto aqui sem termo estás detido,
    Langue e definha o coração dos sócios.”
         “Ó deusa, contestei, seja qual fores,
    Por meu gosto o não faço, mas suponho
    A celícola algum ter ofendido.
    300 Ora dize, a imortais é claro tudo,
    Quem assim me proibe o mar piscoso. —
         “Ela ingênua me foi: — Do Egito o velho,
    De Netuno ministro, aqui se aloja,
    Proteu meu pai, que as úmidas entranhas
    305 Tem sondado e conhece. Há de ensinar-te,
    Se obténs prendê-lo, como a rota sigas,
    E se o queres também, de Jove aluno,
    Os maus ou bons domésticos sucessos
    Durante errores teus no instável pego —
    310 Eu porém: — Com que insídias surpreendê-lo
    Poderei, sem que fuja ao pressentir-me?
    Não é para mortais vencer a numes. —
         “A guapa ninfa continua: Atende.
    Ao meridiano Sol, do salso abismo,
    315 Hirtas sobre a cabeça as fuscas ondas,
    Surde o ancião de Zéfiro aos sonidos;
    Numa espelunca dorme, e em torno juntos
    Ápodes focas de Halosidna bela,
    A exalarem ascosa maresia.
    320 N’alva, hei de colocarte em sítio azado,
    Com três que elejas da valente frota.
    Seus ardis eu te expendo. Cinco a cinco,
    Ronda e enumera as focas, e no meio
    Deita-se qual pastor com seu rebanho;
    325 Sopita-se depois. De jeito e força
    Os agarreis, bem que anele escapulir-se;
    E em serpe ao converte-se, em água, em fogo
    Tende-o mais duro e firme, até que o velho,
    Já volto à prima forma, a interpelar-te
    330 Comece. Inquire então que nume avesso
    Te fecha o mar piscoso. — Ei-la mergulha;
    N’alma comoto, às naus varadas corro.
    Depois da ceia, inteira a noite amena
    Pela praia arenosa adormecemos.
    335 “Já vermelha a manhã, do imenso lago
    À borda chego a suplicar os deuses,
    Mais três seguros destemidos sócios.
    Para enganar o pai, do fundo a ninfa
    De focas sai com frescas peles quatro;
    340 Camas na areia escava, à espera tem-se;
    Vê-nos enfim, nas camas nos concerta,
    A cada qual em sua pele enfronha.
    Tetra cilada! os focas trescalavam
    Nutridos na salsugem: de um cetáceo
    345 Quem pode ao pé jazer? útil a deusa,
    Neutralizando o cheiro, doce ambrosia
    Nos unta às ventas: A manhã passamos,
    Com paciência os quatro; acima os focas
    Surgindo, junto a nós se enfileiraram.
    350 “Merídio vem Proteu; conta, examina,
    Por nós principiando, o gado obeso,
    E sem dar pelo engano ali se estende.
    A vozearmos súbito o agarramos:
    Sem lhe esquecer o ardil, muda-se o velho
    355 Em jubado leão, drago, pantera,
    Cerdo, riacho, ou tronco de alta copa;
    Mas, com tenacidade urgido, o astuto
    Lasso vociferou: — Que deus, Atrida,
    A forçar-me instruiu-te? que pretendes? —
    360 Mas eu: — porque me enganas, tu que sabes
    Que ansioso estou sem termo aqui detido?
    Ora dize, a imortais é claro tudo,
    Quem assim me proíbe o mar piscoso? —
         “Devias, respondeu-me, antes do embarque
    365 Sacrificar ao Padre e à corte sua,
    Para alcançares próspera viagem.
    Amigos não verás, nem pátrio alvergue,
    Sem que ao Dial Egito rio volvas
    E às divindades hecatombes sagres:
    370 O teu desejo então será cumprido. —
         “Magoado por de novo irmos ao rio,
    Longa árdua rota em borrascoso pego,
    Inda insisti: “Proteu, quanto me ordenas
    Preencherei; mas dize-me sincero
    375 Se os Arquivos que em Tróia se apartaram
    De Nestor e de mim respiram todos,
    Se algum morte imprevista, após a guerra,
    Teve a bordo ou nos braços dos amigos.
         Ele: — Indagas, Atrida, os meus segredos?
    380 Olha que d’água os olhos não te banhem.
    Dos livres da matança em que te achaste,
    Só morreram dous chefes arnezados,
    E um vivo está no meio do Oceano.
    Ante as remeiras naus, bebendo as ondas,
    385 Ajax de Oileu da Parca foi preado:
    Primeiro às pedras o lançou de Giras
    Favorável Netuno, onde escapara
    Mal grado a Palas, se ímpio não bramasse
    Que era salvo apesar dos mesmos deuses;
    390 Eis, da blasmêmia azedo, o rei dos
    Pega do seu tridente e fere a penha
    Aos pés de Ajax, que se abismou no fundo
    Com porção do rochedo. Em cavo bojo
    Foi por Juno Agamemnon preservado;
    395 Mas, ao dobrar o Maléia, uma tormenta
    O arrojou pesaroso ao campo extremo,
    De Fiestes morada, ora de Egisto:
    Seguro cria-se, e mudado o vento,
    Recolhidos os deuses, o chão pátrio
    400 Beija alegre e o ensopa em quente choro.
    Um vigia o avistou, que o ano inteiro,
    De dous áureos talentos com promessa.
    Pôs de atalaia Egisto, e que era atento,
    Por temer que, aportando inopinado,
    405 O herói do seu valor se recordasse;
    Denunciá-lo foi. Súbito Egisto,
    Insidioso, valentões da plebe
    Vinte escolheu, que estavam de alcatéia,
    Aprestado um banquete em outra sala.
    410 O traidor, meditando, em coches parte
    O Atrida a convidar, que à ceia incauto,
    Como a rês no presepe, é trucidado;
    Nem sócio deste, nem de Egisto mesmo
    Poupam na régia os brutos matadores. —
    415 “Cai na areia em pranto, e compungido
    Viver nem ver queria ao Sol a face.
    De prantear cansei-me e rebolcar-me,
    E então Proteu: — O luto é sem remédio,
    Basta; a Micenas corre; ou vivo ou morto
    420 Ou de Orestes punido, ao menos chegues
    Para os seus funerais. — Isto me acalma
    O generoso peito, e veloz falo:
    — Pois bem, doa-me embora, esse outro ou preso
    Ou morto no Oceano me declares. —
    425 “Prossegue o vate: — É o Ítaco Laércio.
    Na ilha o vi desfeito em grossas lágrimas.
    Por Calipso retido, e sem navio
    Para vogar no páramo salgado.
    Genro de Jove, tu de Helena esposo,
    430 Morrer em campo Argólico não deves,
    Mas, junto ao flavo Radamanto, o Elísio
    Deleitoso habitar, confins da terra;
    Onde os humanos docemente vivem,
    De temporais, de neves, de invernadas
    435 Sempre isentos, e de auras do Oceano
    Fresco bafejo e respirar suave. —
    Então sumiu-se no espumoso ponto.
         “Com meus divinos sócios, no embarcarmos,
    Ia deliberando, e espessa a noite,
    440 Finda a ceia, no seco repousamos.
    No matutino albor, em nado os lenhos
    De amuradas iguais, mastros eretos
    E tendidas as velas, de seus bancos
    Batem remeiros o espumoso pego.
    445 De novo ao rio Egito navegamos,
    E apaziguado o Céu com sacrifícios,
    Do irmão levanto em honra um cenotáfio.
    Prosperamente os ventos assoprando,
    Mandam-me os deuses à querida pátria.
    450 Agora, fica tu comigo uns dias,
    Dez ou doze; haverás válido coche,
    Três corcéis, linda copa, que, em sagradas
    Libações, deste amigo te recorde.”
         “Não me detenhas replicou Telêmaco.
    455 Um ano, deslembrado o lar paterno.
    Dessa boca eloqüente aqui pendera;
    Mas, já com tédio, na divina Pilos
    Meus sócios, Menelau, por mim suspiram.
    Dás-me um tesouro; eu deixo-te os cavalos
    460 Nas mimosas campinas em que imperas,
    Onde à larga germinam loto, junça,
    Trigo, cevada e espelta; lá nem tenho
    Vastos circos nem prados: só de cabras,
    Não de poldros nutriz, me é cara a terra;
    465 Pois, Ítaca mormente, em roda as ilhas
    Do nosso mar em pastos não verdejam.”
         Ri-se o pugnaz Atrida, e a mão lhe cerra:
    “És de bom sangue, acertas. Posso, filho,
    Pela mais bela a dádiva trocar-te
    470 Por argêntea cratera de áureas bordas,
    Lavor exímio de Vulcano mesmo:
    Foi do rei dos Sidônios glorioso
    Prenda, ao nos despedirmos; de hoje é tua.”
    E entanto em sala interna resplendente
    475 Concorrem: quem ovelhas, quem trazia
    O vigoroso vinho; o pão, de fitas
    Ornadas moças. Lauta a ceia aprestam.
         Mas de Ulisses na régia, ao disco e dardo
    Os procos num calçado se exerciam
    480 Pátio, que da protérvia era o teatro;
    E, ao pé de Antino e Euríniaco deiformes,
    Indagou Noémon, de Frônio garfo:
    “Sabe-se, Antino, da arenosa Pilos
    Se Telêmaco é vindo? Em meu navio
    485 Foi-se, e a Élide vasta ir necessito;
    Éguas doze lá tenho e mus bravios,
    E alguns desejo acostumar ao jugo”.
         Atônitos calaram, que o supunham
    Em Pilos não, mas a velar nos prédios,
    490 No pastor e na grei. De golpe Antino:
    “Quando, como partiu? seletos jovens
    De Ítaca tem consigo, ou tão somente
    Mercenários e escravos? Que ardileza!
    Fala a verdade; a nau, por força a deste,
    495 Ou cedendo a seus rogos voluntário?”
         Súbito Noémon: “Fi-lo espontâneo.
    A preces de homem tal quem não cedera,
    E em tanta angústia? A gente mais luzida
    E a Mentor vi no embarque, ou certo um nume,
    500 Que em tudo o parecia. Mas, oh! pasmo,
    O divino Mentor bem que embarcasse,
    Na manhã de ontem me encontrei com ele.”
    Disse, e à casa paterna recolheu-se.
         Os audazes, comotos e aterrados,
    505 Se abstêm dos jogos. O Eupiteio ruge,
    De rábido furor, olhos em brasa:
    “Oh! que atrevida empresa! de acabá-la
    Julgado era incapaz: mocinho, às ondas,
    A despeito de nós, deitou navio,
    510 E com gente escolhida foi-se impune.
    Este começo nos agoura danos,
    Se o não tolhe o Satúrnio. Já, ligeiro
    Baixel de vinte remos; que, à passagem
    De Ítaca e Samos numa espera, conto
    515 Que a viagem por seu pai lhe seja amarga.”
    Aprovam todos e ao palácio montam.
         Médon, que ouviu de fora o atroz conluio,
    Pelo pátio açodou-se a anunciá-lo,
    E Penélope indaga: “Eles te enviam,
    520 Para que as servas do divino Ulisses
    Terminem seu trabalho e a mesa ponham?
    Basta de importunar-me e a quaisquer outros.
    Esta lhes fosse a derradeira ceia!
    Ó vós que ao meu Telêmaco amiúde
    525 A substância esbanjais, nunca em meninos
    Quem seu pai era aos vossos escutastes?
    Brando ao povo, em palavras comedido,
    Justo e humano, alguns reis não semelhava
    Que ódio e favor dispensam caprichosos.
    530 Ah! vós lho agradeceis com torpes feitos.”
         E o sensato Médon: “Fosse, ó rainha,
    Esse o mal todo! os bárbaros meditam,
    Jove o remova, assassinar teu filho
    Ao regresso de Pilos e de Esparta,
    535 Aonde foi colher de Ulisses novas.”
         Do abalo sufocada, esmorecida,
    Joelhos frouxos, lágrimas nos olhos,
    Estúpida soluça e balbucia:
    “Que! nada urgindo, cavalgou meu filho
    540 Num dos corcéis do mar que a salsa imensa
    Via atravessam! Nem pretende ao menos
    Renome entre os humanos!” — “Eu ignoro,
    Torna Médon, se um deus, se impulso próprio
    Fê-lo ir do pai no alcance, ou vivo ou morto.”
    545 Nisto, o arauto a seu posto recolheu-se.
         Bem que a sala em cadeiras abundasse,
    Atormentada ao limiar sentou-se
    Da câmara custosa, a lastimar-se;
    Em ais cercam-nas as servas quantas eram,
    550 Velhas e moças, a quem diz chorando:
    “O Céu me aflige, ó caras, mais que a todas
    Que nasceram comigo e se criaram:
    Meu marido perdi, leão no esforço
    De virtudes complexo, espelho aos Dânaos,
    555 De Hélade e Argos espanto; ora o só filho
    Preia inglório será das tempestades.
    Cruéis, vós que o sabíeis, à partida
    Acordar-me do leito não viestes:
    Se eu da sua intenção fosse inteirada,
    560 Ele ou não ia ou morta me deixara.
    Uma aqui chame a Dólio, o velho escravo.
    Paterno dom, cultor dos meus pomares;
    Corra, informe a Laertes, e este ao povo
    Deplore a trama que extinguir a estirpe
    565 Dele e de Ulisses divinal promove.”
         A ama Euricléia então: “Querida ninfa,
    Mates-me a duro bronze, ou bem me poupes,
    Não te oculto, ciente o pão e o vinho
    Eu mesma forneci; jurei sagrado
    570 Por doze dias, salvo ou pressentires
    Ou vê-lo desejares: tinha medo
    Que te ofendesse o pranto as faces belas.
    Tu purifica-te e alvas roupas cinge,
    No alto com tuas fâmulas implora
    575 A Tritônia que o filho te conserve;
    Não contristes o velho. Eu não presumo
    Que o Céu deteste a geração de Arcésio:
    Sequer nos restará quem nesta régia
    Mande em longínquos ubertosos campos.”
    580 Com isto aliviada, enxuga os olhos;
    Sobe, e se purifica e se reveste,
    Ora com suas fâmulas, esparso
    De açafates o farro: “Ouve-me, ó gérmen
    Do aluno e Amaltéia; se o prudente
    585 Ulisses te queimou de ovelha ou touro
    Gordas pernas, conserva-lhe o só ramo,
    Daqui me afasta os arrogantes procos.”
    Geme e ulula; aceitou-lhe os votos Palas.
         Pelos escuros átrios em tumulto,
    590 Sem suspeita, os protervos se diziam:
    “Certo, ignara do risco de seu filho,
    Cobiçada a rainha apresta as bodas.”
    Mas Antino os atalha: “Endiabrados,
    Calai-vos, pode alguém denunciar-nos;
    595 Tácitos nosso plano executemos.”
         Vinte escolhendo, lesto à praia os guia;
    Eis, o baixel em nado, o mastro erigem,
    Remos aos bordos em correias atam,
    Armas carregam valorosos pajens,
    600 E dos envergues fora as brancas velas,
    Comem de largo, esperam que anoiteça.
         Penélope, em jejum, no andar cimeiro,
    Só no inocente cuida, se ele escape,
    Ou se aos golpes sucumba dos traidores:
    605 Como temendo, em círculo doloso
    De montanheses, o leão cogita,
    Ela pensa e repensa, e recostada
    Lhe amolenta as junturas meigo sono.
    Palas, que isto aguardava, uma aparência
    610 Da Icária Iftima, em Feres com Eumelo
    Casada, aos paços de Laércio expede,
    Porque o pranto a Penélope refreie;
    Na câmara a visão, por entre o loro
    Da fechadura entrando, à cabeceira:
    615 “Adormeces, Penélope, lhe brada,
    Aflita e mesta? Os numes não permitem
    Essa tristeza; reverás teu filho,
    Que nunca os ofendeu nem levemente.”
         Às portas já Penélope dos sonhos
    620 Adormentada, fala: “A que vieste,
    Irmã, que, ao longe moradora, nunca
    Me visitavas? queres que eu deponha
    As dores e aflições que n’alma sinto?
    Perdi meu bom marido, exemplo aos Dânaos,
    625 Honra da Grécia: agora o só renovo,
    Inexperto em negócios e em trabalhos,
    Meteu-se em cava nau. Mais choro a este;
    Que se afunde, ou padeça em clima alheio,
    Temo e tremo: inimigos o insidiam,
    630 E antes que volte aqui matá-lo anseiam.”
         “Ânimo, ajunta, o fusco simulacro;
    Não te assustes que o segue uma de todos
    Aparecida: a consolar-te as penas
    A potente Minerva a ti mandou-me.”
    635 “Se és deusa, diz Penélope, ou da deusa
    Ouviste a voz, do outro infeliz me informes:
    À luz do Sol acaso inda respira,
    Ou jaz defunto na Plutônia estância?”
         A sombra contestou: “Se é morto ou vivo
    640 Omito, é vão discurso.” E como vento
    Por entre a fechadura esvaeceu-se.
    Desperta a Icária, exulta ao ver o sonho
    Da noite na calada sobrevir-lhe.
         A úmida via os pérfidos sulcavam,
    645 De Telêmaco o exício ruminando.
    Fica entre Samos e Ítaca fragosas
    Ásteris, ilha exígua, de pastagens,
    De abras, de uma e outra banda, ao crime azadas,
    Para a traição, de espreita, ali se escondem.


    NOTAS AO LIVRO IV
    9-21 - Diz Homero que uma serva, na ausência de Menelau, a este pariu um filho. Pretende M. Giguet que Megapentes nascera na velhice do pai; o que era impossível. Partido vinte anos antes e de fresco recolhido, ou Megapentes era gerado antes da expedição ou depois da vinda de Menelau: no primeiro caso, este era moço; no segundo caso, era Megapentes uma criança e não tinha idade para casar. Télugetos, segundo Hederico e os seus continuadores, significa: 1.º) e é o sentido próprio, nascido ao longe na ausência do pai; 2°) nascido na velhice; 3°) de mui tenra idade; 4.°) querido de seus pais. Pelo acima exposto, é evidente que o adotável é o primeiro. — Se, no verso 21, em vez de quiçá usasse eu de talvez, desagradável seria e duro: muito mau serviço fizeram os que afastaram da língua uma infinidade de palavras sonoras e expressivas.
    32 - Espelta, de que já me servi em outras obras, spelta ou zea em latim, é uma espécie de trigo, e tem o mesmo nome em italiano, em castelhano e em português, posto que não venha em dicionário nosso: em francês, épeautre.
    176 - Nepentes, adjetivo que significa sem dor ou que dissipa a dor, é tomado substantivamente por certa erva ou remédio que produzia o mesmo efeito.
    219-221 - Cava insidia, significando o bojo do cavalo, é uma arrojada expressão, que eu não quis apoucar. - Acho razão em Rochefort quando opina que há interpolação nesta passagem, por ser indigno de Homero que Helena fosse contrafazer a voz das mulheres dos que estavam dentro do cavalo; e é tanto mais ridículo quanto é certo que essas mulheres não estavam em Tróia, nem os maridos podiam acreditar que elas, de um dia para outro, chegassem todas para os excitar. Conservo a passagem, não querendo ser tachado de omisso; mas não creio que tal qual fosse escrita pelo poeta.
    299 - Algum, posto que venha posposto a celícola, não é em sentido negativo. Constâncio categoricamente afirma que homem algum significa homem nenhum; mas este erro grosseiro é um dos seus frequentes caprichos; nem ele cita, nem se podem citar exemplos, de autor que faça fé, em justificação do seu parecer: o único de Barros, onde houve a omissão de um non, está longe de contrabalançar os inumeráveis de Camões, Ferreira, Sá de Miranda, Côrte-Real Bernardes, Leão, Mausinho, Ordenações do Reino, e outros que alega Morais.
    368-448 — O rio Egito que deu nome à região, ainda não se chamava Nilo no tempo de Homero; e esta é uma das razões que provam ter sido o poeta anterior a Hesíodo, que já usa do nome Nilo. — O verso 448 é um de Camões no seu episódio de Adamastor.
    600-601 — Alguns vertem que os pretendentes amararam-se logo, soltaram as velas e esperaram pela noite: ora, eles esperavam que anoitecesse para partirem; não soltaram as velas, somente as desenvergaram e as tiveram prestes para à noite saírem imprevistamente; nem se amararam, somente se puseram de largo, o que é diferente: os navios, antes de largarem, costumam colocar-se um tanto afastados do porto. Ir para índice do livro.
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