Odisséia de Homero - Livro VII - Tifsa Brasil
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    11 de junho de 2018

    Odisséia de Homero - Livro VII

    Ora o sofrido herói; marcha a carroça,
    Pára Nausica ao pórtico soberbo:
    Os irmãos seus deiformes, que a rodeiam,
    Os mus disjungem, dentro a carga levam.
    5 Ela à câmara sobe: o fogo acende
    E a ceia lhe concerta Eurimedusa,
    Do Epiro transportada em naus remeiras,
    Pelo povo escolhida em recompensa
    Para o potente Alcino, dos Feaces
    10 Como um deus adorado; a qual na régia
    Nutriz foi da donzela, e é camareira.
    Ergue-se Ulisses, e a propícia déia
    O embuça em névoa grossa, que insultá-lo
    E ofender ninguém possa, nem detê-lo
    15 Ou quem seja inquirir; mas, da risonha
    Cidade ao começar, vem Palas como
    Rapariga de cântaro à cabeça,
    E o Laércio a interroga: “Filha, queres
    Conduzir-me de Alcino aos reais paços?
    20 Estrangeiro e infeliz, de longe arribo;
    Nem do lugar um morador conheço.”
         “Sim, respeitável hóspede, responde;
    Meu bom pai fica perto. Abro o caminho;
    Tu cala-te, que a turba hostil e acerba
    25 Não sofre nem festeja os forasteiros.
    Tal gente, ousada nas talhantes quilhas,
    Os mares trana, pois lhas deu Satúrnio
    Velozes qual a pluma e o pensamento.”
         Ela avança, ele a segue. À chusma oculto
    30 Marítima perpassa, que Minerva
    Lhe difundia divinal caligem:
    Os portos vai mirando e as alterosas
    Naus e o foro e as muralhas estupendas
    Com valos guarnecidas. Mas, vizinhos
    35 Ao paço, adverte a guia olhicerúlea:
    “Dentro, hóspede e senhor, de Jove alunos
    À mesa encontrarás. Anda e não temas;
    O audaz e franco, donde quer que chegue,
    Vence embaraços. A rainha busques,
    40 A quem de Areta cabe o grato nome,
    E é da real prosápia do marido.
    Eurimédon feríssimos gigantes
    Altivo dominava, e o duro povo
    Com ele pereceu; de Peribéia,
    45 Menor filha e a mais guapa, houve Netuno
    O bravo Nausítoo, aqui reinante,
    O qual foi pai de Rexenor e Alcino;
    A Rexenor matando o Arcitenente,
    Ele deixou, casado era de fresco,
    50 Não masculina prole, única Areta;
    Com Areta esposou-se o tio Alcino.
    Mais honrada não há matrona alguma
    Dos caros filhos, do consorte mesmo;
    Quando passeia, divindade a julgam
    55 E de seus lábios as palavras colhem;
    Boa e inspirada, os cidadãos congraça.
    Rever esperes, se te for benigna,
    Os amigos e a pátria e a celsa casa.”
         Pelo ponto infrugífero, eis Minerva
    60 Da Esquéria amena parte, e se dirige
    A Maratona e Atenas de amplas ruas,
    De Erecteu sobe o alcáçar. Ao de Alcino,
    Sem que o límen transponha, tem-se Ulisses
    A cogitar. Magnífico palácio
    65 Como o Sol fulge e a Lua: éreas paredes
    Firmam-se em torno, da soleira adentro,
    Com seus frisos de esmalte, áureas as portas,
    Argênteos os portais ao brônzeo ingresso,
    Argênteas vergas, a cornija de ouro;
    70 De ouro e de prata uns cães, de lado a lado,
    Com alma e coração, Vulcânio invento,
    São de Alcino os custódios vigilantes,
    Imortais e à velhice não sujeitos;
    Para o interior há tronos desde a entrada,
    75 Com finos véus de mãos femíneas obra,
    Onde em redor assentam-se os magnatas
    A comer e beber, durante o ano;
    Com primor fabricados, junto às aras
    Mancebo de ouro estão, de acesos fachos
    80 A alumiar de noite os conviventes.
    Servem cinqüenta moças: quais, em pedra
    Flavo trigo a moer; quais, aos teares;
    Quais, a virar num rodopio os fusos,
    Como do álamo as folhas buliçosas.
    85 Untado e bem tecido o linho estila:
    Tanto os Feaces navegando excelem,
    Quanto as mulheres têm, mercê de Palas,
    Para a teia e o lavor engenho e arte.
         Não distante, há vergel de quatro jeiras,
    90 Onde florentes árvores viçosas,
    De inverno e de verão, perene brotam;
    Zéfiro meigo lhes sazona os frutos,
    Um pula, outro arregoa, outro envelhece.
    Nova sucede à pêra já madura;
    95 À escachada romã sucede nova;
    Esta oliva é de vez, rebenta aquela;
    Junto à maçã vermelha a verde cresce;
    Figo após figo, mela, uva após uva.
    Medra abundante vinha: em área cachos
    100 Estão secando ao Sol, quais se vindimam,
    Quais pisam-se em lagar; doces roxeiam,
    Ou no desflorescer acerbos travam.
    O arruado pomar fenece em horta,
    De verduras mimosa em toda quadra.
    105 Pelo inteiro jardim corre uma fonte;
    Jorra ao pátio a maior ante o palácio,
    Donde bebe a cidade. Eis quanto os numes
    Ao nobre Alcino em casa prodigaram.
         Ulisses mira e pasma, e na caligem
    110 Paládia envolta, a limiar transpondo,
    Acha-os libando a Hermes negocioso,
    Brinde final dos que do leito curam;
    E mal, vizinho ao rei, da augusta esposa
    Às plantas cai, a nuvem se dissipa.
    115 Todos o encaram mudos, e ele exclama:
    “Filha de Rexenor, divina Areta,
    Mísero eu te suplico e a teu marido
    E aos mais senhores: oxalá que extensa
    Vida obtenhais e transmitir à prole
    120 Bens e fortunas que vos der o povo!
    Breve porém mandai-me à pátria minha;
    Fora dos meus padeço há largos anos.”
         Nisto, ao fogão sentou-se no cinzeiro.
    O silêncio reinava, até rompê-lo
    125 Equeneu venerando, o mais idoso
    Dos Feaces heróis, mais eloqüente,
    Mais douto no passado, e orou sisudo:
    “O hóspede, Alcino, ali jazer na cinza
    É pouco honesto; o aceno os mais te aguardam
    130 Em sede claviargêntea, eia, o coloques;
    Vinho manda infundir, para ao Fulmíneo,
    Que assiste a honrados hóspedes, libarmos;
    Já, ministrei-lhe ceia, a despenseira.”
         E o rei pega do sábio, em trono o assenta
    135 Resplendido, que próximo ocupava
    O forte e amado filho seu Laodamas.
    Serva em bacia argêntea às mãos verte água
    De áureo gomil, desdobra e espana a mesa;
    Pão traz modesta ecônoma e iguarias
    140 Novas, que às encetadas acrescenta.
    Come Ulisses e bebe, e o rei com força:
    “Mistura, tu Pontono, e da cratera
    O vinho distribui, para ao Fulmíneo,
    Que assiste a honrados hóspedes, libarmos.”
    145 O arauto o brando vinho que mistura.
    Em copos vaza e o distribui aos chefes.
    Depois Alcino: “Egrégios conselheiros,
    Ide saciados repousar, vos digo.
    Os antigos do povo amanhã venham;
    150 Em festejo hospital ofereçamos
    Completo sacrifício às divindades;
    Em seguida curemos de que alegre
    Ele, por mais remota, à pátria aborde,
    Sem moléstia nem danos; acautelemos
    155 Qualquer mal no caminho. Já na terra,
    Sofra as penas que as Parcas lhe fiaram
    Desde o materno ventre. E a ser do Olimpo
    Habitador, mistério aqui se encobre:
    Deuses muito há que a nós se manifestam;
    160 Conosco, nas solenes hecatombes,
    Demoram-se ao banquete; e se um Feace
    Os depara viandante, não se escondem,
    Pois neles entrocamos, como as tribos
    De Ciclopes cruéis, gigantes rudes.”
    165 “Alcino, o herói tornou, perde essa idéia:
    Aos celícolas tu não me confrontes
    Em índole e presença; humano e frágil,
    Ao mais triste mortal sou comparável,
    Nem te posso explanar quanto infortúnio
    170 Tem sobre mim os deuses carregado.
    Mas, da mágoa apesar, deixa que eu ceie;
    O estômago importuno se aguilhoa,
    No meio da aflição me pica e lembra
    O comer e o beber, dá trégua às penas.
    175 N’alva expedi-me: ao ver, pós tantas lidas,
    Minha terra e família e doces lares,
    Acabe-se esta luz ali comigo.”
         Aplaudem-no os Feaces, confiando
    Que o disserto orador o intento logre,
    180 E trás farto libar foram-se ao leito.
    O herói fica-se e Areta e o rei divino,
    E as servas a baixela entanto arrumam.
    Logo Areta, que as obras reconhece
    Dela e da gente sua: “A interrogar-te
    185 Primeira, hóspede, sou. Quem és e donde?
    Como houveste essa túnica e esse manto?
    Não dizes tu que náufrago abordaste?”
         “Narrar-te já, responde, quantos males,
    Senhora, o Céu vibrou-me, é mui difícil;
    190 Mas ao que me perguntas satisfaço.
    De humanos e mortais mora apartada,
    Na Ogígia ilha do alto mar, Calipso,
    De Atlante gérmen, de encrespada coma,
    Ardilosa e tremenda; ali mau gênio
    195 Lançou-me só, desfeito havendo Jove
    A raio a embarcação no escuro abismo,
    Onde os meus nautas soçobraram todos.
    Por nove dias, aferrado à quilha,
    De vaga em vaga, ao décimo de noite
    200 A praia toco. A ninfa carinhosa
    Me tratou, me nutriu, velhice e morte
    Quis tolher-me, e abalar-me nunca pôde.
    Firme reguei de choro as dadas roupas
    Incorruptíveis; mas, de Jove ao mando
    205 Ou volúvel, no curso do ano oitavo
    A partir me exortou numa jangada,
    Pão forneceu-me e vinho e odoras vestes,
    Favônias a invocar-me auras suaves.
    Aos oito sóis de undívaga derrota,
    210 Vossa alta umbrosa terra apareceu-me,
    E no peito exultei. Mas ai! Netuno,
    Insensível ao pranto, em furor sempre,
    Com vastas brenhas de surdir me impede,
    E a barca um vagalhão me desconjunta.
    215 As ondas meço a braço, té que à ilha
    Sanhudas nuns penedos me remessam
    Inacessíveis. Novamente nado,
    A foz emboco enfim de um rio ameno,
    Tuto e limpo de escolhos e abrigado;
    220 Em salvo, ânimo cobro. A tarde assoma,
    Deixo o rio Dial; em selva opaca,
    Inda que atribulado, acamo folhas,
    E um deus noite e manhã me embebe em sono.
    Ao declinar do Sol, acordo e avisto
    225 A filha tua às imortais parelha,
    N’alva praia, entre as fâmulas brincando;
    Suplico, admiro o tento que, ó rainha,
    Esperar não puderas dos seus anos
    De imprudência e loucura: fez banhar-me,
    230 De vestidos proveu-me e de alimento.
    Nesta angústia, senhora, eis a verdade.”
         “Hóspede, acode Alcino, a filha minha
    Ao decoro faltou, que ao nosso alvergue
    De antemão suplicada, lhe cumpria
    235 Na comitiva sua conduzir-te.”
         O manhoso atalhou: “Tu não censures
    A inocente princesa; ela mandou-me
    Acompanhar as servas, e eu neguei-me.
    Temi quiçá, que ao vê-lo te irritasses:
    240 À suspeita é propensa a espécie humana.”
         “Temerário não sou, replica Alcino,
    Ou pronto em me irritar; o honesto e justo,
    Hóspede, em mim domina. Oh! queira o Padre,
    Minerva e Apolo, tal qual és, de acordo
    245 Com meu sentir, que genro meu te fiques!
    Dôo-te casa e bens. Mas por violência
    Ninguém te reterá: condena-o Jove.
    Dorme em sossego, disporei seguro
    Teu regresso amanhã: durante as calmas
    250 Os nautas remarão, se além de Eubéia
    Mesma o desejes, ilha a mais remota,
    Segundo os que de Télus navegaram
    Ao filho Tício o flavo Radamanto;
    Porém num dia aqui se recolheram.
    255 Conhecerás que chusma e naus possuo
    Para à voga arrancada o mar fenderem.”
         Folga e depreca Ulisses: “Padre excelso!
    Cumpra Alcino a promessa; a glória sua
    Encha a terra fecunda, e eu veja a minha.”
    260 Inda assim praticavam, quando Areta
    Albinitente ao pórtico uma cama
    Estender manda, com purpúreas colchas,
    Com tapetes, e espessos cobertores;
    Vão de facho na mão fazê-la as servas,
    265 E o paciente herói depois avisam:
    “Hóspede, vem dormir, que é pronta a cama.”
    Ulisses com prazer no recortado
    Catre ao sonoro pórtico se estira.
    Foi dentro Alcino se gozar do sono,
    270 Com sua esposa o leito compartindo.

    NOTAS AO LIVRO VII
    13-15 - Imitou Virgílio esta passagem no I da Eneida. Pope, Rochefort e outros, bem entendido, acham Homero muito superior. A honra da invenção cabe certamente ao Grego; mas, no executar e no escolher a situação, tenho que o Latino é pelo menos igual. Minerva cobre de uma nuvem a Ulisses para o salvar dos insolentes marujos de Esquéria; Vênus cobre de uma nuvem Enéias para sem perigo atravessar Cartago, onde, por confissão de Dido a Ilioneu, ela mesma deixa o povo ser áspero com os estrangeiros: por mais que Minerva amasse a Ulisses, não o amava tanto como Vênus a Enéias, que era seu filho; e a cautela da mãe, que opinam ser inútil, é plenamente justificada. A melhoria que alguns deparam sempre em Homero, é paixão de tradutores: eu, que o sou de ambos os poetas, não tenho o amor próprio empenhado por um deles. Muito realça a imitação o estar ouvindo Enéias do encerro nebuloso os gabos que os Troianos lhe prodigalizavam: que situação! E quanto não é dramático o desfazer-se a nuvem no momento em que Dido se propunha mandá-lo procurar! Preferir sempre Homero a Virgílio, presta ao crítico um ar de sapiência e recôndita erudição, e apascenta a vaidade de poder penetrar os mistérios de uma língua menos conhecida.
    40 - Assentava bem o nome na virtuosa Areta, ou porque signifique desejada, ou porque são como areté, que significa virtude.
    70-85 - Os cães do portão de Alcino, segundo Homero, bem que de ouro, tinham voz e inteligência; mas por timidez, alguns acrescentam em sua tradução um antipoético parecem. Era isso uma das maravilhas de Vulcano; maravilha igual à das trípodes que iam por seus pés ao congresso dos deuses, e à das moças também de ouro que andavam com o mestre, como se lê no livro XVIII da Ilíada. — Fala-se em moer os grãos: pensa-se que isto é cousa do tempo de Homero emprestada ao dos seus heróis; ou que a moedura era imperfeita, sendo o grão apenas quebrado na pedra, frangere saxo, como diz Virgílio; ou então que os Feaces, povo navegador, possuíam maior indústria que os sócios de Enéias, que eram de Tróia, menos civilizada. — O verso correspondente ao meu 85 não diz que as teias eram luzidias como azeite, à maneira de Pindemonte; nem tão bem tecidas que o azeite as não penetrava, segundo a Clavis Homerica: acertou M. Giguet em dizer que as teias destilavam óleo. Cá em Pisa, onde escrevo esta nota, uma camponesa grande fiandeira ensinou-me que, ao tecer, untava-se o linho com unto para o tornar menos seco e de trabalhar melhor: Homero nos memora um costume antigo, ainda hoje conservado.
    [N.E.: Um exemplar da Clavis Homerica existente na Biblioteca da Universidade de Michigan foi digitalizado pelo Google e encontra-se disponível para download no Google Books (Clavis Homerica sive Lexicon Vocabularum Omnium, quæ continentur in Homeri Iliade et potissima parte Odysseæ, ... — Edinburgi, 1815)]
    96-98 - Fruta de vez é a que, não bem madura, contudo já pode ser colhida: esta locução comum falta nos dicionários; e também falta o verbo melar, que significa escorrer a fruta o seu suco, e aos figos aplica-se frequentemente. — Alguns põem laranjas no pomar de Alcino; mas nada vejo no texto que os justifique: as palavras méleai áglaokarpoi querem dizer macieiras que dão boa fruta, e não laranjeiras. A exatidão é de interesse histórico.
    177 - Folguei de poder aqui servir-me de um dos melhores versos do patriota Camões.
    224-270 - Digo declinar e não cair o Sol, como dizem alguns; porque, se ele já estivesse no ocaso, Ulisses não tivera tempo de ver as moças a jogar, de lhes falar e suplicar, de banhar-se no rio, ungir-se e vestir-se, de comer e beber, antes que Nausica partisse para a cidade. — No verso 245, vê-se que Alcino ofereceu a filha extemporaneamente: por mais que se esforcem os críticos em desculpar o poeta, confesso que não gosto do oferecimento. — Homero não afirma que a Eubéia é a mais longínqua das terras, como afirmam não poucas versões; apenas a denomina a ilha mais afastada da Esquéria, e o que se segue mais comprova esta opinião. — Quanto ao último verso, tenho como razoável o que diz Rochefort, contra o parecer de muitos, isto é, que dormia Areta, não ao pé, sim no mesmo leito do marido. Ir para índice do livro.
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    Item Reviewed: Odisséia de Homero - Livro VII Rating: 5 Reviewed By: Pbsena Sena

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