Melpômene - Livro IV - Tifsa Brasil
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    19 de maio de 2018

    Melpômene - Livro IV

    A Cítia - Hérculos - os Grifãos - os Hiperbóreos - Descrição da Terra - o Povo de Cílax - Costumes dos Citas - Anacársis - a Expedição de Dário - o Ponto Euxino - as Amazonas - os Trácios  - os Getas - a Líbia - o Culto do sol , etc.

    I - Depois da tomada de Babilônia, Dario marchou contra os Citas. A Ásia era, então, rica e muito povoada, encontrando-se em situação florescente. O soberano desejava vingar-se dos Citas, que, tendo invadido a Média, bateram as tropas que a eles se opuseram e entraram a violar a justiça. Esse povo, como já relatei, tinha dominado na Ásia Superior durante vinte e oito anos. Havia ali penetrado perseguindo os Cimérios, e tinha arrebatado o império aos Medos. Depois de uma ausência de vinte e oito anos, os conquistadores citas quiseram retornar à pátria; mas para voltar à Cítia não encontraram menores dificuldades do que as que tinham tido para dominar os Medos. Um exército numeroso erguera-se diante deles, impedindo-lhes a entrada; pois enquanto estiveram ausentes, suas mulheres, entediadas pela longa espera, entregaram-se aos escravos, daí resultando toda uma nova população.

    II - Os Citas têm por hábito furar os olhos dos seus escravos, para utilizá-los na ordenha de animais, cujo leite consomem diariamente. Para a extração do leite adotam uns canudos de osso semelhantes a flautas, que introduzem nas partes naturais das jumentas, e os escravos neles sopram, enquanto outros tiram o leite. Dizem eles que empregam esse processo para que o sopro intumesça as veias das jumentas e faça baixar as mamas.

    Extraído o leite, despejam-no em recipientes de madeira, que os escravos sacodem e agitam. É a nata que eles mais apreciam, considerando-a saborosíssima e nutriente. É para essa tarefa que eles vazam os olhos dos que submetem à escravidão. Os Citas não cultivam a terra e são nômades.

    III - Desses escravos e de mulheres citas nasceram muitos jovens, que, tendo conhecimento da sua origem, marcharam ao encontro dos Citas que regressavam da Média. Começaram por dividir o país em duas partes, cavando um largo fosso que ia dos montes Táuricos ao Palos-Meótis, abrangendo vasta extensão. Foram, em seguida, acampar diante dos Citas que procuravam penetrar no país, aos quais ofereceram combate. Houve entre eles várias escaramuças, sem que os Citas pudessem conseguir a menor vantagem. "Companheiros, que estamos fazendo? - gritou um dos Citas no meio da peleja - se esses homens matam um dos nossos, diminuímos de número; se matamos um deles, diminuímos o número de nossos escravos. Abandonemos os arcos e dardos e marchemos contra eles armados do chicote com que fustigamos nossos cavalos. Enquanto nos virem de armas na mão considerar-se-ão nossos iguais; mas se em lugar de armas nos virem de chicote, lembrar-se-ão de que são nossos escravos, e apercebendo-se da sua baixa origem, não mais ousarão resistir-nos".

    IV - A sugestão foi aceita por todos. Os escravos, atemorizados, puseram-se logo em fuga, sem mais pensar em combater. Assim regressaram os Citas à pátria, depois de haverem dominado a Ásia e terem sido dali expulsos pelos Medos. Foi para vingar-se dessa invasão, que Dario levou contra eles poderoso exército.

    V - Os Citas consideram a sua pátria a mais nova de todas as nações, e explicam a sua origem da maneira que vou relatar.

    A Cítia era outrora um país deserto. O primeiro homem que ali nasceu chamava-se Targitaus, que os Citas pretendem ser filho de Júpiter e de uma filha de Boristénis, o que não me parece crível. Targitaus, dizem eles, teve três filhos: Lipoxais, Arpoxais e Colaxais, o mais jovem. No seu reinado, caiu do céu, na Cítia, uma charrua, uma canga, um machado e um pires de ouro. O primogênito de Targitaus foi o primeiro a vê-los, e deles se aproximou com o desejo de apanhá-los; mas o ouro se inflamou. Tendo Lipoxais se retirado, veio então o segundo irmão, e o ouro tornou a inflamar-se. Compareceu finalmente o irmão mais novo, e como o ouro não mais se inflamasse, apoderou-se dos objetos e levou-os para sua casa. Diante desse fato, os dois irmãos mais velhos resignaram a seus direitos ao trono em favor de Colaxais.

    VI - Aqueles, entre os Citas, conhecidos pela designação de Aucates, são, ao que dizem, descendentes de Lipoxais; os chamados Catiares e Tráspios, de Arpoxais; e os Paralates, de Colaxais. Dá-se a todos esses povos a designação geral de Escolotes, do nome de um dos seus governantes, mas aprouve aos Gregos dar-lhes o nome de Citas.

    VII - Assim relatam os Citas a origem de sua nação. Acrescentam que desde Targitaus, seu primeiro rei, até a época em que Dario passou pelo seu país, não decorreram, ao todo, mais de mil anos. Quanto ao ouro sagrado, os reis o guardam com o maior carinho e veneração. Transportam-no todos os anos para seus respectivos estados e lhe oferecem grandes sacrifícios, a fim de que ele lhes seja propício. Se o que se acha encarregado da guarda desse ouro adormece no dia da festa ao ar livre, morre nesse ano, segundo afirmam os Citas. Para compensá-lo de tal desgraça dão-lhe toda a extensão de terra que puder percorrer a cavalo num só dia. Sendo a superfície do país dos Citas muito extensa, Colaxais dividiu-o em três reinos, entregando-os aos seus três filhos. O ouro caído do céu era guardado no maior desses reinos. Quanto às regiões situadas ao norte, além das últimas terras povoadas, dizem os Citas não serem elas nem visíveis nem abordáveis, por causa das plumas que ali caem continuamente. O ar está sempre cheio e a terra coberta dessas plumas, motivo por que a visão ali não penetra.

    VIII - É isso o que dizem os Citas com relação a si próprios e ao seu país. Todavia, os Gregos que habitam o litoral do Ponto Euxino dizem que Hércules, conduzindo as boiadas de Gérion chegou ao país hoje ocupado pelos Citas e então deserto. Gérion morava além do Ponto Euxino, numa ilha denominada Erítia pelos Gregos e situada perto de Gades, no oceano, adiante das colunas de Hércules. Acreditam esses Gregos que o oceano começa a leste e envolve a terra com as suas águas; mas nenhuma prova apresentam em apoio a tal crença.

    Chegando ao país hoje conhecido por Cítia, Hércules, continuam eles, surpreendido pelo Inverno e sentindo os rigores do frio, estendeu sua pele de leão, nela se enrolou e adormeceu. Enquanto dormia, as mulas que ele havia desatrelado do carro para fazê-las pastar desapareceram misteriosamente.

    IX - Ao despertar, Hércules pôs-se a procurá-las por toda parte, e assim chegou ao cantão chamado Hiléia, onde encontrou, numa caverna, um monstro híbrido - mulher da cabeça até abaixo da cintura, e serpente no resto do corpo - a que davam o nome de Equidna. Embora tomado de espanto ante aquela criatura singular, perguntou-lhe se não vira passar por ali os seus animais. "Tenho-os em meu poder, - respondeu ela - mas não tos devolverei enquanto não estiveres comigo". Hércules cedeu, por tal preço, aos seus desejos, mas, passado o momento, a estranha começou a protelar a entrega dos animais, para retê-lo por mais tempo junto a si. Hércules, por seu lado, desejava apenas recuperar seus animais e partir imediatamente. Finalmente, ela entregou-lhos, fazendo-lhe, porém, esta declaração: "Teus animais vieram ter aqui; eu os guardei e recebi a recompensa. Concebi três filhos teus. Que devo fazer deles quando crescerem? Queres que os deixe aqui neste recanto da terra onde sou soberana, ou preferes que eu os envie para a tua companhia?" "Quando as crianças atingirem a idade viril, - respondeu Hércules, segundo afirmam os Gregos - faze o que te vou dizer, e terás agido com prudência e acerto. Aquele que vires dobrar este arco como eu e cingir-se com este talabarte, como faço, retém junto a ti; mas o que não puder executar nem uma coisa nem outra, envia-o para longe daqui. Se assim procederes não te arrependerás, e ter-me-ás obedecido".

    X - Dizendo essas palavras, Hércules tirou um dos seus arcos - pois tinha consigo dois - e deu-o à mulher. Mostrando-lhe também o talabarte, de onde pendia uma pequena taça de ouro, entregou-lho igualmente, afastando-se em seguida.

    Quando os filhos que concebera de Hércules atingiram a idade viril, Equidna deu ao primeiro o nome de Agatirso; ao segundo, o de Génolo, e ao mais jovem, o de Cíntio. Lembrou-se, então, das ordens de Hércules e cumpriu-as. Os dois mais velhos, não tendo forças para dobrar o arco, foram banidos do lugar, indo estabelecer-se em outro país. Cíntio, o mais moço, fez o que o pai havia determinado e permaneceu na sua pátria. É, pois, de Cíntio, filho de Hércules, que descendem todos os reis dos Citas, e até hoje esse povo traz presa ao talabarte uma taça como reminiscência da que Hércules trazia pendente do seu, por ocasião da sua aventura naquele país. É assim que os Gregos habitantes do litoral do Ponto Euxino relatam esse fato.

    XI - Há ainda sobre o mesmo assunto outra versão, que de muito boa vontade passo a relatar. Os Citas nômades habitantes da Ásia, batidos pelos Masságetas, com os quais entraram em guerra, atravessaram o Araxo e foram ter à Ciméria - pois o país hoje ocupado pelos Citas pertenceu outrora, ao que dizem, aos Cimérios. Estes, vendo-os invadir suas terras, discutiram a medida a tomar ante tão grave contingência. As opiniões se dividiram em extremos opostos, sendo as dos reis aceitas como as melhores. O povo achava que deviam retirar-se para não se exporem aos azares de um combate contra tão numeroso grupo de invasores, opinando os reis que se desse batalha aos que vinham atacá-los. O povo não queria ceder ante o parecer dos reis, nem estes ante o dos seus súditos. Estes últimos preferiam a desonra à eventualidade de se verem massacrados; aqueles achavam preferível morrer na pátria do que fugir com a população. Por um lado, consideravam as vantagens que haviam desfrutado até ali; por outro lado, previam os males que lhes adviriam fatalmente se abandonassem a pátria.

    Como ambos os lados se mantivessem irredutíveis em suas opiniões, a discórdia agravou-se entre eles. Sendo os partidários de uns e de outros equivalentes em número, não tardaram a decidir a questão pela força. Os que pereceram nessa ocasião foram enterrados, pelos partidários do povo, perto do rio Tiras, onde ainda hoje vemos suas sepulturas. Esses sobreviventes da contenda, depois de haverem prestado essa última homenagem aos mortos, abandonaram o país, e os Citas, encontrando-o deserto, dele se apoderaram.

    XII - Encontramos ainda hoje na Cítia a cidade de Cimério e a de Portmias Cimérios. Existe também ali uma região denominada Ciméria e um estreito chamado Cimeriano. Parece certo que os Cimérios, fugindo dos Citas, se retiraram para a Ásia, estabelecendo-se numa pequena ilha onde hoje se encontra a cidade grega de Sínope. Não parece menos certo que se tenham extraviado ao persegui-los, penetrando na Média. Os Cimérios, na sua fuga, iam contornando o litoral; os Citas, ao contrário, seguiam sempre mantendo o Cáucaso à sua direita, até que, perdendo a orientação, foram ter ao coração da Média.

    XIII - Esta outra versão nos vem igualmente dos Gregos e dos bárbaros; mas Aristeu de Preconésia, filho de Caistróbio, escreve em seu poema épico que, inspirado por Febo, foi até o país dos Issédons, ao sul do qual se encontram os Arimaspes, povo de um só olho; que mais além ficam os Grifãos, que guardam o ouro, e mais longe ainda vivem os Hiperbóreos, cujas terras se estendem para o mar; que todos esses povos, com exceção dos Hiperbóreos, vivem continuamente em guerra com seus vizinhos, a começar pelos Arimaspes; que os Issédons foram expulsos do seu país de origem pelos Arimaspes; os Citas, pelos Issédons, e os Cimérios - habitantes do litoral banhado pelo mar do sul - pelos Citas. Assim, Aristeu não concorda nem mesmo com os Citas no que se refere a essa região.

    XIV - Já vimos de que país era o poeta Aristeu; mas não posso deixar de relatar o que ouvi a seu respeito em Preconésia e em Cizico.

    Aristeu pertencia a uma das melhores famílias do seu país. Diz-se ter ele morrido em Preconésia, na loja de um pisoeiro, onde entrara por acaso. O pisoeiro, fechando o seu estabelecimento, foi imediatamente avisar a família do morto. A notícia espalhou-se logo por toda a cidade; mas um habitante de Cizico, vindo de Artacéia, assegurou ter encontrado Aristeu a caminho de Cizico e falado com ele. Enquanto o forasteiro fazia essas afirmações, a família de Aristeu dirigia-se à loja do pisoeiro, com todo o necessário para o enterro; mas quando abriram o estabelecimento não o encontraram, nem morto nem vivo. Conta-se ainda que, sete anos depois, ele reapareceu em Preconésia, onde compôs o poema épico que os Gregos denominam Arimáspios, desaparecendo logo depois pela segunda vez. É essa a lenda que corre nas cidades de Preconésia e Cizico.

    XV - Vejamos agora o que aconteceu aos Metapontinos, na Itália, trezentos e quarenta anos depois de Aristeu haver desaparecido pela segunda vez. Contam os Metapontinos que o poeta, ali surgindo, ordenou-lhes que erguessem um altar a Apolo, e erigissem, perto desse altar, uma estátua a que dariam o nome de Aristeu de Preconésia, dizendo-lhes serem eles os únicos, entre os Italiotas, a receber a visita de Apolo. Contam ainda que o próprio Aristeu acompanhava o deus sob a forma de um corvo, e que depois de haver dado essa ordem desapareceu mais uma vez. Acrescentam os Metapontinos que, tendo mandado perguntar ao deus, em Delfos, o significado daquela aparição, a pitonisa concitara-os a cumprir as determinações do poeta, não tendo eles outro caminho senão obedecer. Vê-se ainda hoje, na praça pública de Metaponto, perto da estátua de Apolo, outra estátua com o nome de Aristeu, estando ambas cercadas de louros.

    XVI - Nada se sabe de positivo sobre o que existe além do país de que falámos. Não encontrei ninguém que lá houvesse estado. Aristeu, de quem fizemos menção, não esteve adiante da terra dos Issédons, como ele diz no seu poema épico. Confessa ele ter sabido dos Issédons o que contava dos países mais afastados. De qualquer maneira, levamos nossas investigações até onde era possível, e vamos dizer o que soubemos de exato pelas fontes a que recorremos.

    XVII - Depois do porto dos Boristênidas, que se acha bem no centro do litoral da Cítia, os primeiros povos que encontramos são os Calípides, de origem greco-cita. Um pouco acima ficam os Alazões. Estes e os Calípides seguem os mesmos costumes dos Citas. Cultivam o trigo e comem cebola, alho, lentilhas e favas. Ao norte do território ocupado pelos Alazões vivem os Citas lavradores, que semeiam o trigo, não para se utilizarem dele como alimento, mas para vendê-lo. Acima do país dos Citas encontram-se os Neuros. Pelo que pudemos saber, a parte setentrional do país dos Neuros não é habitada. Todas essas nações estão situadas ao longo do rio Hípanis, a oeste do território dos Boristênidas.

    XVIII - Transpondo-se esse rio, encontra-se primeiramente a Hiléia, na direção do litoral. Acima ficam os Citas agricultores. Os Gregos que vivem às margens do Hípanis chamam-nos Boristênidas, mas denominam a si próprios Olbiopólitos. O país desses Citas agricultores, que fica a três dias de viagem do lado do levante, estende-se até o rio Pantícapes. Atravessando-se essa região chega-se a vastos desertos, além dos quais vivem os Andrófagos, que nada têm de comum com os Citas. Ao norte do território por eles habitado existem apenas desertos - pelo menos não se sabe da existência de nenhum povo ali.

    XIX - A leste da região ocupada pelos Citas agricultores e para lá do Pantícapes vivem os Citas nômades, que não lavram a terra. Toda a região, com exceção da Hiléia, é desprovida de árvores. Os Citas nômades ocupam, a leste, uma extensão correspondente a quatorze dias de jornada até o rio Gerro.

    XX - Além do rio Gerro fica o país dos Citas reais, os mais bravos e mais numerosos entre todos os de sua raça, e considerando os demais como seus escravos. Estendem-se para o sul até a Táurida, e para leste até o fosso cavado pelos filhos dos escravos cegos, e Cremnes, cidade comercial sobre o Palos-Meótis. Uma das partes dessa nação estende-se até o Tánais. Ao norte do território dos Citas reais encontram-se os Melanclenes, que não pertencem à mesma raça. Mais acima, ao que soubemos, não existem mais do que pântanos e terras desabitadas.

    XXI - O território situado adiante do Tánais não pertence à Cítia, mas aos Saurómatas, cujas terras podemos atravessar em quinze dias de marcha, durante os quais não vemos nem árvores frutíferas, nem selvagens. A segunda região ao norte dessa nação é habitada pelos Budinos e possui, em abundância, toda espécie de árvores. Ao norte dessa região há um vasto deserto, cuja travessia pode ser feita em sete dias de marcha.

    XXII - Atravessando-se esse deserto, para leste, entra-se no território dos Tisságetas, povo indígena e numeroso, que vive exclusivamente da caça. Suas terras confinam com a dos Iircos, também caçadores e que procedem da seguinte maneira para apanhar a presa: Como há bosques por toda parte, sobem nas árvores para pesquisar o mato e localizar a caça. Levam, cada um, seu cavalo, que fazem deitar com o ventre em terra, a fim de parecer menor. Acompanham-nos, também, cães para farejar e perseguir a caça. Logo que o caçador, do alto da árvore, percebe a presa e tem-na ao seu alcance, procura atingi-la com uma flechada; depois, monta a cavalo e persegue-a, auxiliado pelo cão, apresando-a por fim.

    Para além dos Iircos, avançando para leste, encontramos os Citas, que, tendo sacudido o jugo dos Citas reais, vieram estabelecer-se nessa região.

    XXIII - Toda a extensa zona de que acabo de falar, até o país dos Citas, é plana e muito fértil; mas, para diante, o terreno é estéril e pedregoso. Depois de se ter percorrido grande parte dele entra-se em contato com povos que vivem ao sopé de grandes montanhas e que, segundo contam, são calvos de nascença, tanto os homens como as mulheres, tendo o nariz achatado e o mento alongado. Possuem idioma próprio, mas vestem-se à maneira dos Citas. Alimentam-se do fruto de uma árvore denominada "pontica", que atinge o tamanho de uma figueira e cujo fruto tem um caroço mais ou menos da grossura de uma fava. Quando o fruto está maduro, colhem-no e espremem-no num pedaço de tecido, extraindo um licor negro e espesso, a que dão o nome de "asqui". Tomam esse licor misturado com leite. O bagaço é transformado numa massa, que também lhes serve de alimento. É diminuta a quantidade de gado que criam por faltarem bons pastos.

    Cada um tem a sua árvore, onde passam o ano inteiro. No Inverno cobrem-na de lã branca, retirando-a à chegada do Verão. Ninguém os molesta, pois são considerados criaturas sagradas. Não possuem arma alguma. Os vizinhos tomam-nos como árbitros em demandas e disputas, e quem se refugia entre eles encontra ali asilo inviolável. Chamam-nos Argipenses.

    XXIV - Tem-se um conhecimento exato de toda a região até as terras ocupadas por esses homens calvos, e de todas as nações que ficam do lado de cá, não sendo difícil obter notícias delas por intermédio dos Citas que vão constantemente até lá; pelos Gregos da cidade comercial situada no Borístenes, e pelos habitantes de outras cidades situadas no Ponto Euxino. Esses povos falam sete línguas diferentes. Assim, os Citas que viajam têm necessidade de sete intérpretes.

    XXV - Embora essa região seja bem conhecida pelas razões que acabamos de expor, nada se pode dizer com segurança sobre as terras ao norte; montanhas elevadas e inacessíveis interditam a passagem. Os Argipenses afirmam, todavia, serem essas terras habitadas pelos Egípodes, ou homens de pés de cabra, o que, entretanto, não me parece digno de crédito. Acrescentam também que, se avançarmos mais para diante encontraremos outros povos que dormem seis meses do ano, no que também não creio muito. Sabe-se ser o território a leste do país dos Argipenses ocupado pelos Issédons; mas o que fica para baixo não é conhecido nem dos Argipenses nem dos Issédons, que não sabem dele senão o que me contaram.

    XXVI - Eis alguns dos costumes observados pelos Issédons, de acordo com o que me contaram: Quando um deles perde o pai, os parentes levam-lhe gado, que abatem e cortam em pedaços, fazendo o mesmo com o cadáver, e misturando todas as carnes realizam um festim. Arrancam os cabelos da cabeça do morto e, depois de haverem limpado o crânio, douram-no, servindo-se dele como de um vaso precioso nos sacrifícios solenes que oferecem todos os anos. Os filhos cumprem esses deveres para com os pais, da mesma maneira que os Gregos celebram o aniversário da morte dos genitores. Os Issédons têm grande amor à justiça, e, entre eles, a mulher tem tanta autoridade quanto o homem.

    XXVII - É isso o que se conhece sobre esses povos. Quanto à região que fica mais acima, sabe-se, pelo testemunho dos Issédons, ser habitada por homens de um só olho, e pelos Grifãos, que guardam o ouro. Os Citas colheram essas informações com os Issédons, e nós com os Citas. Nós os chamamos Arimaspes em língua cita. Nessa língua arima significa um e spu olho.

    XXVIII - Em toda a região de que acabo de falar, o Inverno é tão rude, e o frio tão intenso pelo espaço de oito meses, que espalhando-se água pela terra não se faz lama, senão quando se acende fogo. O próprio mar gela, assim como o Bósforo Cimeriano; e os Citas da Quersonésia passam com seus exércitos sobre o gelo, conduzindo carroças, para irem ao país dos Sindas. O Inverno mantém-se intenso durante oito meses, sendo que os outros quatro últimos meses também são frios. O Inverno nessas paragens é, aliás, muito diverso do dos outros países. Chove tão pouco durante a estação, que se pode dizer ser ela de completa seca; e no Verão não cessa de chover. Não troveja na época em que costuma trovejar em outros lugares; mas as trovoadas são muito freqüentes no Verão; e se as ouvem no Inverno, encaram o fato como algo fenomenal. O mesmo se dá com os tremores de terra. Quando verificados na Cítia, no Verão ou no Inverno, passam por verdadeiros fenômenos. Os cavalos, na referida região, suportam bem o frio; mas as mulas e os jumentos com ele se ressentem, embora o contrário se dê em outros lugares: os cavalos a ele expostos definham, e as mulas e os jumentos nada sofrem.

    XXIX - Penso que é o rigor do frio que impede os bois de terem ali chifres. Homero mostra-se de acordo comigo quando, na "Odisséia", fala nestes termos: "E a Líbia, onde os cornos vêm prontamente aos cordeiros"; o que é exato, pois nos países quentes os cornos crescem cedo nos animais, e onde o frio é violento, nem chegam a nascer, e se nascem, não crescem muito.

    XXX - Nessa região, é o frio a causa disso; mas, observando de passagem, como gosto de fazer e como venho fazendo desde o início desta história, espantou-me saber que em toda a Élida é raro encontrar-se mulas, embora o clima ali não seja frio e não se possa alegar nenhuma causa sensível. Os Eletos dizem ser a conseqüência de alguma maldição. Quando se aproxima a época do cio, os Eletos levam as éguas para os países vizinhos, trazendo-as de volta quanto estão pejadas.

    XXXI - Quanto às plumas de que os Citas dizem estar o ar cheio a ponto de perturbar a visão e não permitir a permanência de ninguém ali, eis a minha opinião a respeito: Neva sempre nas regiões situadas ao norte da Cítia, mas, evidentemente, menos no Verão do que no Inverno. Quem tenha visto a neve cair em grossos flocos compreende perfeitamente o que quero dizer. Essa se assemelha, na realidade, a plumas. Penso, pois, que essa parte do continente é inabitável devido ao frio excessivo, e que, quando os Citas e seus vizinhos falam de plumas, referem-se ao que a neve sugere.

    XXXII - Nem os Citas, nem qualquer outro povo dessas regiões falam dos Hiperbóreos a não ser os Issédons os quais, a meu ver, também nada dizem. Pois do contrário os Citas (que por informações deles nos falaram sobre os Arimaspes) dir-nos-iam também qualquer coisa. Entretanto, Hesíodo a eles alude, o mesmo fazendo Homero nos Epígonos{50} - a acreditar-se seja ele o verdadeiro autor desse poema.

    XXXIII - Os Délios falam mais detalhadamente sobre o referido povo. Contam que as oferendas dos Hiperbóreos lhes vinham envoltas em palha de trigo. Passando pelas mãos dos Citas e transmitidas de povo a povo, essas oferendas alcançavam terras distantes, chegando até o Adriático, a ocidente, de onde eram enviadas para o sul. Os Dodoneus eram os primeiros Gregos a recebê-las. Dali desciam até o golfo Malíaco, de onde passavam para a Eubéia, e, seguindo de uma cidade para outra, iam ter a Cariste. Dali, sem tocar em Andros, os Caristeus levavam-nas para Tenos, de onde os Teneus as transportavam para Delos. A dar crédito aos Délios, era assim que essas oferendas chegavam à sua ilha. Acrescentam eles que, nos primeiros tempos, os Hiperbóreos enviavam as oferendas por intermédio de duas virgens - Hiperoquéia e Laodicéia; que, para segurança dessas jovens, os Hiperbóreos faziam-nas acompanhar por cinco cidadãos, a que atualmente se rendem grandes homenagens em Delos sob o nome de Pérferos; mas que, os Hiperbóreos, não os vendo regressar e ante a desagradável possibilidade de virem a perder muitos outros de seus delegados nessa missão, resolveram, depois de certo tempo, levar as oferendas até as fronteiras, envoltas em palha de trigo, de onde eram enviadas aos vizinhos mais próximos, a quem solicitavam remetê-las a outra nação. Dessa maneira, as oferendas iam passando, segundo os Délios, de país a país, até chegarem ao seu ponto de destino.

    Notei, entre as mulheres da Trácia e da Peônia, um curioso costume com relação às coisas sagradas. Elas jamais sacrificam a Diana real sem fazerem uso da palha de trigo. Eis como, segundo dizem, elas procedem:

    XXXIV - Os jovens délios de ambos os sexos cortam o cabelo em honra das virgens hiperbóreas que morreram em Delos. As moças cumprem esse dever antes do casamento. Tomando de um cacho dos cabelos, enrolam-no num fuso e colocam-no no túmulo das virgens, no recinto consagrado a Diana, à esquerda de quem entra, à sombra de uma oliveira. Os jovens délios encrespam os cabelos com o auxílio de gravetos e colocam-nos no mesmo local.

    XXXV - Os Délios dizem também que, no mesmo século em que os referidos delegados vieram a Delos cumprindo a missão que lhes fora confiada, duas outras virgens hiperbóreas, uma das quais se chamava Argéia e a outra Ópis, já ali tinham estado, muito antes de Hiperoquéia e Laodicéia. Traziam elas oferendas que haviam prometido para terem partos fáceis, e ali chegaram em companhia dos próprios deuses. Por isso os Délios lhes rendem grandes homenagens e suas mulheres lhes celebram os nomes num hino que Ólen de Lícia compôs em seu louvor. Os Délios dizem ainda que aprenderam com os insulares e os Iônios a celebrar nos hinos Ópis e Argéia e a fazer óbolos em intenção delas. Foi esse Ólen que, vindo da Lícia para Delos, compôs os antigos hinos cantados na ilha. Os Délios acrescentam que, depois de queimar no altar as coxas das vítimas, espalham as cinzas sobre o túmulo de Ópis e Argéia. Esse túmulo fica atrás do templo de Diana, a leste, perto do refeitório dos Cenos.

    XXXVI - Acho que já disse o bastante sobre os Hiperbóreos, e, por conseguinte, passarei em silêncio sobre o que se conta de Abáris, que era, ao que dizem, hiperbóreo, e que, sem comer, viajou por toda a terra levado por uma flecha. De resto, se há Hiperbóreos deve haver também Hipernoteus. De minha parte, não posso deixar de rir quando vejo os que descreveram a circunferência da terra pretenderem, sem atender à razão, ser a terra redonda, envolvida pelo oceano por todos os lados, e a Ásia igual à Europa. Tentarei mostrar as proporções de cada uma dessas partes do mundo e descrever sua configuração.

    XXXVII - O país ocupado pelos Persas se estende até o mar Austral, também chamado mar da Eritréia. Acima, ao norte, habitam os Medos; mais acima os Sápiros, e para além dos Sápiros, os Colquidianos, junto ao mar do Norte, próximo à desembocadura do Faso. Essas quatro nações se estendem de um mar a outro.

    XXXVIII - Dali, seguindo na direção do ocidente encontramos duas penínsulas opostas, que avançam mar a dentro. Uma delas começa, do lado do norte, no Faso, estendendo-se ao longo do Ponto Euxino e do Helesponto, até o promontório de Sigéia, na Tróada. Do lado do sul, essa mesma península começa no golfo Meriândrico, adjacente à Fenícia, estendendo-se ao longo do mar até o promontório Triópio. Essa península é habitada por trinta nações diferentes.

    XXXIX - A outra península começa no país dos Persas e estende-se até o mar da Eritréia{51}. Compreende a Pérsia, a Assíria e a Arábia, e termina, segundo se diz, no golfo Arábico, onde Dario fez chegar um canal partindo do Nilo. Da Pérsia à Fenícia encontram-se grandes vastidões de terras. Da Fenícia em diante a península estende-se ao longo do referido mar, pela Síria da Palestina e Egito, onde termina. Compreende apenas três nações.

    XL - Os países a leste, além dos territórios dos Persas, dos Medos, dos Sápiros e dos Colquidianos, são limitados, desse lado, pelo mar da Eritréia, e ao norte, pelo mar Cáspio e pelo Araxo, que segue na direção do nascente. A Ásia é habitada até a Índia. Daí em diante, seguindo para leste, encontramos imensos desertos desconhecidos, sobre os quais nada podemos dizer com segurança.

    XLI - A Líbia vem logo depois do Egito e faz parte da segunda península, apresentando-se bastante estreita nos seus limites com aquele país. Com efeito, do litoral, ao norte, até o mar da Eritréia não há mais que cem mil braças, ou sejam mil estádios. Todavia, desse ponto em diante vai-se alargando, e toma então o nome de Líbia.

    XLII - Os que descreveram a Líbia, a Ásia e a Europa e lhes determinaram os limites, mostraram-se entendidos no assunto, indicando-lhes as justas proporções. Realmente, a Europa quase iguala em comprimento as outras duas; mas não me parece que lhes possa ser comparada em largura. A Líbia mostra ser envolvida pelo mar, exceto do lado em que confina com a Ásia. Necao, rei do Egito, foi o primeiro, ao que sabemos, a provar isso. Quando renunciou à idéia de abrir o canal que deveria conduzir as águas do Nilo ao golfo Arábico, escolheu experimentados navegadores fenícios e, embarcando-os em seus navios, deu-lhes instruções para que, na volta da viagem que iam fazer, passassem pelas colunas de Hércules, no mar setentrional, regressando dessa maneira ao Egito. Os Fenícios, embarcando no mar da Eritréia, navegaram pelo mar Austral. No Outono, desembarcaram na Líbia, no ponto onde se achavam, e semearam o trigo. Chegada a época da messe, colheram o trigo e fizeram-se novamente ao mar. Depois de dois anos de navegação dobraram as colunas de Hércules e regressaram ao Egito. Contaram, ao chegar, que navegando em torno da Líbia tinham o sol à sua direita, o que não me parece crível{52}, embora a muitos possa parecer. Foi assim, pois, que a Líbia tornou-se conhecida pela primeira vez.

    XLIII - Contam os Cartagineses que, algum tempo antes dessa aventura, Sataspes, filho de Teáspis, da raça dos Aquemênidas, recebera ordem de fazer a circunavegação da Líbia, não conseguindo, porém, levar a bom termo o empreendimento. Desanimado pela extensão do percurso e aterrorizado com os desertos encontrados pela costa, regressou pelo mesmo itinerário, sem haver completado a tarefa imposta pela mãe.

    Sataspes havia violado uma jovem, filha de Zópiro, que era, por sua vez, filho de Megabizo. Estando em vias de ser crucificado por esse crime, por ordem de Xerxes, sua mãe, irmã de Dario, implorou o perdão para ele, prometendo puni-lo de maneira ainda mais rigorosa do que a pena imposta, isto é, forçando-o a realizar a circunavegação da Líbia até o golfo Arábico. Xerxes concedeu o indulto com essa condição. Sataspes dirigiu-se ao Egito, obteve um navio e marinheiros do país, e embarcando, rumou para as colunas de Hércules. Atravessando-as, dobrou o promontório Soloeis e velejou para o sul; mas, depois de haver consumido vários meses na travessia de vasta extensão oceânica, vendo que ainda lhe restava um percurso maior a vencer, tratou de regressar, ganhando o Egito novamente, de onde se dirigiu para a corte de Xerxes. Ali chegando, contou ter visto, à beira dos mares longínquos que percorrera, homenzinhos vestidos com folhas de palmeira, que abandonaram suas aldeias para se refugiarem nas montanhas logo que perceberam o navio; e que desembarcando nessas aldeias nenhum mal haviam feito, contentando-se em lançar mão do gado que teve ao seu alcance. Acrescentou que não completara a circunavegação da Líbia porque seu navio não pudera avançar mais. Xerxes, persuadido de não estar ele dizendo a verdade, manteve sua sentença por não haver ele realizado até o fim a prova imposta, mandando crucificá-lo. Um eunuco de Sataspes, logo que soube da morte do amo refugiou-se em Samos com grandes riquezas, das quais se apoderou um habitante dessa ilha. Não ignoro o seu nome, mas não desejo revelá-lo.

    XLIV - A maior parte da Ásia foi descoberta por Dario. Esse soberano, querendo saber em que ponto do mar desembocava o Indo, depois do Nilo o único rio onde se encontram crocodilos, equipou alguns navios, tendo por tripulantes homens adestrados, entre os quais figuravam Cílax e Cariando. Embarcando em Caspatiro, esses homens desceram o rio, a leste, até o mar, de onde navegaram para ocidente, chegando finalmente, depois de trinta meses de viagem, ao mesmo porto em que os Fenícios a que me referi há pouco tinham embarcado para fazer a circunavegação da Líbia. Terminado o périplo, Dario subjugou os Indianos e passou a servir-se do mar que banhava o país. Foi assim que se comprovou que a Ásia, excetuando a parte oriental, se assemelha em tudo à Líbia.

    XLV - Quanto à Europa, não me parece que alguém haja, até aqui, descoberto ser ela cercada de mar a leste e ao norte. Sabe-se, todavia, em que extensão ela se liga às outras duas partes da terra{53}. Não compreendo por que, sendo a terra uma só, lhe dão três nomes diferentes, e, aliás, nomes de mulheres, e por que se dá à Ásia, por limites, o Nilo, rio do Egito, e o Fásis, rio da Cólquida; ou, segundo outros, o Tánais, o Palos-Meótis e o estreito Cimeriano. Não consegui saber os nomes dos que assim dividiram a terra, nem onde foram buscar esses nomes que lhe atribuíram. A maioria dos Gregos diz que o nome Líbia provém de uma mulher originária do país, e o da Ásia, da mulher de Prometeu; mas os Lídios reivindicam para si a aplicação deste último nome, sustentando vir ele de Ásias, filho de Cótis e neto de Manes, de onde os Asíadas, tribo de Sardes, tiraram também o seu nome.

    Quanto à Europa, ninguém sabe, como já disse, se ela é cercada de mar. Também não me parece que se saiba de onde lhe veio esse nome, nem quem lho aplicou pela primeira vez. A não ser que o tenham tirado do de Europa de Tiro; pois outrora, da mesma maneira que as outras partes do mundo, ela não possuía nome. É certo que Europa era asiática, nunca veio a essa imensa extensão de terra a que os Gregos hoje denominam Europa. Esteve somente na Fenícia, de onde passou para Creta e dali para Lícia.

    XLVI - O Ponto Euxino, que Dario atacou, é, de todas as regiões da terra, a que possui povos mais ignorantes, com exceção dos Citas. Entre os que vivem para cá do Ponto Euxino não podemos, na verdade, citar um único que tenha dado provas de prudência e habilidade, ou mesmo fornecido um homem que se tenha distinguido pelos seus conhecimentos, excetuando os Citas, como povo, e Anacársis, como homem. Os Citas são, de todos os povos que conhecemos, os que encontraram meios mais seguros para viver e manter as vantagens que alcançaram sobre seus vizinhos, embora nada apresentem digno de admiração. Suas vantagens consistem em não deixarem escapar os que vêm atacá-los e em não se agruparem quando isso não lhes convém, pois não possuem nem cidades nem fortalezas. Transportam, para onde vão, suas respectivas habitações, e são exímios no manejo do arco quando a cavalo. Não vivem do cultivo da terra, mas do gado. Pode-se dizer que, em geral, não possuem moradias outras que não suas próprias carroças. Vê-se, pois, que um povo que adota tal modo de vida não pode ser facilmente subjugado, sendo até mesmo difícil abordá-los.

    XLVII - Esse gênero de vida que adotam decorre, principalmente, do fato de ser a Cítia um país favorecido pela natureza, possuindo grande número de rios que lhe servem de defesas naturais contra qualquer agressão. O país é plano, abundante de pastagens e bem regado, sendo quase tão cortado de rios quanto o Egito de canais. Entre os seus rios mais importantes e facilmente navegáveis figuram o Íster, rio de cinco embocaduras; o Tiras, o Hípanis, o Borístenes, o Pantícapes, o Hipacíris, o Gerro e o Tánais, cujos cursos tentarei descrever.

    XLVIII - O Íster, o maior de todos os rios que conhecemos, é sempre o mesmo, no Verão ou no Inverno. Vamos encontrá-lo primeiramente na Cítia, a oeste dos outros, e durante o seu curso recebe as águas de vários outros rios e riachos, razão por que se torna o maior de todos eles. Cinco grandes rios figuram entre os que contribuem para aumentar-lhe o caudal. Esses rios, que atravessam a Cítia, são: o Porata, que os Gregos denominam Piretos, o Tiarante, o Arárus, o Náparis e o Ordessos. O primeiro tem um volume d’água considerável e corre para leste, indo confundir-se com o Íster. O segundo, isto é, o Tiarante, é menor e corre mais a ocidente. Os três últimos - o Arárus, o Náparis e o Ordessos - correm entre os dois outros e lançam-se também no Íster.

    XLIX - O Máris vem do país dos Agatirsos e deságua no Íster. Do alto do monte Hemo saem três outros grandes rios: o Atlas, o Auras e o Tibísis, que se dirigem para o norte e se perdem no mesmo rio. Da Trácia correm outros três, que vêm lançar-se no Íster: o Átris, o Noes e o Ártanes. O Cios vem da Peônia e do monte Ródope; divide pelo meio no monte Hemo e deságua no mesmo rio. O Ãngrus corre da Ilíria para o norte, atravessa a planície Tribálica e desemboca no Brôngus, que, por sua vez, deságua no Íster; de sorte que o Íster recebe, ao mesmo tempo, as águas de dois grandes rios. O Cárpis e o Ápis saem do país acima dos Úmbrios, correndo para o norte e perdendo-se no mesmo rio. Não devemos, de resto, nos espantar ante o fato de o Íster receber tantos rios, porquanto ele atravessa toda a Europa. Nasce no país dos Celtas (a última nação da Europa a oeste, se excetuarmos os Cinetas), e depois de haver atravessado a Europa inteira penetra na Cítia por um dos seus pontos extremos.

    L - A reunião de todos os rios de que acabo de falar e de muitos outros torna o Íster a maior das correntes d’água conhecidas; mas se o compararmos, ele somente, com o Nilo, o rio egípcio terá a primazia, porquanto não possui afluentes para avolumá-lo{54}. A razão de ser o Íster, como já disse, sempre o mesmo, quer no Verão, quer no Inverno, parece ser a seguinte: No Inverno ele não se torna mais volumoso porque, nessa estação, chove muito pouco nos países que atravessa, mantendo-se a terra ali coberta de neve. A neve, que cai em abundância durante o Inverno, dissolve-se no Verão e corre para o Íster. Essa neve dissolvida e as grandes chuvas desta última estação contribuem para engrossá-lo. Assim, se no Verão o sol produz maior evaporação do que no Inverno, as águas que confluem para o rio nessa época são também mais abundantes do que no Inverno. Desse fato resulta uma compensação, graças à qual o rio mantém sempre o mesmo volume.

    LI - O Íster é, como já dissemos, o primeiro dos rios que banham a Cítia. Encontramos, em seguida, o Tiras, que corre do norte, de um grande lago que separa a Cítia da Nêurida. Os Gregos denominados Tíritas habitam as imediações da sua embocadura.

    LII - O Hípanis é o terceiro desses rios. Vem da Cítia, de um grande lago em cujas margens pastam cavalos brancos e ao qual deram o nome de Mãe de Hípanis. É um rio pequeno, cuja água é doce até certo trecho, tornando-se salobra quando atinge a quatro dias de distância do mar. Esse amargor provém de uma fonte cujas águas correm para o rio e são tão amargas que, embora seja pequena sua quantidade em comparação com as que se misturam, bastam para lhes dar tão pronunciado sabor. A fonte está situada nas fronteiras do país dos Citas lavradores e dos Alazões, e tem o mesmo nome do lugar onde se encontra: Exampéia, em linguagem cita, e que em grego significa: via sagrada. O Tiras e o Hípanis aproximarn-se um do outro no país dos Alazões, mas logo se afastam, deixando entre si um grande espaço.

    LIII - O Borístenes é o quarto rio e o maior da Cítia depois do Íster. É também, a meu ver, o mais fecundo de todos os rios, não só da Cítia, mas de todo o mundo, se excetuarmos o Nilo, com o qual não há um só que se possa comparar. O Borístenes fornece ao gado boas e abundantes pastagens, e nele se pesca toda espécie de peixes. A água é agradável de beber, mantendo-se clara e límpida, embora os rios vizinhos sejam limosos. Fazem-se, nas margens, excelentes colheitas, e nos lugares não cultivados a erva cresce em abundância. O sal cristaliza-se na embocadura, em grande quantidade. O rio produz grandes peixes sem espinhas denominados "antacés", que os habitantes salgam antes de comer.

    Até o país chamado Gerro há uma distância equivalente a quarenta dias de navegação, e sabe-se que o rio Borístenes vem do norte; mas não se conhece nem a região que ele atravessa mais acima, nem os povos que a habitam. Há, porém, indícios de que ele corre através de um país deserto para atingir as terras dos Citas agricultores. Este povo vive em suas margens, numa extensão correspondente a dez dias de viagem. Esse rio e o Nilo são os únicos dos quais não posso indicar as nascentes, e não creio que algum grego esteja mais informado sobre isso. Quando o Borístenes está prestes a lançar-se no mar, o Hípanis vem unir-se a ele, confluindo no mesmo pantanal. A faixa de terra que fica entre esses dois rios chama-se promontório de Hipolaus. Ali ergueram um templo a Ceres. Adiante desse templo, às margens do Hípanis, vivem os Boristênidas.

    LIV - O Pantícapes é o quinto rio que encontramos na Cítia. Vem também do norte, tendo suas nascentes num lago. Entra na Hiléia, e depois de atravessá-la mistura suas águas com as do Borístenes. Os Citas agricultores ocupam a região compreendida entre esses dois rios.

    LV - O sexto rio é o Hipacíris. Sai igualmente de um lago e corre pelo meio das terras dos Citas nômades, lançando-se no mar, perto da cidade de Carnicítis, circundando, à direita, o país da Hiléia e o que se denomina Rota de Aquiles.

    LVI - O Gerro é o sétimo desses rios. Ao deixar o país que lhe deu esse nome, afasta-se do Borístenes, correndo em direção ao mar, mas lançando-se no Hipacíris, separando, no seu curso, os Citas nômades dos Citas reais.

    LVII - Temos, por último, o Tánais, que vem de um país longínquo, tendo suas nascentes num grande lago, do qual sai para lançar-se num outro maior ainda: o Meótis, que separa os Citas reais dos Saurómatas. Entre os seus afluentes encontra-se o Hirges.

    LVIII - São esses os principais rios que banham a Cítia. A relva desse país é a melhor para o gado e a mais suculenta que conhecemos, como se pode verificar abrindo-se a barriga dos animais que dela se alimentam. Os Citas têm, assim, em abundância, as coisas mais necessárias à existência.

    LIX - Quanto aos seus costumes, eis aqui alguns por eles cuidadosamente observados: procuram manter-se sob a proteção de Vesta, em primeiro lugar, de Júpiter e da Terra, que acreditam ser mulher de Júpiter. Depois dessas três divindades, que reputam as maiores, cultuam Apolo, Vênus-Urânia, Hércules e Marte. Todos os Citas reconhecem e veneram essas divindades; mas os Citas reais sacrificam também a Netuno. Na língua dos Citas, Vênus chama-se Tabítis; Júpiter, Papéus, nome que, a meu ver, lhe é bem adequado; a Terra, Ápis; Apolo, Etósiros; Vênus-Urânia, Artimpasa, e Netuno, Tamimasadas. Erguem estátuas, altares e templos a Marte, e somente a este.

    LX - Os Citas sacrificam em todos os lugares sagrados, procedendo da seguinte maneira: a vítima fica de pé, com os pés dianteiros amarrados. O que deve sacrificá-la coloca-se atrás dela e puxa a corda que lhe prende os pés, fazendo-a tombar, enquanto invoca o deus ao qual vai imolá-la. Em seguida, amarra uma corda em torno do pescoço do animal, apertando-a com auxílio de um bastão até estrangulá-lo. Não se acende fogo e nem fazem libações. Estrangulada a vítima, o oficiante esfola-a, esquarteja-a e prepara-se para cozinhá-la.

    LXI - Como não há lenha na Cítia, procedem da seguinte maneira para cozinhar a vítima: depois de esquartejá-la, retiram toda a carne que envolve os ossos e colocam-na em caldeiras, se as possuem. Essas caldeiras se assemelham muito às crateras de Lesbos, com a diferença de serem bem maiores. Debaixo delas acendem o fogo com os ossos da vítima. Se, porém, não possuem caldeiras, colocam toda a carne, com água, no ventre do animal, e queimam os ossos por baixo{55}. Os ossos fornecem um bom lume, e o ventre mantém muito bem a carne. Assim, os animais sacrificados servem para cozinhar a si próprios. Quando tudo está cozido, o sacrificador faz o oferecimento dos primeiros bocados de carne e de vísceras atirando-os para a frente. Os Citas sacrificam várias espécies de animais, principalmente cavalos.

    LXII - Com relação a Marte, os Citas observam o seguinte culto: num campo destinado às assembléias da nação erguem-lhe uma espécie de templo, que é preparado desta maneira: amontoam feixes de gravetos, formando com eles uma pilha de três estádios de comprimento e outros tantos de largura, mas de menor altura. Sobre essa pilha constroem uma espécie de plataforma quadrada, com três lados inacessíveis, e o quarto inclinado de maneira a poder-se por ele subir. Ali são amontoados todos os anos cento e cinqüenta carros de pequenos pedaços de madeira, para manter na mesma altura a pilha que tende a baixar sob a ação das intempéries. No alto, cada nação cita planta uma velha cimitarra de ferro, como símbolo de Marte{56}, à qual fazem, todos os anos, sacrifícios, imolando-lhe cavalos e outros animais, em número maior do que aos outros deuses. Sacrificam-lhe também a centésima parte de todos os prisioneiros feitos entre os inimigos, mas a cerimônia é diferente da que procedem com relação aos animais. Fazem primeiramente libações com vinho sobre a cabeça da vítima humana, degolam-na, em seguida, sobre um vaso, e levam-no para o alto da pilha, despejando o sangue sobre a cimitarra. Enquanto o sangue é conduzido para cima, os que se acham embaixo cortam o braço direito, juntamente com o ombro, dos que já foram sacrificados, e atiram-nos para o ar. Terminado o sacrifício, todos se retiram, deixando os braços das vítimas onde foram lançados, enquanto que os corpos ficam estendidos em outro lugar.

    LXIII - É assim que esses povos sacrificam animais e criaturas humanas às divindades de sua predileção. Nunca, porém, imolam porcos e nem deles se alimentam.

    LXIV - Quanto aos costumes que observam na guerra, vale mencionar os seguintes: o guerreiro cita bebe o sangue do primeiro homem que consegue abater, corta a cabeça a todos os que mata em combate e leva-as ao seu soberano. Quando apresenta a este a cabeça de um inimigo, pode compartilhar dos despojos da luta; em caso contrário, lhe é negado esse direito. Para esfolar a cabeça do inimigo abatido, o Cita faz primeiramente uma incisão em torno da mesma, na direção das orelhas, e, segurando-a pelo alto, puxa a pele, arrancando-a. Em seguida, limpa a pele tirando-lhe toda a carne, depois do que fricciona-a nas mãos para amaciá-la. Tendo-a assim preparado, dela se serve como guardanapo e amarra-a no bridão do cavalo. Isso constitui um título de honra. O Cita que possui tais guardanapos é considerado valente e destemido, e quanto maior o número desses troféus, maior é a consideração de que goza entre os seus. Muitos cosem os fragmentos de pele humana, como as capas dos pastores, e fazem delas vestuários. Outros também esfolam até as unhas a mão direita do inimigo, fazendo da pele bainha para as aljavas. A pele humana é, realmente, espessa e brilhante, e de todas a mais notável pela brancura. Outros há, ainda, que esfolam homens inteiros, e depois de espichar a pele em pedaços de madeira, colocam-na sobre seus cavalos.

    LXV - As cabeças, não de todos os inimigos, mas dos mais famosos, são tratadas da seguinte maneira: serram o crânio acima das sobrancelhas e limpam-no. Os pobres contentam-se em revesti-lo de um pedaço de couro, sem ornato algum; os ricos não só o recobrem com pele de boi, como o douram por dentro, dele servindo-se, à semelhança de uma taça, para beber. Fazem o mesmo com a cabeça dos parentes próximos se, depois de alguma disputa com eles, levam a melhor. A decisão da contenda tem de ser feita perante o rei. Se um estrangeiro de categoria visita o país apresentam-lhe esses crânios, relatando-lhe como venceram aqueles a que eles pertenceram, ainda que se trate de parentes, constituindo isso motivo de vaidade e classificando tal procedimento como ações de mérito.

    LXVI - Cada governador cita dá anualmente um festim em seu distrito ou província, no qual é servido vinho misturado com água, numa cratera. Todos os que se podem vangloriar de haverem matado inimigos em combate bebem desse vinho; os que nada fizeram de semelhante estão privados desse direito, e permanecem à parte, em situação sumamente humilhante. Os responsáveis pela morte de grande número de inimigos bebem em duas taças ao mesmo tempo.

    LXVII - Os adivinhos pululam entre os Citas, e servem-se de varinhas de salgueiro para exercer seu mister. Trazem sempre consigo feixes dessas varinhas, e quando são chamados a predizer o futuro, depositam-nos em terra, desamarram-nos e vão separando as varinhas, uma a uma. Enquanto fazem a predição vão retomando as varinhas, também uma a uma, e enfeixando-as novamente. Aprenderam com seus antepassados essa forma de predição. Os Enareus, homens efeminados, dizem ter recebido de Vênus esse dom. Servem-se, para exercer a arte, da casca da tília: cortam-na em três pedaços, que enrolam nos dedos e depois desenrolam, predizendo, em seguida, o futuro.

    LXVIII - Se o rei dos Citas cai doente, manda buscar três dos mais famosos adivinhos que praticam a arte da maneira que acabo de expor. Convidados a explicar, servindo-se dos seus dons, a razão do mal e o meio de combatê-lo, eles geralmente declaram que a razão está em haver tal ou qual indivíduo, cujo nome declinam, feito um juramento falso, invocando os Lares do palácio. Os Citas, com efeito, juram com freqüência pelos Lares do palácio real quando querem fazer um protesto solene. Apontado o acusado, é este levado preso pelos braços à presença do rei. Os adivinhos, então, dizem-lhe que pela sua arte divinatória estão certos de haver ele jurado em falso pelos Lares do palácio, tornando-se, assim, a causa da enfermidade do soberano. Se o acusado nega o crime e mostra-se indignado com a imputação, o soberano chama outros tantos adivinhos, e se estes convencem do perjúrio pelas mesmas regras divinatórias, manda cortar incontinênti a cabeça do acusado, confiscando-lhe os bens em proveito dos adivinhos. Se os adivinhos chamados em segundo lugar declaram inocente a pessoa indigitada, o soberano faz vir outros, depois mais outros, e se o réu for inocentado pela maioria, a sentença que o absolve traz a condenação à morte dos primeiros adivinhos.

    LXIX - Vejamos como é executada a sentença imposta a esses adivinhos: os executores enchem de pedacinhos de madeira uma carroça puxada por bois e sobre eles colocam os adivinhos, com as mãos amarradas atrás das costas, amordaçados e com os pés amarrados. Em seguida, ateiam fogo à madeira e espantam os bois. Muitos desses animais morrem com os adivinhos; outros se salvam, embora chamuscados. É assim que os Citas procedem nas sentenças de morte contra os adivinhos que não tiveram seu parecer aprovado no julgamento de casos dessa e de outra natureza, sendo, por conseguinte, considerados falsos adivinhos.

    LXX - O rei da Cítia manda matar os filhos dos condenados à morte, poupando, porém, as filhas. Quando os Citas estabelecem um pacto, eis como procedem: despejam vinho numa grande taça de barro, e os contratantes, fazendo pequenas incisões no corpo com uma faca ou espada, vertem ali um pouco do seu próprio sangue, depois do que mergulham na taça uma cimitarra, flechas, um machado e um dardo. Terminada a cerimônia, fazem longas preces e bebem parte do conteúdo da taça, e depois deles, as pessoas presentes de mais alta categoria, uma a uma{57}.

    LXXI - Os túmulos dos reis citas acham-se no país de Gerro, no ponto em que o Borístenes começa a tornar-se navegável. Quando morre um soberano cita, abrem ali um grande fosso quadrado para receber o cadáver. O corpo do falecido é untado com cera, e o ventre, depois de aberto e limpo, enchem-no de pedra esmigalhada, de essências e de sementes de aipo e de anis, recosendo-o em seguida. Feito isso conduzem o corpo num carro para outra província, onde os habitantes, à maneira dos Citas reais, cortam uma parte da orelha, raspam o cabelo em torno da cabeça, fazem incisões nos braços, fendem a fronte e o nariz e passam flechas através da mão esquerda. Dali, o corpo é levado, ainda de carro, para outra província, acompanhado pelos habitantes daquela por onde passou em primeiro lugar. O soberano percorre assim, depois de morto, todas as nações submetidas ao seu domínio, até chegar ao país dos Gerroneus, na parte extrema da Cítia, onde o colocam na sepultura já preparada, sobre um leito de verdura. Lanças à guisa de estacas são fincadas em torno do corpo, sobre as quais são colocadas peças de madeira coberta com galhos de salgueiro. No espaço vazio deixado no fosso acomodam os corpos estrangulados de uma das concubinas do rei, de um escudeiro, de um cozinheiro, de um pajem, de um dos ministros reais, de um dos servidores, de cavalos, enfim, as premissas de todas as riquezas do soberano, inclusive taças de ouro - os Citas não conhecem nem a prata nem o cobre. Isso feito, enchem de terra o fosso e erguem, trabalhando por turnos, um cômoro elevado sobre a sepultura.

    LXXII - Um ano depois da morte do soberano, escolhem entre o restante dos seus servidores os que lhe eram mais úteis.

    Esses servidores, diga-se de passagem, são todos de nacionalidade cita, pois o rei da Cítia não tem escravos comprados a dinheiro, fazendo-se servir pelos súditos designados para essa função. Estrangulam uns cinqüenta desses servidores e um número equivalente dos seus mais belos cavalos{58}, retiram-lhes as entranhas, limpam-lhes o ventre, e depois de o encherem de palha, cosem-no. Adaptando a duas peças de madeira a metade de uma roda apoiada em terra, e fazendo o mesmo com outras peças, depositam sobre esses semicírculos os cavalos, depois de lhes passarem estacas por toda a extensão do corpo até o pescoço. Os primeiros semicírculos sustentam os ombros dos animais, e os segundos, os flancos e as ancas, de modo que as pernas, sem apoio, ficam suspensas. Adaptam-lhes, em seguida, uma espécie de rédea, que amarram a uma estaca, e tomando dos cinqüenta jovens estrangulados, colocam cada um deles sobre um cavalo, depois de lhes atravessarem a espinha com uma vara, cuja extremidade inferior se encaixa na estaca que passa através do corpo do animal. Chegando ao local onde repousam os restos mortais do soberano, dispõem os cinqüenta cavaleiros em torno do túmulo, retirando-se em seguida.

    LXXIII - Tais as honras fúnebres que os Citas prestam aos seus soberanos. Quanto ao comum dos Citas, quando morre, seus parentes mais próximos colocam-no em uma carroça e conduzem-no às casas dos que foram seus amigos em vida. Estes recebem-no, oferecendo, cada qual, um festim aos que acompanham o morto, servindo também a este as iguarias que servem aos vivos. O corpo é assim conduzido de um lado para outro durante quarenta dias, após o que o enterram. Quando os Citas dão sepultura a um morto, purificam-se da seguinte maneira: depois de haverem lavado e enxugado a cabeça, observam, com relação ao resto do corpo, as praxes seguintes: dobram três varas, uma de frente para a outra, e sobre elas estendem panos de lã, no meio dos quais colocam um vaso, em que depositam pedras aquecidas ao rubro.

    LXXIV - Na Cítia cresce o cânhamo, que se assemelha muito ao linho, sendo, porém, mais espesso e maior, sendo nisto superior a este último. Essa planta se origina de si própria e da semente que produz. Os Trácios fazem com ela vestimentas, que se confundem com as de linho, sendo necessário conhecer bem uma e outra para distingui-las.

    LXXV - Os Citas tomam das sementes do cânhamo e lançam-nas sobre as pedras aquecidas ao fogo. Quando começam a queimar, desprendem grande quantidade de vapor, não havendo na Grécia estufa que o faça de tal forma. Os Citas expõem-se a esses vapores e, sentindo-se atordoados, soltam gritos e fazem imensa algazarra. Esse vapor lhes serve de banho, pois nunca se banham. Quanto às mulheres, trituram sobre uma pedra galhos de cipreste, de cedro ou da árvore do incenso, e esfregam-nos no rosto e no corpo. A espécie de pasta que assim obtêm lhes dá um cheiro agradável, e no dia seguinte, ao removê-la, sentem-se limpas e frescas.

    LXXVI - Os Citas manifestam absoluta indiferença pelos costumes estrangeiros. Não adotam os de nenhum povo, sendo maior ainda sua aversão pelos dos Gregos. Anacársis, e depois dele Cílis, exemplificam bem tal ojeriza. Anacársis, tendo percorrido diversos países e mostrado por toda parte grande sabedoria, embarcou no Helesponto para retornar à pátria. Aportando em Cizico, na ocasião em que os habitantes estavam celebrando, com grandes solenidades, a festa da mãe dos deuses, fez promessa de, se voltasse são e salvo à pátria, oferecer à deusa sacrifícios com o mesmo rito e cerimonial que havia presenciado em Cizico, e instituir, em louvor à mesma, a vigília da festa. Ao chegar à Hiléia, região da Cítia, inteiramente coberta de árvores de toda espécie e situada nas proximidades da Passagem de Aquiles, celebrou a festa em honra à deusa, com pequenas imagens ligadas ao corpo e tendo nas mãos um tamboril. Um cita, vendo-o naquelas condições, foi logo denunciá-lo ao rei Sáulio. O soberano foi, ele próprio, certificar-se do fato, e encontrando Anacársis ainda entregue à celebração da festa, matou-o com uma flechada. Ainda hoje, se falarmos de Anacársis aos Citas, eles fingem não conhecê-lo, somente por ter ele viajado pela Grécia e adotado costumes estrangeiros. Ouvi Timneu, tutor de Ariapito, dizer que Anacársis era tio de Idantirso, rei dos Citas, por parte de pai, e filho de Gniro, neto de Lico e bisneto de Espargapito. Se, pois, Anacársis pertencia a essa estirpe, deduz-se ter sido ele morto pelo próprio irmão. Idantirso era, com efeito, filho de Sáulio, responsável pela morte de Anacársis.

    LXXVII - Entretanto, os habitantes do Peloponeso se referem ao fato de outra maneira. Dizem que Anacársis, tendo sido enviado pelo rei dos Citas a países estrangeiros, tornou-se discípulo dos Gregos; e de volta à pátria, disse ao soberano que todos os povos se aplicavam às artes, exceto os Lacedemônios, mas que só estes cultivavam a arte de falar e de responder com moderação e prudência. Considero esta história pura invenção dos Gregos. Anacársis foi realmente morto da maneira a que nos referimos, e teve esse triste fim por haver praticado costumes estrangeiros e mantido relações com os Gregos.

    LXXVIII - Muitos anos depois, Cílis, filho de Ariapito, rei dos Citas, teve a mesma sorte. Ariapito possuía vários filhos, mas tivera Cílis de uma mulher estrangeira, da cidade de Ístria, que lhe ensinou a língua e as letras gregas. Algum tempo depois, foi ele morto à traição por Espargapito, rei dos Agatirsos. Cílis, subindo ao trono, desposou Ópia, de nacionalidade cita, viúva de seu pai e da qual o falecido rei tivera um filho de nome Órico.

    Embora Cílis se tornasse rei dos Citas, os costumes da Cítia não lhe agradavam absolutamente, inclinando-se ele para os dos Gregos, tanto mais que havia sido educado no meio destes desde tenra idade. Por isso, todas as vezes que conduzia o exército cita à cidade dos Boristênidas, cujos habitantes se diziam originários de Mileto, deixava-o diante da cidade, e logo que nela entrava, mandava fechar as portas. Trocava, então, o traje cita por um grego e, assim vestido, passeava pela praça pública, sem ninguém a acompanhá-lo. Enquanto isso, revezavam-se as sentinelas nas portas, para que nenhum cita o percebesse em tais vestes. Além de outros costumes gregos, que ele adotava nessa ocasião, reproduzia-lhes as cerimônias nos sacrifícios aos deuses. Depois de haver permanecido na cidade um mês ou mais, retornava aos trajes citas e ia reunir-se ao exército. Procedia, freqüentemente, dessa forma. Mandou também construir um palácio em Borístenis e desposou uma filha do país.

    LXXIX - Os fados, tendo decidido a perda de Cílis, eis o que aconteceu: O soberano desejou fazer-se iniciar nos mistérios de Baco. Quando tinha início a cerimônia e iam colocar-lhe nas mãos os objetos sagrados, deu-se um fato verdadeiramente prodigioso. Havia em Borístenis um palácio, que o próprio soberano mandara erigir. Era um vasto e soberbo edifício, em torno do qual viam-se esfinges e grifos de mármore branco. O deus fulminou-o em sua cólera, reduzindo-o a cinzas. Cílis nem por isso interrompeu a cerimônia iniciada. Os Citas reprovam aos Gregos a celebração de bacanais, e julgam contrária à razão a idéia de um deus que leva os homens a tais extravagâncias. Logo que Cílis se iniciou nos mistérios de Baco, um habitante de Borístenis dirigiu-se secretamente ao exército cita, dizendo aos soldados: "Zombais de nós porque, celebrando bacanais, o deus de nós se apodera. Esse deus apossou-se também do vosso rei; Cílis rende culto a Baco, e o deus lhe perturba a razão. Se não acreditais no que digo, segui-me, que eu vo-lo mostrarei". As figuras mais representativas da nação seguiram-no. O delator levou-as secretamente a uma torre, de onde elas viram passar Cílis e seu grupo, celebrando as bacanais. Considerando essa conduta pouco digna e perigosa para a nação, os Citas levaram o fato ao conhecimento de todo o exército.

    LXXX - Quando Cílis voltou para o palácio, seus súditos revoltaram-se e proclamaram em seu lugar Octamasada, seu irmão e filho da filha de Teres. Sabendo da revolta e do motivo que a determinara, o soberano procurou refúgio na Trácia; mas Octamasada, à frente de um exército, foi em sua perseguição. Ao chegar às margens do Íster, os Trácios vieram-lhe ao encontro; e quando estava prestes a travar-se a batalha, Sitalces enviou um arauto a Octamasada, para dizer-lhe: "Por que precisaremos nós ambos expor-nos à sorte das armas? És filho de minha irmã e tens meu irmão em teu poder. Se mo entregares, eu te entregarei Cílis, sem que te exponhas aos riscos de uma batalha". O irmão de Sitalces estava, realmente, refugiado junto a Octamasada.

    O príncipe aceitou a proposta; entregou o tio por parte de mãe a Sitalces e recebeu, em troca, o irmão, Cílis. Realizada a transação, Sitalces retirou-se com suas tropas, enquanto o novo rei dos Citas mandava cortar a cabeça de Cílis, ali mesmo onde se encontravam.

    Tal a intransigência com que agem os Citas na observância de seus próprios costumes e o rigor com que punem os que seguem, nesse terreno, os estrangeiros.

    LXXXI - Quanto à população da Cítia, jamais pude saber ao certo o seu número. Dizem uns que o país é muito povoado; outros que, se considerarmos apenas os verdadeiros Citas, seu número é bastante reduzido. Vejamos, porém, o que me foi dado observar pessoalmente.

    Entre o Borístenes e o Hípanis existe um cantão denominado Exampeu, do qual fiz menção um pouco atrás, ao referir-me a uma fonte cujas águas muito amargas alteram completamente as do rio Hípanis, tornando-as imprestáveis para beber. Há ali um vaso de bronze seis vezes maior que a cratera existente na embocadura do Ponto Euxino, dádiva feita por Pausânias, filho de Cleômbroto. Esse vaso de bronze comporta o volume de seiscentas ânforas e tem seis dedos de espessura. Os habitantes da região dizem ter sido ele fabricado com pontas de flechas. Ariantas, seu soberano, desejando saber o número exato de seus súditos, ordenou a todos os Citas que trouxessem, cada um, uma ponta de flecha, sob pena de morte; e foi da imensa quantidade de pontas de flechas reunida que foi fabricado o vaso de bronze, mandado colocar pelo soberano no lugar chamado Exampeu, como um monumento por ele legado à posteridade.

    LXXXII - Na Cítia nada existe de maravilhoso senão os rios que a banham. Esses rios são de considerável volume e em grande número. Todavia, além dessas soberbas correntes d’água e de suas imensas planícies, a Cítia possui algo curioso e que atrai a atenção daqueles que a visitam. Trata-se da marca do pé de Hércules, num rochedo perto de Tiras. Essa marca assemelha-se à do pé de um homem, medindo, porém, dois côvados de comprimento. Retornemos agora ao assunto de que me propus tratar no começo deste livro.

    LXXXIII - Dario fez grandes preparativos para a guerra contra os Citas; despachou emissários para todos os recantos do país, ordenando, a uns, a organização de um exército de terra; a outros, o equipamento de uma frota; a outros, enfim, a construção de uma ponte sobre o Bósforo da Trácia. Entretanto, Artábano, filho de Histaspes e irmão de Dario, não aprovava a idéia do soberano de atacar a Cítia. Chamou-lhe a atenção para a pobreza daquele povo e para as poucas vantagens que lhe adviriam de uma tal guerra; mas quando viu que suas advertências, embora sensatas, nenhum efeito produziam no espírito de Dario, não insistiu mais. Concluídos os preparativos, o soberano, à frente do seu exército, partiu de Susa.

    LXXXIV - Quando as tropas se punham em marcha, um persa, de nome Ébaso, suplicou a Dario que deixasse ficar consigo um dos seus três filhos que tomavam parte na expedição. O soberano respondeu-lhe que, em vista de um pedido tão moderado e por tratar-se de um amigo, deixar-lhe-ia, não apenas um, mas os três. O persa ficou encantado com a resposta e satisfeitíssimo por terem os seus filhos sido dispensados; mas o soberano mandou matar os jovens, abandonando-os no local onde foram executados.

    LXXXV - Dario dirigiu-se de Susa a Calcedônia, no Bósforo, onde havia sido construída a ponte. Ali embarcou, rumando para as ilhas Ciâneas, que eram outrora errantes, a darmos crédito aos Gregos. Dirigindo-se ao templo, ali sentou-se, pondo-se a tecer considerações em torno do Ponto Euxino. Esse mar é de todos o mais digno de nossa admiração. Mede onze mil e cem estádios de extensão, por três mil e trezentos na sua maior largura. Mede a embocadura desse mar quatro estádios de largura por, mais ou menos, vinte e seis de comprimento. É o estreito de Bósforo. Foi ali que construíram a ponte. O Bósforo estende-se até o Propôntide, que mede quinhentos estádios de largura, por mil e quatrocentos de comprimento, desembocando no Helesponto, que, no seu ponto mais estreito, não mede mais de sete estádios de largura por quatrocentos de comprimento. O Helesponto comunica-se com um vasto mar chamado Egeu.

    LXXXVI - As dimensões desses mares foram obtidas da seguinte maneira: nos dias longos um navio cobre, digamos, cerca de setenta mil braças por dia e sessenta mil por noite. Ora, da confluência do Ponto Euxino ao Fásis, onde apresenta a sua maior extensão, há nove dias e oito noites de navegação, o que perfaz um total de um milhão e cento e dez mil braças, ou sejam onze mil e cem estádios. De Síndica a Temiscira, no Termodonte, onde o Ponto Euxino é mais largo, contam-se três dias e duas noites de navegação, perfazendo trezentas e trinta mil braças ou três mil e trezentos estádios. Foi baseando-me nesses cálculos que obtive as dimensões do Ponto Euxino, do Bósforo e do Helesponto. O Palos-Meótis vai ter ao Ponto Euxino e não é muito maior do que esse mar. Chamam-no mar do Ponto.

    LXXXVII - Depois de haver feito um reconhecimento do Ponto Euxino, Dario retornou por mar à ponte de batéis construída por Mândrocles de Samos. Examinou também o Bósforo, à margem do qual mandou levantar duas colunas de pedra branca, fazendo gravar numa, em caracteres assírios, e na outra, em caracteres gregos, o nome de todas as nações que figuravam na expedição. Ora, no exército que reunira estavam representados todos os povos submetidos ao seu domínio, num total de setecentos mil homens, inclusive a cavalaria, mas sem contar a frota de seiscentos veleiros.

    Depois da expedição dos Persas à Cítia, os Bizantinos transportaram as duas colunas para sua cidade e colocaram-nas no templo de Diana Ortosiana, com exceção de uma pedra por eles deixada junto ao templo de Baco, em Bizâncio, coberta de caracteres assírios. De resto, o ponto do Bósforo onde Dario mandou construir a ponte é, ao que me parece, a metade da distância entre Bizâncio e o templo, situado na confluência do Ponto Euxino.

    LXXXVIII - Satisfeito com a ponte, Dario cumulou Mândrocles de Samos, seu construtor, de ricos presentes. Com o produto de alguns desses presentes Mândrocles mandou fazer um quadro representando a ponte do Bósforo e onde aparecia Dario sentado no trono, vendo desfilar suas tropas. Ofereceu esse quadro ao templo de Juno{59}, com a seguinte inscrição: "Mândrocles consagrou a Juno esta obra em memória da ponte de batéis que construiu para unir as duas margens do Bósforo. Assim, realizando o desejo do rei Dario, adquiriu para si mesmo uma coroa, e para Samos, a glória".

    LXXXIX - Dario, tendo recompensado Mândrocles pelo seu notável trabalho, passou para a Europa. Tinha ordenado aos Iônios que velejassem para o Ponto Euxino, até o Íster, e lançassem uma ponte sobre esse rio quando ali chegassem, aguardando a sua chegada. Os Iônios, os Eólios e os habitantes do Helesponto conduziam as forças navais. A frota dobrou as Ciâneas, rumando diretamente para o Íster; e depois de subir esse rio durante dois dias, do mar até o ponto onde ele se divide em diversos braços formando outras tantas embocaduras, puseram-se os marinheiros a construir a ponte. Dario, atravessando o Bósforo pela ponte de batéis, continuou em direção à Trácia, e ao chegar às nascentes do Tearos ali acampou durante três dias.

    XC - Os povos que habitam as margens desse rio pretendem serem suas águas, umas quentes e outras frias, de grande eficiência contra várias moléstias, curando, principalmente, os homens e os cavalos da sarna. Suas nascentes acham-se no mesmo rochedo, de onde o rio sai em trinta e oito braços, e estão situadas a igual distância da cidade de Hereo, - localizada perto de Perinto e de Apolônia - cidade situada no Ponto Euxino, a dois dias de viagem dessas duas localidades. O Tearos desemboca no Contadesdo, o Contadesdo no Agrianes, o Agrianes no Ebro, e o Ebro no mar, perto da cidade de Enos.

    XCI - Chegando às nascentes do Tearos, Dario, como já dissemos, ali ergueu acampamento. Tão encantado ficou com a beleza e majestade desse rio, que mandou erigir no local uma coluna com esta inscrição: "As nascentes do Tearos fornecem as melhores e as mais belas águas do mundo; Dario, filho de Histaspes, o melhor e o mais belo de todos os homens, rei da Pérsia e de toda a terra firme, marchando contra os Citas, chegou às suas margens".

    XCII - Partindo dali, foi ter às margens de um outro rio chamado Artisco, que atravessa o país dos Odrísios. Indicando às tropas um determinado local, ordenou a cada soldado que lançasse uma pedra ali ao passar. A ordem foi executada, e o exército, deixando no local um grande monte de pedras, continuou a marcha.

    XCIII - Os Getas, que se dizem imortais, foram o primeiro povo a ser subjugado pelo rei persa, antes de haver atingido o Íster, seguindo-se os Trácios de Salmidéssia e os que habitam ao norte de Apolônia e da Mesâmbria, que se renderam sem opor a mínima resistência. Os Getas, por uma estúpida teimosia, colocaram-se na defensiva, mas foram batidos ali mesmo e reduzidos à escravidão. É esse povo o mais bravo e o mais justo entre os Trácios.

    XCIV - Os Getas julgam-se imortais e pensam que os que morrem vão para junto do deus Zálmoxis, que alguns acreditam ser o mesmo que Gebelêizis. De cinco em cinco anos sorteiam um dentre eles para levar notícias ao deus, e dizer-lhe das suas necessidades. Eis como fazem a deputação: três dentre eles são encarregados de manter a respectiva azagaia de ponta para cima, enquanto outros, tomando pelos pés e pelas mãos o que deve ser enviado a Zálmoxis, jogam-no para cima, de maneira a cair sobre as aguçadas pontas. Se ele morre dos ferimentos recebidos, acreditam que o deus lhe foi favorável; se não morre, acusam-no de mau. Depois de lançarem sobre ele as maiores acusações e injúrias, escolhem outro, repetindo o mesmo processo. Esses Trácios têm o costume de lançar flechas contra o céu quando troveja ou relampeja, como para ameaçar o deus que assim se manifesta, pois estão persuadidos de que não existe outro deus senão o que eles adoram.

    XCV - Ouvi, entretanto, os Gregos que habitam o Helesponto dizerem que Zálmoxis era um homem, tendo vivido em Samos como escravo de Pitágoras, filho de Mnesarco. Tendo obtido a liberdade, acumulara grandes riquezas, com as quais voltara ao seu país. Observando a vida infeliz e grosseira dos Trácios, ele, que tinha sido educado segundo os costumes dos Iônios e contraído com os Gregos, e particularmente com Pitágoras, um dos mais célebres filósofos da Grécia, o hábito de pensar mais profundamente do que seus compatriotas, mandou construir um soberbo recinto, onde oferecia festas aos grandes da nação. Em meio ao banquete falava-lhes, persuadindo-os de que nem ele, nem os seus convivas, nem os seus descendentes jamais morreriam, mas que iriam para um lugar onde desfrutariam, eternamente, toda sorte de bens. Enquanto assim procedia perante seus compatriotas, entretendo-os com esses discursos, construía em sigilo um subterrâneo. Concluído este, esquivou-se da vista dos Trácios e desceu ao mesmo, onde permaneceu cerca de três anos. Foi lamentado e chorado como morto. Finalmente, passado esse período reapareceu aos olhos de todos, convencendo-os, com esse artifício, de tudo que lhes havia dito.

    XCVI - Não rejeito nem admito o que se conta de Zálmoxis e do esconderijo subterrâneo, mas penso ter ele vivido muito antes de Pitágoras. Em todo caso, trate-se de um homem ou de um deus, eis o que concerne a Zálmoxis. Quanto aos Getas que o cultuavam da maneira a que me referi, subjugados pelos guerreiros persas, acompanharam a expedição.

    XCVII - Chegando às margens do Íster com suas forças de terra, Dario fê-las passar para o outro lado do rio, ordenando aos Iônios que destruíssem a ponte e os acompanhassem com todos os componentes da frota. Quando os Iônios se preparavam para executar essas ordens, Coes, filho de Erxandro, que comandava os Mitilenos, pedindo permissão a Dario para externar seu modo de ver, falou-lhe nestes termos: "Senhor, já que ides levar a guerra a um país onde não há nem terras cultivadas nem cidades, deixai permanecer a ponte tal como se encontra; ordenai apenas aos que a construíram, que aqui fiquem montando guarda. Dessa forma, quer encontremos os Citas e os vençamos, como é nossa esperança, quer não consigamos encontrá-los, poderemos retirar-nos com segurança. Não é que eu receie sejamos batidos pelos Citas, mas por temer que, não podendo encontrá-los, fiquemos expostos a perigos errando pelos desertos. Dir-se-á, talvez, que falo por mim, com o desejo de ficar aqui; mas, senhor, satisfeito por vos ter proposto este alvitre, declaro-me disposto a acompanhar-vos, e a graça que vos peço é a de não me deixardes aqui".

    Dario, encantado com essas palavras, respondeu-lhe: "Filho de Lesbos, quando eu estiver de regresso, são e salvo, aos meus Estados, depois desta expedição, apresenta-te a mim, a fim de que eu te recompense dignamente pelo bom conselho que acabas de dar-me".

    XCVIII - Assim falando, o soberano fez sessenta nós numa correia{60}, mandou chamar os tiranos da Iônia e fez-lhes este discurso: "Iônios, mudei de opinião no que se refere à ponte. Tomai esta correia e atentai bem para o que vou dizer: logo que eu partir para a Cítia, começai a desfazer, cada dia, um destes nós. Se eu não estiver de regresso quando já houverdes desatado todos, podeis voltar para a vossa pátria. Quanto à ponte, não será destruída, e espero que tudo façais para defendê-la e conservá-la durante o período estabelecido. Prestar-me-eis, com isso, um grande serviço". Dito isso, Dario pôs-se em marcha com o exército.

    XCIX - A Trácia tem à sua frente a parte da Cítia que se estende para o mar. No ponto em que termina o golfo da Trácia começa a Cítia. O Íster atravessa uma certa extensão do país, para lançar-se no mar, a sudeste.

    A antiga Cítia está situada ao sul, prolongando-se até a cidade de Carcinítis. A região para além da cidade, na direção do mar, é montanhosa, sendo ocupada pela nação táurica, que se estende até a cidade do Quersoneso-Traquéia, à beira-mar, a leste. Os confins da Cítia limitam-se com a Ática em dois pontos; um pelo mar que fica ao sul, e o outro pelo que fica a leste. Os Tauriscos estão, com relação a essa parte da Cítia, na mesma posição em que estaria com relação aos Atenienses um outro povo que habitasse o extremo do promontório Súnio, que se estende do burgo de Tórico ao de Anaflisto, avançando mar a dentro. Tal a situação da Táuride; mas para melhor informar os que nunca costearam aquela parte da Ática vou explicar isso de outra maneira: basta que se suponha que uma outra nação, sem ser a dos lapígios, esteja situada no promontório de Lapígia, a começar do porto de Brentésio, dividindo esse promontório em duas partes, dali até Tarento. De resto, falando desses dois promontórios é como se eu falasse de vários outros aos quais a Táuride se assemelha.

    C - Além da Táuride vivem os Citas que ocupam a região ao norte daquele país e a que se estende para o mar que fica a leste, bem como para as costas ocidentais do Bósforo Cimério e do Palos-Meótis, até o Tánais, rio que desemboca numa enseada do Palos. Seguindo depois o Íster e remontando pelo meio das terras, a Cítia aparece limitada primeiramente pelo país dos Agatirsos, em seguida pelo dos Nêuridas, depois pelo dos Andrófagos, e, finalmente, pelo dos Melanclenos.

    CI - A Cítia, tendo a forma tetragonal, dois dos seus lados estendendo-se ao longo do mar, o espaço que ocupa no meio das terras é perfeitamente igual ao que fica ao longo da costa. Com efeito, do Íster ao Borístenes há uma distância equivalente a dez dias de viagem; do Borístenes ao Palos-Meótis, a mesma distância; e do mar, subindo pelo meio das terras até o país dos Melanclenos, ao norte da Cítia, a distância equivale a vinte dias de marcha. Calculando-se em duzentos estádios a distância vencida num dia de jornada, tem-se que a Cítia mede quatro mil estádios de través, ao longo da costa, e outros quatro mil numa reta pelo meio das terras.

    CII - Considerando que não poderiam, com as forças de que dispunham, vencer em batalha campal um exército tão numeroso como o de Dario, os Citas enviaram embaixadores aos seus vizinhos, solicitando-lhes auxílio. Os reis dessas nações reuniram-se para deliberar sobre as medidas a tomar contra o exército que vinha invadir a Cítia. Eram os seguintes esses soberanos: o dos Tauriscos, o dos Agatirsos, o dos Nêuridas, o dos Andrófagos, o dos Melanclenos, o dos Gelões, o dos Budinos e o dos Saurómatas.

    CIII - Os Tauriscos têm costumes bem peculiares. Entre eles vale citar a imolação, à virgem, dos estrangeiros que vão ter às costas do seu país e de todos os Gregos que ali chegam e que lhes caem nas mãos. Depois das cerimônias preliminares habituais, deitam a vítima por terra com uma pancada na cabeça. Há quem diga que eles degolam-na em seguida, pregando a cabeça numa cruz e precipitando o corpo do alto do rochedo onde se ergue o templo. Outros concordam com essa versão no que se refere à cabeça, mas asseguram que eles enterram o corpo da vítima, em vez de lançá-lo do alto do rochedo. Os próprios Tauriscos afirmam que a deusa a quem dedicam esse sacrifício é Efigênia, filha de Agamémnon. Quanto à maneira de tratar os inimigos, se um Taurisco aprisiona um adversário em combate, corta-lhe a cabeça e leva-a para casa. Coloca-a, depois, na ponta de uma vara mais alta do que o teto e mesmo do que a chaminé. Erguem dessa forma a cabeça do prisioneiro, para que - dizem eles - lhes guarde a casa.

    CIV - Os Agatirsos trazem quase sempre ornamentos de ouro e são os mais efeminados de todos os homens. Servem-se em comum das mulheres, a fim de ficarem todos sempre unidos por laços de consangüinidade, e para que, formando todos, por assim dizer, uma só família, não fiquem sujeitos nem ao ódio, nem ao ciúme. Quanto aos seus outros costumes, estão muito de conformidade com os dos Trácios.

    CV - Os Nêuridas observam os mesmos costumes que os Citas. A geração anterior à expedição de Dario foi forçada a deixar o país por causa de uma multidão de serpentes que ali surgiu, vinda, em grande parte, dos desertos situados ao norte. A região ficou de tal maneira infestada de tais répteis, que os habitantes se expatriaram, indo para o país dos Budinos. Dizem que os Nêuridas dão-se à prática da feitiçaria. A dar crédito aos Citas e aos Gregos estabelecidos na Cítia, cada Nêurida se transforma, uma vez por ano e durante alguns dias, em lobo, voltando depois à forma humana. Por mais que os Citas o afirmem, não posso crer em tal coisa, que, a meu ver, não passa de fantasia, embora eles cheguem mesmo a jurar sobre a sua veracidade.

    CVI - Não há homens que possuam hábitos mais selvagens do que os Andrófagos. Não conhecem nem a lei, nem a justiça, e são nômades. Seus costumes assemelham-se muito aos dos Citas, mas falam um idioma próprio. De todos os povos de que acabo de falar são os únicos a comerem carne humana.

    CVII - Os Melanclenos se trajam de preto, de onde o nome que possuem. Seguem os costumes dos Citas.

    CVIII - Os Budinos formam uma grande e numerosa nação. Têm os olhos extraordinariamente azuis e a pele vermelha. Há no país uma cidade toda construída de madeira; chamam-na Gelono. Suas muralhas são também de madeira e muito altas, medindo cada face três estádios de comprimento. As casas e os templos são igualmente de madeira. Entre os templos, contam-se alguns consagrados aos deuses gregos. São construídos à maneira dos Gregos e ornados de estátuas, altares e capelas de madeira. De três em três anos celebram-se ali festas em louvor a Baco.

    Também os Gelos são gregos de origem. Expulsos das cidades de comércio, estabeleceram-se no país dos Budinos. Seu idioma é uma mistura de grego e de cita.

    CIX - Os Budinos não adotam a mesma maneira de viver e não falam a mesma língua dos Gelos. São autóctones, nômades e os únicos da região a comerem vermes. Os Gelos, ao contrário, cultivam a terra, alimentam-se de trigo, possuem jardins e não se assemelham aos Budinos, nem pela fisionomia, nem pela cor. Os Gregos se equivocam quando chamam os Budinos de Gelos.

    O país inteiro é coberto de árvores de toda espécie, e no cantão onde elas existem em maior número encontram-se um vasto lago e um pântano marginado de caniços. Os habitantes caçam nesse lago lontras, castores e uns animais de focinho quadrado, cuja pele serve para fazer mantas, e os testículos produzem excelente efeito no tratamento das doenças do útero.

    CX - Quanto aos Saurómatas, eis o que se diz sobre eles: Quando os Gregos combateram contra as Amazonas, que os Citas chamam Aiórpatas, nome que os Gregos traduzem para Andróctones (que matam homens), pois aior em cita significa "homem", e pata quer dizer "matar" - quando os Gregos, dizia eu, deram combate às Amazonas, derrotando-as às margens do Termodonte, conta-se que levaram consigo, em três navios, todas as que puderam aprisionar. Ao chegarem em alto mar, as prisioneiras atacaram seus vencedores, reduzindo-os a pedaços. Como, porém, nada entendiam de navegação e não sabiam fazer uso do leme, das velas e dos remos, abandonaram-se ao sabor das vagas, indo ter, finalmente, a Cremnes, no Palos-Meótis. Cremnes faz parte do território dos Citas livres. As Amazonas desembarcaram ali e avançaram pelo meio das terras habitadas. Apoderando-se do primeiro haras que encontraram no caminho, montaram nos cavalos e puseram-se a saquear as terras dos Citas.

    CXI - Os Citas mostraram-se admirados ante aqueles inimigos, cujas vestes lhes eram desconhecidas, bem como a língua que falavam. Ignoravam também a que nação pertenciam, e na sua surpresa não podiam imaginar de onde teriam vindo. Enganados pela uniformidade da estatura e porte dos invasores, supuseram, a princípio, tratar-se de homens, e nessa convicção lhes deram combate; mas descobrindo, pelos mortos que ficaram em seu poder depois da luta, tratar-se de mulheres, resolveram, em conselho reunido especialmente para esse fim, não matar mais nenhuma e, em lugar disso, enviar os mais jovens dentre eles, em número correspondente ao das estranhas guerreiras, com ordens para estabelecer acampamento perto delas e imitá-las em todas as suas ações, fugindo, em vez de aceitar o combate, quando elas os atacassem, e retornando prontamente ao acampamento quando cessassem de persegui-los. Essa resolução dos Citas foi ditada pelo desejo de possuírem filhos de tão belicosas mulheres.

    CXII - Os jovens citas seguiram à risca as instruções recebidas; e as Amazonas, reconhecendo que eles não tinham vindo com a intenção de hostilizá-las, deixaram-nos tranqüilos. Entretanto, os dois acampamentos se iam aproximando cada vez mais, dia a dia. Os jovens citas não tinham, como as Amazonas, senão suas armas e seus cavalos, e viviam, como elas, da caça e da pilhagem.

    CXIII - Percebendo que, perto do meio-dia, as Amazonas se afastavam do acampamento, sozinhas ou de duas em duas, para satisfazerem suas necessidades naturais, os Citas puseram-se a imitá-las. Um deles teve oportunidade de aproximar-se de uma delas, isolada das companheiras, e a jovem, longe de repeli-lo, concedeu-lhe seus favores. Como não podia falar-lhe, pois que não se entendiam nos respectivos idiomas, a jovem disse-lhe por sinais para retornar no dia seguinte ao mesmo lugar, com um de seus companheiros, que ela traria, também, uma companheira. Regressando ao acampamento, o jovem cita relatou sua aventura; e no dia seguinte voltou com um companheiro ao local, onde encontrou a amazona a esperá-lo com uma de suas companheiras.

    CXIV - Informados do que se passava, os outros jovens procuraram aproximar-se das outras Amazonas, e, feita a fusão dos dois acampamentos, cada um tomou por esposa aquela de quem havia recebido favores. Os Citas encontraram maior dificuldade em aprender a língua de suas companheiras, do que estas a deles; mas quando, finalmente, começaram a entender-se verbalmente, os jovens assim lhes falaram: "Temos pais, possuímos bens, levamos outra vida; reunamo-nos ao resto dos Citas e vivamos com eles. Prometemos jamais tomar outra por esposa".

    "Não poderíamos - responderam as Amazonas - viver em boa harmonia com as mulheres do vosso país. Seus costumes são diferentes dos nossos: atiramos com o arco, lançamos o dardo, montamos a cavalo e não aprendemos os misteres próprios do nosso sexo. Vossas mulheres nada disso fazem e não se ocupam senão de trabalhos femininos. Não abandonam suas carretas, não vão à caça e nem se afastam do lar. Por conseguinte, nossa maneira de viver jamais se coadunaria. Se quiserdes que continuemos como vossas esposas; se quiserdes agir com justiça, ide procurar vossos pais, pedi a parte dos bens que vos pertence e voltai para o nosso lado, para vivermos a nossa vida".

    CXV - Aceitando as razões que lhes expunham suas jovens esposas, os Citas fizeram o que elas lhes aconselhavam, e, recolhendo a parte do patrimônio que lhes cabia, vieram a elas juntar-se novamente. "Julgamos não ser conveniente - disseram então as Amazonas - permanecermos aqui por mais tempo, depois de vos havermos privado de vossos pais e saqueado vossas terras. Já que escolhestes manter-vos em nossa companhia, nada nos impede de deixar estes lugares para irmos estabelecer-nos para além do Tánais."

    CXVI - Tendo concordado com a sugestão de suas esposas, os Citas atravessaram o Tánais, e depois de haverem jornadeado três dias para leste e outros tantos para o norte a partir do Palos-Meótis, chegaram ao país que ainda hoje habitam e onde fixaram residência. Daí o fato de as mulheres dos Saurómatas terem conservado seus antigos costumes: montam a cavalo, vão à caça, ora sozinhas, ora com os maridos. Acompanham-nos também na guerra, trajando as mesmas vestes que eles.

    CXVII - Os Saurómatas adotam a língua cita, mas nunca a falaram com pureza, porque as Amazonas não a conheciam senão imperfeitamente. Com relação ao casamento, estabeleceram uma lei segundo a qual uma mulher não poderia contrair matrimônio enquanto não matasse um inimigo. Por isso, muitas delas, não conseguindo cumprir as disposições da lei, morrem de velhice, ainda solteiras.

    CXVIII - Os embaixadores dos Citas, admitidos à assembléia dos soberanos das nações a que recorreram ante a iminência da invasão de seu país pelo exército persa, fizeram-nos conhecedores de que Dario, depois de haver subjugado totalmente os povos do outro continente, se passara para aquele por uma ponte de batéis, construída no ponto mais estreito do Bósforo, e que tendo submetido a Trácia, transpusera o Íster com o propósito de tornar-se senhor da Cítia. "Não será justo, - acrescentaram eles - que, conservando-vos neutros, nos deixeis perecer pelo vosso descaso em tão grave emergência. Marchemos juntos ao encontro do inimigo que está prestes a invadir nossa pátria. Se nos negardes o vosso auxílio e formos batidos pelo inimigo, ver-nos-emos obrigados, ou a deixar nosso país, ou nele permanecer sob as condições impostas pelos invasores. Não penseis que a vossa sorte será melhor do que a nossa e que, satisfeitos por nos terem submetido ao seu domínio, os Persas vos deixem tranqüilos. Sua expedição não visa menos a vós do que a nós. Eis aqui uma prova à qual nada podereis opor: se os Persas não tivessem outra intenção senão a de vingar-se da sujeição que lhes opusemos outrora, ter-se-iam contentado em marchar contra nós, sem atacar outros povos; e com isso fariam ver ao mundo que visavam apenas os Citas. Entretanto, assim que pisaram o continente, foram atacando todos os povos que encontravam em seu caminho, já tendo submetido os Trácios e os Getas, nossos vizinhos".

    CXIX - Depois de ouvirem atentamente as razões dos embaixadores citas, os soberanos entraram a deliberar sobre o caso, dividindo-se as opiniões. Os reis dos Gelos, dos Budinos e dos Saurómatas prontificaram-se a auxiliar os Citas, mas os dos Agatirsos, dos Nêuridas, dos Melanclenos e dos Tauriscos responderam assim à proposta: "Se não tivésseis vós, em primeiro lugar, movido uma guerra injusta contra os Persas, vosso pedido nos pareceria razoável, e de boa vontade vos auxiliaríamos. Invadistes, porém, seu país sem nos participar, mantendo-o sob o vosso jugo enquanto assim aprouve aos deuses. Hoje, quando os deuses impelem os Persas contra vós, nada mais fazem do que pagar-vos na mesma moeda. Quanto a nós, não os ofendemos então, e não seremos hoje os primeiros a agredi-los. Se, entretanto, vierem atacar-nos, saberemos repeli-los. Enquanto tal não se der, permaneceremos tranqüilos, pois, ao que nos parece, os Persas não visam senão os que tomaram a iniciativa de atacá-los".

    CXX - Informados dessa resposta, os Citas decidiram não desafiar abertamente os Persas, nem oferecer-lhes batalha em campo aberto, mas ceder terreno pouco a pouco, retirando-se sempre para diante, obstruindo as fontes que encontrassem no caminho e destruindo as plantações, dividindo-se, com esse propósito, em dois grupos. Decidiram também que os Saurómatas deveriam dirigir-se para os Estados de Escopásis, e que se os Persas se voltassem para esse lado, retirar-se-iam, pouco a pouco, para o Tánais, ao longo do Palos-Meótis, e quando o inimigo se afastasse, começariam, então, a persegui-lo.

    Tal o plano de defesa que essa parte dos Citas reais deveria seguir.

    Quanto às outras duas partes, ficou combinado que a maior, sobre a qual reinava Idantirso, reunir-se-ia à terceira, governada por Taxácis, e as duas, unidas aos Gelos e aos Budinos, ficariam com um dia de avanço sobre os invasores. De acordo com as resoluções tomadas em conselho, deveriam também retirar-se sempre em ordem, sem precipitações, procurando, sobretudo, atrair o inimigo para as terras dos que lhes haviam negado aliança, a fim de forçá-los também à guerra contra os Persas, embora contra a vontade. Deveriam, em seguida, regressar ao seu país, e até mesmo atacar o inimigo se isso lhes parecesse vantajoso.

    CXXI - Tomadas essas deliberações e traçados os planos, os guerreiros citas marcharam ao encontro de Dario, fazendo-se preceder pela elite da cavalaria. Tinham mandado adiante as carroças que serviam de moradia às suas mulheres e filhos, aos quais haviam ordenado avançar sempre para o norte. As carroças eram acompanhadas pelos rebanhos, pois os combatentes só levavam consigo o necessário para sua subsistência.

    CXXII - Enquanto as carroças avançavam para o norte, os batedores citas descobriram os Persas a cerca de três dias de jornada do Íster. Como se achavam à distância de apenas um dia de viagem daquele ponto, acamparam ali e destruíram tudo quanto brotava da terra. Logo que os perceberam, os Persas saíram em sua perseguição, procurando cortar-lhes a retirada, e marchando diretamente contra um dos três grupos de Citas reais, perseguiram-no até o Tánais. Os Citas atravessaram o rio, e os Persas, fazendo o mesmo, continuaram sua perseguição, que só cessou quando, depois de haverem percorrido o país dos Saurómatas, chegaram ao dos Budinos.

    CXXIII - Na sua passagem pela Cítia e pelo país dos Saurómatas, os Persas nenhum dano causaram, porquanto os habitantes haviam destruído de antemão tudo que existia nos campos; mas, penetrando no país dos Budinos e encontrando a cidade de madeira, já inteiramente deserta, pois seus habitantes a haviam abandonado, levando tudo que puderam, atearam fogo às casas, deixando-as em chamas. Continuando a marcha para a frente, nas pegadas do inimigo, foram ter, depois de haverem atravessado as terras dos Budinos, a um deserto totalmente despovoado. Esse deserto tem uma extensão equivalente a sete dias de caminhada de um extremo a outro, e está situado ao norte do país dos Tisságetas, de onde correm quatro grandes rios: o Licos, o Oaro, o Tánais e o Sírgis, que se lançam no Palos-Meótis, depois de haverem banhado as terras dos Meótis.

    CXXIV - Chegando a esse deserto, Dario parou às margens do Oaro, onde acampou com seu exército. Mandou, em seguida, construir oito grandes fortes, distantes sessenta estádios um do outro, cujas ruínas ainda hoje subsistem. Enquanto se ocupava com esses trabalhos, os Citas que ele havia perseguido contornaram o país pelo norte e regressaram à Cítia. Como o inimigo havia desaparecido totalmente, não sendo mais assinalado em parte alguma, Dario, deixando os fortes inacabados, dirigiu-se para oeste, persuadido de que os Citas se haviam constituído numa só nação e se tinham retirado daquele lado. Seguindo em marcha forçada, atingiu rapidamente a Cítia, onde encontrou os dois outros corpos de exército dos Citas. Lançou-se imediatamente em sua perseguição, procurando os fugitivos manterem-se sempre a um dia de distância de seus perseguidores.

    CXXV - Seguindo a tática combinada, os Citas iam atraindo Dario e seu exército para as terras daqueles que lhes tinham negado auxílio. Assim foi que lançaram-se primeiramente em direção ao país dos Melanclenos, pondo-os em sobressalto, com os Persas sempre em sua perseguição. Dali atraíram o inimigo para as terras dos Andrófagos, fazendo-os alvoroçar-se, e em seguida para as dos Nêuridas, deixando-os igualmente sobressaltados. Finalmente, desviaram-se para o território dos Agatirsos; mas estes, vendo seus vizinhos alarmados porem-se em fuga, enviaram aos Citas um arauto, antes que eles penetrassem em seu país, a fim de interditar-lhe a entrada, ameaçando-os de dar-lhes combate, caso insistissem em perturbá-los. Fazendo essa ameaça, os Agatirsos enviaram forças para as fronteiras, prontos a lutar pela integridade de seu território.

    Os Melanclenos, os Andrófagos e os Nêuridas, vendo os Citas se lançarem com os Persas sobre suas terras, tomados de pânico nem sequer pensaram em defendê-las, fugindo para os desertos, em direção ao norte. Quanto aos Citas, ante a ameaça dos Agatirsos desistiram do seu intento de invadir-lhes as terras, e, deixando a Nêurida, retornaram ao seu país, onde os Persas continuaram a persegui-los.

    CXXVI - Observando a tática seguida pelos Citas, que se negavam sempre a dar-lhe combate, Dario enviou um emissário a Idantirso, soberano desse povo, com a seguinte mensagem: "Ó miserável, entre os mais miseráveis dos homens! Por que foges sempre, quando está em tuas mãos oferecer-me combate, se te julgas bastante forte para resistir? Se, ao contrário, achas que não estás em condições de te opor a mim, deixa de fugir à minha frente; entra em acordo com o teu senhor, e traz-lhe terra e água como sinal de submissão".

    CXXVII - "Rei dos Persas, - respondeu Idantirso - não é o medo que me faz fugir diante de ti, como nunca o fez no passado diante de qualquer outro. Se não te dei combate imediatamente, foi porque, como não tememos que te aposses de nossas cidades, pois não as possuímos, e nem que causes danos às nossas terras, já que não são cultivadas, não vemos razão para apressarmos a batalha. Se, entretanto, queres de qualquer maneira forçar-nos a isso, aí tens os túmulos de nossos pais; experimenta pô-los abaixo, e verás se combateremos ou não para defendê-los. A não ser por isso, podes estar certo de que não aceitaremos a luta. Quanto aos meus senhores, não reconheço outros senão Júpiter, um dos meus ancestrais, e Vesta, a rainha dos Citas. Em lugar de terra e de água, enviar-te-ei os presentes que mereces. Se te orgulhas de ser meu senhor, é o caso de chorares por isso"{61}. Tal a resposta do soberano cita, transmitida pelo arauto a Dario.

    CXXVIII - Ante a palavra servidão, os reis citas, irritados, fizeram partir os Citas sobre os quais reinava Escopásis, em companhia dos Sauromatas que serviam com eles, para conferenciar com os Iônios que ficaram encarregados da guarda da ponte do Íster. Quanto aos Citas que permaneceram no país, resolveram não forçar mais os Persas a correr de um lado para outro, mas atacá-los sempre que estivessem entregues ao repasto; e depois de terem precisado esse momento, puseram em prática sua nova tática. Nesses ataques, a cavalaria dos Citas punha sempre em fuga a dos Persas; mas esta, fugindo, retraía-se sobre a infantaria, que nunca deixava de apoiá-la. Assim, quando os Citas faziam recuar a cavalaria inimiga, o temor aos infantes forçava-os logo a retirar-se, não deixando, todavia, de recomeçar seus ataques durante a noite.

    CXXIX - Uma coisa surpreendente favorecia os Persas, ao mesmo tempo que prejudicava os Citas, quando estes atacavam o acampamento inimigo: era o zurrar dos jumentos e o aspecto das mulas. Como já tive ocasião de dizer, não nascem na Cítia nem jumentos nem mulas, e não se vê mesmo um só desses animais no país, sendo a razão disso o frio que ali reina. Daí sentirem-se os cavaleiros citas tomados de pavor ante o zurrar estridente dos jumentos dos Persas. Todas as vezes que carregavam sobre estes, se os cavalos ouviam os jumentos, enristavam as orelhas e recuavam espavoridos, pois não estavam acostumados nem com os gritos nem com o tipo daqueles animais. Todavia, a vantagem que de tal fato advinha para os Persas era mínima.

    CXXX - Os Citas, percebendo que os Persas começavam a inquietar-se por não obterem uma decisão na luta, recorreram a um artifício para fazê-los permanecer na Cítia pelo maior espaço de tempo possível e atormentá-los pela falta de víveres. Deixaram-lhes alguns rebanhos, juntamente com os que os guardavam, e retiraram-se para outro cantão, onde ficaram à espera dos acontecimentos. Os Persas precipitaram-se sobre esses rebanhos e deles se apoderaram.

    CXXXI - Embora tal fato se repetisse várias vezes, Dario acabou por encontrar-se em extrema penúria com relação ao abastecimento de víveres. Sabedores disso, os soberanos citas enviaram-lhe um arauto com presentes, que consistiam num pássaro, um rato, uma rã e cinco flechas. Interrogado sobre o significado daqueles presentes, o emissário respondeu que apenas recebera ordens de trazê-los e regressar em seguida, cabendo a eles, Persas, descobrir-lhes o sentido, se é que tinham sagacidade para tanto.

    CXXXII - Reunindo as tropas e deliberando sobre o assunto, Dario chegou à conclusão que os Citas lhe haviam oferecido, com aqueles estranhos presentes, terra e água como sinal de submissão. Assim imaginara porque o rato nasce na terra e se alimenta de trigo, da mesma maneira que o homem; a rã nasce na água; o pássaro apresenta algumas semelhanças com o cavalo, e, enfim, os Citas, oferecendo-lhe as flechas, era como se estivessem rendendo-se a ele com as suas tropas. Tal a suposição do soberano persa; mas Góbrias, um dos sete que haviam destronado o mago, chegou a uma outra conclusão, que se apressou em transmitir às tropas: "Persas, - assim falou ele - estes presentes significam que, se não voais pelos ares, como os pássaros; se não vos escondeis debaixo da terra, como os ratos; se não saltais nos pântanos, como as rãs, não tomareis a ver vossa pátria, pois morrereis trespassados por estas flechas".

    CXXXIII - O grupo de Citas a que fora confiada a guarda das cercanias do Palos-Meótis e que acabava de receber ordens de ir para as margens do Íster, a fim de entender-se com os Iônios, logo ao chegar à ponte por estes construída sobre o rio a eles se dirigiu nestes termos: "Iônios, vimos trazer-vos a liberdade, se quiserdes ouvir-nos. Soubemos que Dario vos encarregou de guardar esta ponte durante sessenta dias, apenas, e que se não estivesse de volta nesse espaço de tempo, podíeis retirar-vos para a vossa pátria. Se executardes agora essa ordem, ele não terá nenhum motivo de queixa contra vós, e nem nós tão pouco. Os sessenta dias já se passaram. Por que não retornais ao vosso país?" Os Iônios disseram que assim o fariam, e os Citas retiraram-se imediatamente.

    CXXXIV - Tendo enviado os presentes a Dario, o resto dos Citas se pôs em ordem de batalha, frente aos Persas, numa atitude decisiva de luta. Quando tomavam posição, uma lebre passou correndo velozmente entre os dois exércitos. Assim que a viram, as tropas citas puseram-se a persegui-la, fazendo grande alarido. Dario perguntou qual a causa daquele tumulto, e como lhe respondessem que eram soldados citas perseguindo uma lebre, dirigiu-se aos Persas com que mantinha maior intimidade: "Esses homens nutrem por nós o maior desprezo. A interpretação dada por Góbrias aos presentes que nos enviaram parece-me agora bastante lógica e justa. Para sairmos desta perigosa situação necessitamos, mais do que nunca, de um bom conselho". "Senhor, - respondeu Góbrias - eu nada sabia com relação a este povo, a não ser o que dele contavam; mas desde que aqui chegamos passei a conhecê-lo melhor, observando a maneira com que nos tratam, zombando de nós e menosprezando nossa força. Encontramo-nos, realmente, em situação delicada. Sou, portanto, de opinião que devemos partir antes que os Citas se lembrem de destruir a ponte sobre o Íster e os Iônios tomem uma resolução fatal para nós. Logo ao cair da noite mandaremos, como de costume, acender fogos no acampamento, e depois de convencermos, por todas as maneiras, aqueles dos nossos que não estejam em condições de efetuar longas jornadas, a permanecer aqui, deixando também presos todos os jumentos, abandonaremos este local sem sermos pressentidos".

    CXXXV - Aceitando o conselho de Góbrias, Dario, logo que chegou a noite mandou prender os jumentos, para que seus zurros fossem ouvidos pelos Citas; ordenou que deixassem ficar no acampamento os doentes com aqueles cuja perda menos lhe importava; incumbiu parte de seus homens de guardar o acampamento, dizendo ir com a elite das tropas atacar o inimigo, e, mandando acender os fogos, encaminhou-se aceleradamente para o Íster. Os jumentos, sentindo-se sozinhos, puseram-se a zurrar mais forte que de costume, e os Citas, ouvindo-os, não duvidaram de que Persas ainda se encontravam no acampamento.

    CXXXVI - Ao nascer do dia, os soldados abandonados por Dario, vendo-se traídos, aliaram-se aos Citas, expondo-lhes a situação e indicando-lhes o caminho presumivelmente tomado por Dario. Os dois grupos de Citas, reunindo-se prontamente ao terceiro, foram em perseguição dos Persas, na direção do Íster, juntamente com os Saurómatas, os Budinos e os Gelos. Como o exército persa era constituído, em sua maior parte, de tropas de infantaria, e estas não conheciam os caminhos, enquanto que os Citas estavam a cavalo e conheciam todas as veredas e atalhos, estes últimos alcançaram a ponte muito antes dos guerreiros de Dario, e sabendo que eles ainda não haviam aparecido, dirigiram-se nestes termos aos Iônios, que já se achavam em seus navios: "Iônios, o prazo que vos foi prescrito para ficar aqui já se esgotou, não havendo mais razão para permanecerdes aqui por mais tempo. Podeis destruir, sem receio, a ponte e rendei graças aos deuses e aos Citas por haverdes recuperado a liberdade. Quanto àquele que era até há pouco vosso senhor, vamos tratá-lo de uma maneira que jamais pensará em fazer guerra a quem quer que seja".

    CXXXVII - Os Iônios reuniram-se para deliberar sobre o assunto. Milcíades de Atenas, o comandante e tirano do Quersoneso do Helesponto, foi de opinião que deviam seguir o conselho dos Citas e reconquistar a liberdade da Iônia, mas Histeu, tirano de Mileto a isso se opôs, fazendo sentir que se ele e seus companheiros reinavam nas suas cidades, era por influência de Dario, e que se o poderio deste fosse destruído, perderiam também a autoridade e seriam destituídos do poder, pois as cidades em que governavam preferiam a democracia à tirania. Os que se sentiam inclinados a aceitar a sugestão de Milcíades passaram logo, ante a exposição de Histeu, a apoiar o parecer deste.

    CXXXVIII - Os que formaram ao lado de Histeu gozavam da estima do soberano. Entre os tiranos do Helesponto figuravam Dáfnis de Abido, Hipoclos de Lampsaco, Herofante de Pário, Metrodoro de Preconésia, Aristágoras de Cizico e Aristo de Bizâncio; entre os da Iônia: Estrátis de Quios, Eces de Samos, Leodamas da Focéia e Histeu de Mileto, que se manifestou contrário ao parecer de Milcíades. Aristágoras de Cime foi o único homem ilustre a representar os Eólios no conselho.

    CXXXIX - Aprovado o parecer de Histeu, ficou resolvido que seria destruída apenas uma das extremidades da ponte, justamente a que ficava do lado da Cítia, e isso para mostrar aos Citas o desejo de servi-los de qualquer forma e pelo receio de que eles quisessem transpor o Íster pela ponte. Depois de haverem combinado entre si mandar dizer aos Citas que demolindo a ponte do lado do seu país pretendiam com isso dar-lhes inteira satisfação, escolheram Histeu para falar-lhes em nome de todos. Aceitando a incumbência, Histeu assim se dirigiu aos Citas: "Citas, vosso conselho é salutar e vem muito a propósito; e como nos mostrastes o verdadeiro caminho a seguir, agimos de modo a mostrar-vos nossa disposição de vos servir como mereceis: destruímos a ponte, como podeis ver, e agora nos empenharemos com o maior ardor na reconquista de nossa liberdade. Quanto a vós, enquanto concluímos a demolição da ponte, achamos conveniente que sigais imediatamente em busca dos Persas, e encontrando-os, vingar-nos, vingando-vos também, como é justo".

    CXL - Os Citas, confiando pela segunda vez nos Iônios, voltaram pelo mesmo caminho em busca dos Persas, sem todavia encontrá-los. Viram, então, o grande erro que haviam cometido destruindo as culturas e obstruindo as fontes, a fim de que o inimigo delas não se aproveitasse. Não fora isso, ter-lhes-ia sido fácil localizá-los. Desnorteados, puseram-se a procurá-los por todos os cantões da Cítia onde havia água e forragem em abundância para os cavalos, persuadidos de que eles tinham seguido por esse lado. Os Persas, porém, haviam seguido a rota de que se tinham servido para penetrar no país, atingindo, depois de muitas dificuldades, o ponto onde tinham atravessado o rio. Como ali chegassem já noite alta, ao verem a ponte demolida julgaram que os Iônios os haviam abandonado.

    CXLI - Havia no exército de Dario um egípcio de voz muito sonora. O soberano mandou-o postar-se à margem do rio e chamar por Histeu de Mileto. Aos primeiros gritos do egípcio, Histeu atendeu prontamente ao chamado, aprestando os navios para a passagem do exército e restabelecendo a ponte.

    CXLII - Foi assim que os Persas conseguiram escapar à vingança dos Citas, enquanto estes continuavam a procurá-los inutilmente. Desde aí, passaram eles a considerar os Iônios os mais vis e os mais cobardes dos homens, dizendo que, quando escravos, são os cativos mais fiéis ao seu senhor e incapazes de fugir.

    CXLIII - Dario atravessou a Trácia e chegou a Sestos, no Quersoneso, onde embarcou para passar-se para a Ásia. Antes porém, nomeou Megabizo, persa de nascimento, comandante das tropas que deixava na Europa. Certa ocasião, à mesa, em presença de seus íntimos, o soberano fez uma referência altamente honrosa a esse general. Quando se dispunha a comer romãs, logo ao abrir a primeira seu irmão Artábano perguntou-lhe que coisa desejaria possuir em tão grande quantidade quanto os grãos daquela fruta. Dario respondeu que gostaria mais de possuir um número igual de Megabizos do que ter a Grécia sob o seu domínio. Tal foi o tributo honroso que o soberano prestou às altas qualidades de Megabizo, e maior prova de confiança lhe deu ao entregar-lhe o comando dos oitenta mil homens que deixava na Europa.

    CXLIV - Uma simples frase de Megabizo tornou-lhe o nome imortal entre os habitantes do Helesponto. Encontrando-se, certa vez, em Bizâncio, soube que os Calcedônios tinham construído sua cidade dezessete anos antes de os Bizantinos haverem fundado a deles. Disse-lhes, então, que deviam ser cegos, pois de outro modo não teriam escolhido para a cidade um local tão desagradável, quando se apresentava um outro mais belo.

    Com as tropas deixadas por Dario, esse general subjugou todos os povos do Helesponto que não eram amigos dos Medos.

    CXLV - Quase ao mesmo tempo, realizava ele uma grande expedição na Líbia. Para melhor compreensão do motivo que o levou a assim proceder mencionarei alguns fatos importantes ligados ao acontecimento.

    Os descendentes dos Argonautas, expulsos da ilha de Lemnos pelos Pelasgos, que haviam arrebatado de Bráuron as mulheres dos Atenienses, abriram velas em direção à Lacedemônia. Acamparam no monte Taígeto, onde acenderam fogo para aquecer-se e preparar alimentos. Os Lacedemônios, percebendo-os, mandaram perguntar-lhes quem eram e de onde vinham. Responderam serem Mineus e descendentes daqueles heróis que haviam embarcado no navio Argos e aportado a Lemnos. Ante essa declaração, os Lacedemônios desejaram saber com que propósito ali tinham vindo e por que razão acendiam o fogo, respondendo eles que, expulsos pelos Pelasgos, vinham para a terra de seus pais, como era justo, e pediam aos Lacedemônios para acolhê-los e deixá-los compartilhar não somente de suas terras, como também das honras e das dignidades do Estado. Os Lacedemônios concordaram em acolhê-los, impondo-lhes, porém, algumas condições. Tal concessão provinha, principalmente, do fato de terem os Tindáridas figurado na expedição dos Argonautas. Receberam os Mineus e deram-lhes terras, que eles distribuíram entre si. Os homens casaram-se logo, e deram a outros as mulheres que haviam trazido de Lemnos.

    CXLVI - Pouco tempo depois, os Mineus começaram a praticar toda sorte de insolências, querendo participar da realeza e agindo de modo contrário à lei. Os Lacedemônios, revoltados com tal procedimento, resolveram eliminá-los, mandando, para isso, prendê-los a todos. Na Lacedemônia, as execuções são realizadas à noite, e nunca de dia. Quando os Mineus estavam prestes a serem executados, suas esposas, que eram espartanas e filhas de figuras proeminentes da cidade, solicitaram permissão para entrar na prisão, a fim de vê-los e falar-lhes pela última vez. Os responsáveis pela guarda dos prisioneiros, não desconfiando de nenhum ardil, concederam a licença solicitada. Logo que se viram a sós com os maridos, as mulheres trocaram de trajes com eles, e os Mineus, assim disfarçados, puderam escapar, retornando ao monte Taígeto.

    CXLVII - Por esse tempo, Teras partia da Lacedemônia para ir fundar uma colônia. Teras era filho de Autésio, que, por sua vez, era filho de Tisâmeno, neto de Tersandres e bisneto de Polinice. Pertencia à raça de Cadmo e era tio, por parte de mãe, de Eurístenes e de Procles, ambos filhos de Aristodemo. Como estes eram ainda muito crianças quando lhes morreu o pai, Teras ficou como regente durante a menoridade dos mesmos, mas, atingida a idade adulta, assumiram eles as rédeas do governo. Teras, desesperado por ter de prestar-lhes obediência depois de haver experimentado as doçuras do mando, dispôs-se a abandonar a Lacedemônia e a embarcar para ir juntar-se aos seus parentes.

    Os descendentes de Membliares, filho de Pécilo, fenício, residiam na ilha hoje denominada Teras e conhecida outrora por Calisto. Cadmo, filho de Agenor, havia aportado a essa ilha quando ia em demanda da Europa, e, ou porque a terra lhe tivesse agradado, ou por qualquer outra razão, deixou ali vários Fenícios com Membliares, um dos seus parentes. Esses Fenícios habitaram a ilha, então denominada Calisto, durante oito gerações, antes da vinda de Teras, procedente da Lacedemônia.

    CXLVIII - Teras partiu de Esparta para a ilha com um grande número de Lacedemônios. Sua intenção não era expulsar dali os antigos habitantes, mas viver com eles na mais estreita união. Os Lacedemônios persistiam no propósito de matar os Mineus, que, como dissemos, depois de terem escapado da prisão, haviam acampado novamente no monte Taígeto. Teras solicitou o perdão para eles, comprometendo-se a fazê-los deixar o país. O perdão foi concedido, e Teras, fazendo-se à vela em três navios de trinta remos, dirigiu-se para onde se achavam os descendentes de Membliares, levando consigo apenas uma pequena parte dos Mineus; os outros, tendo expulsado os Paroreatas e os Caúcos de suas terras, dividiram-se em seis grupos e ali construíram seis cidades: Lepreo, Macisto, Frixes, Pirgos, Épio e Núdio, a maior parte destruída no meu tempo pelos Eólios. Quanto à ilha Calisto, passou a chamar-se Teras, do nome de seu fundador.

    CXLIX - Como o filho se recusasse a embarcar em sua companhia, Teras disse que o deixava como uma ovelha entre lobos. Essa frase fez com que se desse ao jovem o nome de Oiólico{62}, por que passou a ser chamado daí por diante. Oiólico teve um filho de nome Egeu, de onde os Égidas, importante tribo de Esparta, tiraram o seu. Os componentes dessa tribo, vendo que não podiam conservar com vida os filhos, ergueram, ante a resposta do oráculo, um templo às Fúrias de Laio e de Édipo, e, desde então, não perderam mais os filhos. Coisa semelhante aconteceu na ilha de Teras com os descendentes dos que ali habitavam.

    CL - Até aqui os Lacedemônios concordam com os habitantes de Teras; mas estes são os únicos a relatar os seguintes fatos da maneira que passo a narrar.

    Grino, filho de Esânio, descendente de Teras e soberano da ilha de Teras, foi a Delfos para ali oferecer uma hecatombe. Estava acompanhado de vários habitantes da ilha, entre os quais figurava Bato, filho de Polinesta, descendente de Eufemo, um dos Mineus a que fiz referência. Tendo o soberano consultado o oráculo sobre determinadas coisas, a pitonisa concitou-o a fundar uma cidade na Líbia. "Rei Apolo, - replicou Grino - já estou velho e curvado pelo peso dos anos; encarrega antes desta empresa um desses jovens que vieram comigo". E dizendo isso apontava Bato. Os Tereus, de volta à ilha, não levaram em consideração a resposta do oráculo, não sabendo absolutamente onde ficava a Líbia e não ousando realizar uma expedição colonizadora ante tal incerteza.

    CLI - Passaram-se, então, sete anos sem chover uma só vez na ilha, e todas as árvores foram consumidas pela seca, com exceção de uma única. Indo os Tereus consultar o oráculo sobre o fenômeno, a pitonisa censurou-os por não terem ido fundar a colônia na Líbia, como lhes ordenara. Como não viam remédio para seus males, enviaram emissários a Creta para saber se havia ali algum cretense ou qualquer outro estrangeiro que tivesse viajado para a Líbia. Os emissários percorreram a ilha e, chegando à cidade de Itano, travaram conhecimento com um tintureiro de púrpura, de nome Coróbio, que lhes disse haver sido impelido por um forte vento para a ilha de Plateia, na Líbia. A promessa de uma recompensa levou-o a acompanhá-los a Teras. Organizada a expedição, os Tereus fizeram partir primeiramente um pequeno grupo para tomar conhecimento do local indicado por Coróbio, tendo este por guia. Chegando à ilha de Plateia, o grupo cumpriu a missão que lhe fora confiada, e deixando ali Coróbio com víveres suficientes para alguns meses, regressou a Teras, para expor aos Tereus as observações que havia feito.

    CLII - Como seus companheiros ficassem ausentes mais tempo do que o combinado, Coróbio viu-se a braços com a falta de víveres. Por um feliz acaso, um navio de Samos, que seguia com destino ao Egito, e cujo comandante se chamava Cóleo, escalou na ilha. Coróbio expôs aos tripulantes a sua situação, e estes, condoídos, forneceram-lhe víveres para um ano, abrindo novamente velas em direção ao Egito, aproveitando um vento de leste. Sempre ao sabor do vento, esses homens passaram as colunas de Hércules e chegaram a Tartesso, como guiados por algum deus. Como esse porto ainda não tinha sido visitado por um navio mercante estrangeiro, obtiveram grande lucro com a venda de suas mercadorias. Satisfeitos com o negócio, reservaram seis talentos, a décima parte dos lucros obtidos, e mandaram fazer um vaso de bronze do formato de uma cratera, com cabeças de abutres em torno, oferecendo-o ao templo de Juno, onde ainda hoje se mantém sustentado por três colossos de bronze de sete côvados de altura.

    A atitude de Cóleo foi o início da grande amizade que os Cireneus e os Tereus contraíram com os habitantes de Samos.

    CLIII - Os Tereus, deixando Coróbio na ilha, voltaram a Teras, onde expuseram as observações feitas no local, que acreditavam inabitado. Diante disso, ficou resolvido que todos os cantões de Teras, em número de sete, enviariam um determinado número de homens, escolhidos por sorteio, para ocupar a ilha, tendo Bato por soberano. Feitos os preparativos, partiram com destino a Plateia dois navios com quinhentos homens cada um. Tal a maneira pela qual os Tereus contam essa história.

    CLIV - Os Cireneus concordam com ela em tudo, exceto no que concerne a Bato, sobre o qual dizem o seguinte: Etearco, rei de Áxon, em Creta, tendo perdido a esposa, da qual possuía uma filha de nome Frónima, desposou outra mulher, que logo se tornou para Frónima verdadeira madrasta, maltratando-a, injuriando-a por qualquer motivo e chegando até a acusá-la de impudicícia, levando o esposo a acreditar nisso.

    Dando crédito à mulher, Etearco procedeu contra a filha de maneira odiosa. Havia, então, em Áxon, um negociante de Teras, chamado Temíson. O soberano mandou chamá-lo, fazendo-o prometer, sob juramento, que o serviria em tudo quanto dele necessitasse. Obtido o juramento de obediência, Etearco entregou-lhe a filha, dizendo-lhe que a lançasse ao mar. Temíson, revoltado com tal procedimento, renunciou à amizade de Etearco e, pondo a princesa num barco, rumou para o alto mar. Ali chegando, amarrou-a com uma corda e, para desobrigar-se do juramento, fê-la descer até as águas, mas retirando-a logo em seguida e conduzindo-a para a ilha de Teras.

    CLV - Chegando a Teras, Polineto, homem de alta posição, tomou a jovem como concubina, e o casal teve, no fim de certo tempo, um filho que gaguejava e sibilava. Essa criança, segundo os Tereus e os Cireneus, recebeu o nome de Bato; mas penso que era outro o seu nome e que passou a ser assim chamado depois que chegou à Líbia, tanto devido à resposta que recebeu do oráculo de Delfos, como pela sua alta dignidade, pois batus significa rei na língua dos Líbios, e foi esse o nome que a pitonisa lhe deu respondendo à sua consulta, sabendo que ele haveria de reinar na Líbia. Com efeito, ao chegar à idade viril foi a Delfos consultar o oráculo sobre o defeito que tinha na língua, que o fazia gaguejar, dizendo-lhe a pitonisa: "Bato, aqui vens a respeito da tua voz, mas Apolo te ordena a estabelecer uma colônia na Líbia, fecunda em animais lanígeros." Foi como se ela lhe tivesse dito em grego: "Ó rei! Aqui vindes por causa da vossa voz..." Bato respondeu-lhe: "Rei, vim consultar-vos sobre o defeito que tenho na língua, e vós me ordenais a realizar coisas impossíveis, dizendo-me para fundar uma colônia na Líbia. Com que tropas, com que forças poderei executar semelhante tarefa?" Apesar das razões invocadas, a pitonisa manteve a resposta que lhe dera. Vendo que o oráculo mantinha-se irredutível, deixou Delfos, regressando a Teras.

    CLVI - Logo a seguir, tanto ele como todos os habitantes da ilha viram-se perseguidos por desgraças sem conta. Como não pudessem atinar com a causa daquilo, enviaram delegados a Delfos para consultar o oráculo sobre os males que de pronto começaram a afligi-los, tendo a pitonisa respondido que todos eles voltariam a ser felizes se fundassem, com Bato, a cidade de Cirenes, na Líbia. Diante disso, os Tereus fizeram partir Bato com dois navios de cinqüenta remos. Bato e seus companheiros abriram velas em direção à Líbia, mas, forçados pelas circunstâncias, voltaram ao ponto de partida. Quando iam desembarcar, os Tereus atacaram-nos, ordenando-lhes que executassem a tarefa que lhes tinham confiado. Constrangidos a obedecer, retomaram a rota, indo estabelecer-se numa ilha nas proximidades da Líbia. Essa ilha chama-se, como dissemos atrás, Plateia. Assegura-se ser ela do tamanho da atual cidade dos Cireneus.

    CLVII - Os Tereus ali permaneceram pelo espaço de dois anos, findos os quais, vendo que não conseguiam prosperar, embarcaram para Delfos, deixando um dos seus companheiros na ilha. Chegando a Delfos, disseram à pitonisa que se haviam estabelecido na Líbia, mas que nem por isso estavam sendo mais felizes. A pitonisa respondeu-lhes dirigindo-se a Bato: "Admiro a tua habilidade; nunca estiveste na Líbia e pretendes conhecer o país melhor do que eu, que ali já estive". Ante a resposta, Bato embarcou novamente com os seus companheiros, convencido de que o deus só se daria por satisfeito quando eles se estabelecessem na própria Líbia. Chegando a Plateia, apanharam o companheiro que lá haviam deixado e foram instalar-se na Líbia, defronte da ilha, em Azires, local encantador, cercado por belas colinas e banhado por um rio.

    CLVIII - Permaneceram seis anos em Azires, mas, ao cabo desse tempo, decidiram-se a sair dali às vivas instâncias dos Líbios e ante a promessa que eles lhes fizeram de conduzi-los a um território melhor ainda. Fazendo-os deixar aquele lugar, os Líbios conduziram-nos na direção de oeste, e com receio de que os Gregos, passando pela parte mais bela do país, disso se apercebessem, regularam a marcha de modo a fazê-los atravessá-la durante a noite. Essa região chama-se Irasa. Conduzindo-os para junto de uma fonte que dizem ter sido consagrada a Apolo, os Líbios assim lhes falaram: "Gregos, este local, com as suas belezas e vantagens, vos convida a fixar aqui vossa moradia; o céu é sempre limpo e azul nestas paragens".

    CLIX - Sob o governo de Bato, o fundador, cujo reinado se estendeu por quarenta anos, e de Arcesilas, seu filho, que reinou durante dezesseis, os Cireneus não se tornaram em número muito maior do que no início da colônia; mas no governo de Bato, o terceiro rei, cognominado o Feliz, a pitonisa, pelos seus oráculos, concitou os Gregos a embarcarem para a Líbia, onde habitariam com os Cireneus, que os convidavam a morar em suas terras e delas compartilhar. Dizia um desses oráculos: "Quem não for para a fértil Líbia senão depois da partilha das terras terá, um dia, motivo para disso arrepender-se". Os Gregos dirigiram-se a Cirenes em grande número, apoderando-se de um cantão considerável. Os Líbios, seus vizinhos, e Adícran, seu rei, vendo-se insultados e despojados de suas terras pelos Cireneus, recorreram a Ápries, soberano do Egito, colocando-se sob a sua proteção. Ápries enviou contra Cirenes forças consideráveis, e os Cireneus, formados em ordem de batalha em Irasa e perto da fonte de Teste, enfrentaram-nos com galhardia. Os Egípcios, que com eles ainda não haviam medido forças, subestimaram sua capacidade de luta, sendo de tal maneira batidos, que para o Egito só regressou um pequeno número de soldados. O povo ficou tão indignado com Ápries, que contra ele se revoltou.

    CLX - Arcesilas, filho de Bato, foi o seu sucessor. Logo que subiu ao trono, teve ele algumas questões com seus irmãos, mas estes acabaram abandonando o país, indo para outra parte da Líbia, fundando ali a cidade de Barcéia, nome que ainda hoje subsiste. Enquanto a construíam, sublevaram os Líbios contra os Cireneus. Arcesilas marchou contra os revoltosos, e os Líbios, que o temiam, fugiram para junto dos Líbios orientais. Arcesilas perseguiu-os e alcançou-os em Lêucon, na Líbia, onde travaram combate. A sorte das armas foi favorável aos Líbios, ficando estendidos no campo mais de sete mil Cireneus muito bem armados. Depois desse revés, Arcesilas caiu doente, e quando se tratava foi estrangulado pelo seu irmão Learco. Erixas, usando de um ardil, fez perecer o assassino de seu esposo.

    CLXI - Bato, seu filho, sucedeu-o no trono. Bato era coxo e não podia manter-se de pé. Os Cireneus, atribulados com seus fracassos, enviaram delegados a Delfos, a fim de saberem que forma de governo deviam adotar para viverem felizes. A pitonisa aconselhou-os a fazerem vir da Mantinéia, na Arcádia, alguém que pudesse restabelecer entre eles a concórdia. Seguindo o conselho, eles se dirigiram aos Mantineus, que lhes cederam um homem, dos mais estimados na cidade, de nome Demónax. Demónax concordou em ir para Cirenes, e informado dos negócios públicos, dividiu os Cireneus em três tribos, uma das quais compreendia os Tereus e seus vizinhos; a outra, os Peloponésios e os Cretenses, e a terceira, todos os insulares. Finalmente, reservou para Bato certas porções de terra, com as dignidades de sacrificador, e devolveu ao povo todas as outras prerrogativas de que os reis cireneus haviam gozado até então.

    CLXII - Tais normas subsistiram durante o reinado de Bato, mas no de seu filho surgiram, por causa das mesmas, grandes perturbações. Com efeito, Arcesilas, filho de Bato, o Coxo, e de Ferétima, declarou não tolerar mais que as leis de Demónax prevalecessem e exigiu as prerrogativas desfrutadas pelos seus ancestrais. Arcesilas provocou distúrbios e contendas com essa decisão, mas tendo os seus partidários ficado em situação desvantajosa, teve de refugiar-se em Samos, enquanto que Ferétima, sua mãe, procurou asilo em Salamina, na ilha de Chipre. Salamina era, naquele tempo, governada por Evélton, que consagrou a Delfos um belo turíbulo, que ainda hoje pode ser apreciado como parte do tesouro dos Coríntios. Chegando à corte de Evélton, Ferétima pediu tropas para restabelecer o poder do filho em Cirenes, mas o soberano preferiu dar-lhe outras coisas ao invés de tropas. Ferétima aceitou os presentes, achando-os magníficos, dizendo-lhe, porém, que mais satisfeita ficaria se lhe fossem concedidas tropas; e como repetisse sempre a mesma resposta a cada presente que recebia, Evélton deu-lhe, por fim, um fuso de ouro e uma roca, dizendo-lhe que às mulheres se davam tais mimos e nunca um exército.

    CLXIII - Enquanto isso, Arcesilas, aguardando a partilha das terras, reuniu em Samos, onde se encontrava, um exército numeroso, indo, em seguida, a Delfos, consultar o oráculo sobre a possibilidade de sua volta ao poder. A pitonisa respondeu-lhe: "Apolo concede à tua família o domínio de Cirenes por quatro Batos e quatro Arcesilas, isto é, por oito gerações; mas te exorta a não tentares mais nada e a ficares tranqüilo quando regressares à pátria. Se encontrares um forno cheio de vasos de barro, evita levá-los ao fogo; retira-os dali e coloca-os ao ar livre; e se aqueceres o forno, não o faças em local cercado de água, pois, se o fizeres, perecerás, juntamente com o mais belo dos touros".

    CLXIV - Arcesilas voltou a Cirenes com o exército que conseguira reunir em Samos, e, recuperando o poder, mandou processar, sem atenção alguma ao oráculo, os que o tinham combatido e o haviam obrigado a fugir. Uns tiveram de deixar a pátria, condenados a exílio perpétuo; outros, presos, foram enviados a Chipre, para ali serem executados; mas os Cnídios os libertaram, encaminhando-os para a ilha de Teras. Outros, enfim, refugiaram-se numa grande torre pertencente a um particular de nome Aglómaco. Arcesilas mandou colocar lenha em torno da torre e incendiá-la. Só então apreendeu ele o significado das palavras da pitonisa de Delfos, quando lhe disse que não devia levar ao fogo os vasos de barro encontrados no forno. Com receio de ser morto, segundo a predição do oráculo, abandonou voluntariamente a Cirenes, imaginando ser essa cidade o local cercado de água a que a pitonisa se referira. Havia desposado uma de suas parentas, filha de Alazir, rei dos Barceus, e foi junto a esse soberano que procurou refúgio; mas os Barceus e alguns fugitivos da Cirenaica, descobrindo seu paradeiro, mataram-no, assim como ao seu sogro Alazir, que lhe dera guarida. Assim, Arcesilas cumpriu seu destino, perecendo por haver desobedecido ao oráculo, voluntária ou involuntariamente.

    CLXV - Enquanto Arcesilas forjava sua própria ruína em Barcéia, Ferétima, sua mãe, desfrutava em Cirenes as honras devidas ao filho; e entre outras prerrogativas, a de tomar parte nas deliberações do Senado; mas ao ter conhecimento da morte do filho refugiou-se no Egito, por haver o filho prestado outrora alguns serviços a Cambises, entregando-lhe Cirenes e pagando-lhe tributo. Chegando ao referido país, suplicou a Ariando que a vingasse, alegando ter sido o filho assassinado por haver favorecido o partido dos Medos.

    CLXVI - Ariando havia sido nomeado governador do Egito por Cambises, sendo mais tarde condenado à morte por ter pretendido igualar-se a Dario. Realmente, tendo sabido que esse soberano desejava deixar como monumento a perpetuar-lhe a memória algo ainda não executado por qualquer outro, procurou imitá-lo. Dario havia mandado cunhar moedas do mais puro ouro{63}. Ariando, governador do Egito, mandou, por sua vez, cunhar moedas de prata, chamadas ariândicas, ainda hoje tidas como feitas da mais fina prata. Dario, informado a respeito, acusou-o de rebeldia, mandando matá-lo sob esse pretexto.

    CLXVII - Tocado pelas súplicas de Ferétima, Ariando pôs à sua disposição um exército composto de todas as forças do Egito, tanto de terra como de mar. As tropas de terra eram comandadas por Amásis, e as de mar, por Bares. Antes, porém, de dar-lhes a ordem de partida, Ariando enviou um emissário a Barcéia, a fim de informar-se sobre a autoria da morte de Arcesilas. Os Barceus assumiram toda a responsabilidade do assassinato, pois o soberano lhes havia causado grandes males. Ante a resposta, Ariando fez partir o exército, juntamente com Ferétima.

    CLXVIII - Ariando encontrara aí o pretexto que buscava para justificar sua expedição contra os Líbios, aos quais desejava, a meu ver, subjugar. A Líbia compreende diferentes povos, poucos dos quais se haviam submetido a Dario, sendo que a maior parte deles continuava a não lhe dar a mínima importância. Esses povos acham-se estabelecidos na Líbia na seguinte ordem, a partir do Egito{64}: Em primeiro lugar, vêm os Adirmáquidas, que seguem quase os mesmos costumes dos Egípcios, trajando-se, porém, como o resto dos Líbios. As mulheres trazem em cada perna um anel de cobre e deixam crescer os cabelos. Se picadas por um piolho, apanham-no, mordem-no também, e atiram-no fora. É este o único povo líbio a manter semelhante costume, e o único também a apresentar as filhas ao seu soberano, quando vão casá-las. A que cai nas graças do rei, não volta ao lar senão depois de lhe haver concedido seus favores. Essa nação se estende do Egito a um porto chamado Plinos.

    CLXIX - Os Giligames confinam com os Adirmáquidas, e habitam o território que se estende para ocidente até a ilha Afrodísias. Nesse ponto está situada a ilha de Plateia, onde os Cireneus estabeleceram uma colônia. Azires, onde também se estabeleceram, fica no continente, bem como o porto de Menelais. Ali se começa a encontrar o silfium. O país onde cresce esta planta estende-se da ilha de Plateia até a embocadura do Sirta. Esses povos seguem os mesmos costumes dos outros.

    CLXX - Em seguida aos Giligames, encontramos os Asbistas, para leste, além de Cirenes, estendendo-se até o mar, sendo suas costas marítimas ocupadas pelos Cireneus. Os carros puxados por quatro cavalos estão mais em uso entre eles do que entre os outros povos líbios. Os Asbistas procuram imitar a maior parte dos costumes dos Cireneus.

    CLXXI - Os Ausquises ficam a oeste dos Asbistas, com os quais confinam. Habitam a região além de Barcéia e se estendem até o mar, nas imediações das Hispéridas. Os Cábalos habitam o centro dessa mesma região. É uma nação pouco numerosa, alongando-se pelas costas da Tauquira, cidade da Barcéia. Adotam os mesmos costumes dos que habitam a região situada além de Cirenes.

    CLXXII - O país dos Ausquises é limitado a oeste pelo dos Nasamões, povo bastante numeroso. No Verão, os Nasamões deixam seus rebanhos à beira-mar e dirigem-se a um certo cantão denominado Augilas, para colher os saborosos frutos das palmeiras que ali crescem em abundância. Os Nasamões dão-se ao hábito de caçar gafanhotos, que fazem secar ao sol, e depois de reduzi-los a pó misturam-no no leite que bebem. Adotam o costume de possuir, cada qual, várias mulheres e de ter relações com elas publicamente, mais ou menos como os Masságetas. Da primeira vez que um nasamão se casa, na noite de núpcias, a mulher concede favores a todos os convivas, recebendo de cada um deles um presente trazido de casa. Eis como esse povo presta juramento e exerce a arte da adivinhação. Para o primeiro, colocam a mão sobre o túmulo de um dos homens mais famosos e mais justos da nação e juram pela sua memória. Na adivinhação, dirigem-se aos túmulos de seus ancestrais e ali, depois de fazerem preces, adormecem. Se durante o sono tiverem algum sonho, guiam-se por ele na maneira de conduzir-se. Fazem pactos de confiança, bebendo, reciprocamente, um na mão do outro. Se nada têm para beber no momento, enchem as mãos de terra e lambem-na.

    CLXXIII - Os Psilos eram vizinhos dos Nasamões, extinguindo-se de um momento para outro, da maneira que vou relatar, baseando-me nas informações dos Líbios. O vento sul tinha, com suas fortes rajadas, secado todas as cisternas, e os Psilos, que habitavam a parte central da Sirta e não dispunham de fontes, viram-se totalmente privados de água. Indignados com a ação do vento resolveram, por decisão unânime, mover-lhe guerra; mas ao chegarem aos desertos arenosos para dar-lhe combate foram envolvidos por seus violentos sopros, ficando sepultados sob montes de areia. Desaparecendo os Psilos, os Nasamões apoderaram-se de suas terras.

    CLXXIV - Acima desses povos, numa região cheia de animais ferozes, vivem os Garamantes, que fogem ao contato com outros homens.

    Os Garamantes, povo extraordinariamente atrasado, não usam armas e nem sequer sabem defender-se.

    CLXXV - Esse povo tem por vizinhos os Maces, que habitam a oeste, ao longo do litoral. Os Maces raspam a cabeça, deixando apenas um pequeno tufo no alto da mesma. Quando vão à guerra, levam consigo, como arma defensiva, peles de avestruz. Suas terras são banhadas pelo rio Cinips, que, descendo da colina das Graças, atravessa o país e lança-se no mar. A colina está inteiramente coberta por espessa floresta, embora o resto da Líbia, como já tive ocasião de dizer, seja desprovido de árvores. Dessa colina ao mar há uma distância de duzentos estádios.

    CLXXVI - Os Gindanes confinam com os Maces. Dizem que suas mulheres trazem no tornozelo tantos anéis de pele quanto os homens com os quais já tiveram relações, e a que ostenta maior número de anéis é a mais estimada, por ter-se feito amar por um maior número de homens.

    CLXXVII - Os Lotófagos habitam o trecho do litoral vizinho aos Gindanes. Alimentam-se exclusivamente dos frutos do loto. Esses frutos são mais ou menos da grossura do lentisco e doces como a tâmara, e deles os Lotófagos extraem também uma espécie de vinho.

    CLXXVIII - Esse povo confina, ao longo do mar, com os Máclies, que também se servem do loto como alimento, embora em menor escala. Os Máclies estendem-se até o Tritão, rio considerável que se lança num grande lago, o Tritónis, onde se encontra a ilha Fia. Dizem haver sido predito pelos oráculos que os Lacedemônios estabeleceriam uma colônia nessa ilha, sendo esse fato relatado da seguinte maneira:

    CLXXIX - Depois de ter Jasão mandado construir, ao pé do monte Pélion, o navio Argos, colocou nele um tripé de bronze e, embarcando com sua comitiva, fez-se ao mar, dobrando o Peloponeso, tendo em mira atingir Delfos. Ao aproximar-se do promontório Maléia, ergueu-se um forte vento do norte, que o impeliu para a Líbia, vendo-se ele perdido no meio do lago Tritónis, sem saber onde aportar. Não sabia como sair dessa perigosa situação, quando, dizem, um tritão lhe apareceu e lhe pediu o tripé, prometendo-lhe, em troca, indicar-lhe uma rota segura e salvá-lo daquele perigo. Jasão concordou, e o tritão, cumprindo com o que prometera, mostrou-lhe o meio de sair dali. Tomando, em seguida, do tripé, colocou-o no seu próprio templo, e, ali sentando-se, predisse a Jasão e aos seus tudo o que deveria acontecer-lhes. Anunciou-lhes também que, quando algum dos descendentes dele, tritão, se apoderasse do tripé, era absolutamente necessário que os Gregos possuíssem cem cidades às margens do lago Tritónis. Dizem que os Líbios das vizinhanças do lago, sabedores disso, esconderam o tripé.

    CLXXX - Depois dos Máclies, encontramos os Auseus. Estas duas nações acham-se estabelecidas em torno do lago Tritónis, mas separadas pelo rio Tritão. Os Mácíies deixam crescer o cabelo atrás da cabeça, e os Auseus na frente. Numa festa que esses povos celebram todos os anos em honra a Minerva, as moças solteiras dividem-se em dois grupos e batem-se, umas contra as outras, a pauladas e a pedradas. Dizem elas ter sido tal rito instituído por seus pais, em honra à deusa, nascida no país, e a que chamamos Minerva. As moças que morrem dos ferimentos recebidos na contenda são consideradas falsas virgens. Antes de empenhar-se no combate, as jovens revestem-se de uma armadura completa, à moda grega, que é, na opinião de todas, a mais bela, e, colocando na cabeça um capacete à coríntia, sobem a um carro e passeiam em torno do lago. Ignoro de que maneira se aprestavam para o combate essas moças, antes de os Gregos terem estabelecido colônias nas imediações. Creio, contudo, que era à maneira dos Egípcios, pois sou de opinião que o escudo e o capacete vieram dos Egípcios para os Gregos. Pretendem elas ser Minerva filha de Netuno e da ninfa do lago Tritónis. Insurgindo-se contra o pai por uma razão qualquer, a deusa procurou a proteção de Júpiter, que a adotou como filha. As mulheres, entre esses povos, pertencem em comum aos homens, embora não coabitem com estes, e são possuídas à maneira dos animais. Os filhos são criados pelas mães, e quando crescem, são levados à assembléia realizada pelos homens de três em três meses. Aquele com o qual a criança mais se parece é considerado seu pai.

    CLXXXI - Tais os povos nômades que habitam o litoral da Líbia. Mais acima, avançando pelo meio das terras, encontra-se uma região líbia cheia de animais ferozes, além da qual existe um planalto arenoso, que se estende de Tebas, no Egito, às colunas de Hércules. Há, nessa zona, trechos cobertos de sal nas colinas. Do alto dessas colinas jorra, por entre o sal, uma água fresca e doce. Em torno dessas nascentes se agrupam os habitantes da região, os últimos que encontramos desse lado do deserto e além da Líbia selvagem. Os primeiros povos que encontramos, vindo de Tebas, são os Amônios, a dez dias de viagem dessa cidade. Os Amônios possuem um templo, onde praticam os ritos inspirados nos de Júpiter Tebano. Existe em Tebas, como já disse, uma estátua de Júpiter com cabeça de carneiro.

    Entre outras fontes, possuem eles uma cuja água é lépida ao nascer do sol, fresca à hora do mercado e extremamente fria ao meio-dia. É a essa hora que eles costumam regar os jardins. À medida que o dia declina, ela se torna menos fria, até o pôr do sol, quando volta a ser tépida, esquentando depois, pouco a pouco, até a meia-noite, quando chega mesmo a ferver. Daí em diante, passa a esfriar, gradativamente, até o romper da aurora. Chamam-na fonte do Sol.

    CLXXXII - A dez dias de marcha a partir do país dos Amônios encontra-se, no mesmo planalto arenoso, outra colina de sal, tendo também uma fonte. O cantão onde ela está situada é habitado e denomina-se Augilas. É ali que os Nasamões vão, no Outono, colher tâmaras.

    CLXXXIII - A outros dez dias de jornada partindo desse cantão encontramos outra colina de sal, tendo, igualmente, fontes de água doce e uma grande quantidade de palmeiras, que dão frutos em abundância. A região é habitada pelos Garamantes, nação bastante numerosa. Os Garamantes utilizam-se do sal para o cultivo, espalhando terra sobre ele e semeando em seguida. Dali ao país dos Lotófagos a distância não é grande, mas há trinta dias de percurso do território dos Lotófagos à região onde se vêem bois de estranha espécie, que pastam e andam para trás, por terem os chifres voltados para baixo. Se caminhassem para frente, estes se enterrariam no chão. Não diferem dos outros bois senão nisso e em terem o couro mais espesso e mais flexível. Os Garamantes dão caça aos Trogloditas-Etíopes, servindo-se, para esse fim, de carros puxados por quatro cavalos, isso porque os Trogloditas-Etíopes são, de todos os povos que conhecemos, o mais veloz. Alimentam-se de serpentes, lagartos e outros répteis; falam uma língua que nada tem de comum com as das outras nações e se dizem capazes de compreender os gritos dos morcegos.

    CLXXXIV - A dez dias de jornada dos Garamantes encontramos outra colina de sal, com uma fonte e homens em torno. Esses homens, que constituem a nação dos Atarantes, são os únicos, que eu saiba, a não possuírem nome próprio. Reunidos em nação, tomam o nome de Atarantes, mas considerados individualmente, não usam um nome que os distinga uns dos outros. Têm o hábito de lançar maldições contra o sol quando este se acha no seu zênite, por queimar-lhes a pele e secar-lhes as terras.

    Depois de mais dez dias de viagem chega-se a uma outra colina de sal, também com nascentes e habitantes em torno. O monte Atlas confina com essa colina. É estreito e arredondado, mas tão alto que, segundo dizem, não se consegue ver-lhe o cume, por causa das nuvens que o envolvem, tanto no Verão como no Inverno. Os habitantes da região dizem ser ele uma coluna do céu, tendo dele o nome de Atlantes, por que são conhecidos. Segundo se afirma, esse povo não come nenhuma espécie de ser vivo e nunca sonha.

    CLXXXV - Sei qual o povo que habita esse planalto até o território dos Atlantes, mas nada posso dizer sobre os que se encontram mais para diante, pois essa elevação se estende além das colunas de Hércules. De dez em dez dias de jornada encontramos minas de sal e habitantes, cujas casas são geralmente construídas com sal. Como nunca chove nessa parte da Líbia, seus moradores não correm o risco de verem-nas desmoronar-se sob a ação da água. Extraem-se dessas minas duas espécies de sal: um branco e outro vermelho. Muito além desse planalto arenoso, na direção do sul, e mais para o interior da Líbia, encontra-se um pavoroso deserto, inteiramente desprovido de água, de árvores e até mesmo de animais selvagens.

    CLXXXVI - Toda a região que se estende do Egito ao lago Tritónis é habitada pelos Líbios nômades, que se alimentam exclusivamente de carne e de leite, jamais comendo, como se dá também com os Egípcios, vacas ou porcos. As mulheres de Cirenes não se julgam, também, com permissão para comer carne de vaca, por causa da deusa Ísis, adorada no Egito. Chegam a jejuar, e celebram em sua honra. As mulheres de Barcéia também não comem carne de vaca e nem de porco.

    CLXXXVII - Os povos que vivem a oeste do lago Tritónis não são nômades; não seguem os mesmos costumes e não tratam seus filhos da maneira como fazem os Líbios nômades. Quando os filhos destes atingem a idade de quatro anos, queimam-lhes as veias do alto da cabeça, e algumas das têmporas, com lã bruta. Não posso assegurar se todos os povos nômades da Líbia seguem tal costume, mas vários deles o adotam. Julgam, com isso, que ficam livres dos humores que correm do cérebro, preservando a saúde. Realmente, entre todos os povos que conhecemos não existe nenhum mais sadio do que os Líbios. Não julgo, porém, ser isso devido ao referido costume. Se as crianças têm espasmos enquanto lhes queimam as veias, molham-nas com urina de bode, remédio por eles próprios descoberto e que consideram infalível para o mal. De resto, estou apenas reproduzindo aqui o que me relataram os Líbios.

    CLXXXV1II - Os Líbios nômades celebram seus sacrifícios da seguinte maneira: começam por cortar a orelha da vítima e atirá-la sobre o telhado da casa; depois, torcem-lhe o pescoço. Imolam apenas ao Sol e à Lua. Todos os Líbios oferecem sacrifícios a essas divindades; entretanto, os que vivem às margens do lago Tritónis imolam também a Minerva, a Tritão e a Netuno, mas principalmente a Minerva.

    CLXXXIX - Os Gregos copiaram dos Líbios o traje e a égide de Minerva, com a diferença que o traje dos Líbios é feito de pele, e as franjas de suas égides não são de pele de serpente, mas de tiras de couro muito finas. No restante, porém, em nada diferem. O nome desse traje prova que as vestes das estátuas de Minerva vêm da Líbia. As mulheres líbias usam, realmente, por cima do traje, peles de cabra, guarnecidas de franjas e pintadas de vermelho, de onde os Gregos tiraram o nome de égide. Creio também que os gritos agudos que se ouvem no templo da deusa derivam de um costume daquele país. Teria vindo também dos Líbios para os Gregos, o hábito de atrelar quatro cavalos a seus carros.

    CXC - Os Líbios nômades enterram seus mortos como os Gregos, com exceção dos Nasamões, que os enterram sentados, tendo, para isso, o cuidado de manter o moribundo nessa posição na hora de expirar. Usam habitações portáteis, feitas de asfódelos{65}, entrelaçados com junco.

    CXCI - Os Líbios lavradores confinam com os Auseus a oeste do rio Tritão. Possuem habitações e denominam a si próprios Máxias. Deixam crescer o cabelo do lado direito da cabeça, raspando do lado esquerdo, e pintam o corpo de vermelho.

    Dizem-se descendentes dos Troianos. A região que habitam é, como o resto da Líbia ocidental, muito mais povoada de animais selvagens e mais cheia de bosques do que a habitada pelos nômades, pois esta última é baixa e arenosa até o rio Tritão.

    Seguindo para o ocidente, após esse rio, encontramos a região ocupada pelos Líbios lavradores; é montanhosa, coberta de florestas e cheia de animais selvagens. Na região ocupada pelos Líbios lavradores encontram-se serpentes de tamanho descomunal, leões, elefantes, ursos, áspides, asnos com chifres{66}, cinocéfalos e acéfalos, que possuem, segundo afirmam os Líbios, olhos no peito. Vêem-se também ali homens e mulheres selvagens, e uma multidão de monstros fabulosos.

    CXCII - No país dos nômades não encontramos nenhum desses animais. Existem, todavia, outros, tais como cabritos, búbalos, burros, não de chifres, mas de uma espécie que tem horror à água. Vêem-se também animais estranhos, do tamanho de um boi e de cujos chifres os habitantes se utilizam para fazer o braço de suas cítaras. Há também raposas, hienas, porcos-espinho, panteras, thoés{67}, crocodilos terrestres com três côvados de comprimento e que se assemelham aos lagartos, avestruzes e pequenas serpentes de um só chifre. Não se vêem, porém, ali, nem veados nem javalis, pois a Líbia não possui tais animais.

    CXCIII - Os Zavecos confinam com os Líbios-Máxias. Quando vão à guerra, são as mulheres que conduzem os carros.

    CXCIV - Logo depois dos Zavecos encontramos os Gizantes, em cujas terras abundam abelhas, que produzem uma quantidade prodigiosa de mel, que ainda assim não é suficiente para o amplo consumo que dele fazem os habitantes. Os Gizantes costumam pintar-se de vermelho e são grandes apreciadores da carne de macaco, animal muito comum nas montanhas que ali existem.

    CXCV - Perto desse país fica, segundo afirmam os Cartagineses, uma ilha denominada Cirâunis, muito estreita, mas medindo duzentos estádios de comprimento, inteiramente coberta de oliveiras e vinhedos. Há nessa ilha um lago, de cujo lodo os habitantes extraem palhetas de ouro com o auxílio de penas de pássaros. Se é verdade, não sei; limito-me a repetir o que sobre isso me disseram. É possível, porém, que assim seja, pois já fui testemunha da maneira pela qual se extrai resina de um lago de Zacinto, onde existe uma grande quantidade de lagos, o maior dos quais mede setenta pés de extensão em todos os sentidos, com duas braças de profundidade. Os habitantes do lugar mergulham nele uma vara, na extremidade da qual prendem um ramo de mirta, retirando, em seguida, o ramo com resina, que tem cheiro de betume. Essa resina é colocada num fosso cavado perto do lago, e quando já existe uma grande quantidade dela, retiram-na do fosso, colocando-a em ânforas. Tudo que cai naquele lago, passa por debaixo da terra, indo ter ao mar, embora este diste do lago cerca de quatro estádios. Assim, podem estar com a razão os que dizem que essa ilha está situada nas proximidades da Líbia.

    CXCVI - Dizem os Cartagineses existir, além das colunas de Hércules, um país habitado, onde costumam ir comerciar. Quando ali chegam, retiram as mercadorias dos navios e colocam-nas ao longo da praia, voltando, em seguida, para bordo, onde, para atrair a atenção dos habitantes, fazem fumaça em grande quantidade. Os naturais do país, percebendo a fumaça, dirigem-se para a praia e ali depositam uma quantidade de ouro que consideram correspondente ao valor das mercadorias, afastando-se. Os Cartagineses desembarcam novamente, examinam a quantidade do precioso metal ali deixada e, se a julgam razoável, apanham-na e retiram-se. Se, porém, a julgam insuficiente, retornam aos navios, onde permanecem tranqüilos, na expectativa. Os nativos voltam ao local e acrescentam mais alguma coisa, esperando que com isso os Cartagineses se dêem por satisfeitos. As duas partes jamais procuram ludibriar uma à outra. Os Cartagineses não tocam no ouro senão quando ele corresponde ao valor das mercadorias; e os nativos só se apoderam das mercadorias quando os Cartagineses se apoderam do ouro.

    CXCVII - Tais os povos da Líbia, cujos nomes posso citar, um por um. A maioria deles não dava, outrora, aos reis dos Medos, maior importância do que lhes dá hoje. Devo acrescentar que o país é habitado por quatro nações: duas indígenas e duas estrangeiras. Os indígenas são os Líbios e os Etíopes; aqueles, habitando a parte norte da Líbia, e estes, a parte sul. As duas nações estrangeiras compõem-se de Fenícios e de Gregos.

    CXCVIII - Quanto à fertilidade, a Líbia não pode, ao que me parece, ser comparada à Ásia nem à Europa, exceção feita ao país dos Cinips, povo que possui o mesmo nome do rio que banha suas terras, que podem ser comparadas às melhores para o cultivo do trigo. É uma terra negra, regada por várias nascentes e beneficiada por constantes chuvas, que a fecundam sem lhe causar dano. O país produz tanto trigo quanto a Babilônia. O país dos Hispéridas possui também terras excelentes. Nos anos mais propícios à cultura, as sementes lançadas ao solo centuplicam; mas nas terras dos Cinips, de cada semente plantada obtém-se trezentas.

    CXCIX - A Cirenaica é o país de maior altitude dessa região da Líbia, e é habitada por povos nômades, beneficiados por excelentes condições para o cultivo de suas terras, contando com três estações propícias. A colheita e a vindima começam à beira-mar, passando em seguida para as terras altas no centro do país, a que dão o nome de colinas e onde o trigo e a uva já então se encontram maduros, à espera da colheita. Enquanto é feita a colheita na zona central, o amadurecimento vai se processando nas outras zonas mais afastadas; e assim, quando os habitantes realizam a última colheita, há muito já beberam os primeiros vinhos. Os Cireneus se ocupam nessa tarefa durante oito meses do ano.

    CC - O exército persa{68} que Ariando tinha enviado do Egito para vingar Ferétima, chegando diante de Barcéia estabeleceu o cerco, depois de haver intimado os habitantes a entregar-lhe os assassinos de Arcesilas. Os Barceus, considerando-se todos culpados da morte do soberano, não atenderam à intimação. O cerco se prolongou por nove meses, durante os quais os Persas minaram as muralhas e atacaram vigorosamente a praça. Um artesão, habituado a trabalhar com o cobre, descobriu as minas{69} por meio de um escudo de bronze. Munido do escudo, pôs-se a andar em torno da cidade, ao pé das muralhas, aproximando-o do chão, aqui e ali. Nos pontos não minados pelo inimigo, o escudo nenhum som produzia; mas ao passar por lugares minados, acusava-o emitindo um som bastante audível. Os Barceus, alertados, contraminaram esses pontos, matando os Persas que se achavam entregues a essa delicada tarefa de guerra. Quanto aos assaltos desfechados pelos sitiantes, os habitantes souberam repeli-los com bravura.

    CCI - O cerco de Barcéia ia-se prolongando indefinidamente, já se registrando, de um lado e de outro, perdas consideráveis, quando Amásis, que comandava as forças de terra, vendo a impossibilidade de vencer o inimigo frente a frente, recorreu ao seguinte estratagema: mandou cavar, durante a noite, um largo fosso, no qual colocou pedaços de madeira muito frágeis, cobrindo-os de terra, de modo a ocultá-los e evitando qualquer diferença de nível de terreno. Ao nascer do dia, convidou os Barceus para um entendimento, convite que eles aceitaram com alegra, pois não desejavam outra coisa senão um acordo. As duas partes firmaram, então, um tratado, jurando, sobre o fosso coberto, observar os termos do mesmo, enquanto aquele terreno se mantivesse tal qual se encontrava no momento. O tratado estabelecia o pagamento, pelos Barceus, de um tributo módico ao soberano persa, enquanto que os sitiantes não empreenderiam nenhum novo movimento contra eles. Prestado o juramento por ambas as partes, os Barceus, confiantes no tratado, abriram todos os portões da cidade, deixando entrar os inimigos de há pouco. As tropas persas, destruindo o fosso oculto, invadiram, em massa, a cidade. Destruindo o fosso e, por conseguinte, afundando o terreno naquele ponto, não violavam o juramento que haviam feito, pois o tratado deixava de existir.

    CCII - Os Persas entregaram a Ferétima os mais culpados entre os Barceus, pela morte de Arcesilas, e ela mandou, incontinênti, crucificá-los em torno das muralhas. Às suas mulheres, mandou cortar-lhes os seios e colocá-los igualmente em volta das muralhas. Quanto ao resto dos Barceus, deixou-os à mercê dos Persas, como despojos de guerra, com exceção dos Batíades e dos que nenhuma participação tiveram no assassinato de seu filho. Estes ficaram encarregados da guarda da cidade.

    CCIII - Depois de haverem reduzido os Barceus à escravidão, os Persas retornaram à pátria. Ao chegarem a Cirenes, os Cireneus, em observância a um oráculo, deixaram-nos passar livremente pela cidade; mas enquanto as forças persas a transpunham, Bares, comandante das tropas navais, ordenou a pilhagem. Amásis, que se encontrava à frente das tropas de terra, foi contrário a tal ação, mostrando-lhe que tinham vindo exclusivamente para aniquilar os Barceus. Atravessando a cidade, acamparam na colina de Júpiter Liceu, mas os soldados de Bares, arrependendo-se de não haverem realizado seu intento, resolveram voltar e penetrar novamente na praça. Os Cireneus, todavia, opuseram-se a essa nova incursão, e os Persas, assombrados ante a firme atitude dos habitantes, retiraram-se precipitadamente, indo acampar a uma distância de sessenta estádios da cidade. Enquanto armavam acampamento, chegou um correio da parte de Ariando, chamando-os de volta à corte. Desprovidos de mantimentos para a viagem de regresso, tiveram de recorrer aos Cireneus, pedindo-lhes que lhes fornecessem víveres, e obtidos estes, puseram-se em marcha para o Egito. Ao passarem pelas terras dos Líbios, estes entraram a perseguir alguns grupos isolados, não deixando de acossá-los durante todo o percurso para o Egito, tirando-lhes as roupas e bagagens, e matando os da retaguarda.

    CCIV - Este exército não conseguiu penetrar mais no país dos Hispéridas do que nos Líbios, em face da resistência que encontravam por toda parte. Quanto aos Barceus, reduzidos pelos Persas à servidão, foram enviados do Egito a Dario, que lhes deu terras na Bactriana, juntamente com um burgo que ainda hoje subsiste e o denominaram Barcéia, nome de sua pátria.

    CCV - Ferétima teve um fim trágico. Mal havia chegado à Líbia, de regresso do Egito, depois de ter-se vingado dos Barceus, pereceu miseravelmente, devorada pelos vermes que formigavam no seu corpo, o que prova que os deuses repelem e castigam os que levam muito longe seus ressentimentos.
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    Item Reviewed: Melpômene - Livro IV Rating: 5 Reviewed By: Pbsena Sena

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