Ciro confia a Araspas a guarda de Pantela - V - Tifsa Brasil
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    18 de maio de 2018

    Ciro confia a Araspas a guarda de Pantela - V

    Ciro confia a Araspas a guarda de Panteia - Os medos estão resolvidos a não deixar a companhia de Ciro - Ciro vai visitar o castelo de Gobrias - Ciro trata de saber quais são os aliados do rei assírio que tinham motivos para se queixar deste - Ciro transpõe os territórios de Gobrias e ganha a aliança de Gadatas - Gadatas dispõe-se a defender os lugares fortes contra os assírios - Ciro marcha em socorro de Gadatas - Traição malograda de um dos oficiais de Gadatas - Derrota dos cadúsios - Pacto entre os reis beligerantes a favor dos lavradores - Gadatas e Ciro partem juntos, e chegam às fronteiras da Média - Ciaxares vem ter com Ciro, para deliberarem a respeito da continuação da guerra.

     Ciro confia a Araspas a guarda de Pantela

    Ciro chamou o medo Araspas. Este medo tinha sido seu companheiro desde a infância, e fora aquele a quem dera a capa, ao retirar-se da corte de Astíages para a Pérsia. Ciro confiou-lhe a guarda da tenda e da mulher, que era esposa de Abradatas, rei da Susiana. Quando foi tomado o acampamento dos assírios, seu marido tinha ido na qualidade de embaixador pedir auxílio ao monarca da Bactriana. Fora escolhido para esta missão por causa dos direitos de hospitalidade, que entre ambos havia. Ciro ordenou a Araspas que a guardasse até que seu marido a reclamasse.
    - Ciro - perguntou Araspas - vistes a mulher que cometeis à minha guarda?
    - Não.
    - Pois eu tive ocasião de vê-la, quando a escolhemos para vós. Ao entrarmos em seu pavilhão, não a conhecemos à primeira vista. Estava sentada no chão, rodeada de todas as suas criadas e vestida como estas. Querendo saber quem era a senhora, olhámos para todas, depressa a distinguimos de todas as outras, posto que estivesse sentada, coberta com um véu, e com os olhos pregados no chão. Mandamo-la levantar, e levantando-se ao mesmo tempo todas as criadas, então se deu a conhecer por sua estatura, robustez, honestidade e beleza, posto que estivesse em trajos simples. As lágrimas lhe corriam até aos pés, molhando os vestidos. Então lhe disse o mais velho dentre nós: - "Não desanimeis. Sabemos que vosso marido é um varão gentil e honrado: mas aquele a quem vos destinamos, não lhe dá vantagem em gentileza, honra e dignidade. Sim, segundo nossa opinião, se alguém há digno de ser admirado, Ciro, a quem pertencereis de ora em diante, está nesse caso." Ao ouvir estas palavras, ela rasgou o véu no meio de clamores, no que a acompanhavam suas criadas. Então lhe pude ver a maior parte do rosto, o pescoço e as mãos. Sempre vos digo, Ciro, que eu e todos que a viram, pensamos que não haveria em toda a Ásia beleza igual. Deveis ir vê-la.
    - O que me dizeis da sua rara formosura, apaga em mim o desejo de a ver.
    - Por quê?
    - Porque, se eu, não tendo vagar para isso, me resolvesse a ir vê-la, movido somente pelo que me contais de sua beleza, receio que esta me provocasse a ir outra vez visitá-la, e que depois, desprezando os negócios de minha obrigação, me entretivesse constantemente na contemplação de sua formosura.
    - Ciro, vós pensais que a formosura é capaz de violentar alguém a transpor os limites de seus deveres? Se assim fora, todos nós seríamos igualmente violentados. Vede como o fogo queima igualmente a todos: porque isso é de sua natureza. Enquanto a mulheres formosas, uns se deixam possuir de amor por elas, outros não; nem todas agradam a todos: cada um ama livremente a quem quer. O irmão não ama a irmã, nem o pai a filha, as quais todavia têm quem as ame. Afora isto, o temor das leis tem força de reprimir o amor. Se uma lei prescrevesse que não tivesse fome quem não comesse, nem sede quem não bebesse, não houvesse frio de inverno, nem calor de verão, tal lei seria inexeqüível, porque tais sensações são naturais. O amor é livre: o homem escolhe esta ou aquela mulher para objeto de seu amor.
    - Se o amor é livre, qual a razão por que o homem não pode, quando quer, desistir de amar? Tenho visto muitos amantes vertendo lágrimas de dor, e como escravos, rendidos ao objeto de seu amor, pessoas que antes reputavam a escravidão o maior mal. Eu os tenho visto liberalizar muitas coisas que não poderiam dispensar, e desejosos de se livrarem desta paixão como de uma doença, não o poderem fazer; pelo contrário, ligados por ela com tão viva força, como se fora com uma cadeia de ferro. Debalde os amantes se rendem como escravos ao objeto amado, e todavia não tentam esquivar tais males, antes curam de que esse objeto lhes não escape.
    - É verdade, assim procedem, o que demonstra sua fragilidade. São tão miseráveis que chegam a desejar a morte, e, tendo mil maneiras de o fazer, não o executam. Gente desta, tentando roubar, não sabe vencer sua tentação, e feito o roubo, vós sois o primeiro a acusá-la e sem perdão castigá-la, porque não tinha necessidade de furtar. O mesmo se pode dizer da formosura: ela não obriga a amar, nem a ter desejos do que se não deve desejar. São os homens de pouco porte, que, não sabendo subjugar seus desejos, atribuem depois a culpa ao amor: pelo contrário, o homem forte e honrado, apetecendo ouro, bons cavalos e mulheres formosas, sabe prescindir destas coisas tão facilmente, que lhes toca injustamente. Eu vi a princesa de que falamos, e apesar de sua formosura, aqui me tendes a cavalo junto de vós, e sempre pronto a cumprir meus deveres.
    - Talvez vos afastásseis mais depressa do que é necessário para que o amor colha o homem em seus laços. Ainda que o fogo não queime apenas se toca, nem a madeira imediatamente se inflame, eu não quero tocar o fogo nem olhar para a formosura. Araspas, eu vos aconselho a não apascentar na formosura por longo tempo a vista; porque se para o fogo queimar é preciso tocar-lhe, a formosura fere com os raios do amor a quem para ela de longe olha.
    - Não vos assusteis, meu Ciro. Ainda que eu estivesse continuamente na presença da princesa, nunca seria induzido à prática de ações repreensíveis.
    - Dizeis bem. Tomai conta dela, como vos ordenei: talvez que ainda nos venha a ser bem útil.
    Concluído este diálogo, separam-se um do outro. O jovem Araspas notava a extraordinária formosura da princesa e sua honestidade, observava a gratidão com que ela lhe retribuía os serviços que ele lhe fazia, mandando-o servir por suas escravas, tendo-lhe preparadas todas as coisas necessárias quando ele entrava na tenda, e tratando dele com todo o cuidado, se estava doente. Este concurso de motivos ocasionou, o que não é para espantar, que o amor tomasse posse do coração de Araspas.

    Os medos estão resolvidos a não deixar a companhia de Ciro

    Querendo que os medos e os outros aliados ficassem com ele voluntariamente, Ciro convocou os oficiais todos e lhes falou neste teor:
    - Medos e vós todos, que presentes vos achais, bem sei que não foi por causa de dinheiro, nem por servir a Ciaxares, que partistes comigo: a vontade de mostrar-me vosso afeto e honrar-me vos empenhou a fazer uma marcha noturna, e a correr os mesmos perigos que nós. Vossos serviços, a não querer eu cometer uma injustiça, serão recompensados. Ao presente não me acho em estado de o fazer e não me envergonho de assim o declarar; aliás julgar-se-ia que minhas promessas se encaminhavam a infundir-vos a vontade de não vos retirardes. Direi mais para minha justificação. Posto que obedeçais ao mandado de Ciaxares, retirando-vos, sempre meu comportamento será digno de vossos louvores, se a fortuna me favorecer. Eu não estou resolvido a retirar-me. Nunca serei traidor à lealdade que jurei aos hircânios; e enquanto a Gobrias, que nos oferece seu castelo, territórios e tropas, farei com que se não arrependa de ter buscado minha amizade. Mais que tudo, temos os deuses, que claramente nos prodigalizam seus favores, e envergonho-me de desprezá-los e partir. Eis a minha resolução. Fazei vós o que entenderdes; mas dai-me vosso parecer.

    O medo, que em outro tempo dissera ser parente de Ciro, tomou a palavra e disse:
    - Ó rei (epíteto é este que me parece tão naturalmente competir-vos, como à chefe das abelhas em uma colmeia, as quais de boa vontade lhe obedecem. Se fica na colmeia, nenhuma sai, se sai, todas a acompanham. Tão suave lhes é serem por ela governadas): dos mesmos sentimentos estão possuídos estes homens para convosco. Quando da Média partistes para a Pérsia, que medo moço ou velho procurou pretexto para não vos acompanhar, até que Astíages nos mandou voltar? Quando depois viestes da Pérsia em nosso auxílio, vimos que todos os vossos amigos se alistavam de boa vontade sob vossas bandeiras: e agora nesta expedição todos os medos vos acompanharam espontaneamente. Pensamos que vossa presença nos infunde coragem no território inimigo, e sem vós temeremos até voltar à pátria. Os outros declarem seus intentos; eu, e os que estão debaixo do meu comando, não nos separaremos de vós, cuja presença e benefícios nos dão tolerância nos trabalhos.
    - Ó Ciro - disse Tigranes - não vos espanteis que eu guarde este silêncio. Estou aqui, não para entrar em discussões, mas para executar vossas ordens. Medos, se vos retirásseis, eu atribuiria vosso proceder à inspiração de algum gênio maligno, que não quer vossa felicidade. Quem, não destituído de juízo, voltará as costas aos inimigos que vão fugindo, e recusa receber-lhes as armas, as pessoas e os bens, que eles oferecem? Mormente tendo nós um general, que mais se apraz (invoco o testemunho dos deuses) em nos beneficiar do que em locupletar-se.
    - Ciro - exclamaram todos os medos - vós nos trouxestes da pátria, à pátria nos reconduzireis quando vos parecer conveniente.
    - Grande Júpiter - disse Ciro - peço-vos que meus benefícios excedam a deferência com que estes me tratam.
    Mandou então que se pusessem sentinelas para segurança, que os persas distribuíssem as tendas, as melhores aos cavaleiros, as outras aos infantes, que fossem levados à companhia dos persas os víveres preparados, e os cavalos já pensados, de maneira que só aos persas ficava o cuidado do que era atinente à guerra. Assim passaram os dias.

    Ciro vai visitar o castelo de Gobrias

    No dia seguinte pela manhã, partiram para o castelo de Gobrias, Ciro e cerca de dois mil persas a cavalo, seguidos de outros tantos armados de escudos e espadas. O resto do exército marchava em forma. Ciro ordenou que cada um anunciasse a seus subordinados que seria castigado todo aquele que fosse encontrado fora da retaguarda, ou da vanguarda, ou dos flancos do exército.

    Pela tarde do dia imediato, chegaram ao castelo de Gobrias e viram que por sua fortaleza seria capaz de repelir completamente qualquer invasão. Por fora das muralhas andavam grandes manadas de bois e rebanhos de ovelhas. Gobrias mandou dizer a Ciro que desse uma volta em roda dos muros, para observar se havia algum lugar acessível, e enviasse dentro do castelo algumas pessoas de confiança, que lhe participassem o que vissem. De feito, querendo examinar se o castelo era por algum lado acessível ou se Gobrias lhe mentira, Ciro deu a volta e notou que era tão forte que o acesso seria impossível. Os que tinham ido ter com Gobrias, vieram dizer que havia no castelo tantas provisões que, segundo lhes parecia, na idade de um homem não padeceriam míngua os que habitavam dentro dele. Esta notícia causava a Ciro certa impressão. Gobrias veio ter com ele com todos que havia no castelo, uns trazendo vinho, outros farinha, outros bois, porcos, ovelhas e cabras, para dar uma lauta ceia ao exército de Ciro. Distribuíram isto às pessoas a quem competia tal mister, e prepararam a ceia.

    Saíram todos do castelo, e Gobrias pediu a Ciro que entrasse com a cautela que lhe parecesse necessária. Ciro mandou adiante alguns exploradores com um corpo de tropas e em seguida entrou: e conservando as portas abertas, chamou todos os seus amigos e capitães.
    Logo que entraram, Gobrias apresentou a Ciro taças de ouro, jarros, armas, alfaias de todas as espécies, grande porção de daricos, e todas as preciosidades. Afinal apresentou sua filha, que além de sua extraordinária beleza era de majestosa estatura: vinha vestida de luto por causa da morte de seu irmão.
    - Ciro - disse Gobrias - de todas estas coisas vos faço doação. Disponde de minha filha a vosso bel prazer. Só vos rogamos, eu como já vos roguei, que vingueis os manes de meu filho; ela agora vos roga que vingueis os manes de seu irmão.
    - Em outra ocasião vos prometi - tornou Ciro - vingar-vos com todas as minhas forças, se me não enganásseis. Agora que vejo vossa verdade, devo cumprir a promessa, a qual, com o auxílio divino, faço também à vossa filha. Recebo vossos presentes, mas para dá-los a esta, e a quem for seu esposo. Para mim só reservarei um, o qual não trocarei por todas as riquezas de Babilônia e de todo o mundo.

    Cheio de admiração, e suspeitando que Ciro iludia sua filha, Gobrias lhe perguntou que presente era esse de que falava.
    - Eu sei - respondeu Ciro - que há muitos homens infestos contra o perjúrio, contra a injustiça e contra a mentira, mas como ninguém lhes confia riquezas consideráveis, o poder real, castelos fortificados, filhos queridos, morrem sem ostentar suas qualidades louváveis. Enquanto a mim, metendo-me vós de posse de um castelo fortificado, de variados tesouros, de vossas tropas, e de vossa amável filha, patenteastes ao mundo que não sou perjuro para com os hóspedes, nem injusto por causa do dinheiro, nem quebrantador de pactos. Tal é o presente a que me refiro, do qual jamais me esquecerei enquanto possuir sentimentos de justiça e for por eles elogiado. Da minha parte buscarei galardoar-vos com todas as venturas. Não tenhais receio que falte à vossa filha um esposo digno dela. Tenho muitos amigos, e bons, dos quais algum desposará vossa filha; não posso dizer se tão rico ou mais do que ela. Sabei, porém, que alguns deles, não é incitados pelo dote que lhes derdes que vos hão de respeitar mais. Eles invejam minha sorte, e pedem aos deuses que os deixem provar que não são menos leais do que eu para com seus amigos, nem dão vantagem aos seus inimigos, quando os deuses os não desfavorecem. Preferem a virtude e a boa educação a todos os vossos tesouros, reunidos aos dos sírios a assírios. É desta qualidade de gente que vedes aqui sentada.
    - Pelas divindades - disse Gobrias sorrindo-se - mostrai-me, Ciro, esses homens, para vos pedir um para meu genro.
    - Não é preciso mostrar-vos: vinde conosco, e podereis até indigitá-los a outrem.
    Ditas estas palavras, Ciro travou-lhe da destra, levantou-se, e não cedendo às suas instâncias para que ceasse dentro do castelo, saiu com toda a comitiva e foi cear ao seu acampamento e com ele Gobrias. Ciro, deitado sobre um monte de ervas, disse para Gobrias:
    - Contai-me cá: tendes maior número de camas do que cada um de nós?
    - Por Júpiter, vós tendes mais tapetes e mais camas do que nós, e uma habitação mais larga, vós que tendes por habitação toda a vastidão da terra e todo o céu. Desta forma vossos leitos são tantos quantos lugares há na superfície da terra; vossas tapeçarias não são feitas das lãs que as ovelhas produzem, mas são os mesmos arbustos e ervas, que nascem nos montes e nos campos.

    Gobrias, que pela primeira vez ceava com os persas, vendo a simplicidade de suas comidas, notava que os seus comiam com mais apetite. De feito, um persa, criado nas escolas públicas, à vista das iguarias não mostra sofreguidão, nem com os olhos nem com as mãos, e seu espírito jaz no mesmo sossego, como se não estivera à mesa. Assim como os cavaleiros, ao mesmo tempo que vão cavalgando, podem, sem perturbação, ver, ouvir e dizer o que for necessário, também à mesa entendem os persas deve haver prudência e moderação, e o deixar-se vencer pelo apetite das iguarias é próprio dos cães e das feras.

    Também Gobrias observava as divertidas perguntas, que uns a outros faziam, seus recíprocos gracejos, e outros entretenimentos, tudo sem a menor sombra de injúria, de indecência ou de escândalo; mas o que sobretudo lhe parecia elogiável, era que tinham igual porção todos que se expunham aos mesmos riscos, e que o mais esplêndido banquete tinha lugar para eles quando adestravam o melhor possível seus aliados nos exercícios guerreiros. Gobrias levantou-se para se retirar ao seu castelo, e disse a Ciro:
    - Não me admiro que possuindo nós maior porção de taças, de vestidos e de ouro, sejamos contudo inferiores a vós. Nós curamos de amontoar riquezas; vós de vos fazerdes mais valorosos.
    - Gobrias - disse Ciro - aparecei pela manhã com a cavalaria armada, para que vejamos vossas forças, e nos conduzais por vossos territórios, a fim de examinarmos que lugares havemos de ter por amigos e quais por inimigos. Ditas estas palavras, despediram-se.

    Ciro trata de saber quais eram os aliados do rei assírio que tinham motivos para se queixar deste

    Ao romper da manhã, compareceu Gobrias com a cavalaria, e partiu na frente do exército. Ciro, como general experto, não atendia somente a marcha, ia ao mesmo tempo refletindo como diminuiria as forças dos inimigos, aumentando as suas. Com estas vistas, chamou Tigranes e Gobrias, os quais lhe pareciam capazes de dar as necessárias instruções, e lhes disse assim:
    - Penso que consultando acerca da guerra com amigos tão fiéis como vós, não poderei errar. Vosso empenho em que o rei assírio seja vencido, deve ser ainda maior do que o meu. Enquanto a mim, se a empresa for mal sucedida, acharei talvez novo arbítrio; pelo contrário, tudo que vos pertence, passará a mãos alheias. O rei não me faz guerra porque me tenha ódio, mas porque lhe faz sombra nosso poder. Vós, porém, sois por ele odiado, porque julga que o ofendestes.
    - Adotai vossos planos - responderam ambos - cuja boa disposição reconhecemos. Nós estamos muito desejosos de ver o êxito da empresa.
    - Dizei-me, é só contra vós que o rei da Assíria se mostra infesto, ou sabeis de alguma outra nação que também lhe seja contrária?
    - Por Júpiter - respondeu Gobrias - os cadúsios, nação vasta e aguerrida, são acérrimos inimigos seus; assim como também os sacas, nossos vizinhos, que hão provado os impulsos de sua tirania; porque ele tem tentado subjugá-los como no-lo pretendeu fazer.
    - E julgais que estas duas nações se bandearão conosco de boa vontade?
    - Por certo, se pudessem aliar-se conosco.
    - Pois quem o impede?
    - Os assírios, cujo território agora vamos pisando.
    - E vós, Gobrias, não me falastes contra a grande insolência deste mancebo, que hoje ocupa o trono da Assíria?
    - Dessa insolência eu mesmo fui vítima.
    - Mas porventura vós somente experimentastes os efeitos de sua prepotência ou alguns outros mais?
    - Há muitos outros: mas só vos falarei do filho de um homem muito mais poderoso, para não estar a falar quantos têm dele recebido insultos. Este mancebo, companheiro do príncipe, como meu filho, bebendo uma ocasião em sua companhia, foi por ele surpreendido e maltratado. Dizia o malvado que ele havia solicitado sua amásia; mas era opinião mais geral que o fora porque esta louvara a beleza do mancebo e augurara a dita de quem o tivesse por marido. Agora, por morte de seu pai, sucedeu-o no governo de seus Estados.
    - Porventura este mancebo não nos verá com gosto, se pensar que o vamos vingar?
    - Por certo, mas é dificultoso ir ter com ele.
    - Por quê?
    - Por ser preciso passar além de Babilônia.
    - Que tem isso de dificultoso?
    - Porque desta cidade sairão mais tropas do que as vossas. Sabei que se agora os assírios nos trazem menos armas e menos cavalos do que ao princípio, é porque têm observado a pequenez de nosso exército, e este rumor se tem largamente propalado. Parece-me, pois, mais profícuo, marchar com cautela.

    - Dizeis bem, Gobrias, fazendo ver que devemos marchar com grande segurança; mas nenhuma marcha será para nós mais segura do que irmos direto à Babilônia, se nesta cidade estão as principais forças dos inimigos. Dizeis que estes são numerosos, e eu acrescento que serão formidáveis, se tiverem confiança na multidão. Se não nos virem, e julgarem que é por medo que lhes não aparecemos, o terror que os domina cederá o lugar à confiança, que será tanto maior quanto mais nos demorarmos em aparecer-lhes. Se desde já demandarmos os adversários, acharemos uns chorando a falta dos que morreram às nossas mãos, outros ligando as feridas que lhes fizemos, todos em geral lembrando-se do valor do nosso exército, da fuga em que os pusemos, dos males que lhes causámos. É inabalável a coragem de um exército numeroso, dotado de confiança: mas se começa a lavrar em seu seio o medo, que é tanto maior quanto mais numeroso é o exército, e sobe de ponto com as notícias adversas, com os acontecimentos funestos, com a tristeza e consternação pintadas nos semblantes, neste estado não é fácil extingui-lo com exortações, nem incutir denodo aos soldados para combater, ou para fazer uma retirada airosa. E quanto mais enérgicas forem as exortações, mais evidente lhes parecerá o perigo. Consideremos a matéria à sua verdadeira luz. Se o êxito das batalhas se aferisse pelo número dos pelejadores, devíeis temer, nós devíamos conhecer o perigo, mas se as vitórias estão ligadas à coragem dos combatentes, animai-vos, que entre os nossos se encontrará maior porção de soldados decididos do que entre os contrários.

    Para que aumente vossa confiança, refleti que os inimigos são agora muito menos do que quando foram por nós desbaratados, e muito menos ainda do que quando os fizemos fugir: pelo contrário, os nossos estão mais animosos com a ebriedade da vitória, mais numerosos com vossa junção. Não tenhais os vossos, por modéstia, em pouca conta, depois que se uniram aos nossos. Gobrias, em um exército vitorioso, até os bagageiros marcham com ardor. Portanto, agora podemos ser vistos dos adversários, e nunca lhes pareceremos mais terríveis do que indo ter com eles. Este é o meu parecer, e guiai-nos contra os inimigos.

    Ciro transpõe os territórios de Gobrias e ganha a aliança de Gadatas

    Depois de quatro dias de marcha, chegaram às fronteiras dos Estados de Gobrias, e entrando no país inimigo, Ciro mandou postar em ordem de batalha a infantaria, e aquela parte da cavalaria que julgou a propósito. O resto mandou correr o campo, com ordem de matar todos os inimigos que encontrassem armados, e trazer-lhe os outros com o gado que pudessem apanhar. A mesma ordem passou aos cavaleiros persas, muitos dos quais voltaram queixando-se de suas quedas. A presa foi considerável. À vista do esbulho, Ciro convocou os chefes dos medos, dos hircânios, e os homotimos, e lhes disse:
    - Amigos, Gobrias nos acolheu a todos com a mais benigna recepção. Se dos despojos tirarmos, segundo o costume, a parte destinada para os deuses, e o que for suficiente para o exército, e dermos o restante a Gobrias, será isto uma demonstração manifesta de que antojamos exceder em benefícios aqueles que nos beneficiam.

    Pronunciadas estas palavras, foram gerais a aprovação e os aplausos.
    - Isso - exclamou um dos ouvintes - é digno de todo o beneplácito. Gobrias, que nos tinha por uns miseráveis, por não andarmos carregados de daricos, nem bebermos por taças de ouro, ficará sabendo que também sem ouro se pode ser liberal.
    - Ide - continuou Ciro - entregar aos magos a parte destinada aos deuses, tirai a que for suficiente para o exército, chamai Gobrias e dai-lhe o resto.
    Assim se fez.
    Depois disto marchou para Babilônia com o exército em ordem de batalha; e notando que os assírios lhe não saíam ao encontro, Ciro despachou Gobrias a dizer ao rei, que se quisesse vir pelejar em defesa de seu país, ele o esperava; se não, era forçoso que se submetesse aos vencedores.
    Gobrias foi até onde podia chegar sem risco, e intimou o rei assírio, o qual despediu um enviado com esta resposta:
    - Gobrias, vosso senhor vos manda dizer que não está arrependido de ter dado a morte a vosso filho; mas sim de vos não ter feito o mesmo. Se quereis pelejar, vinde daqui a trinta dias: agora estamos ocupados em preparativos.
    - Oxalá que - respondeu Gobrias - esse arrependimento nunca vos desampare; pois é certo que ele vos dilacera o coração, depois que se apoderou de vós.
    Gobrias veio dar parte do resultado de sua comissão, Ciro retirou-se com o exército e disse a Gobrias:
    - Não me tínheis dito que o príncipe maltratado pelo rei assírio se nos agregaria?
    - Essa certeza tenho, porque neste objeto muitas vezes falámos sinceramente um com o outro.
    - Visto isso, ide ter com ele, e primeiro examinai quais são suas idéias. Se virdes que ele quer ser nosso amigo, tomai conta em ocultar-lhe nossa amizade. Na guerra não se pode beneficiar melhor os amigos do que parecendo inimigo; assim como não se pode melhor hostilizar os inimigos do que parecendo amigo.
    - Sim, Gadatas comprará por bom preço o gosto de hostilizar o rei da Assíria. Agora trata-se de saber como o projeto será posto em prática.
    - Dizei-me, Gobrias, o governador daquele castelo das fronteiras, lá para a parte dos hircânios e dos sacas, o qual vós dizeis fora edificado para contê-los, e para servir de baluarte ao país, receberá nele Gadatas, se este se aproximar com seu exército?
    - Por certo, se for insuspeito.
    - Não haverá a menor sombra disso, indo eu atacar seus castelos como quem quer tomá-los, e rechaçando-me ele com todas as suas forças. Tomarei posse de alguma de suas fortalezas; e ele aprisionará alguns dos nossos, mormente alguns dos arautos enviados aos povos que vós dizeis adversos ao rei. Os prisioneiros dirão que se encaminhavam para o exército a buscar escadas para o castelo. Gadatas, usando de dissimulação, irá dar parte de nossos desígnios ao governador.
    - Dessa maneira estou persuadido que não só o receberá no castelo, mas insistirá que fique em sua companhia até que vos afasteis.
    - Entrando ele no castelo, poderá entregar-no-lo.
    - A entrega do castelo é certa, dispondo ele as coisas dentro, e invadindo vós por fora animosamente.
    - Ide pois ter com ele, dai-lhe as necessárias instruções nesta matéria, e voltai sem delonga. Nada lhe podereis dizer de mais terminante em abono de nossa boa fé, do que falando do tratamento que de nós tendes recebido.

    Gobrias partiu. Gadatas folgou com sua visita, e em tudo conveio.

    Noticiado por Gobrias da fausta execução que se esperava do plano, Ciro foi no dia seguinte invadir o castelo indicado por Gadatas, e apesar da resistência deste, o tomou. Dos arautos enviados a diferentes partes, Gadatas deixou fugir uns, para guiarem as tropas e conduzirem as escadas e apanhou outros, que interrogou na presença de muitas testemunhas. Informado de sua missão, Gadatas entendeu logo em preparar-se e de noite pôs-se a caminho, para avisar o governador. Este dá-lhe crédito, recebe-o como auxiliar, e ambos curam da defesa do castelo; mas ao aproximar-se Ciro, Gadatas toma posse do castelo, ajudado pelos prisioneiros persas.

    Gadatas dispôs as coisas do interior do castelo, e veio ter com Ciro, a quem disse adorando-o, segundo o costume:
    - Alegrai-vos, Ciro.
    - Assim faço, não só porque com o favor dos deuses mo ordenais, mas também porque me pondes nessa obrigação. Eu tenho a peito deixar os meus aliados pacíficos possuidores deste castelo. Se o assírio vos privou da faculdade de ter geração, não vos privou da de obter amigos. Pelo ato que acabais de praticar, conciliastes nossa amizade, a qual vos será de maior utilidade do que se tivésseis filhos e netos.

    Informado do que se acabava de passar, o chefe hircânio corre para Ciro, trava-lhe da destra e exclama:
    - Ciro, grande amparo dos amigos, em grande reconhecimento me pondes para com os deuses, por me terem dado vossa amizade.
    - Ide tomar posse desse castelo, que agora vos obriga a testemunhar-me vossa afeição. Disponde nele as coisas de modo que esta conquista seja da maior vantagem para vosso país, para os outros aliados, e sobretudo para Gadatas, que a fez e no-la entregou.

    - Não é mais adequado, quando chegarem os cadúsios, os sacas e os meus compatriotas, chamarmos Gadatas, e consultarmos todos os interessados nesta conquista de que modo se poderão dela tirar as maiores vantagens?
    Ciro aprovou a proposta, e decidiu-se que em comum se guardasse o castelo, para lhes servir de baluarte contra os assírios. Esta deliberação encheu de muito maior coragem os cadúsios, sacas e hircânios. Os cadúsios forneceram vinte mil peltastas e quatro mil cavaleiros; os sacas dez mil arqueiros de pé e dois mil cavalos; os hircânios a infantaria que puderam e preencheram o número de dois mil cavalos. Até este tempo deixavam em seu país a maior parte da cavalaria, por causa da má vontade que os cadúsios e sacas tinham aos hircânios. Enquanto Ciro entendia na segurança de sua nova conquista, muitos assírios, que habitavam por aquelas paragens, lhe vinham trazer armas e cavalos, já com medo de seus próprios vizinhos.

    Gadatas dispõe-se a defender os lugares fortes contra os assírios - Ciro marcha em socorro de Gadatas

    Gadatas vai ter com Ciro, e diz-lhe:
    - Tive notícia que o rei da Assíria, enraivecido pelos sucessos que tiveram lugar no castelo, se prepara para fazer uma invasão em meus Estados. Se me concedeis, eu tentarei defender os lugares fortes: o mais pouco importa,
    - Se agora daqui partirdes, quando chegareis à vossa casa?
    - Ao terceiro dia cearei nela.
    - A este tempo já o assírio estará invadindo vossas terras.
    - Sem dúvida. Ele se há de apressar tanto mais, quanto mais distante vos vir.
    - E em quantos dias chegarei eu lá com o exército?
    - Como ele é muito numeroso, não serão precisos menos de seis ou sete dias.
    - Parti sem interpor dilação: eu marcharei como puder.

    Gadatas partiu, Ciro convocou todos os chefes dos aliados, muitos dos quais pareciam respirar coragem, e lhes falou neste teor:
    - Aliados, Gadatas, sem receber de nós nenhum benefício, prestou-nos eminentes serviços. Sabe-se agora que o rei da Assíria invade seus Estados para castigar as ofensas que julga ter recebido, e por se persuadir que se ficarem impunes os que conosco se bandeiam, e se os aliados forem por nós maltratados, em pouco tempo se verá inteiramente desamparado. Agora, amigos, parece-me honroso e justo dar provas de gratidão aos serviços do benemérito Gadatas, prestando-lhe socorros; o que, segundo me parece, redundará em vantagem nossa. Se fizermos ver que diligenciamos vencer com hostilidade os que nos hostilizam e com benefícios os que nos beneficiam, é natural que muitos quererão ser nossos amigos, e ninguém desejará ter-nos por inimigos. Se não dermos auxílio a Gadatas, pelos deuses, com que razão convenceremos a outrem para seguir nossa parcialidade? Como ousaremos preconizar nosso comportamento? Como poderá algum de nós pôr os olhos em Gadatas, se, sendo nós tantos, nos deixamos vencer em benefícios por um só homem, e tal como ele.

    Foi unânime a aprovação. Ciro continuou:
    - Visto ser esta também a vossa opinião, marchem na frente, com as bestas de carga e os carros, os soldados mais aptos para este mister, comandados por Gobrias, que conhece os caminhos e tem necessária capacidade. Nós marcharemos com os mais robustos cavaleiros, levando víveres para três dias. Quanto mais leves formos, com tanto mais prazer jantaremos, cearemos e dormiremos nos dias seguintes. Marcharemos nesta ordem. Vós, Crisantas, ide na vanguarda com os soldados armados de loriga; e como a estrada é larga e plana, podem ir na frente todos os taxiarcas, formando cada um sua companhia em uma coluna. Assim cerrados marcharemos com mais velocidade e segurança. Mando que vão à frente os couraceiros, que são a tropa mais pesada; porque assim marcham com facilidade os soldados armados à ligeira; e é por isso que, se de noite estes marcham na vanguarda, se acontece desviarem-se, não admira espalhar-se o exército. Após estes marche Artabazo com os peltastas e arqueiros persas; o medo Andamias com a infantaria meda; Embatas com a infantaria armênia; Artuchas com os hircânios; Tambradas com a infantaria dos sacas; Datamas com os cadúsios. Todos estes comandantes ponham os taxiarcas na frente, os peltastas à direita, os arqueiros à esquerda. Esta disposição facilitará as evoluções. Seguir-se-ão os bagageiros, cujos chefes farão com que tudo fique preparado antes de se deitarem, e pela manhã compareçam com as bagagens no lugar marcado e marchem em boa ordem. Depois das bagagens, o persa Madatas comande a cavalaria pérsica, indo na frente os ecatontarcas, formando estes, como os infantes, suas companhias em uma só coluna. Siga-se o medo Rambacas com sua cavalaria; vós, Tigranes, com a vossa; e os outros hiparcas com as forças que trouxeram. Sigam-se os sacas, e fechem a marcha os cadúsios, que foram os últimos que vieram; e vós, Alceuna, que os comandais, não consenti ninguém atrás deles. Todos os comandantes e soldados prudentes marchem em silêncio. De noite é mais por meio dos ouvidos que dos olhos, que é preciso sentir e agir. As desordens são mais nocivas e mais difíceis de se aplacar de noite que de dia. Por essa razão é mister guardar silêncio, e ocupar cada um seu posto. Quando de noite for preciso levantar campo, multipliquem-se as sentinelas, e sejam rendidas a miúdo, para que uma comprida vigília lhes não embarace a marcha. Chegada a hora de marchar, dê-se sinal com uma trombeta. Em suma, ide preparar-vos para vos encaminhardes à Babilônia. Os primeiros exortem os que vão na sua retaguarda a segui-los de perto.

    Concluído este arrazoado, voltaram às suas tendas, e no caminho falaram da grande memória de Ciro, que tendo tantas ordens que dar, chamava a todos por seu nome. Ciro havia-se exercitado nisto, porque estranhava que os artistas mecânicos soubessem os nomes dos instrumentos de seu ofício, os médicos soubessem os nomes dos instrumentos da sua arte, e de todos os remédios que administram, e que um general seja tão ignorante que não saiba os nomes de seus oficiais, dos quais se há de servir como de instrumentos para atacar, para defender, para animar e para aterrar.

    Quando Ciro queria honrar alguém, parecia-lhe adequado chamá-lo por seu nome. Parecia-lhe que os militares, que se julgavam conhecidos do general, punham todo o empenho em desempenhar feitos de coragem no campo da batalha, e não inquinar-se com ações de covardia. Parecia-lhe incoerente imitar certos senhores, que em suas casas dão ordens indeterminadamente:
    - Vão buscar água, cortem lenha.

    A uma ordem tão vaga, olham os criados uns para os outros, nenhum a executa, todos ficam culpados, nenhum se julga tal, nenhum teme o castigo, porque a todos é comum a culpa. Assim pensando, Ciro nomeava sempre aquele a quem intimava suas ordens.

    Os soldados cearam, postaram-se sentinelas, prepararam-se as bagagens, e dormiram. Era pelo meio da noite quando soou a trombeta. Ciro disse a Crisantas que se conservasse à frente do exército, e saiu com seus ajudantes. Em curto espaço se apresentou Crisantas com os couraceiros e Ciro, dando-lhe guias, o mandou marchar vagarosamente, até segunda ordem, porque não estavam ainda todas as tropas em movimento. Ciro, conservando-se no mesmo lugar, ordenava os soldados à proporção que vinham chegando, e fazia apressar os mais remissos.

    Posto em marcha todo o exército, Ciro expediu para Crisantas alguns cavaleiros, para lhe dizer que já tudo estava em movimento e que acelerasse o passo. Ciro foi caminhando a cavalo para a vanguarda, e em silêncio observava as companhias. Se via os soldados em boa ordem, e marchando calados, chegava-se a eles, perguntava-lhes os nomes e os elogiava; se via confusão, indagava a causa e entendia em remediá-la. Falta fazer menção de uma cautela de Ciro nas marchas noturnas. Fazia partir adiante do exército um pequeno número de velozes exploradores, que pudessem ser vistos de Crisantas, e este ser visto por eles, para dar parte do que ouvissem ou descobrissem. Um oficial, que os dirigia, tinha a seu cargo anunciar o que julgasse a propósito, não importunando com vãs notícias. Assim marcharam essa noite.

    Ao alvorecer, Ciro deixou com a infantaria dos cadúsios, que ia em último lugar, a cavalaria da mesma nação, para defendê-la, e mandou marchar para diante a restante cavalaria; porque, estando adiante os inimigos, queria achar-se em estado de combater, se lhe saíssem ao encontro, ou persegui-los, se fugissem. Com este intuito tinha sempre esquadrões à sua disposição, uns para mandar em perseguição dos adversários, outros para ficarem debaixo de suas ordens. Nunca mandava toda a cavalaria. Desta maneira ia Giro conduzindo o exército, não ocupando um lugar fixo, cavalgando por uma e por outra parte, e dando providências.

    Traição malograda de um dos oficiais de Gadatas

    Um dos principais oficiais da cavalaria de Gadatas, refletindo que seria galardoado com tudo que Gadatas possuía, se causasse a destruição do rebelde, enviou ao rei um mensageiro, criatura de sua confidencia, para lhe dizer que, se viesse com o exército assírio às terras de Gadatas, armando uma emboscada, aprisionaria o rebelde e seus soldados.

    Declarava-lhe quais eram as forças de Gadatas, advertindo que Ciro o não acompanhava e por onde este marchava. Dizia-lhe que se pudesse, voltaria à pátria depois de dar a morte ao rebelde, se não, passaria ao menos o resto de seus dias no serviço do rei. Para captar maior crédito, pelo mesmo mensageiro mandava dizer à família que entregasse ao rei o castelo que possuía nos territórios de Gadatas, e tudo que dentro havia. O mensageiro a cavalo em breve se apresenta ao rei, e desempenha sua comissão. O rei logo tomou posse do castelo, e em muitos lugares foi pôr de emboscada muita cavalaria e carros. Ao aproximar-se, Gadatas despediu adiante alguns exploradores. O rei, assim que os viu, mandou que dois ou três carros e um pequeno número de cavaleiros deitassem a fugir, como gente aterrada por serem poucos. Os exploradores, vendo isto, foram-lhes ao alcance, e deram sinal a Gadatas, que iludido foi também perseguindo com todo o ardor. Os assírios, parecendo-lhe certa a presa, saem da emboscada: os soldados de Gadatas fogem, os assírios perseguem-nos. O traidor dá um golpe não mortal no ombro de Gadatas e vai reunir-se aos assírios: é reconhecido, pica esporas ao cavalo e ajuda o rei na perseguição. Os cavaleiros pior montados são apanhados pelos mais velozes, e todas as tropas de Gadatas, com as forças estancadas pela marcha, estavam a pique de ceder, quando avistaram o exército de Ciro.

    A vista deste exército foi para eles tão jucunda, como para o navegante a vista do porto depois da tormenta. Ciro, ao princípio, ficou surpreendido, mas vendo o que era, e que os adversários se dirigiam para ele, avançou com o exército em ordem de batalha. Os adversários fogem, Ciro manda no alcance o corpo de tropas destinado para estas ocasiões, e ele mesmo o segue, como julgava conveniente. Muitos carros foram apanhados, uns, por terem caído os condutores, ou ao voltar ou em outras circunstâncias; outros sendo interceptados pelos cavaleiros. Morreram muitos assírios, inclusive o que ferira Gadatas. Da infantaria que sitiava a fortaleza de Gadatas, uns meteram-se no castelo, que se rebelara contra Gadatas, outros recolheram-se em uma grande cidade pertencente ao rei, onde este mesmo se recolheu com os carros e a cavalaria.

    Depois disto entrou Ciro nas terras de Gadatas, e, cometendo o cuidado dos feridos às pessoas competentes, foi saber como Gadatas estava da ferida. Gadatas, que já a tinha ligada, lhe saiu ao encontro. Vendo-o, Ciro alegrou-se e disse:
    - Eu vinha saber como estáveis.
    - Pelos deuses - respondeu Gadatas - eu venho de novo contemplar o semblante de quem tem uma alma tão grande, que, sem necessidade de mim, sem me ter feito nenhuma promessa, nem ter em particular recebido de mim nenhum favor, só por lhe parecer que sou útil a seus amigos, me acaba de prestar tão capital auxílio, que sem ele seria vítima infalível da morte. Pelos deuses, se eu tivesse um filho, por certo que este não me seria mais afeto do que vós. Conheço diversos filhos, e sobretudo o atual rei da Assíria, que deu a seu pai mais desgostos do que vos poderá dar.
    - Gadatas - redargüiu Ciro - admirais minha pessoa e omitis o que é mais de admirar.
    - Que é?
    - É que tantos persas, tantos medos, tantos hircânios, todos os armênios, sacas e cadúsios, que estavam presentes, se esmeraram em vosso livramento.
    - Ó Júpiter e mais deuses, sede liberais para com estas nações, mormente para com o príncipe que as tem feito tão generosas. E para que hospedemos lautamente esta gente que elogiais, recebei os presentes que vos ofereço segundo minhas possibilidades.
    Logo mandou trazer grande porção de mantimentos para dedicar aos deuses e banquetear o exército de um modo condigno de suas proezas e vitórias.

    Derrota dos cadúsios - Pacto entre os reis beligerantes a favor dos lavradores

    O comandante dos cadúsios, que ocupava a retaguarda, não tendo tido parte na perseguição, quis perpetrar alguma ação de nome, e sem o comunicar a Ciro, fez uma correria para o lado de Babilônia. Espalhada a cavalaria, o rei assírio saiu do castelo, onde se recolhera, à frente de seu exército excelentemente formado em ordem de batalha; e vendo que eram só os cadúsios, dá sobre eles, mata o comandante e outros muitos, aprisiona muitos cavaleiros, e recupera a presa que levavam. O rei foi perseguindo até onde lhe pareceu não haver risco, e retrocedeu. Os primeiros cadúsios que escaparam apareceram pela tarde no acampamento. Informado do acontecimento, Ciro lhes foi sair ao encontro, e à medida que vinham chegando os feridos, os recebia, e enviava a Gadatas, para que tratasse deles: recolhia os outros na mesma tenda, e ele mesmo, auxiliado dos homotimos persas, curava de que se lhes fornecesse o necessário. Nestas ocasiões as almas sensíveis gostam de cooperar com seu trabalho. Ciro mostrava-se consternado; e ceando os outros à hora competente, ele, acompanhado de seus ajudantes e dos médicos, não queria deixar nenhum sem ser tratado e por si próprio observava, e se não podia fazer, mandava gente sua. Depois, entregaram-se ao repouso.

    Ao romper da aurora, anunciou por um pregoeiro que se congregassem os outros chefes e todos os cadúsios e lhes falou nestes termos:
    - Aliados, a espécie humana está sujeita às desgraças que acabam de suceder. Não é para admirar que os homens errem; mas convém tirar partido destes erros. Aprendamos a nunca nos separarmos do grosso do exército com forças inferiores às dos inimigos. Não quero dizer que jamais se empreenda nenhuma tentativa com forças ainda menores que as do comandante cadúsio; mas deve-se fazer participante o general-chefe que pode dar socorro. Apesar destas cautelas, pode a tentativa ser mal sucedida; mas lá está o general, que, iludindo os inimigos, pode fazer com que não ataquem, atraindo-lhes a atenção, e pôr os amigos em segurança. Assim, apesar de distantes, acham-se ligados com o grosso do exército. Sem fazer esta participação, o comandante que sai com seus soldados expõe-se aos mesmos perigos como se estivesse só. Os inimigos, se os deuses favorecerem nossas vistas, não tardarão a experimentar os efeitos de nossa vingança. Apenas tiverdes jantado, eu vos levarei ao lugar onde fostes desbaratados e simultaneamente sepultaremos os mortos e faremos ver aos inimigos que o campo em que se coroaram com o triunfo, está então ocupado por tropas mais corajosas, para que não achem prazer na vista do lugar onde mataram nossos aliados. Se eles não saírem contra nós, incendiaremos as aldeias, assolaremos as terras, para que se não lisonjeiem à vista do que nos fizeram, mas se aflijam de seus próprios males. Vós outros ide jantar, e vós cadúsios, ide, conforme o vosso costume, eleger primeiramente um chefe, que, com o auxílio dos deuses e nosso, satisfaça vossas precisões; e apenas acabardes de jantar, enviai-o à minha presença.
    Assim se fez.
    Ciro fez sair o exército, confirmou o posto ao comandante escolhido pelos cadúsios, e lhe ordenou que se conservasse junto dele com as tropas, para animá-las se pudesse. Assim foram marchando. Chegando ao lugar marcado, enterraram os mortos, talaram o campo, e voltaram com esbulho ao território de Gadatas.
    Ocorrendo a Ciro que seus novos aliados, habitantes das cercanias de Babilônia, seriam vexados depois de sua partida, mandou dizer assim ao rei pelos prisioneiros assírios e por um embaixador:
    - Estou pronto a não inquietar vossos lavradores, se também vos obrigardes a não inquietar os que pertencem a senhores que se bandearam conosco. Se proibirdes que eles cultivem seus campos, vossa proibição se estenderá a pequeno número, por serem pequenos os territórios deles; ao passo que eu vos permitiria a cultura de espaçosos campos. No caso de guerra a colheita dos frutos pertence ao mais forte; e em paz pertencerá a vós. Se algum dos meus se levantar contra vós, ou dos vossos contra mim, nós ambos o castigaremos.

    Com estas instruções partiu o embaixador.

    Informados desta embaixada, os assírios diligenciaram persuadir ao rei que aceitasse as propostas, e diminuísse quanto possível os funestos efeitos da guerra. O rei, ou persuadido pelos seus, ou de moto próprio, assim praticou. Convencionou-se que houvesse paz com os lavradores, guerra com a gente armada. Assim se executou, enquanto cultivados; mas Ciro determinou a seus aliados que pusessem debaixo de sua proteção seus campos de pastagem, e consentiu que devastassem os dos inimigos, para se tornarem menos penosos os trabalhos da guerra aos aliados. Na verdade, evitar a pilhagem não livra do perigo, e os trabalhos guerreiros tornam-se mais suaves, vivendo à custa dos adversários.

    Gadatas e Ciro partem juntos, e chegam às fronteiras da Média

    Estando Ciro já pronto para partir, Gadatas lhe trouxe muitos e mui variados presentes, que bem mostravam a grandeza de sua casa, inclusive muitos cavalos, que tirara a seus cavaleiros, de quem desconfiava depois da emboscada.
    - Ciro - lhe disse ele - tudo isto vos trago, para de tudo dispordes à vossa vontade; e tudo o mais que possuo, a vós pertence. Não tenho nem terei nenhum filho que herde minha casa; comigo acabar-se-ão minha geração e meu nome.
    Ciro respondeu:
    - Os cavalos aceito eu, porque entendo que é fazer-vos um serviço, dando-os a cavaleiros mais afetos à nossa causa do que os que até agora os tinham. Eu, como há muito o desejo, levarei a cavalaria pérsica ao número de dez mil cavaleiros. Enquanto às demais coisas, guardai-as até que me vejais em estado de vos não ceder em liberalidade. Correr-me-ia de vergonha se vós me presenteásseis a mim mais generosamente do que eu a vós.

    - Creio em vós - redargüiu Gadatas - pois conheço vossa lhaneza: mas vede se estou no caso de poder guardar estas coisas. Enquanto o rei assírio nos tratava como amigos, nada havia de mais agradável do que os lares paternos. A proximidade da espaçosa Babilônia nos obtinha as vantagens de uma grande cidade; e as desvantagens evitávamos nós, recolhendo-nos em nossas mansões. Agora que somos seus inimigos, logo que vos ausentardes, eu e toda a nossa casa seremos por ele insidiados, e passaremos uma vida triste, tendo por vizinhos inimigos mais poderosos que nós. Talvez me pergunteis por que não fiz estas observações antes da minha rebelião. Ó Giro, insultado e cheio de cólera não olhava para minha segurança; minha alma jazia penetrada de impaciência por vingar-se dos deuses e dos homens, cruel não para quem o ofende, mas para aquele em quem reconhece superioridade. Assim os aliados deste réprobo são homens mais réprobos que ele. Se descobrir alguém que lhe faça sombra, podeis contar, Ciro, que esse não tereis vós que combater, porque suas maquinações perderão: e com tais aliados ser-lhe-á fácil também perder-me.

    Ciro julgou atendíveis as razões de Gadatas e disse-lhe:
    - Gadatas, não fortificastes os castelos, para poderdes estar em segurança quando a ele fôsseis? Não sois nosso companheiro na expedição? Se o céu nos proteger, como até agora, é o rei quem vos há de temer, e não vós ao rei. Vinde comigo, e acompanhem-vos aquelas pessoas cuja presença e convivência vos apraz. Mui prestadia me tem sido vossa aliança: da minha parte farei por ser grato.

    Gadatas ao ouvir estas vozes, respirou um pouco, e disse assim:
    - Terei tempo para fazer meus preparativos antes de partir? Tenho vontade de levar comigo minha mãe.
    - Sim, eu me deterei até que me aviseis que estais pronto.
    Gadatas, de acordo com Ciro, presidiou os castelos, que havia fortificado, e enfardou tudo que era necessário para o estabelecimento de uma grande casa, e mandou disporem-se para partir muitas pessoas de sua confiança e outras muitas de quem desconfiava, cometendo a estas últimas o cuidado de conduzirem suas mulheres e irmãs para assim irem apensionadas. Desta forma Gadatas partiu na companhia de Ciro, a quem ia indigitando as estradas, os lugares providos de água, de pastos e víveres.

    Ao avistar a cidade de Babilônia, Ciro pensou que a estrada por onde marchava ia direita às muralhas, e, chamando Gobrias e Gadatas, lhes perguntou se havia outra estrada que não passasse tão perto das muralhas.
    - Senhor - respondeu Gobrias - há outras muitas estradas; mas eu julgava que vós agora queríeis passar o mais perto possível de Babilônia, para mostrar quão numeroso e bem armado está vosso exército. Quando vosso exército era menos numeroso, vos acercastes dos muros, e vossas poucas forças foram observadas; agora, posto que o rei tenha feito, como vos mandou dizer, preparativos para romper as hostilidades, tenho por certo que, ao ver vossas tropas, dará por frustrados todos esses preparativos.
    - Meu Gobrias - instou Ciro - parece-me que estais admirado de que eu com forças diminutas me acercasse dos muros de Babilônia, e agora com multiplicadas forças queira passar desviado deles. Não seja isto objeto de admiração. Diferente é dirigir um exército contra o inimigo de passar à vista dele. Um general prudente, quando marcha contra o inimigo, coloca-o de maneira que possa manobrar expeditamente e à segurança pospõe a velocidade. Para passar à vista do inimigo, é preciso estender os carros e as mais bagagens, e cobrir tudo com gente armada, de sorte que o inimigo não veja nada descoberto. Esta disposição obriga necessariamente a enfraquecer o exército. Portanto, se os adversários, saindo duma praça, atacarem o exército assim disposto, por qualquer parte que ataquem terão certa a vitória; porque um exército tão prolongado não pode ser socorrido senão depois de longo intervalo, enquanto que os inimigos outra vez se recolhem. Se desfilarmos à vista de Babilônia, só na distância que for preciso para que os contrários nos avistem, indo nosso exército assim disposto, ficarão amedrontados à vista de tão grande número, tomando tudo por combatentes. Se nos vierem invadir, como os avistamos de longe, não nos apanharão desprevenidos; mas eles nem tal empreenderão, quando lhes for preciso apartar-se muito das muralhas,, salvo no caso em que se julguem superiores em forças, por temerem a retirada.

    Todos que se achavam presentes apoiaram o discurso de Ciro, e Gobrias pôs em execução suas ordens. Tendo já o exército passado à vista da cidade, Ciro fortificava sempre a retaguarda. Continuaram a marchar por alguns dias, e chegaram às fronteiras dos sírios e medos, onde tivera princípio e expedição. De três castelos, que aqui havia, o mais fraco foi entrado à força; os outros dois se submeteram, aterrados pelo nome de Ciro e persuadidos pelas insinuações de Gadatas.

    Ciaxares vem ter com Ciro, para deliberarem a respeito da continuação da guerra

    Concluída esta empresa, Ciro despachou para Ciaxares um enviado, que lhe devia falar assim:
    - Vinde ao exército, para deliberarmos sobre o destino que se há de dar aos castelos que foram subjugados e para, à vista do estado do exército, consultarmos sobre ulteriores empresas. Se mandardes que eu vá assentar o acampamento junto de vós, vossas ordens de boa vontade guardarei.

    O enviado partiu. Ciro ordenou a Gadatas que ornasse com a maior magnificência o pavilhão do rei da Assíria, escolhido pelos medos para Ciaxares, trouxesse para o competente aposento dele as mulheres e com elas as músicas que foram escolhidas para Ciaxares. Assim se executou.

    O enviado desempenhou sua comissão. Ciaxares notou que era mais vantajoso que o exército acampasse na fronteira; porque o socorro que Ciro mandara pedir era chegado, de quarenta mil arqueiros e peltastas; e vendo que danificavam muito o território da Média, longe de admitir novas tropas, desejava desfazer-se daquelas. O general dos persas perguntara, como dizia a carta, se precisava daquele reforço, e, respondendo Ciaxares negativamente no mesmo dia, ouvindo dizer que Ciro se achava perto, foi encontrá-lo com seu exército.

    No dia seguinte partiu com os cavaleiros medos que ainda lhe restavam. Ciro assim que percebeu que ele se aproximava, lhe foi sair ao encontro com os cavaleiros persas, que eram já em grande número, com todos os medos, armênios e hircânios, e os outros aliados, bem montados e bem armados. Desta forma mostrava suas forças a Ciaxares. Ciaxares, ao avistar o grande e lustroso acompanhamento de Ciro, e olhando para a sua equipagem, e essa pouco luzida, teve isto por desonra, e ficou sensibilizado. Ciro apeou, e ia beijar a seu tio, segundo o costume; mas Ciaxares, que também se desmontara, voltou o rosto, e longe de receber o ósculo, debulhou-se em lágrimas.

    Ciro ordenou aos seus que fossem repousar, e, tomando Ciaxares pela destra, o conduziu para debaixo de uma palmeira, que havia fora da estrada, e mandando estender uma alcatifa da Média, o fez sentar: sentou-se ele ao seu lado, e lhe fez esta pergunta:
    - Meu tio, dizei-me, pelos deuses, por que vos agastais contra mim? Que vistes, que tanto vos enojou?
    - Ciro - respondeu Ciaxares - descendente, quanto pode alcançar a memória humana, de antigos reis, sendo rei meu pai e eu mesmo rei, me vejo com um acompanhamento vil e indigno, e vejo-vos acompanhado de súditos meus e outras tropas, ostentando todas as pompas da majestade. Este ultraje, recebido que fosse dos inimigos, seria penoso, quanto mais, por Júpiter, recebido de quem não era de esperar. Antes ser sepultado dez mil vezes debaixo da terra, do que ver-me neste estado de humilhação, sendo o alvo dos desprezes e ludibrio. Eu bem sei que não só vos mostrais superior a mim; mas até meus escravos, que me vêm encontrar, mostram-se mais dispostos a maltratar-me do que a receber de mim mau tratamento.

    Assim dizia, e as lágrimas lhe corriam em fio: os olhos de Ciro também pareciam arrasados de pranto; mas reprimindo-se um pouco, nestes termos falou:
    - Vossas expressões, Ciaxares, não se fundamentam na verdade e na razão, se vos persuadis que minha presença induz os medos a faltar-vos ao respeito. Eu não me admiro de vossa cólera e vossos receios. Sobre se vosso agastamento contra eles é justo ou injusto, nada direi; porque não ignoro que sofreríeis mal, ouvir-me justificá-los. Só avançarei que um chefe que se irrita contra todos os seus subordinados, comete um grande erro; e se a muitos intimida, muitos inimigos faz; e irritando-se contra todos, a todos sugere a idéia de formar algum conluio contra ele. Sabei que não vos mandei tropas sem mim, por temer que vossa cólera nos ocasionasse a todos algum desgosto, o que se evitará com minha presença. Enquanto a vos julgardes ultrajado por mim, muito a mal levo, que, trabalhando eu afanosamente por ser útil aos amigos, me exprobres que eu procedo de um modo contrário a estes princípios. Mas não nos acusemos a esmo; se é possível, vejamos clarissimamente qual é o ultraje de que me criminais; e eu vos faço uma proposta muito justa entre amigos: se se provar que eu vos prejudiquei, declarar-me-ei culpado; e se tal se não provar, nem ao menos o intento, não confessareis vós que não fostes por mim ultrajado?
    - É forçoso confessá-lo.
    - E se se provar que eu empenhei sempre todas as minhas forças em vosso serviço, não serei digno antes de louvor que de censura?
    - Isso é justo.
    - Vamos a considerar cada uma das minhas ações, para assim vermos exatamente o que nelas há de bom e de mau. Comecemos, se vos parece suficiente, no tempo em que me foi conferido o generalato. Ao serdes noticiado que enxames de inimigos iam invadir vossos domínios, enviastes uma embaixada à Pérsia pedindo socorro, e a mim em particular mandastes pedir que solicitasse o comando das tropas. Porventura não cedi a vossas instâncias, não me apresentei com um exército tão valente e tão numeroso quanto me foi possível?
    - É verdade.
    - Ora dizei-me, considerais esta maneira de agir como um ultraje ou como um serviço?
    - Naturalmente como um serviço.
    - Aproximaram-se os contrários, foi preciso combater. Acaso observastes que eu fugisse às fadigas ou evitasse os perigos?
    - Não, por Júpiter, não.
    - É nossa a vitória, fogem os inimigos, convido-vos a reunirmos as forças para no alcance lhes darmos o último golpe, e a colhermos em comum os frutos da vitória. Porventura tendes que repreender neste comportamento algumas vistas de interesse particular?

    Ciaxares ficou silencioso.

    Ciro continuou:
    - Visto que antes quereis ficar calado do que responder a isto, dizei se pensais que cometi um ultraje quando, não vos parecendo segura a perseguição, eu não quis que vos expusésseis ao perigo, e me contentei em vos mandar pedir alguns dos vossos cavaleiros? Se isto é ultraje, mormente sendo eu vosso antigo aliado, provai-mo.
    Como Ciaxares ficasse ainda calado, Ciro replicou:
    - Se ainda a esta pergunta não quereis responder, dizei-me ao menos se vos ultrajei quando, respondendo-me vós que não queríeis expor a risco os medos, que àquele tempo se entregavam à alegria, e não quis desafiar vossa cólera, vos pedi uma coisa muito fácil, a vós, de conceder, aos medos, de executar: pedi que deixásseis acompanharem-me os que quisessem. Apesar de vossa concessão, eu nada conseguiria sem força persuasiva. Fui ter com eles, convenci certo número e com eles parti com licença vossa. Se reputais isto crime, crime cometem todos que de vós recebem alguma dádiva. Partimos alfim. Desta época em diante bem conhecidos são nossos feitos. Não foi tomado o acampamento dos inimigos? Não morreram muitos dos que vinham invadir vossos territórios? Dos que sobreviveram, não ficaram muitos sem armas, muitos sem cavalos? Os tesouros dos que vinham antes pilhar vossas terras, os vedes agora nas mãos dos vossos aliados, que os levam, uns para vós, outros para si. Mas a principal ação é, como vedes, haverem-se alargado vossos domínios, e diminuído os dos adversários; as fortalezas destes virem para vosso poder, assim como as de que os sírios se haviam apoderado. Ora, não sei para que hei-de perguntar se estas ações são para vós boas ou más. Todavia não ponho dúvida em ouvir dizer o que pensais a respeito delas.

    Ciro pôs termo ao seu arrazoado, e Ciaxares principiou assim:
    - Ninguém poderá estigmatizar com o ferrete de maus os serviços que me prestastes, mas deveis saber que quanto mais eminentes parecem, mais me oprimem. Eu antes quereria com minhas forças alargar vossos domínios, do que ver os meus alargados por vós. Se esta ação vos enche de honra, a mim me cobre de ignomínia. Ser-me-ia mais jucundo oferecer-vos tesouros do que receber de vossas mãos os que me ofereceis; porque com aquilo com que me enriqueceis, eu sinto empobrecer-me; ser-me-ia menos doloroso ver meus súditos queixarem-se um pouco de vós, do que vê-los agora recebendo de vossas mãos grandes bens. Se esta maneira de raciocinar vos não parece lógica, ponde o caso em vós. Se alguém, afagando as cadelas, que têm crias para guarda de vossa casa, se fizer mais conhecido delas do que vós sois, porventura folgareis com este procedimento? Se este exemplo é pouco frisante, eis aqui outro: se alguém soubesse ganhar a afeição de vossos domésticos de sorte que eles lhe fossem mais afetos do que a vós, porventura agradecer-lhe-íeis este serviço? Outro exemplo tirado do que os homens mais estimam, e em que julgam ter uma posse mais positiva: se alguém acariciar vossa mulher de maneira que esta lhe seja mais inclinada do que a vós, porventura folgareis com este comportamento? Eu penso que nunca vos sentiríeis mais ultrajado. Enfim, vou apresentar-vos um caso idêntico. Se alguém captasse o amor de vossos persas, a ponto de antes quererem segui-lo do que a vós, porventura tê-los-íeis por amigo? Eu cuido que serieis contra ele mais infesto do que se tivesse morto muitos dos vossos. Mais. Se algum vosso amigo, dizendo-lhe vós por cortesia que tire o que quiser de vossos bens, tirar quanto puder, locupletando-se com o que é vosso, e deixando-vos apenas com uma fortuna medíocre, porventura não reputareis tal amigo digno de repreensão? Ciro, se vosso procedimento para comigo não é este, é ao menos muito semelhante. Dizeis vós, e é verdade, que declarando eu que podíeis levar convosco os que quisessem acompanhar-vos, partistes com todas as minhas tropas e me deixastes só: e agora me trazeis o esbulho que apanhastes com elas, com as quais também fizestes avançar minhas fronteiras. Ora eu, sem ter parte nestas empresas, pareço uma mulher, recebendo presentes dos estrangeiros e dos meus súditos. Vós tendes praticado ações de homem; eu pareço indigno de comandar. Ciro, estas coisas pensais que são serviços relevantes? Se vós me estimásseis, teríeis evitado fazer a menor brecha em minha honra e dignidade. Que me importa que tenham estendido minhas fronteiras, se isto é à custa de minha honra? Eu não tenho governado os medos, por ser efetivamente superior a eles, mas porque eles pensam que lhes somos em tudo inferiores.
    Ia Ciaxares continuar a falar, quando Ciro o interrompeu, dizendo:
    - Pelos deuses imortais, meu tio, se alguma ação pratiquei de vosso agrado, concedei-me a graça que vou pedir-vos: cessai de invectivar contra mim. Depois de terdes experimentado quais sejam meus sentimentos para convosco, se virdes que eles tendem a promover vossos interesses, abracemo-nos mutuamente e confessai que vos prestei serviços: se achardes o contrário, censurai-me então.
    - Dizeis bem; assim farei.
    - Permitis que vos oscule?
    - Se for vossa vontade.
    - Não voltais o rosto, como há pouco fizestes?
    - Não.
    E oscularam-se.
    Presenciando este ato, os medos, persas e os outros (que inquietamente esperavam o êxito desta altercação) deram demonstrações de alegria. Ciaxares e Ciro montaram a cavalo e partiram na frente; os medos seguiram Ciaxares, como Ciro lhes indicara; os persas seguiram Ciro; os outros foram na retaguarda.

    Depois que chegaram ao acampamento e recolheram Ciaxares no pavilhão que lhe fora destinado, mandaram preparar para ele o necessário; e os medos, aproveitando-se do tempo que decorreu antes da ceia, lhe trouxeram presentes, alguns por deliberação própria e a maior parte por sugestão de Ciro: um lhe oferecia um belo copeiro, outro um bom cozinheiro, este um padeiro, aquele um músico, qual lhe ofertava do que lhe coubera da presa. Já arrependido, Ciaxares reconheceu que Ciro não desviara os medos de seus deveres para com ele, e que os medos não o respeitavam menos que antes.

    Chegada a hora da ceia, Ciaxares, que via Ciro depois de longa ausência, convidou-o para cear com ele.
    - Dispensai-me de aceitar o convite - respondeu Ciro - não vedes que todos estes que estão presentes foram chamados por nós? Não é justo que aos meus deleites sacrifique o cuidado que deles devo ter. Quando os soldados conhecem que o general os trata com desprezo, os valentes tornam-se covardes, os covardes fazem-se insolentes. Vós ides já cear, porque tendes feito uma longa jornada. Dai mostras de afeição aos que vos forem aderentes e convidai-os para a ceia, a fim de que tenham confiança em vós. Eu vou cuidar do que disse. Amanhã pela manhã comparecerão à vossa porta todos os oficiais para deliberarmos sobre o que se deve fazer daqui em diante. Vós haveis de propor se se deve continuar a guerra ou licenciar as tropas.

    Enquanto ceava Ciaxares, Ciro convocou seus amigos, em quem reconhecia maior aptidão para deliberar e agir, e lhes falou neste teor:
    - Amigos, os deuses ouviram nossas primeiras súplicas. É nosso todo o terreno que havemos percorrido, os contrários estão diminuídos, os nossos soldados estão aumentados em número e valor. Se nossos aliados quiserem ficar conosco, poderemos perpetrar ainda grandes feitos, já à força das armas, já com a força de persuasão. Vós não tendes menos interesse do que eu em que a maior parte dos aliados se não separe de nós. Assim como em uma batalha o que faz prisioneiros é havido pelo mais intrépido, também o que arrasta maior número ao seu parecer é reputado o mais idôneo no agir e falar. Não é preciso empregar as regras de retórica nos discursos feitos a cada um em particular; mas falai de maneira que os atos de vossos ouvintes sejam o documento da persuasão. Preenchei esta missão. Eu vou tratar de fornecer mantimentos aos soldados, para depois se assentar se se deve ou não continuar a guerra. Ler mais...
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    Item Reviewed: Ciro confia a Araspas a guarda de Pantela - V Rating: 5 Reviewed By: Pbsena Sena

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